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quinta-feira, 11 de junho de 2015

SESSÃO ABERTURA DE NOVELA - PAI HERÓI

A novela Pai Herói foi apresentada pela Rede Globo no horário das 20h de 29 de janeiro a 18 de agosto de 1979.
O tema musical de abertura era Pai Herói, interpretado por Fábio Júnior.
Para saber mais sobre a novela, favor acessar: http://www.teledramaturgia.com.br/pai-heroi/.
Boa diversão!



LETRA

PAI HERÓI

Pai
Pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez

Pai
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses vinte ou trinta
Longos anos em busca de paz...

Pai
Pode crer
Eu tô bem eu vou indo
Tô tentando vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer...

Pai
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você

Pai
Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver

Pai
Me perdoa essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos teus braços você fez segredo
Nos teus passos você foi mais eu

Pai
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar

Pai
Você foi meu herói meu bandido
Hoje é mais muito mais que um amigo
Nem você nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz

Fonte: http://www.vagalume.com.br/fabio-jr/pai.html#ixzz3c2Zdi7vs

segunda-feira, 9 de maio de 2011

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - PAI HERÓI

A novela Pai Herói foi apresentada pela Rede Globo de Televisão no horário das 20 horas, entre 29 de janeiro e 18 de agosto de 1979.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: http://www.teledramaturgia.com.br/tele/pai.asp.
A reportagem que reproduzimos abaixo foi publicada na revista Fatos e Fotos - Gente.
Nossos agradecimentos ao amigo Césio Vital Gaudereto pela remessa do material.
Boa leitura!





quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PAI HERÓI - CAPÍTULO XI (CAPÍTULO FINAL)


Nuno telefonou para César e marcaram um encontro no aparta­mento deste. Assim que entrou, Nuno afivelou uma máscara trágica, de quase choro, dizendo:
- Não vou nada bem, dr. César. Nada bem.
- Como assim? O que foi que houve?
- Minha filha... Clarinha... saiu de casa. O mundo todo... se voltou contra mim.
- Mas por quê?
- Aquele mesmo motivo. A garota descobriu tudo. Estou perdido. E só você, César, só você pode me udar neste momento incrível da minha vida.
- Ajudar como? - exclamou César. - Se eu mesmo estou precisando de ajuda, mais do que um cego perdido na avenida Copacabana, na hora do rush.
- Aquele caso... teve péssimas conseqüências.
- Péssimas, é apelido. Terríveis conseqüências... terríveis, meu amigo. Estou sustentando a família do Osório. O vagabundo montou nas minhas costas. Está me pressionando. Quer cinco mil pratas pra terminar a casa que eu mesmo comprei pra eles, mas que eles acharam pequena, veja só. Ora, mas você já está farto de saber disso. Tive de colocar esse apartamento à venda. E ele nem é meu. É de minha mãe. Mas vou vender. Se não der o dinheiro pro sujeito, ele me entrega.
- Pois eu quero fazer um trato com você. Eu perdôo tudo o que me deve, pago o homem pra você e ainda lhe dou mais, o que você precisar, pra você me ajudar.
- O que quer que eu faça? - perguntou César, desconfiado.
- Quero que você declare a minha filha que eu sou inocente, que a culpa de tudo é sua, que eu não tenho nada a ver com o caso da mulher do André.
- Pra ela me entregar à polícia?! Ora, então você acha que eu sou otário?! - exclamou César, irritado.
- Uma criança não vai fazer isso. É uma coisa particular, só entre nós. Eu lhe dou dez milhões...
- Você me acha com cara de paspalho? Então eu lá vou...
- Vinte! Vinte milhões de cruzeiros!
- Acho que você está querendo me entregar à...
- Trinta... trinta milhões de cruzeiros e negócio fechado.
- Trinta?! Trinta milhões, você disse?! - espantou-se César. - Trinta milhões pra eu dizer pra sua filha... só pra ela, pra mais ninguém? Puxa vida, assim você me tenta! Com esse dinheiro, posso sumir daqui. Posso sair do Brasil e começar tudo de novo!
- É, pode... pode - concordou Nuno, certo de que ele estava prestes a morder a isca.
- Bom, eu quero trinta e cinco milhões. Os cinco do sujeito você dá por sua conta. Me dê os trinta milhões, limpos.
Nuno fez uma pausa, como se estivesse preocupado, valorizando a situação:
- Deixa eu pensar... Bene... Va bene. Eu dou os cinco milhões pro sujeito. Posso até fazer o seguinte: você me dá o endereço, eu mesmo mando o dinheiro pra ele e você não precisa se preocupar com isso.
- Está... está bem.
Nuno exultou. Em seguida, marcaram o lugar onde César deveria se encontrar com Clarinha (o escritório de Baldaracci) para conversarem à vontade. Depois Nuno foi embora, com a alma limpa, e César ficou, também de alma limpa, julgando estar a ponto de se livrar de todos os seus problemas.

Ilustrativa conversa entre a pureza e a podridão

O que César não podia adivinhar era que Nuno tinha preparado verdadeira parafernália de fios, microfones e gravador, capaz de registrar tudo o que ele e Clarinha dissessem. Assim, satisfeitíssimo ao receber o dinheiro (ele fizera a exigência de receber a quantia antes), e sem desconfiar de coisa alguma, César se deixou levar ao escritório de Nuno e lá ficou, a sós, com Clarinha. A garota foi logo dizendo:
- Dr. César, não adianta mentir pra mim, porque eu estou sabendo de tudo. Sei que foi o senhor que mandou o Titan matar a mulher do André. Só quero é saber se meu pai tem culpa ou não nessa transa toda.
- Seu pai? O Baldaracci? - exclamou ele, fingindo espanto. ­ Mas seu pai não tem nada a ver com isso, minha filha.
- O senhor jura... jura mesmo... que fez tudo sozinho?
- Olha, eu assumo toda a responsabilidade. Mas quero saber se você, garota, não vai me encrencar com a polícia.
- Eu não vou fazer nada disso. Eu só quero saber direitinho essa história toda. É verdade que o senhor desviou uma carta da Carina pro André e que foi por essa carta que o senhor soube onde ela estava?
- É, é verdade.
- E foi o senhor que contratou o Titan pra matar dona Carina e disse pra ele jogar a culpa no André?
- Foi, foi, menina. Fica meio chato eu me lembrar disso, agora. Olha, eu me arrependi, viu? Naquela época, estava fora de mim. Agora, eu só quero sossego.
- E essa história toda do corpo daquela mulher. Que apareceu lá na praia...
César a interrompeu:
- Garotinha, você ia ser uma ótima detetive, sabia? Eu estou aqui só pra defender seu pai, dizer toda a verdade... porque ele foi legal comigo e eu não quero que você fique pensando que ele teve alguma culpa. Acho que já disse tudo, tá? Já não chega pra você não ficar revoltada contra seu pai? Hein? Agora me dá uma folga e me promete que não vai sair daqui dizendo bobagens.
- Não, não senhor. Eu não vou fazer nada disso.
Ele ameaçou:
- Se não, já sabe. Se contar pro André, ou pra suas amiguinhas, ou pra quem quer que seja, eu enrolo seu pai também, com toda a santidade dele. E então vai ser um escândalo dos demônios. Promete?
- Prometo. Prometo, sim senhor. Eu não vou fazer nada disso. Mas o senhor devia...
Ele a interrompeu novamente:
- Olha, chega. Não se mete, tá? Teu pai é um santo e eu sou causador de tudo. Agora me deixa em paz, garotinha.

