quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SESSÃO LEITURA - COMEÇOU, ELE DISSE - MARINA COLASANTI

O texto abaixo é de autoria de Marina Colasanti.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/marina_colasanti/.
Boa leitura!

COMEÇOU, ELE DISSE

Acordou com o primeiro tiro sem saber porque tinha acordado. Trazia porém do sono um aviso de alarme. Sem se mexer, sem abrir completamente os olhos para não denunciar sua vigília, olhou em volta pela fresta das pálpebras. Lentamente percorreu as sombras, detendo-se mais na cadeira, onde as roupas jogadas criavam formas que não lhe eram familiares. Fazia sempre assim quando acordava de repente no meio da noite e o coração descompassado lhe dizia que talvez houvesse algum invasor no quarto. E cada vez se detinha na cadeira. Não havia ninguém. Permitiu-se então abrir os olhos, levantar a cabeça, só pelo prazer de tornar a fechá-los, ajeitando-se no travesseiro. O segundo tiro estalou seco na rua.
O som colheu-o no estômago, na cabeça, na pele. E com a pele pareceu eriçar os lençóis, ferir a colcha. Mesmo assim não se mexeu.
Um tiro que assalta nosso sono sempre atinge o alvo, ainda que o alvo não sejamos nós, pensou surpreendendo-se com a nitidez do pensamento. Sentia-se atingido, a sensação tão mais importante do que a ordem das palavras.
Esperou um instante para ver se a mulher a seu lado na cama se mexia. Mas o colchão continuou imóvel como se vazio. Melhor assim, ela era muito impressionável, se acordasse o assunto acabaria se estendendo no dia seguinte tornando-se difícil de apagar. Ele próprio continuou na mesma posição. Tentou ouvir a respiração dela. Antes que o conseguisse, adormeceu.
Talvez tivesse apenas cochilado, questão de minutos, porque logo estava novamente acordado, olhos bem abertos, nenhum descompasso, e a certeza de saber quem lhe entrava quarto adentro. Dessa vez não era um tiro. Rajadas de metralhadora pareciam ricochetear entre os prédios estremecendo os vidros da janela. Um corte no ar, picotes abrindo superfícies que ele não via, não imaginava, recusando-se ainda a pensar carne e sangue. As rajadas seguiam-se a intervalos pequenos. E a cada brecha de silêncio ele desejava que fosse a última, fechando a noite onde ela havia sido rasgada, restaurando integridade da escuridão como o lago restaura sua superfície encobrindo o corpo que caiu.
A primeira granada estourou altíssima. Começou, disse mulher. E ele então mexeu-se porque já não era necessário cuidar do sono dela. Começou, respondeu. Continuaram no escuro.
Da rua — mas seria mesmo daquela rua?, os sons se alastravam com tal rapidez que poderiam estar vindo da praça, ou de outra rua —, de onde quer que fosse, ali embaixo ou ali perto, chegavam agora tiros de revólver. E gritos. Eram ordens gritadas, iradas, esparsas. Será que não acertam ninguém, perguntou-se ele calado, porque nenhum grito de dor ou de medo lhe chegava e a dor e medo pareciam ser só dele, dele que ali deitado não era a caça de ninguém e se sentia ferido. Desejou que se matassem, que se rasgassem, que se largassem aos pedaços pelo chão.
