Mostrando postagens com marcador PAULO SENA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PAULO SENA. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 19 de março de 2013

HOMENAGEM - PAULO SENA

Queremos agradecer a Paulo Sena, que compartilhou conosco o Folhetim “O Inferno de um Anjo”.
Obrigado por sua dedicação; pelo trabalho tão bem feito e pelo senso de responsabilidade, não deixando faltar um capítulo sequer e entregando todos no prazo correto.
Esperamos contar com sua colaboração de novo.
Mais que um colaborador, você já se tornou nosso amigo.
Que Deus o abençoe!

domingo, 17 de março de 2013

O INFERNO DE UM ANJO - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO 31 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL


ÚLTIMO CAPÍTULO

Capítulo XXXI
PARA SEMPRE UNIDOS

Mas uma alegria aguardava a Maria "Flor de Amor" no seu regresso àquela cidade onde Marta Aubert, a doce criatura que lhe deu existência, vivia isolada num pavilhão do palácio do conde Fernando como uma doente da qual não se esperava a recuperação.
- Maria - disse-lhe gravemente o conde, apenas chegaram à mansão - está muito contente por ter perto de você o pai, que você tantas vezes invejou às outras meninas?
- Oh, sim, paizinho! -foi a pronta respostada jovem - Agora me sinto tão feliz, tão feliz...
- Ainda vai ser mais feliz, minha filha querida, se Deus, com sua bondade divina, quiser. Chegou o momento, Maria, de você saber que, num pavilhão deste palácio, há uma mulher que foi meu primeiro e único grande amor, Marta!E essa mulher é sua mãe, Maria!
- Minha mãe? - replicou Maria "Flor de Amor, aturdida pela surpresa.
- Sim. Vamos para perto dela - decidiu Fernando.
E juntos pai e filha dirigiram-se até o pavilhão onde a vítima da marquesa Renata vivia entregue aos cuidados de eficiente enfermeira.
- Marta! - pronunciou Fernando, dirigindo-se à mulher que, sentada de costas a eles, observava o vôo dos pássaros no jardim.
Aquela voz, a voz do homem que tanto amava, foi para ela algo semelhante a uma sacudida elétrica.Virou a cabeça, olhou para o conde, em seguida para Maria e imediatamente ficou em pé e começou a andar com trêmulos passos.
- Minha filha! Minha Maria "Flor de Amor"! - exclamou convulsivamente Marta.
- Mãe! Mãezinha querida! - quase gritou Maria, sentindo a voz do sangue no coração, que lhe dizia inequivocamente: "Essa é a mártir que te deu o ser... A infortunada que enlouqueceu porque se viu privada de você, que era todo seu amor, sua esperança e sua alegria."
Com os olhos marejados de lágrimas, o conde Fernando presenciava a comovente cena. E a prece que ele fizera ao Criador Divino suscitara a realidade tão almejada. Marta Aubert não só recuperou, naquele momento, a filha tão adorada, como a luz da razão voltou a brilhar em seu cérebro.
Era o choque necessário para que Marta pudesse voltar ao convívio social, fazendo-o agora nos braços de sua filha.
- Mamãe, vou me casar! - disse Maria "Flor de Amor" à Marta - Meu noivo é o melhor dos homens...
- Minha filha - interrompeu-a Fernando - lembre-se de que agora vai haver dois casamentos. Recuperada, sua mãe não vai se recusar a cumprir a promessa que me fez quando éramos jovens: casar comigo! Não é verdade, Marta, que você irá até o altar para receber a meu lado a bênção de Deus?
- Oh, Fernando... Você não tem outra mulher? – perguntou Marta, agora plenamente dona de sua razão.
- Não - afirmou o conde - Apenas houve um amor platônico. Sempre confiei em sua cura. E assim, através dos anos, conservei-me divorciado. Agora poderei dar à minha filha o nome de Chanteloup, como lhe corresponde. Ela será condessa de Robertson e quando eu deixar de pertencer a este mundo, herdará o título de condessa de Chanteloup.
Marta não ia recusar aquela proposta. E assim uniram-se no mesmo dia e na mesma igreja, a catedral de Nova Orleans, consagrada a Nossa Senhora dos Anjos. As festas do casamento foram apoteóticas. Nunca houve na capital da Louisiana festas de matrimônio como aquelas em que foi solenizada a união de Fernando e Marta e de Maria "Flor de Amor" com Luís Paulo. À sagrada cerimônia nupcial, assistiu entre os convidados, Flora Sardon, a mulher que sonhou um dia em se casar com Fernando, por ter, de certo modo, interessado ao coração do nobre. Mas aquele afeto, que não chegou a ser amor, originado pela solidão sentimental em que Fernando de Chanteloup vivia, agora estava transformado em fraternal afeição.
Flora era a melhor amiga de Marta. E depois de conhecer Maria "Flor de Amor", ficou amiga dela também. Flora não abandonaria o palácio, seria dama de companhia da condessa Marta e professora de piano da baronesa Maria "Flor de Amor".
***

Num daqueles dias, o conde Fernando foi visitado pelo doutor George Brancion que, desta vez, não vinha ao castelo para ver Marta, porque ela já não precisava dos seus cuidados médicos. Ele tinha outro assunto urgente e foi recebido prontamente pelo conde Fernando.
- Prazer em revê-lo, conde Fernando. Não sei se ainda serei bem vindo aqui, uma vez que o senhor sabe que sou filho do falecido doutor Démon. - disse o médico. - Sei que o nome de meu pai só pode suscitar no senhor amargas recordações. Ele fez tanto mal... Peço a Deus que lhe perdoe os muitos crimes que cometeu nesta vida. Eu me esforço em fazer o bem na clínica onde meu pai semeou o mal. Ele fez dela um cárcere de horrores... Falando nisto, na semana passada, eu estive no terrível manicômio de São Roque, administrado por pessoas tão ruins como o autor dos meus dias. No leprosário desse hospício, achei uma senhora, em farrapos, toda cheia de feridas, desesperada, com um desespero que desgarrava a minha alma. Parece que ela foi, violentamente, internada por seu inimigo, o detetive particular Ubaldo Duroi. Ela alega ser a marquesa Renata e com lágrimas nos olhos, pediu-me que eu falasse com o senhor. Ela me disse: “Ele foi meu esposo, ninguém melhor do que ele pode identificar-me e confirmar que sou a marquesa Renata e não a cartomante Ivonne Delapierre”. Essa senhora mostra-se arrependida de suas más ações e confia em conseguir seu perdão.
“Renata, a orgulhosa, a elegantíssima, em farrapos e reclusa no leprosário de um hospício... Que tremendo, que duro castigo para os seus crimes!” Pensou o conde Fernando. E por fim, disse:
- Estou disposto a ajudá-la, apesar de que a marquesa não mereça - foi a resposta do nobre.
- O senhor tem que me desculpar por fazer esta visita com algum atraso. Faz oito dias que falei com essa infortunada. No mesmo dia, caí doente com febre alta e só hoje pude cumprir este dever de caridade.
Nesse momento, o conde Fernando ordenou a seu mordomo:
- Por favor, peça que atrelem os cavalos à berlinda. Vou sair com o doutor George Brancion.
Pouco depois, o conde e o doutor Brancion chegavam às portas do sinistro hospício de São Roque. Fernando de Chanteloup fez-se anunciar ao diretor. Este se apressou em receber o ilustre visitante e ao doutor GeorgeBrancion. Em pessoa, os acompanhou até o leprosário do hospício. Já não estava lá a marquesa Renata Duplessis. Um dos enfermeiros explicou:
- Se ela não estava louca, aqui enlouqueceu indubitavelmente. Possuída de furiosa e agressiva demência, anteontem, foi necessário recolhê-la a uma cela solitária, onde se encontra atualmente.
O conde Fernando a viu por uma janelinha que existia na porta da cela. Era ela sim, terrivelmente desfigurada, envelhecida, com os olhos fora das órbitas, de agora em diante irrecuperavelmente louca...
Fernando de Chanteloup, que era bom cristão, sabia perdoar as ofensas. Resolveu não deixar naquele terrível desamparo aquela infeliz que com más artes, conseguiu, durante um tempo, ser sua esposa. E pediu ao diretor do hospício que Renata fosse transladada ao pavilhão, onde estavam os dementes cuja assistência era custeada pelas famílias.
- Faça-a instalar num quarto limpo e arejado. Ponha uma enfermeira exclusivamente para tomar conta dela.
Mais uma vez, o conde Fernando demonstrou a bondade de seu coração generoso.
Naquele mesmo dia, lendo o jornal, Luís Paulo se deparou com uma notícia que não lhe surpreendeu.
O detetive particular Ubaldo Duroi tinha sido morto à bala. Ignorava-se o autor ou autores do crime.