Réquiem para César

A partir desse momento, as coisas se precipitaram. Nuno fez com que a gravação chegasse às mãos do delegado; Osório, pressionado, confessou; César foi chamado à polícia e colocado frente a frente com Osório. Tentou negar, claro, tentou alternativas e acusações, mas, quando lhe foi apresentada a fita, desmoronou.
Sem saída, reconhecendo-se perdido, num gesto de acanalhada autoproteção, envolveu todos os que podia; Nuno e Walkíria principalmente. Nuno, matreiro e escolado, defendeu-se. Mas Walkíria ficou inteiramente indefesa. Só que, demente, a ela não cabia outra punição que ser internada, para tratamento psiquiátrico.
Agora, conhecida a verdade, André recebeu por parte de todos reconhecimento de sua inocência. Mas se, por um lado, aquilo valia como reparação, por outro tinha o gosto de amarga vitória. A perspectiva de que César seria simplesmente preso era pouco para André, ínfimo castigo para quem causara tanto mal por tão longo tempo. Assim, revoltado, ele foi ao apartamento de César.
- Preciso falar com você - disse, entrando, enquanto César retrucava, trêmulo:
- Olha aqui... briga, não. Eu estou doente. Sozinho aqui. Muito doente.
- Então você... você teve a coragem de mandar matar Carina e meu filho, hein?
- Não tenho nada a dizer sobre isso. Tudo que devia dizer já relatei à polícia. Além disso, eu... eu não tive toda a culpa.
- É isso que eu vim saber. Baldaracci te ajudou mesmo?
- Ele fez tudo. Eu não queria, te juro. Ele arranjou o homem. Eu nem sabia quem era Titan. Eles me deram o nome de Vidal.
- Mas Baldaracci nega. Tem negado em todos os depoimentos. E você, não satisfeito, encontrou um cadáver pra me jogar no inferno duma vez. Não havendo crime sem cadáver, você descobriu um. E deixou que tudo acontecesse contra mim. Me deixou ir a julgamento!
- Escuta aqui... eu fiz, tá certo, fiz mal, perdi a cabeça. Mas foi Carina que me deixou nesse estado, André. Deixa eu te falar. Escuta apenas. Eu não gostava dela, no início. Mas fui bom pra ela, dei até meu nome pra filha dela, fiz tudo o que um homem pode fazer por uma mulher. Depois, amei Carina e me dediquei a ela. Aí ela começou a me esnobar, ela não me quis mais. Tem mulheres assim, que só querem um homem quando não têm ele nas mãos. Quando têm, não querem mais. Carina é assim. Ela não gostava de mim, jamais gostou. Casou comigo por capricho, porque eu me chamava César, como o primeiro homem da vida dela. O cara morreu e ela cismou comigo. Tanto, mas tanto que a família arrumou o casamento. Bom, só pra encerrar, André, ela me chutou, chutou direitinho, como manda o figurino, como uma grã-fininha besta chuta um cãozinho de estimação. Foi assim que eu me senti, André. Ela acabou comigo. Ela não me deu valor. Aí, perdi a cabeça. Não tinha nada contra você, tinha contra ela. Claro, você levou as sobras. Mas André, preste atenção, porque essa mulher vai também te enrolar, como me enrolou. Ela só vive lá pros balés dela, pro meio dela. Ela não gosta de ninguém. O meio dela absorvia todo o seu tempo. Eu te juro, eu me sentia mesmo um cachorrinho vira-lata... nem cachorro de estimação, André. Ponha isso na sua cabeça. Ela vai fazer também de você um cachorrinho de estimação. Garanto que já está chutando você pra escanteio. Espera que você vai ver ela fazer de você um terceiro César. Tem mulher pra tudo, André.
André gritou, revoltado:
- Cala a boca!
Pegou-o pela gola, sacudiu-o:
- Eu não admito que você fale mal da Carina, seu cachorro! Nesse momento, o dr. Soares, o advogado de André, entrou, separou os dois, levou André embora dali.
Ficaram apenas as palavras de César, o mau agouro que elas suscitavam. Mau agouro, aliás, que logo se concretizou. André se deu conta de lidar com uma Carina carinhosa, sim, mas sempre afastada dele por compromissos, amigos, trabalho, uma sarabanda, enfim, que servia apenas para separá-los mais e mais. Compreendendo que permanecer ali e deixar-se envolver seria pior, foi para Paço Alegre, levando o filho. De certa maneira, André via a cidade grande com um mistério que jamais saberia desvendar. Sentia-se deslocado nela, não a entendia, sentia-se repelido, em vez de absorvido. O contrário disso o tornava no interior; o contato com a terra, a natureza, as coisas puras faziam-no sentir-se realizado, feliz. E queria que o filho também assimilasse tudo aquilo e com ele compartilhasse aquela espécie de realização. Quanto a Carina, cosmopolita acima de tudo, julgava-a incapaz de entender seu mundo, a maneira de encarar as coisas, vivê-las. Por isso, estava mesmo disposto a abrir mão dela. As palavras de César ironicamente pareciam concretizar­se; André e Carina se encarregavam de realizá-las, quando tinham tudo para viver o contrário, o amor bastando-lhes, árvore e fruto que deveriam apenas haurir.
Quanto a César, além da prisão, estava também ameaçado pelas forças que desencadeara; forças estas que estavam prontas para varrê-lo com rudeza idêntica àquela com que ele as manuseara, no passado. Afinal, o que poderia esperar do sinistro Baldaracci, da demente Walkíria, do revoltado André? Que um deles o exterminasse. E foi exatamente isso o que aconteceu. César foi encontrado abatido a tiros em seu apartamento, encerrando desta maneira um castigo que ele, mesmo não o desejando, tinha buscado durante todo aquele tempo, manuseando uma maldade que, no final, tinha se voltado contra ele.
Mas, afinal, quem seria o culpado por sua morte? A polícia não chegou a nenhuma conclusão, pois o assassino entrara e saíra do prédio sem ser visto pelo porteiro ou por qualquer outro morador.
Aconteceu apenas que, semanas depois, antes de Walkíria ir para o sanatório, Hilário achou em sua bolsa um revólver. Perguntou­lhe o que pretendia fazer com ele (ou o que fizera), mas ela limitou­se a dar respostas desencontradas, ininteligíveis. Colocou-se, assim, uma pedra sobre a morte de César, o anonimato encobrindo seu desaparecimento, assim como a maldade lhe cobrira a existência.

Arremate digno de um Baldaracci

Nuno, cumprindo sua palavra com a entrega de César, exigiu que Ana Preta também cumprisse a sua. Exigiu mais ainda: agora viúvo, queria que ela se casasse com ele, colocando um ponto final em sua agonia de homem só e ao mesmo tempo satisfazendo sua grande paixão por ela.
Ana Preta, aturdida pela renúncia ao amor de André, deixava-se levar, presa ao cumprimento da promessa a Nuno. Ocorre que, se ela agia assim, o mesmo não acontecia com seu Garcia. Acérrimo inimigo de Nuno, o pai de Ana Preta jamais poderia aceitar o casamento da filha com ele, embora soubesse da palavra empenhada entre eles. Mas aquilo pouco lhe importava. Sua maior preocupação era afastar os dois. Mas, como? Só havia um meio: fazer com que Deocleciano, o pistoleiro de Baldaracci, fosse preso. Isso desmantelaria a rede de mentiras e subterfúgios sobre a qual Nuno se apoiava. Mas, como conseguir isso? Neste caso, só havia um caminho: agir através de Coxo, outro inimigo de Baldaracci, que conhecia o paradeiro do pistoleiro, e que deu as pistas para.a polícia chegar até ele.
E foi isso que seu Garcia fez. Um belo dia, em pleno baile de carnaval, Baldaracci se esbaldava no clube, vestido de Pierrô. Rafael, com ar preocupado, se aproximou, e o puxou para um canto.
- Você tem de sair daqui imediatamente - disse ele. - Prenderam Deocleciano. Se você não quer ser preso também, tem de fugir, deixar a cidade.
Nuno se assustou:
- Deus do céu! Como é que foi isso? Deocleciano! Aquela brutta bestia! Como se deixou prender?
- Esse é um assunto que não adianta discutir agora. Já tomei todas as providências pra você escapar. Se quiser. A não ser que prefira ficar e se entregar à polícia.
- Me entregar?! Está louco?
- Então venha comigo. Tem um helicóptero a sua espera.
- Helicóptero? Por que helicóptero?
- Pra te levar até o lugar onde há um jato particular que eu aluguei. Esse jato vai te levar pra fora do país.
- Mas neste caso tenho de ir em casa trocar de roupa. Não posso ir assim, vestido de Pierrô.
- Nuno, entenda. A polícia deve estar vindo pra cá. Não há tempo pra nada. Você tem de ir assim. No avião você troca de roupa. Já providenciei sua bagagem. Ela estará no avião.
Félix, um dos guarda-costas de Nuno, se aproximou:
- A polícia está chegando!
- Vamos pelos fundos - disse Rafael, saindo com o irmão, seguidos por Félix.
Tomaram o carro, foram para onde o helicóptero estava estacionado; daí a pouco Nuno embarcava nele, colorido Pierrô partindo nas asas da impunidade.
E Ana Preta? Destaque da Beija-Flor de Nilópolis, ela desfilava naquele momento, tentando, no samba, desabafar suas mágoas. Tinha, porém, uma grande esperança no coração. Conhecera, dias antes, um rapaz chamado Raul. À semelhança de André, também viera do interior, era pobre e necessitava de carinho e amparo. E talvez fosse ele a marcar o elo que a ligaria novamente à felicidade, uma felicidade que ela, como poucos, merecia.

O happy end, afinal

Carina, inconformada com a partida de André, e imaginando que ele tivesse ido não para a fazenda em Paço Alegre, mas para a casa de Ana Preta, voltando para ela, foi vê-la. Como ele não estava lá, desmoronou, passou mal. Ana lhe deu água com açúcar, fê-la descansar, perguntou:
- Está melhor?
- Estou, obrigada. Não consigo mais ter raiva de você. Estou resignada. Eu perdi pra você.
- Não estou competindo, não sou cavalo de corrida. Nem você.
A gente não está disputando coisa alguma. André não pode ser encarado assim, como um joguete nas mãos de duas mulheres. A gente não pensou se ele quer eu ou você. Talvez não queira nenhuma das duas.
- Ele quer você - disse Carina.
- Ele ama você - falou Ana. - Ama de verdade, mas é a mim que ele procura.
- Não posso entender isso.
- Ele, na verdade, queria que você fosse como eu.
- Como?
- Mais... como é que eu posso dizer? Mais gente, parecida com ele. Você gosta dele, eu sei, mas se coloca numa posição alta demais. Como é que se diz? Ina... inatingível... Um dia, ele mesmo me falou: "Meu mal é que eu amo Carina mas queria que ela fosse um pouco Ana Preta". É que comigo ele se sente verdadeiro, igual, sem máscara. Comigo, ele não tem de fingir pra receber os amigos, porque a gente é tudo gente paca, gente igual a ele, não tem pose. Deu pra entender?
- Então, pra eu ter André, totalmente, eu teria de me modificar? Ser um pouco... Ana Preta?
- Ser você mesma... porém mais humana - disse Ana.
- Isso quer dizer que pra ter um homem é preciso ceder em tudo que ele quer?
- Não em tudo. A mulher sabida sempre dá um jeitinho. A gente tem de saber maneirar eles. Ceder também, mas ser mulher submissa, nunca. Um jeitinho pra cá, um jeitinho pra lá... Homem é bicho vaidoso. Mulher é mais esperta. A gente leva eles no bico, quando quer. Claro que se você faz com um homem o que faz com André, esnobando ele, chutando ele pra escanteio, fazendo dele gato­sapato... aí também não.
Carina, pensativa, ficou impressionada com a verdade contida nas palavras de Ana; pela primeira vez compreendeu o motivo pelo qual André tanto a estimava e pela primeira vez também compreendeu o novo sentido que poderia dar a sua vida e à de André. Reconheceu­se rica demais, mimada demais, sempre vendo seus menores desejos satisfeitos, em detrimento, talvez, de algo maior, amesquinhando quem se lhe opusesse, os desejos alheios. Nem o que passara quando permanecera desaparecida, nem o sofrimento que vira e que fora obrigada a enfrentar, eram ainda fortes o suficiente para abrir­lhe os olhos. Agora, porém, a lição de Ana Preta, sua rudeza aparente revelavam-lhe segredos, algo que poderia e queria atingir. Sim, ela aprenderia, mesmo que o aprendizado lhe fosse espinhoso, porque viver ao lado de André era o que mais desejava e não seria difícil conciliar suas existências, desde que o amor não fenecesse. E isso ela não estava disposta a permitir.
Conhecidos seus problemas, tomada a decisão de lutar, só faltava a Carina ir ao encontro de André, revelar-lhe aquelas coisas, sua nova disposição, na certeza de que agora, realmente juntos, o futuro lhes seria favorável.
Embarcou então para a fazenda, em Paço Alegre, e lá reencontrou­se com André. Aquele reencontro marcou também o reinício do entendimento que os levaria, afinal, à felicidade.

