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quinta-feira, 16 de julho de 2015

SESSÃO LEITURA - E AÍ, CARA? - DOMINGOS PELLEGRINI

O texto abaixo é da autoria de Domingos Pellegrini.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa390086/domingos-pellegrini.
Boa leitura!

E AÍ, CARA?

O telefone toca, e é a voz do velho amigo que não vê há tempo.
– E aí, cara, sabe porque estou te ligando?
– Fiquei te devendo alguma coisa?
– Uma visita e uns dez abraços.
– Como assim?!
– É que você, na última vez que nos vimos, falou que ia me fazer uma visita e…
– Pois é, cara, mas sabe como é a vida…
– É por isso que estou te ligando. Pra gente se ver, em vez de ficar trocando abraço por email. Vamos abraçar ao vivo, em vez de só em velório de amigos.
– É verdade, vamos nos encontrar sem falta esta semana. Você ainda vai ao Bar do Tomio?
– Não, pra você não me encontrar no meu velório. O médico falou que, se eu continuasse com fritura e cerveja, podia encomendar jazigo.
– E eu só estou bebendo vinho tinto, uma taça no almoço, outra na janta.
– Eu deixo de tomar a do almoço pra tomar duas no jantar.
– Puxa, como não pensei nisso? A do almoço me dá um soninho bobo de tarde…
– E tomando duas na janta, cara, dá pra engolir melhor o noticiário. Só falta roubarem asilo, né?
– Por falar nisso, e tuas ações da Petrobrás?
– Não fala nisso, o médico falou que pode me dar úlcera. Mas lembro toda vez que abasteço o carro. Se arrependimento matasse…
– Nem mata nem faz bem. Toda vez que penso em quem votei me faz mal, e de que adianta?
– E o pior, cara, é que não adiantaria ter votado em outro. Desconfio que esse sistema que está aí é como carro tão sucateado que não aceita mais reforma.
– Vamos fazer o que? Vender o Brasil pro ferro-velho?
– Ou refundir, né. Assembleia nacional reconstituinte!
– Mas já tivemos quantas?
– Só que agora, formada apenas por gente que nunca tenha participado desses partidos que estão aí. Senão vai ser de novo confiar nas raposas pra reformar o galinheiro.
– Ih, o nenê acordou, é um netinho que está dormindo aqui. Então…
– A gente se vê!
– É, até!
A mulher chega quando ele está trocando fralda do nenê.
– Oi, meu bem, você estava falando com quem?
– Com um amigo sonhador.
– E ele sonha com que?
– Com refundir o Brasil. Já é tão difícil limpar um nenê, imagina limpar o Brasil!
– Mas, meu bem, já pensou se a gente não limpasse o nenê?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

SESSÃO LEITURA - GRAMADO, CANELA E CAFÉ - DOMINGOS PELLEGRINI

O texto abaixo é da autoria de Domingos Pellegrini.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa390086/domingos-pellegrini.
Boa leitura!

GRAMADO, CANELA E CAFÉ

“Lave as mãos antes de sair”: o aviso, num sanitário de Gramado, sintetiza a limpeza e a graça duma cidade que vive do turismo e vive o turismo.
Conta a lenda que tudo começou com as hortências, plantadas nos jardins, nas floreiras, nas varandas, nas encostas e até nas estradas, emoldurando uma cidade com cultura italialemã, compensando com cremes a friagem da serra, esquentando a alma com chocolates, enchendo os olhos com arquitetura, com comércio e serviços do melhor dos mundos. E com artesanato autêntico, quase – quase – sem meidinchina.
Uma dúzia de museus numa cidade de 35 mil mil almas! Com dois milhões e meio de turistas por ano, o turismo gera 90%  da renda da população. Sempre tem festivais e eventos, ou, como dizem, Gramado flore o ano inteiro. Você compra pão artesanal aqui, feito na hora diante de você. Ali toma um fondue caprichado como que. Aqui, acoli e acolá se come em restaurantes charmosos, passeia-se em parques que parecem tirados da Europa, as ruas são animadas de dia e agitadas à noitinha.
A vizinha Canela é irmã gêmea de Gramado, também com talvez mais arquitetura alpina que muitas cidades dos Alpes. O comércio é fino, da decoração ao atendimento, e as ruas são  bem cuidadas, as praças bonitas, os sanitários públicos  limpinhos, e em cada esquina belos bancos de madeira esperam por conversas.
Então volto a Londrina e vou ao recém inaugurado Museu do Café, que beleza!  Quantos objetos e utensílios a cafeicultura gerou! E, no Cine Café do museu, que belos documentários sobre o ouro-verde! Que depoimentos emocionantes de quem viveu do café, mais que uma cultura, uma paixão! O bazar é uma beleza, com tantas lembranças artesanais para a gente levar, cafeteiras, louças, bules, coadores de pano como o que coa café na hora ali no Bar Rubiácea.
Mas o melhor é sentir no ar o cheirinho de café torrado na hora, em torradeira manual sobre braseiro, depois moído em moinho manual, os turistas fazem fila para cada um girar um pouco a manivela. E quantas geléias e doces e licores de café, além das cervejas com gosto de café, sorvetes e até chicletes de café!
Depois saímos do Museu e já embarcamos em ônibus direto para uma fazenda histórica da cafeicultura, com sua sede reformada e decorada tematicamente, as casas da colônia transformadas em chalés para pernoite, e, no terreiro onde se secava café, agora dançam catira e cateretê, entre barracas de artesanato e comidas típicas do colonato. Porco frigindo no tacho, pão saindo do forno de barro, doces de abóbora e goiaba borbulhando noutros tachos, e, quando sobe a lua, começa a Folia de Reis.
Lá pelas tantas bate bumbo, vai começar o batuque, então acordo, estava sonhando no avião de volta para casa. A comissária (era tão melhor quando eram chamadas de aeromoças!) oferece bebidas, diz que o café está bom, peço só água.
– Sou de Londrina, café me dá muita lembrança.