***

Um ano depois de casados, sem que sua lua-de-mel tivesse entrado em minguante, Maria "Flor de Amor" e Luís Paulo, em vez de mulher e marido pareciam dois noivinhos na fase mais apaixonada de um amor, que não tardaria em dar seus frutos.


- Você, querido, que vai querer? Menino ou menina?
- Eu?... Menina! Uma criatura linda, doce e extremamente bondosa como você!

FIM

BIBLIOTECA GRANDE HOTEL
Fascículos encartados na
Revista Grande Hotelnº 1343 a 1384
Publicações: maio / 1973 a janeiro / 1974 Ilustrações: amartim

sexta-feira, 15 de março de 2013

O INFERNO DE UM ANJO - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO 30 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL


PENÚLTIMO CAPÍTULO

Capítulo XXX
A ENCANTADORA INESQUECÍVEL

Nunca houve neste mundo um homem que tenha feito mais averiguações para descobrir o paradeiro de uma pessoa que o barão Luís Paulo, para saber onde poderia encontrar Maria "Flor de Amor". Mobilizou todos os detetives particulares, toda a polícia oficial, mas com resultado negativo. Ninguém era capaz de indicar pista alguma da desaparecida. Tudo o que se sabia era que ela obtivera um passaporte que permitia viajar por toda Europa e América. Viajou? Passou para os Estados Unidos? Para a Europa ou para a América Latina? Impossível decifrar esse enigma. Nessa época, a polícia não exigia a relação dos passageiros que viajavam em navios com rumo a outros países. Dos que viajavam por estradas, tampouco se tinha referências.
Àquela tarde, Ubaldo Duroi apresentou-se no palácio do barão de Rastignac. Ao porteiro que o interrogara, pois Luís Paulo não queria receber visitas, o detetive respondeu que o assunto que o trouxera até ali era da maior importância para o barão. Quando o empregado transmitiu a Luís Paulo o que dissera o visitante, uma grande esperança apoderou-se dele. Seria possível que aquele policial intrigante tivesse descoberto o paradeiro de Maria "Flor de Amor"? Ordenou, pois, que o fizessem entrar. Não. Infortunadamente, Ubaldo Duroi não sabia nada a respeito da jovem, cujo paradeiro não cessava de esforçar-se por descobrir. Mas ele trazia consigo um documento de capital importância para a vida e o futuro do barão. Luís Paulo escutou isso com absoluta indiferença. Para ele, a única coisa verdadeiramente importante era saber onde podia encontrar a mulher de sua vida, Maria "Flor de Amor". O detetive, todo salamaleques, abriu a pasta que trazia consigo e tirou uma folha de papel almaço, escrita por mão de mulher.
- Este documento tem importância decisiva para vossa excelência - disse Ubaldo. - Nele, Denise reconhece ter-se apropriado do nome e personalidade de Maria Aubert, conhecida por Maria "Flor de Amor", fazendo-se passar por ela para contrair núpcias com o senhor, Sr. Barão.
 Luís Paulo, então, apanhou aquele papel, cuja escrita reconheceu de chofre ser da impostora Denise.
- Sim. Está escrito por ela, evidentemente - disse Luís Paulo. - Agradeço seu interesse em servir-me, Sr. Ubaldo. Muito obrigado.
- Senhor barão, eu gostaria que seu agradecimento por este serviço de tanta valia não se reduzisse a ser expresso apenas com palavras.
- Acho que você tem razão - tornou o barão. E sem mais acrescentar, dirigiu-se até uma papeleira próxima e abriu uma gaveta, retirando dela um pacote de notas, que entregou em seguida ao detetive.
- Cinquenta mil francos!... Muito lhe agradeço - disse Ubaldo. - O senhor sempre foi um cavalheiro verdadeiramente generoso.
- Ponha diante de meus olhos Maria "Flor de Amor", e eu, em recompensa, lhe darei um milhão de francos.
- Oh, um milhão! - exclamou o detetive, deslumbrado. - Vou procurá-la por toda parte, removerei céus e terras até encontrá-la. Dito isto, despediu-se do barão com mais mesuras.
Uma vez só, Luís Paulo guardou numa gaveta a declaração de Denise reconhecendo ter usado nome falso para casar. Esse documento e mais a declaração do falecido, Afonso Houdin constituíam prova suficiente para que os casamentos, tanto religioso como civil, de Luís Paulo e Denise fossem declarados nulos e sem efeito. Mas ele não pensava neste caso judiciário que não tardaria em precisar ser resolvido. Agora, o que ocupava totalmente o pensamento do jovem barão era o anseio de conseguir averiguar o paradeiro de Maria "Flor de Amor", a amada inesquecível de seu coração. Sozinho no seu gabinete, sentindo o desejo de compartilhar com alguém suas mágoas, resolveu escrever ao conde Fernando que, como já dissemos, encontrava-se em Londres. Sentou-se diante da escrivaninha, pegou pena e papel e começou a escrever a seguinte carta:
"Meu querido conde Fernando. Não há exagero em dizer-lhe que estou desesperado. Minhas inúmeras gestões fracassam uma após outra. Passam os dias e não consigo descobrir a mais leve pista de nossa Maria “Flor de Amor”. Mobilizei todos os detetives de Nova Orleans, fiz publicar nos jornais um anúncio oferecendo polpuda recompensa a quem me der notícias dela e só se apresentou um vigarista querendo fazer-me engolir um conto matreiramente urdido. Não sei que mais fazer, nem a quem apelar. E não cesso de refletir e de recorrer a todas aquelas pessoas que, acho eu, poderiam ajudar-nos a chegar até onde se encontra nossa querida Maria "Flor de Amor".
Que me aconselha você que é o pai dela? Escreva-me à volta do correio e sugira algo que me possa servir para, de uma vez, pôr termo a esta insuportável ansiedade. A impaciência e o desespero estão arruinando minha saúde.
                                     Um abraço com todo afeto,
LUÍS PAULO"

