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quinta-feira, 22 de junho de 2023

SESSÃO LEITURA - O INIMIGO - ANTON TCHEKHOV

O texto abaixo é de autoria do russo Anton Tchecov.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://educacao.uol.com.br/biografias/anton-pavlovitch-tchekhov.htm.
Boa leitura!

O INIMIGO

Anoite desceu há muito sobre a paisagem de neve, uma noite escura e profunda, que envolve seres e coisas no silêncio e na paz. Àquela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debruçada sobre o berço onde o menino não quer dormir. Varka tem apenas treze anos, é pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos são tristes e vagos. Agora impulsiona suavemente o berço e canta baixinho, com voz branda, uma canção de ninar. "Dorme, menino bonito, que o bicho vem pegar..." Uma lamparina verde, acesa junto ao ícone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; peças de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o compartimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande círculo verde, as sombras das peças de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas sobre a estufa, sobre Varka e sobre o berço.
Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, está rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas forças. Varka tem um sono terrível, seus olhos se cerram apesar de todos os esforços; e ela acha que o menino jamais se acalmará. Por mais esforço que faça, sente que as pálpebras se ligam, começa a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os lábios. Dentro dela cresce uma impressão estranha, parece-lhe que o rosto é de madeira e que a cabeça é pequena, como a de um alfinete. "Dorme, menino bonito..." Sua voz é apenas perceptível, um cicio trêmulo na noite profunda. Ouve-se agora o canto monótono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o berço geme, tristíssimo.
Todos esses ruídos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce música, boa para fazer dormir. Mas Varka não pode deitar-se, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patrões a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela música acalentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terrível que a subjuga. Quando poderá estender-se no chão e dormir, dormir profundamente, dormir e não acordar nunca mais?
A lamparina está a ponto de apagar-se, a chama tênue oscila incerta. O círculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua cabeça meio adormecida nascem sonhos vagos e fantásticos. Através dos sonhos ela vê nuvens negras correndo no céu, nuvens que choram aos gritos, como crianças de peito. O vento, porém, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos às costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bosques cobertos de neve. Subitamente os caminhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta então:
— Por que é que vocês fazem isso?
— Para dormir! — dizem todos. — Queremos dormir!
E dormem tranquilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respirações, o arfar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.
De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do telégrafo, fazem tudo para despertá-los. "Dorme, menino bonito..." Entre os sonhos a voz de Varka é mais débil ainda.
Pouco depois sonha que está em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamava-se Efim Stepanov, já morreu há muito tempo, mas ela o sente agora revolvendo-se no chão. Não pode vê-lo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doença que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorce-se e range os dentes.
A mãe de Varka saiu correndo, rumo à casa senhorial, para dizer que o marido está morrendo, e ainda não voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi há muito tempo, já devia ter chegado.
Varka está encostada na estufa, continua sonhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um médico ainda moço para ver o agonizante. Entra em silêncio. Varka não consegue vê-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.
— Acenda a luz — diz ele, por fim.
Efim Stepanov range os dentes em resposta e a mãe de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, à procura de velas. Depois de um longo silêncio o doutor tira uma do bolso e acende-a.
As faces do doente estão roxas, as pupilas brilham intensamente e os olhares parecem fundir-se estranhamente agudo no doutor e nas paredes.
— Que é isso, homem? — pergunta o médico inclinando-se sobre ele. — Há muito tempo que está doente?
— Chegou na hora, doutor — respondeu Efim Stepanov penosamente. — Não tenho ilusões.
— Não diga tolices. Você vai ver como fica bom.
— Obrigado, doutor. Eu sei, porém, que não há remédio. Quando a morte diz "aqui estou", é inútil lutar contra ela.
O médico olha demoradamente o velho e declara:
— Já não posso fazer nada. É preciso levá-lo ao hospital para ser operado imediatamente. Ainda que seja tarde, não importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receberá você. Mas sem perda de tempo!
— Doutor, como havemos de levá-lo? — pergunta a mãe. — Não temos cavalos.
O médico olha-a um instante e depois diz:
— Não tem importância. Explicarei isso lá na casa senhorial e eles mandarão um.
O médico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribundo.
Meia hora depois um coche para à porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.
Passa enfim a noite e sai o sol, a manhã clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka está triste. Sua mãe foi ao hospital ver como passa o marido e ainda não voltou. Varka olha a paisagem através da janela meio carcomida, contempla a extensão de neve, o coração se confrange a solidão pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma canção suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que é a sua própria voz que canta.
Agora vê na distância o vulto negro de sua mãe na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignando-se.
— Acabaram de operá-lo, mas ele morreu! Deus o tenha no céu. O doutor disse que a operação foi feita demasiado tarde.
Varka sai de casa e se dirige para o bosque, ao longe. Cresce dentro dela um profundo sentimento de dor e de mágoa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo dolorido, os pés terrivelmente frios a enterrarem-se na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a distância aumenta cada vez mais...
Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do berço. Acorda e vê com terror a cara tirânica do patrão, que grita:
— Peste! O menino chorando e tu dormindo!