ABERTURA DA NOVELA



FICHA TÉCNICA

PAI HERÓI

Autora: Janete Clair
Diretor: Gonzaga Blota

ELENCO

Tony Ramos - André Cajarana
Paulo.Autran - Nuno Baldaracci
Glória Menezes - Ana Preta
Lélia Abramo - Januária Limeira Brandão
Elizabeth Savalla - Carina Limeira Brandão
Carlos Zara - César Reis
Maria Fernanda - Gilda Baldaracci
Rejane Marques - Clara Baldaracci
Jorge Fernando - Cirilo Baldaracci
Fernando Eiras - Romão Baldaracci
Jonas Bloch - Rafael Baldaracci
Maria Helena Dias - Filhinha
Rogério Bacelar – Gil
Flávio Migliaccio - Genesio Pereira
Dionísio Azevedo - Nestor Garcia
Nildo Parente - Haroldo Brandão
Osmar Prado - Pepo
Sônia Regina - Jenny Garcia
Rosamaria Murtinho - Walkiria Brandão
Reinaldo Gonzaga - Hilário Brandão
Suzana Faini - Jussara Brandão
Thimóteo da Costa – Curió
Emiliano Queiroz - Horácio Brandão
Ivan Cândido - Reginaldo Brandão
Beatriz Segall - Norah Limeira Brandão
Yara Lins - Irene Brandão
Carlos Kroeber - Dr. Tiago


CENAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO



A AUTORA



Mineira, nascida em Conquista, Janete Emmer Dias Gomes, ou a inesquecível JANETE CLAIR, iniciou sua carreira em 1946, corno locutora e radioatriz na Rádio Tupi Difusora de São Paulo. Ao se casar com o escritor e dramaturgo Dias Gomes, Janete mudou-se para o Rio de Janeiro, e foi lá que, em 1956, escreveu para a Rádio Nacional sua primeira novela radiofônica: Perdão, Meu Filho. Depois de dez anos inteiramente dedicados ao rádio, Janete foi levada, por Fábio Sabag, à TV Tupi do Rio: a novela O Acusador, protagonizada por Jardel Filho, marcou sua estréia nessa rede. Foi um início tão notável que, em 1967, o caminho estava aberto para a TV Globo.
No final da década de 60, os melodramas importados já não tinham mais a mesma aceitação e, por esse motivo, histórias tipicamente brasileiras passaram a surgir no vídeo. Como Véu de Noiva, novela que lançou Regina Duarte (a "namoradinha do Brasil") na TV Globo e, ao mesmo tempo, reforçou o prestígio de Janete Clair.
"Escrevo sobre aquilo que conheço: a classe média", afirmava a autora. "E tenho o cuidado de fazê-lo ao gosto bem popular, não escondendo os problemas, mas tratando-os com mão leve. A idéia é tornar a vida e os conflitos humanos bem acessíveis a todos, fazendo com que os personagens vivam, e não apenas conversem sobre seus dramas."
Essa era a receita infalível de Janete, uma autora que, com seu jeito próprio de contar histórias, sempre bateu recordes de audiência. Um exemplo vivo disso foi Pai Herói: em certos capítulos, registrou-se um índice de 98% de televisores ligados em todo o país.
Outras novelas de destaque: Sangue e Areia (1968); Paço dos Ventos (1968); Rosa Rebelde (1969); Irmãos Coragem (1970); O Homem que Deve Morrer (1971); Selva de Pedra (1972); O Semi-Deus (1973); Fogo sobre Terra (1974); Bravo (1975); Pecado Capital (1976); Duas Vidas (1977); O Astro (1978); Coração Alado (1980); Sétimo Sentido (1982); Eu Prometo (1983) - terminada por Dias Gomes, devido ao desaparecimento de Janete, em 16 de novembro de 1983.

DEDICATÓRIA ESPECIAL

QUERO DEDICAR O ÚLTIMO CAPÍTULO E TODA A NOVELA À KELY, QUE ME AJUDOU DANDO INDICAÇÕES E QUE ACOMPANHOU COM ATENÇÃO A HISTÓRIA.
KELY, OBRIGADO POR TUDO, MANA, UM GRANDE BEIJO E QUE DEUS ILUMINE MUITO A TUA VIDA!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

TÚNEL DO TEMPO MUSICAL - PAI HERÓI - FÁBIO JÚNIOR

A música Pai Herói, interpretada por Fábio Júnior, foi tema de abertura da novela de mesmo nome, apresentada em fins da década de 70, na Rede Globo, no horário das 20 h.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/pai.asp.
O vídeo que apresentamos em seguida traz, além da música-tema, uma apresentação do elenco da novela.
Boa diversão!



QUEREMOS AGRADECER NOVAMENTE À BISCOITINHA KELY POR ESSA RECOMENDAÇÃO.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

SESSÃO RETRÔ - PAI HERÓI

A reportagem que reproduzimos abaixo foi publicada no número 315 da revista Ilusão de 08 de abril de 1979.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/pai.asp.
Boa leitura!





quarta-feira, 27 de outubro de 2010

PAI HERÓI - CAPÍTULO X


Cirilo e Romão, aliviados pelo fato de o pai, na verdade, não po­der ser responsabilizado pela morte de Carina, procuraram André para lhe levar a notícia de que ela estava viva. André reagiu como se tivesse recebido um choque. Abaixou a cabeça, os olhos cheios d'água. Romão o abraçou, brincando:
- Ei, o que é isso, rapaz? Levanta a cabeça. Reage!
- Como... como é que pode? É certeza? - balbuciou André.
- Absoluta! - confirmou Cirilo.
- Como souberam? Romão, você disse que seu tio Rafael ligou pro dr. Horácio. Por quê?
- Porque o César falou com meu pai que ela voltou. Foi ontem de noite. Hoje de manhã o velho falou com a gente e tio Rafael ligou pro dr. Horácio.
- Ela... ela está lá, na casa dela?
- Isso a gente não sabe, André - falou Romão.
André reagiu:
- Então... ela está viva... e me deixou passar por tudo o que eu passei... e só apareceu agora?!
- É... é duro agüentar isso. Mas dê graças a Deus que ela está legal - disse Romão.
- Lógico. Dou graças a Deus por ela não ter morrido, mas não posso dar graças a Deus por eu ter sido quase crucificado por culpa dela. Como é que pode entrar na cabeça de alguém que uma mulher deixa um homem ser acusado de sua morte, ser levado a um tribunal, ser quase condenado e essa mulher não ter tido um gesto, uma palavra para defender esse homem?!
- Acha que é hora de pensar nisso, cara? - perguntou Romão, tentando desviar os pensamentos de André.
Mas ele insistiu:
- É. É hora porque é uma coisa que não me sai da cabeça. Carina deve estar morta, porque, se estivesse viva, ela apareceria pra me ajudar. E não me ajudou. E aparece só agora, depois do julgamento.
- Mas você está livre, cara. Deixa de onda. Levanta as mãos pro céu por tudo ter terminado bem - disse Cirilo.
- Tudo ainda não terminou e não está nada bem. Essa mulher tem de me pagar o tempo que eu fiquei preso, acusado de ter matado ela, gente. Entendam! Não foram vocês que perderam um ano de vida, preso, agüentando a acusação de ser um assassino.
- Eu compreendo, André - disse Romão. - Mas você tem de se colocar no lugar dela e pensar que ela deve ter tido motivos muito graves para agir assim.
- Motivo grave pra deixar um homem ser acusado de criminoso?! Ser preso e quase condenado por uma culpa que não existe?! Isso é terrível, meu irmão. É a pior coisa que pode acontecer com um homem. E agora... agora eu tenho de saber de tudo.
- O que pretende fazer? - perguntou Romão.
- Vou até a casa dela.
- Então eu vou com você.
Aquilo de nada adiantou, contudo. Carina ainda não tinha chegado de Itaipava, o que só iria acontecer no dia seguinte. De manhã bem cedo André ligou para ela. Carina não quis atender. E também não deixou que lhe dessem notícias do filho. Se André estava revoltado com ela, coisa idêntica ocorria com Carina, por causa de Ana Preta; nova comédia de erros erigia-se entre os dois. O mais engraçado é que continuavam a se amar e talvez exatamente a força desse amor fosse responsável por tão estranho e incompreensível afastamento.
Mas se Carina era turrona, André também era. E com a vantagem de não ter, diferentemente dela, nenhum medo de lutar para conseguir o que queria. Estava mesmo disposto a enfrentar a opinião pública, outro escândalo, enfim, qualquer coisa para ver o filho, tê-lo a seu lado. Claro, ela não impediu que ele o visse, mas queria regular suas visitas, limitar direitos dos quais ele se julgava inconteste detentor. A situação se agravou de tal maneira que um dia ele simplesmente levou o filho para Nilópolis, para a casa de Ana Preta, e lá o fez permanecer. E deixou claro que a criança ficaria em sua companhia até o momento que ele desejasse. A ausência de Igor era como que uma punição para Carina, que sofria demais com isso, da mesma maneira como fizera André sofrer.