Durante sua permanência na Inglaterra, Fernando de Chanteloup deixou de usar seu título de conde francês, para em seu lugar usar o título de conde e Lord britânico, que acabava de herdar de seu tio. Por todo o tempo que Fernando permanecesse na Inglaterra, seria chamado unicamente de Lord ou conde Robertson. E era assim como lhe chamavam os que habitavam o histórico e suntuoso castelo de Robertson ou aqueles que o visitavam para entrar em contato com o seu atual dono.
O conde Fernando recebeu a carta de Luís Paulo e admirou uma vez mais a firmeza e intensidade do amor que o jovem barão professava a Maria "Flor de Amor", a filha com quem o nobre sonhava em compartilhar sua vida, sua velhice serena. Quando Maria "Flor de Amor" estivesse perto dele, não acharia nela o falso amor da impostora Denise, mas sim a ternura franca e sincera de uma verdadeira filha.
- Que ótimo rapaz é Luís Paulo! - ponderou para si o conde Fernando. - Ele fará feliz à nossa suspirada Maria "Flor de Amor", quando Deus quiser que volte para nós.
Eram três horas de uma tarde ensolarada, coisa pouco frequente nos invernos londrinos, pródigos em nevoeiros densos, em céus cinzentos ou chuvosos.
Colocou novamente a carta dentro do envelope e resolveu descer até o jardim para dar umas voltas por suas alamedas, aproveitando o benéfico calor do rei dos astros. Fernando, agora Lord Robertson, observou satisfeito que o jardim estava bem cuidado e que se achava enriquecido por plantas exóticas e raras que, sem dúvida, chamariam a atenção de quantos o visitavam.
Depois avançou pela galeria do térreo do castelo, dirigindo-se para a grande sala de armas. De repente, abriu-se uma porta e no seu umbral apareceu uma jovem loura, modestamente vestida.
O conde Fernando, inconscientemente, olhou para ela e algo semelhante a uma descarga elétrica sacudiu seu ser. Seria possível ou estava sofrendo uma alucinação nascida de sua ânsia de ver à sua frente a tão querida Maria "Flor de Amor"?
Esfregou os olhos para persuadir-se de que não se tratava de um fantasma criado pela sua imaginação. Nesse momento, uma suave, melódica voz feminina exclamava com a mais intensa das surpresas:
- O senhor é o conde Fernando de Chanteloup! Não estou sonhando não!
- Sou algo mais que o conde Fernando para você. Sou seu pai, que a vem procurando tão ansiosamente.
- Meu pai?! Por fim, então, consegui conhecer meu pai? Deus me concede essa alegria, logo eu que sempre pensei ser órfã?
- Não é órfã não, minha querida filhinha - respondeu o nobre, abrindo os braços e apertando amorosamente contra seu coração a conturbada Maria "Flor de Amor", de cujos belos olhos azuis desprendiam-se agora as lágrimas.
- Obrigado, Senhor Todo Poderoso, por eu não ser órfã - disse ela, olhando para o alto com o seu sensível coração cheio de gratidão.
- Você, minha querida, tem pai e tem mãe - disse gravemente o conde.
- Eu procurei minha mãe no manicômio do doutor Démon e ali me disseram que ela morreu...
- Mais uma das tantas mentiras daquele médico bandido, que a estas horas está pagando seus crimes no mesmo inferno. Sua mãe está viva e eu vou levar você até os seus braços.
- Ela está aqui? - perguntou com ansiedade Maria "Flor de Amor".
- Não. Encontra-se em Nova Orleans. Espero que lhe faça um bem imenso recuperar sua filha, pela qual tanto suspirou e chorou - respondeu Fernando de Chanteloup.
- Você, papai, está de passagem por Londres, de visita neste castelo? - perguntou Maria "Flor de Amor".
- Não, minha filha. Não estou de visita, porque este castelo e muitas outras propriedades deste condado me pertencem.
- Mas eu entendera que este castelo pertence ao Lord conde Robertson.
- É que o conde Robertson sou eu, filhinha - esclareceu Fernando. - Por motivo da morte de meu tio, herdei todos os seus bens. Eu vim até Londres para assistir meu velho parente em seus últimos momentos. E você, querida, como é que se encontra aqui? Estava visitando o castelo?
- Não sou visitante e sim empregada. Meu trabalho consiste em cerzir e passar a ferro quente as librés da criadagem - explicou Maria "Flor de Amor".
- Você, a futura Milady condessa Robertson, cerzindo librés daqueles que estão obrigados a ser seus criados atenciosos e obedientes? - exclamou Fernando, consternado pela surpresa. - Minha filha fazendo um trabalho tão inferior, tão impróprio de sua alta classe social?
- Papai, o trabalho sendo honesto, antes enaltece que humilha - observou Maria "Flor de Amor", que não se envergonhava de ter ganhado seu pão mediante seu próprio esforço.
- Sim, minha filha. Vale mais um trabalhador por modesto que seja, que um aristocrata dissipador e parasita.
Nesse momento, o mordomo apareceu, avançando pela galeria. O conde Fernando fez-lhe sinal para que se aproximasse. Assim o fez o servidor, em atitude respeitosa, porém, sem poder dissimular sua estranheza por ver o conde, o atual dono do castelo, em amigável conversa com uma das empregadas mais insignificantes da mansão: a cerzideira das librés.
- Samuel - disse Fernando, encarando seu subordinado.
- Esta senhorita que está ao meu lado é minha filha, é a condessa Maria. Quero que todos vocês acatem e respeitem suas ordens como se fossem minhas.
- As ordens de vossa excelência serão fielmente cumpridas - prometeu o mordomo, inclinando-se respeitosamente.
- Está bem, Samuel. Pode retirar-se.
O mordomo obedeceu com nova e acentuada inclinação da espinha dorsal,
- Agora eu e você vamos para meu gabinete. Temos que escrever uma carta para alguém que vive em intenso desespero por não saber notícias de você. Acho que não preciso dizer quem é.
- Luís Paulo? - exclamou Maria "Flor de Amor" - Mas não é possível. Ele me considera a última das mulheres, a amante de um bandido. Eu aceitei representar aquele odioso papel para evitar que Afonso, um criminoso, matasse o barão. Não pode pensar em mim senão com horror.
- Já não é como você pensa, querida filha. De repente, a verdade resplandeceu. Ferido de morte, Afonso Houdin confessou toda a verdade daquela encenação. Agora Luís Paulo sabe que você continua a ser um anjo de pureza e quer casar com você!
- Oh, meu Deus,que alegria saber que Luís Paulo voltou a considerar-me digna de seu amor! - suspirou Maria "Flor de Amor" com lágrimas nos olhos - Mas você, meu pai, diz que ele quer casar comigo. Porém, isso não é possível, já que Denise é sua esposa.
- Denise confessou ser uma impostora que, à instigação da marquesa Renata, prestou-se a se fazer passar por Maria Aubert, isto é, por você. Ela está fugitiva. E como casou com falso nome, usurpando-o de você, esse casamento é legalmente nulo. Luís Paulo pode considerar-se solteiro e até noivo de você, se você o quiser.
- Oh, que felicidade! - exclamou Maria "Flor de Amor" - Num mesmo dia meu pai me acolhe em seus braços e o homem de minha vida voltou a amar-me, a desejar unir os nossos destinos indissoluvelmente.
Pai e filha tinham chegado diante da porta do gabinete do conde. Entraram nele.
- Vamos escrever a Luís Paulo - propôs Fernando.
- Agora mesmo - disse com impaciência a jovem.
O conde deu, naquela carta, a Luís Paulo, a alvissareira notícia do seu encontro com Maria "Flor de Amor" exatamente em seu próprio castelo de Londres.
Maria "Flor de Amor" limitou-se a escrever estas linhas no fim da carta de seu pai:
"Venha o quanto antes, meu amor. A alegria de saber que ainda me amas faz de mim a mulher mais feliz e invejável deste mundo. E a impaciência me consome, quero que você volte a estar perto de mim para que possamos trocar juras e beijos. Por amor de meu amor, Luís Paulo, pegue o primeiro barco, pois o está esperando sua apaixonada Maria."
Uma vez fechado o envelope, pai e filha saíram em direção ao correio geral de Londres. Num "landeau", suntuosa carruagem, puxada por dois briosos corcéis, dirigiram-se desde o castelo para o centro da grande cidade.
A carta, registrada, foi depositada no correio. Depois, o conde Fernando levou Maria "Flor de Amor" a uma das mais célebres joalherias de Londres.
Brilhantes, esmeraldas, brincos, braceletes, "pendentifs". O conde comprou para sua filha uma fortuna em joias, não escutando a modesta Maria "Flor de Amor", que protestava diante daquelas compras, pois ela não amava o luxo, nem as exibições de riqueza.
- Lembre-se, querida, que você não tardará em ser Milady Maria, condessa de Robertson e, no dia em que eu morrer, passará a ser a condessa de Chanteloup. Quando casar com Luís Paulo, você acrescentará mais um título aos seus: baronesa de Rastignac.
Depois do joalheiro, Fernando levou Maria ao atelier de madame Marcel, costureira francesa estabelecida em Londres e com fama de ser uma das melhores modistas do velho mundo.
Ali encarregou roupas suntuosas de "soirée", de passeio e para a intimidade caseira. E apresentou sua filha como Lady Maria, condessa de Robertson.
- Quando Luís Paulo chegar a Londres - disse o conde Fernando - você possuirá um guarda-roupa completo. Ainda temos que comprar muita coisa para você.