O patrão ainda lhe puxa as orelhas com força brutal, deixa-a humilde e atônita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sacode a cabeça com força, para afugentar o sono irresistível, e põe-se de novo a embalar o berço, cantando com voz afogada.
O círculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patrão sal ela volta a dormir, começa outra vez a sonhar — e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra úmida. Ela também quer deitar-se, mas sua mãe caminha ao lado e não deixa. Varka não pode dormir, ambas se dirigem a uma grande cidade em busca de trabalho. De repente a mãe olha a multidão, para e estende a mão, pedindo:
— Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadecei-vos de nós, bons cristãos!
Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do sonho, partindo a visão que lhe resta da mãe.
— Dá-me o menino! Outra vez dormindo, peste!
Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma pé na realidade; não há caminho nem caminhantes, nem a mãe está junto dela. Só vê a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.
Enquanto o menino mama, ela espera de pé, pacientemente, meio tonta, esforçando-se para não dormir diante da patroa.
O espaço começa a azular-se atrás dos vitrais, o círculo verde do teto e as sombras vão empalidecendo, desmaiando nas paredes, a manhã vem surgindo maravilhosamente branca.
A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Volta-se para Varka berrando:
— Toma o menino! Não sei o que está acontecendo. Sempre chorando, chorando!
Ela estende os braços, deita a criança no berço e embala-o. O círculo verde e as sombras, menos perceptíveis a cada instante, já não exercem nenhuma influência sobre Varka, que já não os percebe. Apesar disso, entretanto, ela tem sono, um sono terrível, e sua necessidade de dormir é imperiosa, irresistível. Apoia a cabeça na borda do berço e deixa o corpo embalar-se, acompanhando o movimento rítmico, que provoca um ruído seco e monótono, como um gemido. Os olhos estão quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:
— Varka! acende a estufa!
Já é dia, vai começar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o berço, corre à estufa. Anima-se um pouco, acha mais fácil resistir ao sono andando do que assentada. A névoa que envolvia sua cabeça vai-se dissipando.
— Varka! prepara o samovar! — grita a patroa.
As ordens não cessam, são muitas e confundem-na.
— Varka, limpa as botinas do patrão!
Enquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabeça num daqueles sapatões e dormir um tempo enorme. Subitamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espaço enorme, côncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da mão lentamente, põe-se a dormir.
Um minuto apenas, e acorda sobressaltada, faz um grande esforço, sacode a cabeça, abre os olhos o mais que pode.
— Varka! Vai lavar a escada! Está tão suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.
Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaivém interminável. São tantos os afazeres que ela não tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso é ficar de pé, imóvel, diante da mesa da cozinha, descascando batatas. A cabeça se inclina, sem que lhe seja possível evitá-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fantásticas, suas mãos já não podem sustentá-las. Mas não pode deixar-se vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali está a patroa, gorda e má, indiferente ao seu suplício. Há momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no chão e dormir, dormir, dormir.
Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infindáveis, os cílios prestes a ligarem-se pesados, o grande esforço para não dormir e os gritos da patroa.
Enfim chega a noite e Varka olha as trevas através da janela, sente aquela mesma impressão estranha de que seu rosto é de madeira. Sorri de modo estúpido, completamente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a esperança de poder dormir.
Há uma visita naquela noite, movimentos diferentes, vozes confusas.
— Varka, acende o samovar!
O samovar é pequeno, e para que todos possam tomar chá, é necessário acendê-lo muitas vezes. Servido o chá, Varka fica de pé a pequena distância, aguardando outras ordens, os olhos fixos nos visitantes.
"Varka, serve a vodca! Varka, onde está isso? Varka, limpa um arenque!"
Finalmente a visita se vai, apagam-se as luzes, os patrões se recolhem. E ela ouve a última ordem:
— Varka, pega o menino!
Novamente o quarto, a atmosfera carregada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o círculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixando-lhe a cabeça enevoada. "Dorme, menino bonito..."
A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o fôlego.
Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua mãe; sente confusamente a figura do pai moribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presença de tudo que a cerca. Só sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindo-a de viver. Faz um esforço supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que força, que potência é essa, tão estranha e tão grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e não a deixa dormir. Mas não compreende nada, nenhuma ideia precisa lhe acode. Já sem forças, trêmula e abatida, olha o círculo verde e as sombras. Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no coração de Varka, enche-lhe a cabeça cansada, como uma súbita revelação. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. "Esse é o inimigo que não me deixa viver. O inimigo é o menino." Põe-se a rir, acha estranho não ter compreendido isso até agora, a ideia lhe parece clara e simples. "O inimigo é o menino." Completamente absorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, dá alguns passos pelo quarto. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertará do menino inimigo. É só matá-lo, e depois poderá dormir o tempo que quiser, tranquilamente.
Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do berço, pisando de leve. Inclina-se sobre o menino, qualquer coisa de trágico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora simples, objetivo — uma sensação de leveza em todos os seus movimentos. As mãos ágeis apalpam o pequeno corpo, sobem até a garganta, e vão apertando, apertando, entrelaçadas, como elos de aço. O menino torna-se azul, contorce-se num rápido e último movimento de desespero, depois estremece apenas, o corpinho frágil e distendido se aquieta para sempre. Está morto.
Então Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensação de liberdade. E submerge-se num grande sono, profundo e sem sonhos.