Delenda est Caesar

O mundo de César começou a ruir, inexorável, definitivamente.
Olga, a antiga babá de Ângela (comprada por ele para deixar a criança sozinha no apartamento de Carina), apareceu novamente, procurou Carina, contou-lhe a verdade. César ficou, assim, impossibilitado de tentar qualquer outra coisa com relação à filha. Carina, agora, tinha todos os direitos sobre sua posse. Quanto à testemunha­bomba, o tal Osório, as coisas não andavam melhores. Com ele preso, sua família começou a pressionar César, que passou praticamente a sustentá-la, com receio de que Osório o denunciasse. Já em péssima situação financeira, aquele novo e pesado encargo foi como um tiro de misericórdia nas já precárias economias de César. E de nada mais também adiantavam seus desesperados apelos a Nuno. Sentindo-o desabar, Baldaracci desejava, acima de tudo, ver-se livre dele, Aliás, ajuda-lo-ia, sim, com uma condição: a de que se entregasse, sozinho, sem envolvê-lo em nada, pagasse por seus crimes. Só depois de quite com a Justiça, com Carina, André e todo o resto, é que lhe daria dinheiro suficiente para erguer-se de novo. César não concordou, claro, confiante em sua débil mas ainda manifesta impunidade. Ocorre que, logo, logo, esta também passou a ser igualmente precária. É que Carina, ainda no período em que César a submetia a sua tirania, gravou duas fitas. Numa, falava de seu sofrimento, suas angústias. Na outra, deixava claros seus temores de que ele tencionava matá-la. Carina fugiu dele e as fitas caíram nas mãos de Januária. Ela destruiu a primeira, mas ficou com a segunda, na certeza de que a neta gravara seus temores por razões bastante concretas. E estas razões se justificaram, ao longo do tempo, com as atitudes cada vez mais dúbias de César; e, acima de tudo, com o desaparecimento de Carina, a tentativa de morte por ela sofrida, o mistério do homem que nela atirara.
Desconfiada, Januária comunicou a ele sua intenção de entregar a fita à polícia. César, compreendendo que aquilo o perderia, viu­se compelido a jogar definitiva cartada, obrigando Januária ao silêncio. E como conseguir isso? Simples: a moça, cujo cadáver fora encontrado próximo à casa da praia, tinha sido assassinada por Walkíria, num de seus acessos de loucura. Se Januária, portanto, insistisse em suas intenções, ele denunciaria Walkíria. Caso contrário, seria o silêncio pelo silêncio. Januária, para proteger a filha, cedeu. Mas sabê-la demente, e, pior ainda, assassina, foi demais. Januária adoeceu gravemente e não conseguiu reagir; morreu em pouco tempo. Só que não levou consigo o segredo de César. Sentindo o fim já próximo, chamou o filho, Hilário, e lhe contou a verdade. Furioso com César, Hilário ameaçou-o, caso tentasse novamente alguma coisa contra Carina. César usou com ele as mesmas armas utilizadas com Januária. Hilário foi obrigado a conter-se, mas César compreendeu o perigo que corria, tudo ruindo a sua volta, cada passo significando novos riscos, incessante angústia.

Um recomeçar?

Carina, desesperada com a ausência do filho e compreendendo a determinação de André, não teve outra alternativa senão marcar um encontro com ele, a fim de discutir pessoalmente o assunto. Ele concordou, combinaram encontrar-se num restaurante, conversar durante o jantar. Ele chegou antes dela, e a primeira pergunta que ela fez, assim que se sentou:
- Como está meu filho?
- Bem. Ele é muito bacana. Lindo de morrer. Estou louco pelo meu filho. Quase nem acredito. Ele é tudo o que eu queria na vida. Acho que não concebo mais minha vida sem ele.
- Para mim ele representa a mesma coisa - disse ela.
- Pois é. Ele é fruto de nós dois. Fruto de muito amor.
- Que você destruiu.
- Você quer discutir isso aqui? Agora? .
Ela respondeu:
- Não: Juro como quero colocar uma pedra em cima do que passou.
- Eu também. Não posso nem me lembrar de quando estava na prisão, pensando que você estivesse morta... sem nem imaginar que em algum lugar você estava bem... sem me avisar.
Ela retrucou:
- E eu não posso me lembrar do que passei com a perseguição daquele homem... e a minha fuga, tentando salvar meu filho. Você acha que depois de tudo isso, ainda podia vir exigir...
Ele a interrompeu:
- Acho que você não vai mudar nunca. Se acredita nisso, não sei o que estamos fazendo aqui.
- Bem... apesar de tudo, eu... eu pensei bem no nosso caso e tenho uma proposta a lhe fazer.
- Proposta?
- Aliás, a idéia nem foi minha. A idéia é de Tiago e Irene. De meus tios também. Não entendo bem, mas eles estão de acordo com uma reconciliação entre nós. .
- Como? - exclamou ele, espantado.
- Reconciliação entre nós. Para colocar uma pá de cal em nossa história. São palavras de Tiago.
- Não estou entendendo bem...
- Para a tranqüilidade dos meus filhos, a conselho de toda a minha família, achei que a melhor solução para nós dois seria vivermos juntos, pelo menos na mesma casa... novamente.
- Para colocar fim aos comentários... - acrescentou ele.
- Exato. Assim não vou precisar recorrer à polícia para pegar meu filho. E você também não vai precisar do auxílio da polícia para ver seu filho. O que você acha?
- Eu acho que... que seria de fato a solução se... bem, se não houvesse impedimentos, se eu não fosse um homem comprometido - disse ele.
- Lógico que minha proposta tem uma exigência, que julgo ser da maior importância. Para voltarmos a viver sob o mesmo teto, digamos assim, eu exijo que você deixe aquela mulher o quanto antes.
- Já imaginava isso.
- É a condição essencial, a mais importante. A partir do momento que você se separar dela, pode entrar imediatamente em contato comigo.
Ele retrucou, hesitante:
- Bem, é uma coisa que eu não posso resolver assim, de repente. Fui pego muito de surpresa. Juro que eu esperava tudo, menos isso.
- Compreendo, Mas acho que podemos chegar a um acordo, não?
- Não posso resolver assim, já disse. Preciso pensar bem. Foi tudo muito inesperado, embora ache que isso trará paz para todos nós.
- Quero acabar com as brigas - concordou ela.
- Embora eu sinta que você não está me propondo a paz definitiva, mas apenas a paz aparente, não é mesmo?
- Seja lá que nome você queira dar, não importa. O que importa é que eu quero meu filho de volta. E não desejo mais que nem ele nem Ângela sejam vítimas de comentários de quem quer que seja, muito menos da imprensa. Agora preciso ir. Mas preciso também saber quando vou ter meu filho de volta.
- Eu lhe telefono avisando.
- E quando vou ter sua resposta? - insistiu ela.
- Também lhe aviso.
Ela se levantou e se despediu. Evidentemente saía magoada, imaginando-o incapaz de aceitar de imediato sua proposta por amor a Ana Preta, enquanto ele, amando Carina, via-se sem forças para abandonar Ana, a quem devia uma dedicação e um amparo sem limites. O que fazer, afinal? Simplesmente não podia virar as costas a Ana; aquilo soava-lhe como um acanalhar-se do qual não se sentia capaz. Por outro lado, manter aquela situação era proporcionar a Carina constantes razões para manter-se arredia, a desconfiança amargando-lhe qualquer intenção.

A via crucis de Ana Preta

Ana Preta, perspicaz, entendeu rapidamente o que acontecia com André, a força da angústia que o tomava. Entendeu também, acima de tudo, que ele não decidiria coisa alguma; sua nobreza de caráter o levava a suportar qualquer coisa para evitar-lhe mágoas, indigna recompensa ao que julgava dever-lhe. Tudo aquilo não seria, no fundo, prova de amor? O desprendimento de André, dispondo­se a sacrificar Carina, a constância da presença do filho, que outro significado poderiam ter? Por algum tempo ela se deixou embair por tal certeza. Logo, porém, compreendeu o quanto de ilusão havia em tudo aquilo; ela apenas se escondia atrás de sombras, quimeras cujo significado se recusava a decifrar, mas que apontavam, inapeláveis, para o fato de que André só continuava com ela por comiseração, piedade. De nada adiantava o que tinham vivido, o que lhe oferecera. Carina reinava sobre ele, única possuidora de seu destino.
Embora com o coração em frangalhos, Ana resolveu tomar a iniciativa do rompimento, livrar André de um constrangimento que ele, por si só, jamais desfaria. Assumir tal atitude custou igualmente a André imenso esforço, mas foi (embora isso o envergonhasse, o deprimisse) com indisfarçável satisfação que se viu livre para Carina. Tal liberdade parecia-lhe agora assegurar a tão almejada felicidade.
Voltou-se então para Carina com imensa dedicação. Escolheram a casa que comprariam para viver com as crianças, local onde, imaginava ele, o amor ressurgiria, potente. Mas havia ainda pontos obscuros, alguma coisa que tolhia Carina, fazia-a encará-lo com desconfiança, desassossego mesmo, e isso comprometia o que se propunham recompor. E foi assim, tomado por sobressaltos, que André compreendeu que não lhe seria possível firmar-se aos olhos de Carina, reconstruir qualquer parcela de futuro, enquanto não tivesse em mãos, enfim descoberto, o nome de quem se encarregara de mandar matá-la. A polícia continuava agindo; Osório era submetido a interrogatórios toda vez que havia algum elemento novo no processo, mas dele só se poderia obter o nome de quem o mandara mentir, inculpando André. Até onde poderia haver relação entre tal fato e a frustrada tentativa de assassinato de Carina? André não sabia e se martirizava por reconhecer que, só se conseguisse restabelecer toda a verdade, a paz finalmente lhe adviria. Ocorre que os mecanismos que levam à verdade não lhe pertenciam, eram cordéis ainda inteiramente invisíveis, o que só lhe aumentava o sofrimento.