Levantou-se. Não vai, disse a mulher, embora sabendo que ele só iria até a janela e que mesmo assim o chegaria perto dos vidros, protegendo-se atrás da quina de cimento. Não vai, você está louco, uma bala perdida te acerta. Nessa altura não chega, disse ele certo que no alto daquele prédio alto nenhuma bala viria se perder, e ainda assim não ousando aproximar-se nem muito menos debruçar o corpo e esticar o pescoço para vasculhar, vasculhar o escuro e saber, com alguma mínima certeza, o que estava se passando.
Entre vidro e cimento olhou para baixo. Acreditou ter visto sombras furtivas. Certamente defendiam-se atrás dos carros estacionados, protegiam-se nos portões, alguns haveriam de correr entre um anteparo e outro, armas nas mãos. Estão lá embaixo, disse para a mulher. Mas sabia que tinha visto o que queria ver, talvez não houvesse ninguém naquele rio negro que era a rua visualizada do alto e ainda por cima encoberta pelas copas das árvores, talvez estivessem mais para lá, além do sinal luminoso que alheio como um farol continuava a trocar de cor.
Uma explosão. E quase em cima daquela, outra. Mais fortes, dessa vez. Recuou rápido, meteu-se na cama. Estão usando armamento pesado, disse a mulher como se entendesse de armamento. E ele respondeu, talvez sejam granadas, sabendo muito bem que nunca antes tinha ouvido uma explosão de granada e que não saberia distingui-la de qualquer outra explosão.
A fuzilaria pipocou, as balas pareciam ferir chapas de metal. Ao longe, sons semelhantes responderam. Depois explosões em série, um estrondo. E o silêncio. Nenhum carro passava.
Eles não encontravam nada para dizer. Pensavam que deveriam tentar dormir porque no dia seguinte, mas como? e se deixavam ficar, tomados por aquele medo que não era medo porque nada iria lhes acontecer mas que era medo porque tudo estava lhes acontecendo. Durante longo tempo ouviram o tiroteio intenso que ora se aproximava, ora parecia afastar-se, quase ocorresse atrás de muros. Aquilo não tinha fim. Como uma guerra, pensou ele encolhendo as pernas sobre o peito, de costas para a mulher. As rajadas multiplicavam-se em ecos, silenciavam de repente, sobrepunham-se. Sentiu um desespero sem conserto apertar-lhe a boca, azedar-lhe a saliva. Como uma guerra, disse em voz alta. E ela não respondeu, mas ele teve certeza de que em silêncio repetia, uma guerra meu deus uma guerra.
Uma guerra da qual amanhã certamente não haveria nenhum vestígio nas ruas, nenhuma notícia no jornal. Uma guerra em que todos lutavam com o rosto coberto. Chegaria um momento, na madrugada, quando as pessoas em suas camas estivessem exaustas, olhos ardendo de sono e secura, quando a batalha lá embaixo estivesse perdida ou gasta, chegaria um momento em que não se ouviriam mais tiros só cães latindo, e ele se perguntaria, como se perguntava cada vez, onde estão os mortos, onde, e quantos são, um momento em que afinal esticaria as pernas debaixo do lençol e deitado sobre as costas se permitiria afinal adormecer.
Olhou o despertador, mas a fluorescência há muito tinha se esvaído. Que hora será? perguntou à mulher, quando na verdade queria perguntar há quanto tempo estamos aqui e quanto tempo ainda teremos que ficar ouvindo, ouvindo o esfacelamento da noite. É tarde, respondeu a mulher só para dar-lhe uma resposta, ela que também tinha perguntas a fazer mas, para quê? E ele pensou é tarde, e teve vontade de chorar.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/comecou-ele-disse-conto-de-marina-colasanti/.

