O texto abaixo é da autoria de Dinah Silveira de Queiroz.
Para maiores informações sobre a autora, favor consultar: http://www.releituras.com/dinahsq_moralista.asp.
Boa leitura!
QUEM QUER ESPOSAR A CRÔNICA
Como prometi – direi hoje o que penso da crônica. Confesso que, perguntada por um leitor, pelo telefone, sobre, “o que é afinal, a crônica”, tive alguma dificuldade em responder, e preferi gastar um “café” com esta resposta, que talvez aproveite a outros – embora não pretenda passar por professora, e aqui esteja oferecendo apenas minha fraca experiência.
Se o
leitor quiser consultar um dicionário talvez encontre isto: chronica: “história
ou narração dos fatos, segundo a ordem dos tempos”. E logo, esta perturbação:
chronica escandalosa, os boatos maledicentes a respeito de certas pessoas numa
terra. Biografia escandalosa de uma pessoa: “Todos sabem a chronica. Por fim,
você que deseja escrever uma crônica sem saber, bem ao certo, como ficar dentro
dos limites do gênero – encontra apenas esta secura: “Narração dos principais
acontecimentos. Chronica política. Chronica literária. F. lat. Chronica.
Eis
aí, meu amigo, como se fica zonzo com bordoada na cabeça. Feche o dicionário, e
ouça esta definição que talvez pareça chocante:
A
chronica é a fraqueza do jornal.
Com
isso não estou desmerecendo o gênero. Mas todo o jornal que se preza deve ser preciso
e austero. A crônica, necessariamente, carece fugir da fria exatidão e da austeridade,
e ainda que muitas vezes alcance em cheio o seu objetivo sério, não deve vestir
a roupagem sisuda. Disse que é uma “fraqueza”. Está visto. Um editorial, por exemplo,
sai da boca do jornal. E ele próprio quem fala; que jamais nele se estampe a figura
ou os tiques de quem o fez. A crônica, não. É o próprio autor – mais ou menos
sem compromisso com toda aquela república de ideais e preconceitos que é um
jornal.
Todavia,
o cronista deve ter a habilidade – aí talvez já seja o instinto – de carregar
para a sua página aquele terreno comum em que nos encontramos com o próximo, o
nosso inimigo. Falei em “fraqueza”, mas não falei em futilidade. Crônica fútil
é coisa detestável.
Digamos,
porém, que o sentimentalismo é uma fraqueza. Se você souber dosá-lo poderá fazer
uma ótima crônica. Muitas pessoas enveredam pelo terreno da reportagem, e pensam
que foram esplêndidos cronistas. Um bom pelejador dessa forma literária também
foge da precisão, e joga com a força da surpresa, ou com os benefícios de uma evocação
oportuna, quando narra um fato. Fartamente se deve munir o cronista dos recursos
da poesia, mas sempre com cuidado para não cair no meloso, ou no róseo.
Crônica
se faz a propósito de tudo, até de assuntos respeitáveis, como os incêndios de uma
cidade, que também dariam excelentes reportagens ou editoriais. Mas será
preciso saber fugir várias vezes, com habilidade, ao tema, citar por exemplo as
mudanças – cinco mudanças valem um incêndio ou falar sobre um baile dos “Heróis
das chamas”, no meio da narração. Todavia, há assuntos que só dariam crônicas.
São as mais legítimas “fraquezas”, e o melhor material para o cronista, embora
nos dias que correm os preguiçosos contistas passem o “conto” da crônica pelo
conto. Talvez seja por esse motivo que um meu ilustre e caro amigo despreze o
conto, que assim fica uma espécie de gato por lebre.
Darei
aqui a amostra de um desses típicos temas. O assunto foi colhido numa conversa.
Certa
senhora havia terminado o seu desquite, e então resolveu espairecer de
angústias e tristezas. Foi para um hotel. À hora do jantar procurou uma mesinha
mais discreta, lá no fundo do salão. O garçom acudiu, solícito, e perguntou:
–
Madame está só?
E
quem contou esta história teve uma tremura na fala ao continuar:
–
Estou sozinha, sim! Quando eu disse isso ao garçom, não sei por que me vi como personagem
de um romance francês qualquer, que bem poderia acabar com minha resposta:
Estou sozinha, sim! Mal disfarcei o desejo de chorar.
Essa
narração, bem aproveitada, poderia dar um desses flamantes pedaços de vida que passam
às vezes sob nossos olhos, num jornal, e que, no dia seguinte são esquecidos.
Porque
o cronista passa, ainda que esbanje mais talento, às vezes, que o historiador.
Quem
quer esposar a crônica deve saber amar o momento fugidio.
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/20057/quem-quer-esposar-a-cronica.

.jpg)