Segundo round para Ana

Clarinha, a filha de Nuno e Gilda, ouvindo sem querer e sem ser pressentida uma conversa do pai e do tio, Rafael, ficou sabendo do envolvimento de Nuno e César Reis no abortado assassinato de Carina. Sofreu enorme choque, procurou Jenny, a filha de Ana Preta e Nuno, e se abriu com ela. Jenny, por sua vez, também não resistindo, desabafou-se com a mãe. Ana Preta então procurou Nuno. Foram para um restaurante, ele todo meloso, inteiramente iludido quanto aos propósitos do encontro.
- Não imagina como fiquei feliz com o teu chamado - disse.
- Você está preparado pra receber uma espinafração? – tornou ela.
- Adoro quando você me espinafra. Começa, vá.
- Escuta aqui, não durmo desde ontem, tá? Não consigo pegar no sono, depois que fiquei sabendo das sujeiras que você andou aprontando com a ajuda daquele tipo à-toa, o César Reis.
Nuno se preocupou:
- César Reis? O que tem a ver o César Reis agora?
- Tem que eu sei de tudo, viu? Por que você acha, Nuno, que a Clarinha está lá em casa e não quer mais voltar pra tua companhia?
- Grilos com o namorado.
- Não, seu trouxa. Foi porque ela descobriu tudo o que você andou fazendo contra a mulher do André.
- Do que você está falando, Ana?
- Olha, tapeação pra cima de mim, não. Clarinha soube de tudo, contou pra Jenny, Jenny me contou e eu quase que conto tudo pro André.
- Madonna da Caropita! - exclamou ele. Ana prosseguiu:
- Só não contei porque não costumo ser dedoduro, viu? De mais a mais, eu acho que quem tem de tomar uma atitude agora é você mesmo.
Ele ficou sério, decepcionado:
- Enton, você está aqui pra defender André!
- Pra defender você mesmo, cara. Defender teu moral, tua honra, diante dos teus filhos. Toda tua família está revoltada contra você. E tudo por quê? Porque você mandou matar a mulher do André.
- Madonna, como foi que isso tomou essa proporção? Como chegou a esse ponto?
- Chegou porque tua família é de gente de bem e não está de acordo com os teus atos. São tão legais, mas tão legais que ficaram de bico calado até agora, pra não te acusar. Mas estão revoltados, porque não estão ajudando só você... estão ajudando outro bandido, um assassino, o César Reis .
- Ana, confia em mim. Acredite, eu fui envolvido pelo César Reis.
- Não acredito. Você tem muita culpa porque queria se ver livre do André. Vocês deixaram que ele fosse preso e julgado.
- O César Reis deixou. Eu não fiz nada. Não podia.
- Mas vai fazer agora. Eu quero. Eu exijo, viu? Se não, eu mesma te entrego.
- Calma, calma. Eu acho... acho que posso dar um jeito de deslindar essa história toda sem me comprometer.
- Faça o que quiser, mas me entrega aquele tipo pra polícia.
- Posso me arriscar. É um golpe que pode dar certo e pode não dar. Mas eu só faço isso, Ana, escuta bem... eu só faço isso por nós dois. Mas me dá uma esperança, Ana... diga que vai ser minha e eu entrego o César Reis pra polícia imediatamente.
- Escuta aqui...
Ele a interrompeu:
- Se você não me der uma esperança, eu não faço nada nem por André nem por ninguém. E se você me delatar, eu tenho jeito de me safar bem. Mas, em compensação, você vai ficar sua própria filha, porque eu sei que ela me ama e não vai lhe perdoar nunca o que você fizer contra mim.
- Isso eu também sei - disse ela, triste.
- Você resolve, Ana. A felicidade do André depende de você e de mim. E eu só quero sua palavra de que você vai ser minha.
Ela desviou os olhos, novamente colocada diante de um dilema.
Por causa de André via-se outra vez emparedada. Então, resolveu-se:
- Você jura mesmo? Jura que entrega o sujeito pra polícia?
- Juro. Claro que vou fazer tudo pra me safar. Mas, se você promete, cumpro minha palavra.
- Tá. Tá legal. Fica a esperança.
- A certeza... por nossa filha, Ana. A certeza.
- Mas você tem de fazer isso o quanto antes.
- Eu faço. Em dois dias, no máximo. Tudo vai dar certo pra nós, Ana. Depois a gente junta nossos trapinhos e vamos passar a lua-de-mel em Roma. Eu me caso com você, Ana Preta.
- Vamos embora - disse ela, erguendo-se, os olhos cheios de lágrimas, perguntando a si mesma até onde poderia ainda ir em seu amor, em seu sacrifício por André.

DEDICO ESSE CAPÍTULO A TODAS AS BISCOITINHAS QUE ESTIVERAM NO SHOW DE CLÁUDIO E IVAN LINS E POR SEU COMPORTAMENTO HONRARAM ESSE BLOG E NOS DEIXARAM CHEIOS DE ORGULHO.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

SESSÃO RETRÔ - PAI HERÓI

Por conta dos dois últimos capítulos de Pai Herói, que serão postados nessa e na próxima semana, dedicaremos a Sessão Retrô e o Túnel do Tempo Musical dessas semanas a assuntos relacionados a essa novela.
Para começar, postamos duas reportagens publicadas na revista Romântica, nr. 277, da segunda quinzena de 1979 (mais uma revista do lote da Maria do Sul).
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: http://www.teledramaturgia.com.br/tele/pai.asp.
Boa leitura!



 



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PAI HERÓI - CAPÍTULO IX


As investigações prosseguiam. O delegado estava profundamente empenhado no caso; esse empenho todo resultou na identificação, por parte de Maria, do suposto assassino. Com o reconhecimento de Titan, a situação de Nuno e César começava a correr riscos. Nu­no, para evitar que sua face verdadeira fosse desmascarada, quis re­solver o problema de forma drástica. Encontraram-se ele e César com estranha e sinistra figura.
- Ah, bene, Deocleciano. Como vai? - disse - Nuno.
O sujeito, impassível, fez leve gesto com a cabeça, Nuno prosseguiu:
- Leu os jornais?
- Estou sabendo.
E Nuno, depois de uma pausa, sem trair a .menor emoção:
- Elimine o homem .
O sujeito fez novamente pequeno gesto -com a cabeça.
- Sabe onde ele está? - perguntou Nuno.
- A gente acha.
- Elimina. O mais rápido que puder.
- Tá legal.
O sujeito fez menção de ir embora, César disse:
- Espera. A moça... ele achou ela?
- Tudo diz que sim.
Nuno interveio:
- Chega de papo. Vai embora. Vê se não perde tempo. Acha o homem e encerra o caso.
O sujeito se afastou, César suspirou, aliviado, exclamando, cheio de admiração:
- Você é formidável, Baldaracci.
Nuno então mudou por completo, a outra face a surgir, sorrindo e perguntando:
- E a vida? Como vai?
- Uma loucura - respondeu César.
- Não desejo pra ninguém a minha solidão -lamentou-se Nuno.
- Pretende se casar de novo, Baldaracci?
- Pra casar, casar mesmo, só me caso com uma única mulher: Ana, a mãe da minha filha.
- Eu sei. Mas acho que você também já perdeu essa pro Cajarana.
Nuno suspirou fundo:
- Nessa vida, nada é definitivo, caro... Nada se perde, tudo se transforma. Seguindo essa teoria, eu mantenho acesa a esperança " de que um dia Ana Preta seja minha.
Deu novo suspiro, desconsolado, enquanto César olhava para ele, sorrindo. Os dois, cheios da bonomia de quem não tem o mais leve peso na consciência.

Uma luz no fim do túnel?

A maior preocupação da polícia era encontrar o corpo de Cari­na. Isso seria a prova definitiva contra André. Este, por sua vez, não compreendia e muito menos se sentia capaz de enfrentar a ir­realidade da situação que o envolvia; deixava-se levar pelo mais ab­soluto desespero. Ana Preta, no intuito de dar-lhe ânimo, convenceu­-o a vir morar em sua casa, sem, contudo, conseguir alguma reação de André. Preso no quarto, André desejava a morte a rondar-lhe os passos, achava que acabar com tudo seria a inegável recompen­sa. Ana Preta, também já desesperada, resolveu explodir a situa­ção. Entrou no quarto dele:
- André, estou cansada de te ver assim. Não agüento mais. Fiz o que pude por você. Fui mãe, irmã, amiga, enfermeira, cozinhei­ra, passadeira, tudo. Não dá mais pra agüentar. Minha filha se man­dou daqui e eu agüentei, por sua causa. Já faz seis meses que eu espero que você me tome nos braços, me beije e diga: eu quero você.
- Eu queria dizer isso... sinceramente... não pensando em usar você... - falou ele. .
- Você está se matando, André. E está me matando também.
- Se eu for embora, talvez seja melhor.
- Se acha que essa é a solução, então é melhor mesmo ... porque não estou vendo resultado de nada.
- Eu queria você, sem me sentir culpado.
Ela desabafou:
- Culpado do que, André? Se Carina está viva, ela é cruel, por se esconder de você. Se morreu, você não teve culpa de nada, não foi você que matou. Então, você é culpado do quê? Pensa um pou­co em você, cara. Pensa que está virando um trapo de gente ... pen­sa que está se acabando, se desmilingüindo por uma coisa que não fez. Eu nem sei mais o que é viver pra mim, porque eu vivo só pra você... pra pajear você, pra levantar seu moral, pra amar você! Mas eu cansei, André. Cansei. Agora, faz o que quiser.
Ela foi em direção à saída, ele lhe barrou a passagem:
- Ana, espera ... Ana, escuta ... eu também estou cansado ... muito cansado!
Ficaram se olhando. Depois, como se aquilo fosse algo determi­nado, inelutável, caíram nos braços um do outro, e se beijaram. Ela, apaixonada, ele sabendo ser aquela a única maneira de se salvar.