Fonte: https://www.fantasticacultural.com.br/artigo/67/o_inimigo_-_anton_tchekhov__conto_completo.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

SESSÃO LEITURA - CRONOLOGIA VIVA - ANTON TCHEKHOV

O texto abaixo é de autoria do russo Anton Tchecov.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://educacao.uol.com.br/biografias/anton-pavlovitch-tchekhov.htm.
Boa leitura!

CRONOLOGIA VIVA

O salão do Conselheiro de Estado Charamikin está mergulhado em agradável penumbra. A grande lâmpada de bronze, com seu quebra-luz verde, tinge, à maneira de uma "noite da Ucrânia", as paredes, os móveis, as fisionomias... De quando em quando, na lareira expirante, abrasa-se uma acha que se consome, e por um instante projeta nos rostos um clarão de incêndio. Isto, porém, não perturba a harmonia geral das luzes. O tom de conjunto, como diriam os pintores, mantém-se.
Ao pé da lareira, acha-se afundado em uma poltrona, na postura dum homem que acaba de jantar, Charamikin em pessoa, senhor idoso, de suíças cinzentas de funcionário, olhos de um azul doce. Transparece-lhe no rosto a benignidade. Um sorriso melancólico franze-lhe os lábios. A seus pés, sobre um mocho, com as pernas voltadas para a lareira e estirando-se preguiçosamente, está sentado o Vice-Governador Lopnef, galharda figura de cerca de quarenta anos.
Junto ao piano brincam os filhos de Charamikin – Nina, Kólia, Nádia e Vânia.
Do salão da Sra. Charamikin chega, pela porta entreaberta, uma luz tímida. Ali, sentada à secretária, vê-se Ana Pavlovna, presidenta do Comitê das damas da cidade — jovem senhora, viva e picante, dos seus trinta anos e mais alguma coisa. Através do lornhom, os olhos negros e vivos deslizam pelas páginas de um romance francês. Sob o romance encontra-se, dilacerado, um relatório do Comitê, do ano anterior.
— Antigamente, nesse ponto de vista — diz Charamikin, piscando os olhos pacatos à claridade dos tições morrediços —, nossa cidade era mais favorecida. Não se passava um inverno que não aparecesse alguma estrela. Tivemos atores e cantores célebres. E agora?... Sabe o diabo o que é! Afora prestidigitadores e tocadores de realejo, não vem mais ninguém. Nenhum prazer estético... Parece que vivemos no mato... Sim... Lembra-se, Excelência, daquele trágico italiano?... Como se chamava mesmo?... Um moreno, alto... Queira Deus que eu me lembre! Ah! sim! Luigi Ernesto di Ruggiero. Um talento notável... Que força! Era ele abrir a boca, e o teatro em peso estremecia. A minha Anniutotchka se interessava muito pelo talento dele. Conseguiu-lhe o teatro e vendeu bilhetes para dez espetáculos... Ele, em recompensa, lhe deu lições de declamação e de música. Um amor de homem! Ele esteve aqui... não vá eu enganar-me... há doze anos... Não, estou enganado... Menos, apenas dez. Anniutotchka, que idade tem a nossa Nina?
— Vai fazer dez anos — gritou Ana Pavlovna lá do seu escritório. — Por quê?