* * *

Era dia de correio da Europa e o jovem barão de Rastignac aguardava ansiosamente a aparição do carteiro. Este, efetivamente, entrou no vestíbulo do palácio e depositou nas mãos do porteiro uma carta lacrada. Já em seu poder, Luís Paulo viu que procedia do conde Fernando. Antes de abri-la, comentou para si:
- Terei de responder-lhe uma vez mais que, apesar de estar removendo céus e terra, não consigo averiguar coisa alguma a respeito de Maria "Flor de Amor".
Abriu a carta sem suspeitar a grande notícia que iria achar nela. Mas quando, com os olhos estupefatos, conseguiu ler, o coração a ponto de saltar de seu peito, que Maria "Flor de Amor" estava ao lado de seu pai, que de humilde empregada no castelo tinha-se transformado em condessa e dona do mesmo, pois o conde Fernando decidira ceder à sua filha tanto o título de nobreza como todas as propriedades e riquezas que ele herdara do tio, o velho conde Robertson, Luís Paulo, crente e fervoroso, caiu de joelhos e seus lábios murmuraram:
- Bendito sejas, Senhor, por ter-nos devolvido a felicidade!
Momentos depois de ter lido essa carta do conde Fernando, que foi como uma ressurreição para o seu coração atribulado, o barão mandou atrelar os cavalos à berlinda e partiu para o centro de Nova Orleans.
O cocheiro deteve a carruagem frente à porta de uma agência de navegação. Nela entrou Luís Paulo, ansioso de saber quando partiria algum vapor com destino a Liverpool.
Teria que esperar quatro mortais dias antes de poder embarcar.
Viveu-os devorado pela impaciência. Que ânsia sentia de se ver frente à Maria "Flor de Amor" e de cair aos seus pés, implorando-lhe perdão por tê-la destratado naquele amaldiçoado hotel, numa cena forjada por uma intrigante e perversa mulher.
Quando, por fim, viu-se na coberta do "Jean Lambert", um suspiro de alívio escapou de seu peito. Logo o barco estaria transportando-o para a felicidade tão almejada, que as crueldades de um destino soberbo o separou.
Passou os dias de navegação com o pensamento fixo na criatura amada, em Maria "Flor de Amor", não a mulher, mas o anjo de sua vida. Mal pisou no porto de Liverpool, saiu quase correndo para tratar de conseguir um lugar na diligência que não demoraria em partir para Londres. Já na capital inglesa, subiu numa carruagem de aluguel, dando ao cocheiro indicação de que deveria levá-lo até o castelo do conde Robertson.
A viagem até esse castelo pareceu a Luís Paulo a mais demorada de sua vida. Mesmo durante a última parte do trajeto, não cessou de pedir ao cocheiro que, em vez de trotar, fizesse galopar os cavalos. Ao anoitecer, o tempo melhorara e o vento bastante frio desviou as nuvens do céu, tornando-o azul como numa noite de primavera.
O castelo pareceu surgir como por encanto entre as velhas e frondosas árvores, após a última curva, tendo por fundo um panorama de montanhas cobertas de neve. Assim que a berlinda estacionou diante do grande portão, Luís Paulo foi recebido por um porteiro de libré que, respeitosamente, tirou o chapéu, saudando-o.
Nesse mesmo instante, em direção do recém-chegado avançava o mordomo do castelo, a dar as boas-vindas ao jovem barão Luís Paulo de Rastignac.
O apaixonado quase que não ouviu aquelas frases corteses do servidor. Movido pela impaciência, Luís Paulo subiu os degraus das escadas de mármore que, desde o jardim, davam acesso ao vestíbulo. Uma vez neste, o barão gritou com toda a força de seus robustos pulmões:
- Maria "Flor de Amor"! Meu anjo! Onde está você? Sou eu... Luís Paulo!
Aquele imperioso chamado pareceu revolucionar a mansão, ecoando pelas salas do castelo e fazendo com que a criadagem acorresse de todos os lados a fim de ver o que estava acontecendo.
O conde Fernando saiu precipitadamente de seu gabinete e com uma expressão de grande e sincera alegria no rosto, correu, braços abertos, a estreitar contra o seu coração o querido viajante.
Os criados os olhavam com comovido respeito, pressentindo que desde aquele dia uma nova vida ia começar no castelo. Lílian, a camareira de Maria "Flor de Amor", correu para os fundos do castelo, onde estavam os luxuosos aposentos ocupados por nossa admirada heroína.
- Senhorita - disse Lílian, dirigindo-se à filha do conde Fernando. - Aquele que com tanta ansiedade estava aguardando... Acaba de chegar.
- O meu Luís Paulo está no castelo? - replicou ela, resistindo a admitir tanta felicidade.
- Ele chamou a senhorita aos brados. Ficou conversando com o senhor conde.
Maria "Flor de Amor" não quis saber mais nada e começou acorrer por uma comprida galeria em direção ao vestíbulo do castelo.
Quando os olhos do barão pousaram na inefável criatura que penetrava no grandioso vestíbulo, trêmulo de paixão, sentiu-se tão transtornado que suas pernas a duras penas conseguiam mantê-lo de pé.
- Maria! Maria "Flor de Amor". Fada da minha vida, rainha do meu coração!