SESSÃO ABERTURA DE PROGRAMA DE AUDITÓRIO - SR. BRASIL (2015)

Sr. Brasil foi um programa de auditório exibido pela TV Cultura, TV Brasil e SESC TV entre 5 de julho de 2005 e 20 de novembro de 2022.
O programa era apresentado por Rolando Boldrin.
Para maiores informações sobre o programa, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sr._Brasil.
Boa diversão!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

SESSÃO SAUDADE - LÍDIA MATTOS

A homenagem de hoje vai para a atriz Lídia Mattos.



Poucas artistas atravessam tantas fases da história da televisão, do cinema e do teatro brasileiro com a elegância, a força e a versatilidade de Lídia Mattos. Nascida para os palcos e para as câmeras, ela construiu uma carreira que começou ainda nos anos 1930 e se estendeu por mais de seis décadas, sempre com a mesma entrega apaixonada ao ofício de interpretar.
No cinema, Lídia brilhou em produções que marcaram época. Participou de filmes como A Menina do Lado, Dedé Mamata, O Coronel e o Lobisomem, Tangarela, e tantos outros. Seu talento foi reconhecido oficialmente em 2000, quando venceu o Prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Gramado por sua atuação em Eu Não Conhecia Tururú — um momento que coroou uma trajetória já consagrada.
Na TV, Lídia Mattos fez parte de novelas e programas que moldaram a teledramaturgia nacional. Esteve em Selva de Pedra, O Bem-Amado, Plumas e Paetês, Brilhante, A Próxima Vítima, Direito de Amar, Quem É Você?, além de participações marcantes em séries e especiais.
Em 1976, integrou o elenco do humorístico Planeta dos Homens, mostrando mais uma vez sua versatilidade e seu talento para o humor.
Sua presença era daquelas que iluminavam a cena: firme, elegante, sempre precisa.
No teatro, atuou em montagens importantes como César e Cleópatra, Luz de Gás, Família Barrett, Divórcio, Cupim da Sociedade, Os Filhos do Silêncio e muitas outras.
Obrigado, Lídia Mattos, por essa linda carreira que atravessou gerações, linguagens e formatos!
Descanse em paz!
Para saber mais sobre esta artista, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADdia_Mattos.
Com o objetivo de homenageá-la, reproduzimos pequeno da novela A Próxima Vítima, em que contracena com Cláudia Ohana e Vítor Branco.


Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=etQAJX_WyWw

SESSÃO HUMOR

Na mesa do bar:
— Diz aí, o seu técnico realmente sabe algo de futebol?
— Sim! Antes do jogo ele nos diz como ganhar, e depois do jogo analisa porque perdemos.

Fonte: https://piadas.biz/de/futebol.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SESSÃO REMAKE MUSICAL - FELIZ - INGRID SALES

A canção Feliz, originalmente interpretada por Gonzaguinha, é apresentada no vídeo abaixo por Ingrid Sales.
Boa diversão!



LETRA

FELIZ

Compositor: Gonzaguinha

Para quem bem viveu o amor
Duas vidas que abrem
Não acabam com a luz
São pequenas estrelas
Que correm no céu
Trajetórias opostas
Sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre
De um coração que voou
É um afeto deixado nas veias
De um coração que ficou
É a certeza da eterna presença
Da vida que foi
Da vida que vai
É a saudade da boa
Feliz, cantar

Que foi, foi, foi
Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais
Maravilhosamente amar

Fonte: https://www.letras.mus.br/gonzaguinha/259336/

SESSÃO TÚNEL DO TEMPO MUSICAL - FELIZ - GONZAGUINHA

A canção Feliz, interpretada por Gonzaguinha, fez parte da trilha sonora da novela Eu Prometo, apresentada pela Rede Globo no horário das 22h15 de 19 de setembro de 1983 a 17 de fevereiro de 1984.
Para maiores informações sobre a novela, favor acessar: https://observatoriodatv.com.br/teledramaturgia/eu-prometo/.
Boa diversão!



LETRA

FELIZ

Compositor: Gonzaguinha

Para quem bem viveu o amor
Duas vidas que abrem
Não acabam com a luz
São pequenas estrelas
Que correm no céu
Trajetórias opostas
Sem jamais deixar de se olhar

É um carinho guardado no cofre
De um coração que voou
É um afeto deixado nas veias
De um coração que ficou
É a certeza da eterna presença
Da vida que foi
Da vida que vai
É a saudade da boa
Feliz, cantar

Que foi, foi, foi
Foi bom e pra sempre será
Mais, mais, mais
Maravilhosamente amar

Fonte: https://www.letras.mus.br/gonzaguinha/259336/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

SESSÃO RETRÔ - VARIEDADES - NYDIA LÍCIA

A reportagem abaixo foi publicada na revista TV Intervalo nr. 52, referente ao período de 05 a 11/01/64.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!