— Nada, minha filhinha, só para saber... E às vezes também vinham bons cantores... Lembra-se do tenore di grazia Priliptchin? Que amor de homem! Que aparência!... Um louro... semblante expressivo, maneiras parisienses... E que voz, Excelência! Só tinha um defeito: cantava algumas notas com o ventre e emitia o ré em falsete; no mais, tudo era bom. Dizia-se aluno de Tamberlick... Anniutotchka e eu conseguimos para ele o salão do Círculo, e, como prova de gratidão, ele cantava em nossa casa, dias e noites... Ensinava canto a Anniutotchka... Esteve aqui, lembro-me bem, pela Quaresma, isto há... doze anos. Não, mais!... Que memória, santo Deus! Anniutotchka, quantos anos tem a nossa pequena Nádia?
— Doze anos.
— Doze... se acrescentarmos dez meses... Exatamente... treze anos!... Antigamente havia na cidade — como direi? — mais vida... Vejamos, por exemplo, os nossos saraus de beneficência. Que belos saraus que houve... Que encanto! Tocava-se, cantava-se, declamava-se... Depois da guerra, lembro-me bem, houve aqui prisioneiros turcos. Anniutotchka organizou um sarau em benefício dos feridos. Rendeu mil e cem rublos... Os oficiais turcos ficaram doidos com a voz de Anniutotchka, e levavam o tempo a lhe beijar a mão. Eh! eh!... Apesar de asiáticos, são pessoas reconhecidas, os turcos. O sarau alcançou tamanho êxito que — imagine V. Exa. — eu anotei no meu diário. Isto foi, se estou bem lembrado, em 76... Não... Em 77... Não! Um momento! Quando foi mesmo que tivemos os turcos? Anniutotchka, quantos anos tem o nosso Kolitchka?
— Eu tenho sete anos, papai — disse Kólia, garoto trigueiro, de cabelos pretos como carvão.
— Sim, a gente envelhece — assenta Charamikin, sorrindo. — A nossa energia já não é a mesma... Eis aí a razão de tudo... A velhice, meu caro! Faltam precursores novos, e os velhos envelheceram... Já não se tem o mesmo ardor. Quando eu era mais moço, não gostava que as pessoas se aborrecessem... Era o primeiro a ajudar a nossa Ana Pavlovna... Tratava-se de organizar um sarau de beneficência, uma tômbola, de dar apoio a uma celebridade estrangeira? Eu largava tudo e metia mãos à obra... Um inverno, recordo-me bem, corri tanto, trabalhei tanto, que caí doente... Não posso esquecer esse inverno... Lembra-se do espetáculo que organizamos com a nossa Ana Pavlovna em benefício das vítimas do incêndio?
— Em que ano foi isso?
— Não faz muito tempo... Em 79. Não, creio que em 80. Um momento. Que idade tem nossa Vânia?
— Cinco anos — grita Ana Pavlovna lá do seu salão.
— Então foi há seis anos... Sim, meu caro, tantas coisas... Agora já não há nada disso! O ardor já não é o mesmo.
Lopnef e Charamikin meditam. A acha morrediça aviva-se pela última vez e se cobre de cinza.


(Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai, Mar de histórias – Nova Fronteira, vol. 5, p. 126)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

SESSÃO LEITURA - O BILHETE PREMIADO - ANTON TCHEKHOV

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Anton Tchekhov.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://educacao.uol.com.br/biografias/anton-pavlovitch-tchekhov.jhtm.
Boa leitura!