Ela, dominando sua emoção o melhor que podia, avançou em direção de Luís Paulo. Um momento depois, aqueles dois corações batiam lado a lado, enquanto que beijos de supremo amor selavam seus lábios...
- Não estarei sonhando? - exclamou o jovem barão, duvidoso de tanta felicidade. - Deus se apiedou de mim e permitiu que eu chegasse até você! - acrescentou.
Depois Luís Paulo, deixando de abraçar Maria "Flor de Amor", caiu de joelhos diante dela.
- Que faz você, meu querido? - perguntou Maria "Flor de Amor", aturdida pela surpresa de ver o homem que amava naquela atitude contrita.
- Estou pedindo-lhe perdão pelas frases ofensivas e pelo desprezo com que a tratei naquele hotel maldito de Nova Orleans, enganado pelas aparências!
- Oh, meu amor! - ela o desaprovou - por que evocar um passado tão triste neste momento em que somos tão felizes? Apaguem-se em nossa memória tudo o que aconteceu em outros tempos. Vivamos apenas para o presente e também para o futuro, porque penso que há um futuro para nós.
- Os obstáculos que se interpunham entre nós estão desfeitos - depôs Luís Paulo - Antes de sair de nossa cidade, o advogado me comunicou uma notícia que não quero demorar em dar a você. Meu casamento com Denise foi declarado nulo e sem efeito pela Suprema Corte de Justiça de Nova Orleans. Ela casou comigo fingindo ser você, fazendo-se passar pela filha do conde Fernando. Cometeu um delito, pelo qual não poderá ser castigada porque ela já há algum tempo que desapareceu de nosso país. Denise viajou, acho que está em Paris.
- Oh, que bom... Que ótima notícia, meu querido! Você recuperou sua liberdade...
- Uma liberdade que estou pondo aos seus pés. Estou aqui para pedir a meu amigo o conde Fernando a mão de sua encantadora filha. Você aceitará ser esposa deste homem que tão pouco merece essa tão grande felicidade? - perguntou Luís Paulo.
- Espero que meu pai não lhe diga "não", sobretudo depois de me ouvir dizer a você com toda a minha alma: SIM!-
- Meu céu na terra! Meu amor adorado! - prorrompeu Luís Paulo, abraçando-a com ternura. - Vou ser o mais invejado dos homens. Vou ter a mais ideal, a mais cativante das esposas.
- Tem certeza de que você será feliz casando comigo?
- Feliz? Isso é muito pouco. Digo supremamente feliz e estarei um pouco mais perto da realidade. Seu amor, Maria, é para mim como o sangue de minhas veias: não posso viver sem, ele!
Novamente seus lábios se uniram em êxtase apaixonado.
- Meus filhos – disse, então, o conde Fernando, - vocês se esqueceram de que eu estou aqui?
- Oh, conde, perdoe-me - escusou-se Luís Paulo. - Pense o que significa este nosso encontro de agora, depois de tantas penas e sofrimentos, de tanto padecer um distante do outro.
- Não tínhamos combinado - reclamou Maria "Flor de Amor" - que nosso passado ficaria sepultado no panteão do esquecimento?
- Você tem razão. Nunca mais farei a menor alusão ao já acontecido. O passado é passado - prometeu o barão.
- Vocês agora - interveio Fernando de Chanteloup - têm que pensar, sobretudo, no futuro. Mas, antes de tudo, como ouvi esse cavalheiro dizer - acrescentou, apontando para Luís Paulo - que tem de me fazer um pedido, peço-lhe que o formule agora mesmo.
- Candidato-me a ser o esposo dessa moça, que parece amar-me quase tanto como eu a amo.
- Quase!... Suprima essa palavra - exigiu Maria "Flor de Amor".
- Suprimida - disse o barão. - Qual sua resposta, conde Fernando?
- Eu estarei plenamente de acordo com o que resolver minha filha.
- Eu resolvo que... Quero ser para toda a vida, e até depois da morte, a esposa, a companheira dedicada do único homem que posso amar neste mundo: Luís Paulo de Rastignac!
- Pois bem, casal romântico, pergunto a vocês: onde preferem casar, neste velho castelo dos Robertson, na cinzenta Londres,ou em nossa ensolarada Nova Orleans, onde todos nos conhecem e gostam de nós, onde o casamento de vocês será a mais alegre das festas e um autêntico acontecimento social? - perguntou o conde Fernando aos dois jovens.
- Onde prefere, minha querida? - quis saber Luís Paulo.
- Em Nova Orleans - respondeu sem vacilar Maria "Flor de Amor".
- Então, não percamos tempo. Comecemos já os preparativos para a viagem - determinou o conde.
Naquela mesma semana, Maria "Flor de Amor", Luís Paulo e Fernando de Chanteloup abandonavam a nebulosa Inglaterra para reintegrarem-se às terras ensolaradas da Louisiana.
Mais tarde, depois da boda, o conde Fernando voltaria à Inglaterra a dar cumprimento às beneficentes disposições testamentárias de seu falecido tio, última vontade que ele não podia desatender.
Em Nova Orleans, a melhor costureira recebeu o encargo do vestido de noiva para Maria "Flor de Amor". De sua parte, o barão Luís Paulo renovou a mobília de seu palácio para que nada do que pertenceu ou foi usado por Denise estivesse diante dos olhos da que agora ia ser para ele a legítima e definitiva esposa.