Uma testemunha-bomba

André, quando ainda na casa da praia, tivera um caseiro. Ocorre que o pai desse empregado, Osório, espertalhão e marginal, resol­veu ganhar dinheiro às custas das agruras de André. Não sabia bem como agir, mas o acaso, para infortúnio de André, colocou César e Osório frente a frente. Osório então contou-lhe sua história sobre o assassinato e o sumiço do corpo de Carina. Em resumo, era o se­guinte: certo dia, ele tinha visto, sem ser pressentido, André e mais outro sujeito levarem Carina à força, no iate, para alto-mar. Voltaram, pouco mais tarde. A moça estava morta; os dois começaram a cavar um túmulo, perto da casa da praia. Neste momento, desco­briram Osório, que, sob a ameaça de uma arma que o próprio An­dré lhe apontava, foi obrigado a ajudar no sepultamento. Osório tivera de jurar silêncio absoluto sobre o acontecido, caso contrário, seria também eliminado.
César não precisou ouvir mais nada, aquilo já era suficiente para complicar ainda mais André, bastando-lhe apenas que o tal Osório se comprometesse a repetir o relato diante do delegado. Mediante o recebimento de grande quantia (que César, como sempre, tomou de empréstimo a Baldaracci), Osório foi à polícia e incriminou An­dré. Apontou, inclusive, o local onde Carina estaria enterrada. O mais incrível foi que exatamente no local indicado havia de fato um cadáver vestindo as roupas de Carina e usando um anel dela. Baseando-se nestes fatos, a família reconheceu o corpo como sendo mesmo o de Carina Brandão. André foi preso. César, exultante, pa­recia agora o vencedor. Sua vitória foi ainda mais reforçada ao re­ceber de Nuno a notícia de que Titan havia sido eliminado. A An­dré restava agora novo amargor, o mais terrível de todos: tinha de esperar, preso, o julgamento, sob a acusação de ter matado as pessoas que mais amava no mundo: sua mulher e seu filho.

Duas revoltas filiais

Cirilo, atormentado pela falta de confiança no pai, viu-se toma­do por profunda frustração. Acima de tudo, a prisão de André . pesava-lhe na consciência; sentia que tinha de fazer alguma coisa. Ocorre que não sabia como agir: quem estava envolvido era seu pró­prio pai, e Cirilo vacilava entre tomar atitudes de rebeldia - fugir de casa, recusar-se a ver, a falar com Nuno - e a atitude básica, que seria denunciá-lo. Não suportando mais, procurou Romão:
- Tenho um treco muito chato pra te falar. Não dá mais pra agüentar sozinho. Estou pirando. Tenho de dividir contigo.
- Você me assusta.
- É uma confissão. Não, não é bem isso. Confissão é de culpa e eu não tenho culpa. Ou tenho, por não fazer nada. Também não sei se é culpa. Só sei que eu não agüento mais.
- Fala logo que você se alivia.
- É... é isso que está acontecendo com André. Vou te passar tudo o que sei que aconteceu... porque nossa mãe morreu. Bem, tá preparado? É um segredo, um segredo que não pode sair daqui de nós dois... porque é um treco que compromete demais o nosso pai.
Então, num impulso, contou o que tinha acontecido.
- E o pai? .Como se defendeu? - quis saber Romão.
- Ele disse que a mãe imaginou essa coisa toda do telefonema dele com o dr. César, porque ela estava sofrendo da cabeça, por causa da operação.
- Será possível?
- Não sei. O fato é que nem consigo mais olhar pra ele.
- Que situação! O que vamos fazer? - exclamou Romão.
- É o que eu te pergunto. Reparti com você porque não estava mais agüentando. Mas te pedi segredo. E você não vai fazer nada contra o velho.
- Como vou fazer alguma coisa contra o velho, Cirilo? Só que não podemos deixar as coisas acontecerem do jeito que estão acon­tecendo com o André. Não podemos ficar de braços cruzados.
- O velho prometeu ajudar .
- Ajudaria, se contasse a verdade.
Cirilo argumentou:
- E se o velho está dizendo a verdade, se ele não tem culpa mes­mo? Se a mãe cismou que ouviu o tal telefonema? A gente vai pio­rar as coisas.
- E como mamãe ia inventar essa história?
- Ela andava cismada com papai. A gente tem de pensar em tudo, bicho!
Romão concordou:
- É, temos de pensar em tudo. Agora entendo você. É preciso rezar muito pra Deus, para que ele me ilumine e diga o que deve­mos fazer. Ninguém mais sabe?
- Ninguém, porque tenho medo de que outra pessoa qualquer, mesmo nosso tio, não se agüente e suje a barra do velho.
Romão retrucou, preocupado:
- Se ele tem culpa, tem de ser ele mesmo a ajudar André. Por sua vontade. Vamos agir com muito cuidado vai sossegado.
Cirilo saiu, Romão sentou-se, desolado, a cabeça entre as mãos, rezando uma prece.

Carina

Depois que Maria saiu, Carina, sozinha na casa de Uruguaiana, dedicava-se a uma ou outra tarefa doméstica. De repente, percebeu um carro parando à porta. Temendo tratar-se de seu perseguidor, olhou, cuidadosa, pela janela. Estremeceu. Era o próprio. Titan sal­tou de um táxi, e apontou para a casa, conversando com o motoris­ta. E ali ficou, durante um tempo que para ela pareceu uma eternidade. Trêmula, Carina ficou esperando uma oportunidade para po­der escapulir. Só à tardinha realizou seu intento, saindo pelos fun­dos da casa. Tomou um ônibus com destino a Porto Alegre, levan­do consigo apenas uma bolsa, o restante das jóias. Todo o resto ha­via ficado na casa. Durante a viagem passou muito mal; sentia-se enjoada, e uma passageira a seu lado a socorreu. Assim que chegou em Porto Alegre foi encaminhada para a casa da mãe solteira. E foi lá que teve seu filho, um garoto a quem deu o nome de Igor.
Sua vida, o que passara, era visto por ela como algo ao mesmo tempo desejado e desprezível, dualidade que a fazia, por vezes, de­sejar o amor de André, anelo logo esquecido, como se tal desejo se constituísse em imperdoável pecado. O filho passou então a resu­mir toda a sua existência, a intenção da morte que André lhe dese­jara, ironicamente consubstanciada numa criança linda, capaz de compensar um amor que tivera a força de terrível equívoco. Havia também Ângela, o desejo de reavê-la, uni-la a Igor correspondia a seu mais fundo ideal.
Não podia evitar, contudo, as notícias. O que se abatera sobre André chegava até ela como um eco, amortecido talvez, mas ainda forte o suficiente para lhe provocar emoções, Sabê-lo acusado da autoria de um crime sem cadáver era quase a justa punição que ele merecia. Mas, quando soube do apare.cimento de um cadáver, iden­tificado como sendo o dela, e da prisão de André, suas resistências fraquejaram. Achou que André já havia sido suficientemente puni­do (afinal, fazia quase dois anos que desaparecera). Embarcou en­tão para o Rio, disposta a aclarar o mistério. Só que, por medo, preferiu não se identificar de pronto, ainda supondo que algo de mal pudesse lhe acontecer e, o que é pior, ao filho. Não procurou a família. Foi para Itaipava, onde alugou uma casa. Tentou, por telefone, contato com André. Ana Preta atendeu. André estava pre­so. Carina não se identificou, fez perguntas, e Ana Preta, com seu estouvamento, disse que era mulher de André. Carina recuou, sen­tida. Convenceu-se de que ele não merecia o que ela pretendia fa­zer. Na verdade, André quisera matá-la e ficar com seu dinheiro para poder casar-se com outra, viver feliz com ela, deixando para trás todo o mundo, o amor que tinham vivido.
Seu desconsolo, contudo, não foi total. Havia o outro motivo pelo qual voltara (e talvez o principal). Ângela resumia agora tudo o que poderia almejar de pureza, candura. E, não desejando ser reconhe­cida pela filha, foi, por diversas vezes, vê-la, à saída do colégio, on­de era esperada por Tereza, a babá. Carina chegava de táxi, com Igor e a empregada que arranjara. Saltava, ao longe, o coração aos pulos, quedava-se a olhar a filha.
Com respeito a André, só mais uma vez fraquejou. Após o início do julgamento, ela acompanhava os principais lances pelo rádio. Houve um momento em que não o julgou merecedor de uma con­denação. Ela estava viva, tinha nas mãos seu destino, como, no pas­sado, ele tivera sua vida. Dirigiu-se por isso ao tribunal (mesmo dis­farçada), disposta a salvá-lo. Mais uma vez, porém, O amor demons­trado por Ana Preta e por André deteve-a. Voltou para casa, dis­posta a não mais fraquejar.
André foi absolvido, Osório condenado. Nem assim Carina se re­velou a André, como se Ana Preta fosse, dali em diante, a única a merecê-lo, a compartilhar sua existência.
Com Ângela ocorreu exatamente o contrário. Carina não se con­teve. Certo dia em que a garota parou a sua frente, na saída da es­cola, perguntou:
- Ângela! Não me conhece mais?
A garota exclamou, assustada, reconhecendo-a:
- Mamãe?!
Depois abraçou-a, num enlevo:
- Mamãe! Você? Você?
- Meu anjo! Meu amorzinho! Filhinha! Filhinha!
E as duas ficaram assim, abraçadas, chorando.
- Puxa, que legal. Legal demais. Você voltou, mãe. Eu queria tanto. Você voltou. Puxa!
Carina continuou a chorar. A garota lhe passou a mão pelo rosto:
- Eu sabia que você ia voltar.
- Sabia?
- Tinha certeza.
Igor, próximo às duas, correu. Elas, rindo, foram atrás dele. Carina exclamou:
- Igor! Que levado!
- Quem é ele? - perguntou Ângela.
- Seu irmãozinho.
Tereza, a babá de Ângela, aproximou-se. Ângela comentou:
- Que bacana, Tereza! Olha, Igor é meu irmão! Tereza parou, olhando para Carina, muito espantada.
- Dona Carina?! - sussurrou, finalmente.
- Olá, Tereza. Obrigada por ter sido boa para Ângela durante tanto tempo.
- A senhora? Como? Como?
- Deixe as explicações para depois, Tereza.
Ângela sorriu:
- Eu não dizia sempre que mamãe ia voltar, Tereza? Agora você vai ficar comigo, não vai? Hein? Não vai?
A expressão de Carina mudou:
- Ângela, eu... eu não posso... ainda.
- Mas eu não vou deixar você ir embora de novo.
Carina abraçou-a:
- Então fique comigo, pronto. Eu quero. Também não vou dei
xar você de novo. Nunca mais, Ângela. Nunca mais. Você quer?
- Quero. É só o que eu quero, mãe... ficar com você, viu?
Carina falou para Tereza:
- Você volta sozinha. Diga que Ângela ficou comigo.
- Eu não vou? - perguntou Tereza, sempre sem acreditar no que estava vendo.
- Não. Não precisa.
- Tchau, Tereza - despediu-se Ângela.
- Mas, dona Carina ... - começou a dizer Tereza.
Carina lhe deu as costas, entrou num táxi com as crianças, foi embora.