Fonte: http://www.jornaldelondrina.com.br/blogs/domingos-pellegrini/gramado-canela-e-cafe/.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SESSÃO LEITURA - SOBRE O PROFESSOR DE HISTÓRIA - DOMINGOS PELLEGRINI

A crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de Domingos Pellegrini.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.record.com.br/autor_sobre.asp?id_autor=2599.
Boa leitura!

SOBRE O PROFESSOR DE HISTÓRIA

O professor de História, no seu primeiro dia de aula, entra e os alunos nem percebem, conversando, falando ou jogando no celular. Ele escreve na velha lousa um imenso H, e depois vai desenhando cabeças com bigodes e barbas, enxada, foice. A turma foi prestando atenção, trocando risinhos, e agora espera curiosa. Finalmente ele fala:
– Não vamos estudar aquela História com H, só com heróis e grandes eventos! Vamos estudar a partir da nossa história, daonde e como viemos. Por exemplo, como é seu sobrenome?
– Oliveira.
– Pois é, muitos Oliveiras têm esse nome porque eram imigrantes europeus, fugidos de perseguições religiosas, então adotavam nomes de árvores ou plantas, Oliveira, Pereira, Trigueiro e tantos outros. E o seu sobrenome?
– Santos.
– Foi o nome adotado por muitos ex-escravos ou filhos mestiços de fazendeiros com escravas. Você é, como diz o IBGE, pardo, o que não é vergonha nem demérito algum, ao contrário, a maioria do povo brasileiro é pardo. E o seu sobrenome?
– Vicentini.
– Origem italiana. Os italianos, como os espanhóis, alemães, japoneses, vieram para cá para bater enxada, trabalhar nos cafezais quando os escravos foram libertados.
O engraçadinho da turma levanta o braço:
– Meu sobrenome é Silva, professor. Tem mais Silva na lista telefônica que formiga em formigueiro. Daonde eu vim?
– Da selva. Silva é selva, em latim. Foi o nome dado pelos romanos antigos aos que vinham das florestas para morar na cidade, eram os “da selva”. Se a gente pensar que a maioria das pessoas morava no campo há meio século, e depois se mudou em massa para as cidades, a origem do nome até se justifica.
A turma espera em silêncio: aonde ele quer chegar?
– Proponho o seguinte. Vocês conversem com seus pais, avós, tios, para saber dos antepassados. Da onde vieram, por que, trabalharam e viveram onde e como. Cada um contará então a história de sua família, e daí vamos situar essa história familiar na história social. Vamos falar da cafeicultura, por exemplo, depois que alguém falar que seu avô trabalhou com café.
Uma mocinha levanta a mão:
– Não só meu avô, professor, minha avó conta que também trabalhava. Levantava às cinco, fazia café, dava de mamar ao nenê, porque ela diz que sempre tinha um nenê no ombro, outro na barriga e uma criança na barra da saia. Depois de fazer o café e tratar das galinhas, recolher os ovos, tirar leite das vacas e cuidar da horta, ela ia levar marmita pro meu avô e os filhos maiores no cafezal, e ficava lá também batendo enxada até o meio da tarde, quando voltava pra preparar e janta e…
– Bem, só com isso que você contou podemos estudar a cafeicultura e o feminismo, comparando as famílias daquele tempo e de hoje, tantas mudanças. Cada um de vocês, com sua história, vai acender o fogo do conhecimento em cada aula. Eu só vou botar lenha, dar as informações, vocês vão dar vida à História, que aí, sim, vai merecer H maiúsculo! Combinado?
Os alunos aplaudem, entusiasmados, comentam: nossa, massa, uau, professor maneiro!… Saem, e depois ele, saindo, dá com o diretor nervoso:
– Eu ouvi sua aula, professor, aqui ao lado da porta, como faço com todo novato! O senhor tire essas ideias da cabeça, viu? Vai ensinar conforme o programa, começando pelo descobrimento, as três caravelas, a calmaria etc. Entendido? Ora, onde já se viu, História viva… Só por cima do meu cadáver!
O professor novato vai pelo corredor, sentindo-se morrer por dentro. Na sala dos professores, nas paredes estão Tiradentes e o crucifixo de Jesus, dois mártires. Ele chora, perguntam por que, apenas consegue dizer “não é nada, é uma longa História”.

Fonte: http://ativandoneuronios.com/2012/04/16/sobre-o-professor-de-historia-cronica-de-domingos-pellegrini/.