NÃO PERCA O ÚLTIMO CAPÍTULO DE “O INFERNO DE UM ANJO”!
__ Qual será o destino de Marta Aubert?

quarta-feira, 13 de março de 2013

O INFERNO DE UM ANJO - SEGUNDA PARTE - CAPÍTULO 29 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA


O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange




Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL

Capítulo XXIX
DENISE E SEU NOVO PAI

Após escutar que o conde Fernando e o barão Luís Paulo sabiam que ela era uma impostora, a falsa filha do nobre, Denise, saiu apressadamente do palácio, usando a berlinda de seu marido. Deu ao cocheiro o endereço de Ubaldo, o detetive particular, sentindo-se mal à ideia de ser beijocada pelo seu novo e verdadeiro pai, por quem tinha um certo asco.
- Minha menina querida! - exclamou Duroi quando a teve ao alcance de seus braços, abraçando-a e beijando-a repetidamente. - Que contente estou de ter uma filha tão linda como você! Filhinha extremada! Veio visitar seu paizinho para matar saudades!
- Não, pai. Estou aqui porque acontecimentos graves assim o exigem - replicou Denise, cortando o afetuoso palavreado do detetive. E acrescentou: - Tive a oportunidade de escutar, sem ser vista, uma conversação mantida pelo conde Fernando com meu marido.
- Sim? E de que falavam eles? Você soube despertar minha curiosidade.
Denise olhou severamente para seu autêntico pai, dando-lhe a compreender que o assunto era muito mais grave do que ele pensava...
- O conde Fernando disse a Luís Paulo que o patife do Afonso, moribundo no hospital onde foi internado depois de ser vítima de uns assaltantes...
- Mas... Eles não mataram a Afonso? - interrompeu Ubaldo, com a máxima estranheza.
- Foi você, pai, quem organizou esse assalto?
- Sim, filhinha. Eu prometi a mim mesmo presenteá-la com o cadáver desse malandro.
- Acho que eles o deixaram por morto, - falou Denise - mas Afonso ainda ficou com vida o bastante para que, suspeitando que o assalto fosse obra minha, em vingança, confessar ao capelão do hospital que eu não sou filha do conde Fernando, e sim uma impostora; e que a sua verdadeira filha é Maria "Flor de Amor". Depois de saber isto, antes que o meu marido ou o conde me expulsasse a pontapés, saí do palácio onde vivia como uma princesa, como sai um cachorro quando é atirado no olho da rua!
- Esses idiotas de que eu me servi - respondeu Ubaldo - pensaram que Afonso estava morto e por isso não lhe deram um tiro na cabeça. Mas acho que nem tudo está perdido. Os nobres, os grã-finos detestam os escândalos. E ainda poderemos tirar uma boa quantia deles, para que você não dê com a língua nos dentes... Isso seria a título de indenização.
- A indenização eu mesma cobrei - rebateu Denise, olhando desdenhosamente para seu pai - Não sou tão tapada para não saber o que fazer numa circunstância como essa. Carreguei todas as joias e uma polpuda soma em dinheiro que havia no cofre.
- Bravo! - interrompeu Ubaldo, com entusiasmo. - Essa é a prova mais definitiva de que você é real e verdadeiramente minha filha! Eu faria isso mesmo num caso semelhante. Assim, você traz consigo nessa maleta as joias e a "grana" com que se auto-indenizou? Pode dá-la a mim, eu tenho cofre e aqui estará bem segura.
- Prefiro conservá-la comigo mesma - respondeu friamente Denise.
E acrescentou:
- Agora sei o que preciso fazer. Desaparecer! Para isso, faz-me falta um passaporte com nome falso. Sei que você pode consegui-lo rapidamente para mim. Este é o motivo principal de minha visita, fique sabendo.
- Conheço realmente quem pode falsificar um passaporte para você com a máxima perfeição. Mas, antes de pensar em distanciar-se de mim, em ir para longe de Nova Orleans - disse o detetive - é preciso que me deixe uma declaração escrita e assinada por você, fazendo saber que, se aceitou fingir ser a filha do conde Fernando, o fez por instigação da marquesa Renata, sua mãe, que a obrigou, depois de empregar violência e castigos, a representar essa infame comédia, que, pela sua própria vontade, você nunca teria representado.
- Qual a finalidade desse documento? - perguntou Denise, olhando fixamente para o seu pai.
- A finalidade é eximir você o máximo possível de qualquer culpa. E acho que, depois de como se comportou com você a marquesa Renata, não poderá importuná-la e acusá-la, ainda mais quando a acusação é, no presente caso, a pura verdade.
- Sim! A marquesa Renata nunca me amou, explorou-me em tudo o que pôde, não conservo dela nem a mais leve lembrança grata. Sim, não tenho inconveniente em redigir essa declaração, será como um presente que vou fazer a você, meu pai, que não tardará em tirar um bom dinheiro com o que eu agora vou escrever.
- Oh, minha querida... Sempre pensando mal... Acha que um pai pode ser interesseiro?
- Tratando-se de você, sim. Não me faço ilusões com minha mãe, tampouco posso fazê-las a respeito de meu genitor.
Desta vez, o detetive achou melhor não replicar. Levantou-se de sua cadeira, oferecendo-a a Denise para que se sentasse a escrever, dando-lhe papel e pena em seguida.
A que foi baronesinha e agora era apenas uma fugitiva do lar doméstico escreveu gostosamente aquela acusação contra a marquesa Renata, a mulher que soube dar à luz uma criatura, mas não soube ou não quis ser mãe dela. Ubaldo leu aquele papel com toda atenção. Estava perfeito!
Denise apresentava a marquesa com a mais negra das luzes. Má mãe, vigarista, farsante, ladra... Como rugiria Renata quando tivesse aquele papel acusador diante dos olhos, escrito pela própria filha!...
- Ótimo! Você serviria para promotora, minha querida - ponderou Duroi - pois sabe acusar como o mais rígido dos magistrados.
Dobrou o papel e o guardou no cofre.
- Essa declaração vale muito mais que um cheque! - Observou sarcástica, Denise. - O senhor, meu pai, saberá tirar proveito da mesma.
- Prometo - repôs o detetive - que o dinheiro que esse papel me der será repartido com você.
- Onde estarei eu quando você o tiver convertido em dinheiro? Estou com urgência de sair de Nova Orleans.
- Então, vamos agora mesmo até a casa do falsificador, meu amigo. Ele atenderá você com maestria e rapidez. É um ás nesse ofício.
Minutos depois, na carruagem que trouxe Denise até o escritório do detetive, pai e filha se dirigiram para a casa do habilíssimo falsificador. Félix Duncan, antigo professor de caligrafia e desenho, a quem a paixão do jogo desencaminhou, convertendo-o num fora da lei, acolheu afetuosamente ao velho amigo Ubaldo Duroi e à moça que o acompanhava. O detetive particular disse a Duncan:
- A jovem que me acompanha é minha filha e está precisando de passaporte.
- Para que país, senhorita? - perguntou Duncan, inclinando-se cortesmente e beijando a mão de Denise.
- Tenciono residir em Paris, mas gostaria que meu passaporte servisse para toda Europa.
- Tenha a bondade de sentar-se - convidou-a Duncan - é questão de dez minutos - acrescentou o falsificador.
Naquela época, não existiam fotografias para documentos, nem se conhecia o sistema de identificação pelas impressões digitais. Apenas a assinatura dos que sabiam escrever aparecia nos passaportes como elemento identificador. Por isso, um documento como aquele que Denise queria obter podia ser falsificado em poucos minutos, sobretudo quando o falsificador era tão hábil como Duncan.
- Seu nome, por favor?
Ubaldo adiantou-se, não dando a sua filha tempo de falar:
- Denise Duroi. É um nome bonito e o que corresponde usar, por ser ela minha filha.
- Mas, papai, esse nome não consta no meu registro de nascimento - objetou Denise.
- Mais adiante, esse nosso problema também será resolvido - prometeu o detetive.