DEDICO ESSE CAPÍTULO À BISCOITINHA ÉRICA COSTA, DIVERTIDA COMPANHEIRA QUE VEM ALEGRANDO AS NOITES DESSE BLOG. OBRIGADO E UM BEIJO CARINHOSO, ÉRICA.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

PAI HERÓI - CAPÍTULO VIII


As crises com Nuno, a indiferença de André, o decair de um mundo, das ilusões que até ali mantivera foram demais para Gilda. Não resistindo; sua saúde se abalou. Até que teve de ser levada para um hospital, e submetida a infindáveis exames. O diagnóstico veio, grave: Gilda era portadora de um aneurisma cerebral, devia ser operada sem demora.
André, através de Romão, ficou sabendo de tudo aquilo. Preocupado, quis vê-la, mas esbarrou na intransigência de Baldaracci, que chegou a colocar seus capangas no hospital, a fim de evitar sua entrada. Outra vez, Romão interveio e André se viu finalmente diante da mãe. Ficaram se olhando, por longos instantes; ela, tomada pela ternura; ele, pela comiseração que seu aspecto de fraqueza e fragilidade demonstrava.
- Oh, André... oh, meu filho... quis tanto te ver... vem cá - disse ela, por fim.
Abraçaram-se, ele tentando confortá-la:
- Puxa... que história é essa de doença agora, hein?
- Pra você ver.
Ele continuou:
- Quando via a senhora, dizia pra mim mesmo: minha mãe é um pedaço de mulher.
Ela sorriu, tentando disfarçar as lágrimas. Ele insistiu:
- Mas é mesmo... bonitona, sacudida.
- As aparências enganam, André.
- A senhora sente o quê?
- Muita dor de cabeça, viu? Desmaios, a troco de nada.
- Puxa vida! Meu avô tinha um santo remédio pra dor de cabeça. Deve ser enxaqueca.
- Sempre pensei que fosse. Mas, ultimamente, as dores se agravaram.
- Se Deus quiser, não há de ser nada grave.
- Tomara, porque, se eu ficar boa, vamos ficar juntos. Tenho muitos planos para nós dois.
Ele respondeu de modo simples mas incisivo:
- E eu pra senhora. Estou casado, mãe, estou me arrumando na vida. Minha mulher está me esperando e quando eu voltar a gente ajeita as coisas. Aí, eu busco a senhora pra ficar comigo uns tempos ou pra sempre, como a senhora quiser.
Ela se alegrou:
- Você, casado? De verdade? Jura?
- Juro, ora. Com Carina.
- Que bom... eu nem sabia... que bom...
- Acho até que a senhora vai ser avó - disse ele, cheio de orgulho.
- Acha? Não tem certeza?
- Deixei a .mulher lá com umas suspeitas. A senhora precisa é se levantar logo daí pra ir comigo pra junto de Carina.
Ela virou o rosto para o lado:
- Estou cansada, mas fique comigo.
- Não saio mais de junto da senhora, mãe.
Ela o encarou:
- Como disse?
- Não saio mais de perto da senhora...
- Pensei ter ouvido...
- Mãe?
- É... pensei.
- Pois ouviu direito.
Ela acariciou-lhe o rosto, emocionada, puxou-o contra si, abraçando-o e dizendo, baixinho, entre lágrimas:
- Meu amor... meu filho... meu filho...
E se deixaram ficar assim, como se o mundo, a doença não existissem para eles, nada mais importando, a não ser o sentimento que agora, finalmente, os unia.
César, cada vez mais inconformado em ter perdido Carina para André e em ver a desenvoltura com que este agia ao fazer negócios com os bens dela, compreendeu ter chegado às raias do tolerável.
Se não fizesse algo, o desespero, a inveja e o amargor o aniquilariam. Mas como proceder, o que fazer, se mal conseguia raciocinar?
Mais uma vez Baldaracci serviu-lhe de apoio, inestimável auxílio.
Já que não podiam atingir André (o que seria altamente comprometedor para ambos, quase infantilidade, pois todos os reconheciam como seus maiores inimigos), por que não atingir Carina? Seria golpe do qual André não sobreviveria, destruindo-se diante da impossibilidade de superá-lo.
Acordes sobre este ponto, o passo seguinte seria descobrir onde ela estava, o que, mesmo para César, senhor de mil artimanhas, não foi nada fácil. Então, vencidas as duas primeiras etapas, defrontaram-se com a última, mais delicada, comprometedora. Onde e como encontrar alguém de confiança capaz de matar Carina, sem deixar rastros e sem comprometê-los? Aqui valeu o satânico talento de Baldaracci. Ele entrou em contato com Titan (o último assaltante do supermercado ainda não apanhado pela polícia), contratando-o para o "serviço", mediante o pagamento de enorme quantia, que, aliás, correu por conta de César. Colocá-lo a par de detalhes que inspirassem a confiança de Carina, fazendo-o passar por amigo de André, instruí-lo, enfim, foi o mais fácil. E logo Titan partiu para Bariloche, levando no bolso gordo cheque, e na alma a intenção de eliminar alguém que nunca vira, para gáudio e satisfação de um homem que não se conformava em ver seu amor desprezado.
Apesar das desconfianças de Carina, Titan, utilizando sempre o nome de André e fazendo-se passar por seu amigo, conseguiu aproximar-se dela. Aquilo era fundamental para sua sinistra missão. Era necessário vê-la, conhecer seus hábitos, para ter certeza de que não falharia. Assim, ficou sabendo que Maria, a empregada, fazia compras, pela manhã, no lugarejo próximo ao chalé, enquanto Carina, para exercitar-se por causa da perna e da gravidez, caminhava pelas redondezas. Isolado, o chalé era o lugar ideal para que um atirador, de dentro dele, atingisse um alvo que se locomovesse pelas proximidades.
Determinando como procederia, Titan não perdeu tempo. Certa manhã, depois que as duas saíram, Maria para as compras, Carina para o passeio, correu para o chalé, levando consigo potente rifle com mira telescópica. Ajeitou a arma, acompanhou Carina, pela mira, até encontrar o momento e a posição ideal. Atirou, Carina caiu. Mas, para surpresa de Titan, a porta se abriu, Maria entrou (esquecera o dinheiro das compras, voltara para apanhá-lo, sem que ele a pressentisse).
- O que é isso? - gritou ela, espantada.
- Você voltou, sua cretina?!
- Você atirou!
- André mandou! Foi André que mandou! Eu não tenho nada com isso!
- André... mandou?! - repetiu ela, sem entender.
- Mandou! Ele mandou! Eu não queria! Ele mandou! Mandou!
Titan deu-lhe as costas, fugiu, em desabalada carreira. Atarantada; Maria ficou alguns instantes ali, sem saber o que fazer, até que, finalmente, correu em socorro de Carina. Ela estava apenas ferida num dos ombros. Maria a trouxe para dentro de casa. A partir daquele momento, as coisas se precipitaram. Carina, apavorada, fugiu com Maria para longe daquele lugar, primeiro de táxi, depois tomando um trem que as levou até Uruguaiana. E atônita, insistia em perguntar quem atirara, quais as razões, querendo o nome de quem pretendera matá-la. Pressionada, Maria não resistiu muito, disse-lhe o que sabia. Carina sentiu o mundo desmoronar a seus pés quando ouviu que André era o mandante do crime.