O passaporte da ex-baronesinha era um primor de falsificação. Com ele pôde embarcar sem dificuldade para a França. Denise iria a Paris, queria ser cantora, uma deusa dos cabarés. Conseguiria? Após acompanhar sua filha até o porto e despedir-se dela, prometendo não tardar em reunir-se a ela em Paris, Ubaldo Duroi foi ao encontro dos seus asseclas, aqueles que por ordem sua assaltaram Afonso Houdin, roubando-o e deixando-o por morto.
Eram quatro sujeitos calejados na delinquência. Ubaldo os encarou com a máxima severidade.
- O que foi que eu ordenei a vocês quanto a Afonso Houdin? - perguntou, franzindo o cenho.
- Que o roubássemos e o liquidássemos - disse Hans, um alemão de aspecto colossal.
- Certo. E vocês por que não mataram esse malandro? - replicou Ubaldo.
- Pareceu-nos desnecessário o tiro de misericórdia... Apanhou tanto, que nem que tivesse sete vidas poderia sobreviver.
- Pois sobreviveu o suficiente para poder confessar-se e acusar a quem não devia. É incrível homens tão experimentados no crime como vocês cometerem um erro tão grosseiro!
- O senhor tem razão. Na verdade, nada nos custava meter uma bala na cabeça daquele salafrário de Afonso Houdin - disse o Perneta, um dos quatro bandidos ali reunidos.
- Bem, desta vez passa - afirmou Ubaldo - Da próxima, acabará a liberdade para vocês, voltarão para o presídio, aos trabalhos forçados...
- Senhor Duroi, pode ficar tranquilo. O que lamentavelmente aconteceu não tornará a repetir-se - prometeu com toda solenidade "Mão de veludo", ladrão e assassino, foragido da Ilha do Diabo.
- Aceito suas desculpas e vou encarregar-lhes um trabalho muito mais fácil. Trata-se apenas de que vocês agarrem a uma cartomante, cujo endereço lhes darei.
- Como deverá ela morrer? A golpes de faca? Estrangulada? - perguntou Hans, com a maior indiferença, como rotina de seu criminoso ofício.
- Não! - protestou Duroi, com veemência - Nada de matar essa mulher, eu a quero viva!
- Não precisa ser espancada tampouco? - quis saber o Perneta.
- Não. Agarrem-na apenas e a levem até a antiga casa do Surdo, na estrada velha de Saint-Germain. Ficarei lá esperando que vocês me tragam essa maldita mulher, que tem uma longa conta a saldar comigo.
A casa do Surdo era uma velha e arruinada morada, isolada numa paragem totalmente desabitada, que Duroi adquirira por pouco dinheiro e que era utilizada para seus negócios escusos.
Hans e o Perneta apareceram sorrateiros no novo consultório de cartomancia e feitiçaria que a marquesa Renata abrira num subúrbio de Nova Orleans, lugar onde ninguém a conhecia e onde podia impunemente usar mais um nome falso. Agora ela se chamava Marlene Garnier.
- Ubaldo não pode imaginar que eu, a marquesa Renata, que sempre tanto amou o luxo e o conforto, se resigne a ganhar o pão de cada dia neste bairro de miseráveis - assim refletia ela.
Mas a pérfida mulher se enganava. Ubaldo Duroi, sabedor por Rosane de que fora a marquesa Renata quem denunciou ao barão Luís Paulo os amores de Denise com Afonso, provocando assim a ruína da jovem e estragando os ambiciosos planos do detetive, jurou que castigaria com a máxima crueldade àquela desnaturada mãe, que fora capaz de destruir a magnífica situação de que Denise gozava, morando em um suntuoso palácio e nadando em milhões.
Um dos confidentes contou-lhe que, no mais pobre dos subúrbios da rica cidade de Nova Orleans, tinha-se instalado uma feiticeira que sabia ler o destino de seus clientes nas unhas das mãos e nas cartas do baralho. E que o nome dela era Marlene Garnier.
- Marlene? Nome falso, sem dúvida - observou o detetive. - Descreva seu tipo e sinais particulares.
As descrições que o alcaguete fez coincidiam com as características da marquesa Renata, inclusive uma pinta que a malvada tinha sobre o lábio superior.
- É ela! Renata! - exclamou triunfalmente Ubaldo - Essa jararaca vai padecer todas as penas do inferno agora!
Hans e Perneta apareceram no local em que a marquesa fazia-se passar por vidente, fingindo ser consulentes. Foram recebidos pelo hindu, que continuava a serviço da marquesa. As consultas deviam ser pagas adiantadamente. O Perneta tirou do bolso algumas notas que pôs na mão do hindu. No momento em que este as contava, duas mãos poderosas o agarraram pelo pescoço e o apertaram impiedosamente, até perceber o parrudo Hans, que o asiático estava morto.
Procurando não fazer ruído, o colosso alemão depositou o corpo inanimado do hindu numa das poltronas da saleta.
Em seguida, os dois meliantes penetraram no gabinete de consultas, onde Renata tinha colocado uma coruja, uma serpente empalhada e uma caveira, coisas que impressionavam profundamente aos seus ingênuos clientes. Vendo aqueles dois homens, cujo aspecto nada tinha de tranquilizador, Renata teve o pressentimento de que algo de mal iria acontecer. Pôs-se de pé precipitadamente e tratou de fugir pela porta dos fundos. Hans, que era tão ágil quanto vigoroso, deu um salto de ginasta e crispou suas mãos de assassino nos braços da marquesa com tanta força que lhe arrancou um grito de dor.
A esse grito, seguiu-se outro angustiante:
- Jordi!
Ela ainda não sabia que seu fiel criado hindu estava morto. Foi-lhe impossível gritar mais, porque nesse instante o Perneta a amordaçou, enquanto que Hans a mantinha imobilizada e cobrira-lhe o rosto com um manto, para evitar que ela pudesse ser vista amordaçada. A marquesa foi levada até uma carruagem que estava esperando diante da porta da casa. A uma mulher que perguntou ao "Perneta" se aquela senhora estava doente, o bandido deu-lhe resposta afirmativa.
Um momento depois a berlinda, puxada por dois briosos cavalos, saía daquele mísero subúrbio, dirigindo-se para a casa do Surdo, onde, ardendo de impaciência, Ubaldo Duroi aguardava Renata, a mulher que tanto amara em outro tempo e a quem dedicava agora o mais rancoroso ódio.
Quando a marquesa foi introduzida na sala onde o detetive a aguardava, o terror a convulsionou.
- Amarrem os pés e as mãos dessa fera com aspecto humano e não lhe tirem a mordaça.  Prendam-na bem a uma dessas cadeiras e fiquem aí fora esperando as minhas ordens!
Hans e Perneta fizeram o determinado e depois saíram da sala, ficando perto da porta, para quando Ubaldo precisasse deles novamente.
Uma luz satânica de triunfo e de desforra brilhava agora nos olhos cinza de Ubaldo.
- Chegou a hora de seu castigo, Renata. Você arruinou a vida e o bem-estar de nossa filha. Mãe sem entranhas! Mulher perversa! Você nunca sentiu em seu coração de lama nem amor nem piedade... Você arruinou Marta Aubert. Arrancou-a dos braços do homem que tanto a amava, do conde Fernando, para jogá-la numa cela sombria do pavoroso manicômio do doutor Démon. Pois bem... Chegou a sua hora de pagar. Vai ter a sorte de Marta, muito pior, como você poderá ver com seus próprios olhos. Ah, o fim de sua vida infame será tão lento como cruel. Estou lhe reservando a mais pavorosa das surpresas. Comece a tremer, Renata, se é que o permitem as cordas que a aprisionam.
A marquesa tinha cravado seus olhos, que expressavam angústia e desespero no detetive, naquele homem que tanto a amara e que agora se tornara seu carrasco inexorável. Ubaldo colocou diante dos olhos da marquesa o papel em que Denise, a filha, a considerava a mais desnaturada e perversa das mães. Tua filha te amaldiçoa - acrescentou ele.
- Agora você vai ser levada para o manicômio. E para o manicômio dos pobres, dos desvalidos, dos sem proteção! Vai saber, por si mesma, o que Marta Aubert sofreu por culpa de você numa clínica de loucos! E você vai sofrer muito mais do que ela, porque o hospício que a espera é pior que o inferno!...
Chamados pelo detetive, Hans e Perneta transportaram a marquesa Renata até a berlinda, que ficou esperando diante da porta da casa. Ubaldo subiu à carruagem e sentou-se ao lado da marquesa que, solidamente amarrada e ainda amordaçada, permanecia imóvel como um corpo sem vida.
Se a boca de Renata permanecia fechada pela mordaça, seus ouvidos podiam perceber até os ruídos mais leves. Assim é que sentindo suores de agonia, a marquesa escutava as palavras sarcásticas e ameaçadoras de Ubaldo. Agora este dizia-lhe:
- Vamos levá-la ao sombrio e temido manicômio de São Roque. Aí a ambiciosa marquesa, a mãe sem coração, sem necessidade de morrer, vai sentir-se no pior dos infernos.
O manicômio de São Roque era um velho e triste edifício de pedra granítica com janelas protegidas por grossas grades de enferrujado ferro. Quem ali era internado, dificilmente, tornava a sair, não fosse dentro de um caixão e com rumo ao cemitério.
Quando Renata, pela janela da berlinda, chegou a ver a massa cinzenta da tétrica casa dos mortos vivos, uma aguda sensação de terror paralisou-lhe o correr do sangue nas veias. Os olhos da amordaçada mulher, fixos em Ubaldo, lançavam faíscas de ódio como querendo fulminá-lo. O detetive, bem seguro de seu poder, a correspondia com respectivas gargalhadas. O malandro que servia de cocheiro perguntou ao detetive:
- Deverei deter a carruagem diante da porta principal do manicômio?
- Não! - respondeu Ubaldo - Você parará a berlinda diante da porta dos fundos, reservada para os empregados do asilo.
E assim foi. Quando a berlinda parou no lugar combinado, o único a descer foi Duroi. Fez soar a campainha e um momento depois a porta lhe era aberta por um porteiro alto e forte como um carvalho.
- Quero falar com o Sr. Duperier - Faça favor de dizer-lhe que o detetive Duroi deseja falar-lhe.
Após uns instantes de espera, Ubaldo foi introduzido no gabinete do subdiretor do asilo, o senhor Duperier, que recebeu a Duroi com um afetuoso apertão de mãos.
- Meu caro - disse o detetive - a "doente" da qual eu lhe falei veio comigo. Está aí fora esperando a sua internação. Continua o amigo disposto a recebê-la neste asilo?
- Pois não! Eu quando prometo é para cumprir. Estou às ordens - foi a resposta do subdiretor.
- Caro amigo - disse o detetive a Duperier - estou aqui por um duplo motivo.
- Duplo motivo? - Não compreendo... - falou o subdiretor do hospício, olhando fixamente Ubaldo - Explique-se.
- Muito simples. Trata-se de fazermos nós dois um bonito negócio e de prestar um serviço importante a uma das mais poderosas famílias de Nova Orleans - esclareceu Ubaldo Duroi.
- Os negócios precisam apenas ser bons, não bonitos, observou o subdiretor, sabendo que o detetive era um tratante e desconfiava dele.
- Quando falei de bonito, quis dizer bom. Trata-se de internar neste manicômio uma nefanda mulher, que tem tanto de louca como de perversa. E achei que, contando com você, o melhor lugar para fechá-la perpetuamente é este manicômio, cujo nome basta para inspirar pavor aos cidadãos pacatos.
- Aqui quem entra sem ser louco, acaba ficando em quinze dias de estadia - afirmou orgulhosamente Duperier.
- Sei disso. A sinistra fama do hospício de São Roque é merecida - disse Ubaldo. - Portanto, é o lugar ideal para internar uma bruxa, uma verdadeira feiticeira que conseguiu infernar a vida de uma das mais respeitáveis famílias da nossa capital. Imagine você! Essa infame mulher, mediante artes demoníacas, fez ficar leprosa a uma bela moça da alta roda... - mentiu Duroi - E a família, com razão, quer vingar essa afronta, castigar a malvada...
- Bem que merece exemplar castigo - aprovou Duperier.
- Em parte alguma, essa megera poderá expiar suas culpas com um castigo tão duro como entre estas paredes. Neste hospício viverá como no próprio inferno. E me diga uma coisa, Ubaldo, quanto pagará essa honrada família pela internação?
- Trinta mil francos. São generosos, não lhe parece? - disse o detetive.
- Nem tanto! - Por menos de cinquenta mil francos essa mulher não ingressa neste hospício.
- Cinquenta mil francos? Você está exagerando, meu caro Duperier.
- Nem um centavo a menos. A responsabilidade é grande. Considere que se trata de tirar para sempre essa mulher do convívio social. Ou aceita ou você procura outro manicômio, que não vai encontrar.
- Sendo assim, aceito esse preço tão alto, mas com uma condição: que essa mulher seja encerrada no pavilhão dos loucos leprosos - exigiu o detetive, com os olhos ardendo de ódio implacável.
- No pavilhão dos dementes leprosos? - replicou Duperier, todo admirado - Meu caro, esse local abominável é pior que o próprio inferno. Tenho dez anos aqui como subdiretor e ainda não me atrevi a visitá-lo. Acho que essa mulher não será morta pela lepra, mas sim pelos loucos desse pavilhão, que são verdadeiros endemoniados!
- Que morra - sentenciou Duroi - mas que sua morte seja atroz como atrozes têm sido seus crimes.
Dizendo aquilo, pagou em boas moedas de ouro, que trazia num saquinho, os cinquenta mil francos exigidos pelo subdiretor.
Momentos depois, a marquesa Renata fazia sua entrada, conduzida por dois asseclas do detetive. Ela tinha agora as pernas livre das cordas, mas conservava as mãos amarradas nas costas e a mordaça impedia-lhe de falar. Terror e ódio se alternavam nos seus olhos, enquanto que a noção do trágico destino que a aguardava apertava seu coração. Incapaz de se arrepender, só sabia amaldiçoar em pensamento, já que sua garganta não podia articular som algum. O subdiretor agitou uma campainha e dois fortes enfermeiros penetraram instantes depois no gabinete.
- Essa louca que acaba de me ser confiada em nome da segurança pública - disse o subdiretor a seus subordinados - é demente perigosa e deve ser internada no pavilhão onde permanecem isolados aqueles que, além de loucos, vivem devorados pela horrível e contagiosa doença que é a lepra.
Apenas ouviu estas últimas palavras, a marquesa Renata fez uma tentativa de fuga tão desesperada quanto inútil. Os dois hercúleos enfermeiros se apoderaram dela e a empurraram em direção à porta. Seu destino estava selado!
- Agora você vai pagar todo o mal que fez a sua filha! Mãe perversa! Vai sofrer o mais atroz de todos os castigos! - disse-lhe Ubaldo, encarando-a pela última vez.
Pouco depois, a grande porta de ferro do leprosário do hospício se abria para dar passagem àquela que foi marquesa e que agora iria transformar-se num mísero farrapo humano.
Os loucos acudiram em tropel para receber a recém-chegada.
E quando observaram suas boas roupas e seu ar de mulher da alta roda, um sentimento de ódio despertou naqueles maltrapilhos.
- É uma grã-fina! - começaram a gritar, dançando em torno dela - O luxo a enlouqueceu! Ela não é leprosa! Mas não tardará em sê-lo, estando em nossa companhia!
Eram estas e outras frases em que prorrompiam os dementes exaltados, pela presença daquela colega tão diferente.
Tiraram-lhe as cordas que ainda imobilizavam seus braços, para melhor poder arrebatar-lhe as roupas que tanto invejaram as mulheres dementes, que apenas vestiam desgarrados farrapos. E também lhe tiraram a mordaça, curiosos por saber dela quem ela era, de onde vinha e como se chamava.
- Eu não estou louca! - gritou Renata, apenas ficou livre da mordaça. - É um crime o que estão fazendo comigo!
- Nenhum de nós é louco - replicou-lhe um demente de sinistro aspecto. - Atreva-se a repetir a palavra "louco", e eu mesmo a estrangulo!
Entretanto, no gabinete do subdiretor, conversavam Duperier e Ubaldo Duroi.
O detetive disse ao seu cúmplice e amigo:
- Essa vigarista, cujo nome é Ivonne Delapierre, tem delírio de grandeza e às vezes dá por chamar-se de marquesa Renata, mais exatamente. Mas de marquesa ela tem o que eu tenho de bispo. Trapaceira, cartomante, valia-se da magia negra para praticar o mal. Por fim, graças a mim e graças a você, terá ela neste hospício a sorte que merece.