Novas maquinações

Apesar de a missão em Bariloche não ter sido cumprida a contento, César não vacilou em passar à etapa mais importante de suas maquinações. De forma hábil, conseguiu levar insuportável inquietação à família de Carina. Não era estranho que André, dispondo dos imensos poderes da tal procuração, continuasse a esconder o paradeiro de Carina? Por que fazia isso? Não a teria eliminado, depois de conseguir a procuração? Não seria esse o motivo básico pelo qual insistia em mantê-la no anonimato?
Tais argumentos podiam ser descosidos, frágeis. Mas, aos ouvidos de uma mãe, como Norah, inconformada, não querendo reconhecer que a filha simplesmente a evitava em busca de seus próprios caminhos, eles faziam sentido. E muito. Tanto que, em companhia do marido, Hilário, foi à polícia dar parte de André. Muito nervosa, mal pôde balbuciar, diante do delegado:
- Doutor... estou muito preocupada...
Hilário tentou acalmá-la:
- Norah, controle-se um pouco. Explique tudo com calma.
- Como... como mãe de Carina Brandão... estou aqui para denunciar as atitudes um tanto suspeitas do sr. André Cajarana, no caso do desaparecimento de minha filha. Sei que não tenho nada de concreto contra ele, mas, como mãe, estou desesperada. E esta foi a única forma que encontrei para aliviar um pouco minha tensão... vir aqui pedir todo o apoio da polícia para localizar minha filha.
O delegado explicou:
- Dona Norah, seu apelo é justo, mas, para a polícia agir, é preciso haver um crime. E no caso de sua filha não há indícios de nenhum. Trata-se apenas de uma pessoa que está no exterior e que não foi encontrada em sua residência. Pode acontecer dela ter viajado, pode estar se escondendo da família... Seria mais lógico que seu apelo fosse dirigido ao Itamaraty, não à polícia.
Hilário interveio:
- Um momento, senhor delegado. O caso de Carina é meio estranho. Minha mulher não explicou tudo. Ocorre que grande parte dos bens dela foi vendida por André.
- Como assim?
- Ele tem uma procuração dela que lhe dá poderes para isso. E desde que voltou se nega a nos dizer onde ela está.
- Mas por que ela confiou tanto nesse homem, a ponto de lhe dar uma procuração com tantos poderes? - indagou o delegado.
- Estão casados - respondeu Hilário.
- Segundo ele, casaram­se no Uruguai, no mês de outubro do ano passado.
Norah acrescentou:
- Eu creio que existem fortes motivos para a polícia suspeitar de um homem que põe fora uma grande parte do patrimônio da mulher que está desaparecida.
O delegado assentiu:
- De fato, a coisa aí muda de figura. Agora temos motivos de sobra para começarmos a agir imediatamente. Onde está o sr. André, neste momento?
- Parece que viajou ou disse que ia viajar para ir ao encontro dela, em Bariloche.
- Muito bem. Podem ir sossegados. Começaremos a investigar imediatamente.
Eles se despediram, O delegado chamou um detetive, ordenou que tratasse de localizar André Cajarana com a máxima urgência.

André em maus lençóis

De fato, André tinha ido a Bariloche. Cheio de paixão, contava reencontrar Carina, o amor sem o qual não podia mais viver. Mas o chalé estava ocupado por outra família.
Angustiado, começou a procurá-la, sem sucesso. Não conseguiu localizá-la em nenhum lugar. Revirou a Argentina e o Uruguai à cata de alguém que parecia ter-se evaporado. Voltou então ao Brasil, desorientado. A primeira conseqüência de tudo isso foi ser chama­do a prestar esclarecimentos à polícia. Mas, a partir desse momento, as coisas se complicaram. A imprensa farejou um escândalo, os jornais se encheram de manchetes, especulações, e acusações começaram a ser formuladas. André passou a ser tratado como o assassino da própria mulher.
Gilda, operada e já em casa, em convalescença (os médicos estavam extremamente inseguros quanto ao resultado positivo da intervenção), foi quem mais sofreu ao tomar conhecimento da posição do filho. O fato de ele ser apontado como assassino a entristecia profundamente, e a atingia em seu amor pelo filho. Precisava falar com ele, confortá-lo. Tentou ligar, da extensão telefônica de seu quarto. O aparelho estava ocupado. Ela reconheceu as vozes de Nuno e César. Curiosa, pôs-se a ouvir:
- César, eu queria me afastar dessa história - dizia Nuno.
- Baldaracci, se você não me emprestar esse dinheiro, estou perdido. O homem ligou de longe e fez ameaças. Ele tem consciência de que o serviço foi malfeito. Parece, no entanto, que tem nova pista de Carina. E quer fazer a coisa agora pra valer. Mas está exigindo mais dinheiro. Disse claramente que se eu não mandar ele põe tudo a perder. Se voltarmos atrás com esse rolo todo contra André, ele pode entornar o caldo. E nós estamos perdidos.
- Ma no, ma no! Que encrenca!
- Me faça logo o empréstimo e tudo fica bem. Agora não podemos mais recuar, temos de ir em frente.
- Ecco, enton passa por aqui que io lhe dou um cheque.
Gilda desligou, trêmula. Num relance, compreendeu tudo, a diabólica vileza de Nuno e César pagando um assassino para jogar friamente a culpa da morte de Carina sobre André. Tudo isso foi demais para ela, os joelhos começaram a tremer, a vista a se turvar, a garganta seca, sem voz; sentia-se na iminência de um desmaio. Como último gesto, pegou lápis e papel (adivinhava seu fim próximo) e escreveu algumas linhas. Amassou o papel na mão e gritou, antes de cair;
- Adélia!
Cirilo entrou no quarto, socorreu a mãe caída, pediu que chamassem um médico e ficou abraçado a ela, no chão. Ela lhe entregou o bilhete. De nada adiantaram os esforços dos médicos. Gilda enfraqueceu mais e mais e, por fim, morreu. Agora restavam dela apenas a lembrança, a saudade e terríveis palavras escritas no derradeiro momento e que diziam o seguinte:
Acabo de ouvir um telefonema de César Reis para Nuno. Estou assustada. Os dois tramaram a morte da mulher de André. Não posso acreditar. Mas eu ouvi César Reis pedir dinheiro a meu marido para fazer o pagamento a alguém que teria uma nova pista de Carina. Escrevo rapidamente, antes que...
Carina se instalou em Uruguaiana com a empregada e a encarregou de ir a Porto Alegre negociar algumas jóias, pois já estava sem dinheiro. Dois dias depois, a empregada voltou e Carina simplesmente tinha desaparecido. A empregada então foi à polícia, contou o que sabia. O delegado, do Rio, agora de posse de algo realmente concreto, indiciou André como autor do homicídio de Carina, abriu inquérito, intimou-o a depor.
-André, Carina Brandão está morta. Você sabe disso muito bem - disse ele, com ar severo.
- Absurdo! - exclamou André.
O delegado se voltou para um auxiliar:
- Urbano, faça entrar a testemunha.
O homem foi para outra sala, daí a pouco voltava, com Maria.
- Dona Maria! Onde está Carina? - perguntou André, no auge da agonia.
- O senhor sabe, não sabe? - respondeu ela, zangada.
- Eu sei?! Eu deixei a senhora com ela, quando voltei pro Brasil, e não vi mais minha mulher. Voltei lá e não a encontrei. A senhora é quem deve ter notícias dela.
- Eu tenho mesmo, seu André, tenho mesmo. O senhor nunca devia ter feito o que fez.
- O que foi que eu fiz?! O que quer dizer?
O delegado interveio:
- Vamos por partes. André, esta senhora procurou a polícia de Uruguaiana, no dia 24 de fevereiro, para dar queixa do desaparecimento de dona Carina Brandão, que se encontrava até esse dia naquela cidade. A polícia local se comunicou com Porto Alegre e com o Rio. Mandamos buscar dona Maria Vitória Herrera e ela vai nos dizer exatamente o que aconteceu com dona Carina Brandão, depois que o senhor voltou para o Brasil.
Maria disse:
- Um homem esteve lá, tempos depois que o senhor viajou, a mando do senhor. Disse que era seu amigo, estava de férias e trazia notícias suas. Sabia de tudo a respeito dela, de sua gravidez e tudo mais.
- Eu não mandei ninguém. Eu não sabia que ela estava grávida. Isso tudo é uma deslavada mentira! Uma mentira! – falou André, torturado.
Maria continuou:
- Dois dias depois, a gente pensava que ele tivesse ido embora, eu saí pra fazer as compras da semana e dona Carina foi dar seu habitual passeio pelas redondezas. Mas eu voltei, porque tinha esquecido o dinheiro e aí vi o sujeito atirando nela de dentro da casa. Ele ficou assustado quando me viu e fugiu, dizendo que tinha feito aquilo a mando de André. Socorri dona Carina e saímos dali naquele mesmo dia, quase na mesma hora. Passamos num médico meu amigo, na cidade. Depois, aluguei um táxi e fomos até Buenos Aires. Da capital, tomamos um trem que nos levou até Uruguaiana e ficamos num sítio, até o dia 20 de fevereiro.
- Por que deixou dona Carina sozinha?
- Ela estava com pouco dinheiro. Me pediu pra ir a Porto Alegre vender ou empenhar duas de suas jóias. Fui e, quando voltei, a casa estava vazia. Ela desapareceu, deixando todas as coisas dela. Sumiu só o pouco dinheiro que tinha e as jóias. Dei queixa à polícia e estou aqui pra perguntar ao senhor onde ela está.
André só foi capaz de balbuciar, com voz fraca, baixa:
- Não é possível. Isso não pode estar acontecendo...
O delegado falou:
- A conclusão que podemos tirar de tudo o que nos foi declarado é que esse homem, o Vidal, deve ter encontrado novamente a pista de Carina e... e feito o serviço, talvez.
- Mas quem é esse Vidal? - perguntou André.
- É o senhor quem vai nos dizer.
- Mas eu não sei! Não sei de nada! Eu não mandei matar minha mulher! Eu nem sabia que ela estava esperando um filho! Isso tudo não pode estar acontecendo, não pode!

Uma revolta filial

O caso de André estourou como uma bomba. Os jornais deram imenso destaque ao fato, e ele foi acusado de ser o mandante do crime. César e Nuno pareciam, assim, ter acertado em cheio a maneira de devolver a André o sofrimento e o desassossego que ele lhes causara. Nuno, porém, jamais podia suspeitar da existência do bilhete de Gilda. Cirilo mostrava-se ensimesmado, evitando sua companhia, tomado por intensa revolta. A coisa evoluiu a tal ponto que Nuno se viu compelido a forçar a situação, obrigando o filho, apesar de suas negaças, a dizer o que ocorria. Cirilo, então, abriu-se, dando vazão a seu asco, e responsabilizando o pai pela morte da mãe. Nuno, de início, ficou surpreso e receoso, mas logo conseguiu contornar a situação; apelou para artimanhas, mentiras, e envolveu o filho de tal maneira que Cirilo, querendo acreditar nele mais para aquietar sua consciência do que por qualquer outra coisa, acabou entregando o bilhete. Nuno, suspirando aliviado, destruiu aquela prova comprometedora. Mas, se a salvação viera por esse lado, por outro Cirilo perdera no pai a antiga fé, cega confiança; revolvia em seu íntimo as injustiças contra André, e começava a enxergar no pai uma outra face, oculta e tenebrosa.