O BILHETE PREMIADO

Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.
- Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.
- Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?
- Não. Paguei os juros na terça.
- Qual é o número?
- A série é 9499, bilhete 26.
- Então… Vejamos… 9499 e 26.
Ivan Dmítritch não acreditava na sorte da loteria e em outra ocasião jamais se daria ao trabalho de verificar a lista. Agora, porém, que não tinha nada para fazer e o jornal estava bem debaixo de seu nariz, percorreu com o dedo de cima para baixo Os números da série. E não é que logo de cara, corno que para zombar de sua descrença, já no alto da segunda coluna apareceu de repente, diante de seus olhos, o numero 9499! Sem conferir o número do bilhete nem verificar se tinha lido certo, deixou cair rapidamente o jornal no colo e como se alguém lhe tivesse derramado água na barriga, sentiu um friozinho agradável no fundo do estômago. Era urna sensação de coceira terrível e deliciosa ao mesmo tempo.
- Macha – disse com voz surda -, o 9499 está aqui. A mulher olhou para seu rosto surpreso, assustado, e compreendeu que o marido não estava brincando.
- 9499? – perguntou ela, empalidecendo e deixando cair na mesa a toalha dobrada.
- Sim, sim… Está, de verdade!
- E o número do bilhete?
- E mesmo! Ainda falta o número do bilhete. Mas tenha paciência… espere. Então, que tal? De qualquer modo o número de nossa série está, hem? De qualquer modo, entendeu?…
Ivan Dmítritch olhou para a mulher e sorriu num sorriso largo e apalermado como uma criança a qual tivessem mostrado alguma coisa brilhante. A mulher também sorria. Sentia o mesmo prazer que o marido por ele ter lido somente a série e não ter tido pressa em saber do número do feliz bilhete. E tão delicioso, tão angustiante consumir-se e espicaçar-se na esperança de uma felicidade possível!
- A nossa série está – disse Ivan Dmítritch depois de um longo silêncio. – Significa que existe uma possibilidade de termos ganho. Apenas uma possibilidade, mas, apesar de tudo, ela existe!
- Está bem, mas agora, olhe.
- Espere. Ainda teremos tempo a vontade para nos desiludir. Se esta na segunda coluna de cima, quer dizer que o prêmio é de 75 mil. Isso não é dinheiro, é uma força, um capital! E se de repente eu olhar para a lista e lá estiver o numero 26? Hem? Escute, e se tivermos ganho de verdade?
Os cônjuges começaram a dar risada e a olhar demoradamente um para o outro, sem falar nada. A possibilidade da ventura deixara-os obnubilados, e eles não conseguiam sequer sonhar, dizer para que precisavam daqueles 75 mil, o que comprariam, para onde iriam. Imaginavam apenas Os números 9499 e 75 mil, desenhavam-nos em sua imaginação, mas a idéia da felicidade, que estava tão próxima, parecia não lhes passar pela cabeça.
Ivan Dmítritch andou algumas vezes de um lado para outro com o jornal nas mãos e só quando a primeira impressão se acalmou é que, aos poucos, começou a sonhar.
- E se tivermos ganho? – disse. – Seria uma vida nova, uma catástrofe! O bilhete é seu, claro, mas se fosse meu, antes de mais nada, naturalmente eu compraria algum imóvel, algo como uma propriedade, no valor de, digamos, 25 mil; deixaria uns 10 mil para despesas extras: mobília nova… uma viagem… pagamento de dívidas e assim por diante. Os 40 mil restantes colocaria no banco, para render juros…
- Realmente, uma propriedade seria ótimo – disse a mulher sentando-se e deixando cair os braços no colo. – Nalgum canto, na região de Tula ou de Orlóv… Em primeiro lugar, não seria preciso alugar nenhuma casa de campo e, em segundo, não deixa de ser uma renda.
E na imaginação dele começaram a se aglomerar imagens, uma mais poética e aprazível que a outra. E em cada uma delas ele se via satisfeito, tranqüilo, saudável e chegou a sentir um calorzinho agradável, um calorzão, mesmo! Lá está ele, depois de ter comido uma sopa de legumes fria como o gelo, de barriga para cima na areia quente, na beira do rio ou no jardim mesmo, embaixo de uma tília… Faz calor… O filho e a filha rastejam perto dele, rolam na areia ou caçam algum bichinho na relva. Cochila docemente sem pensar em nada e sente com todo o corpo o que significa não ter de ir ao serviço nem hoje, nem amanhã, nem depois. E quando cansar de ficar deitado, pode ir ver cortar o feno, ou ao bosque, colher cogumelos, ou então ficar observando como os camponeses pescam os peixes com o arrastão. Ao pôr-do-sol, pega um pano, um sabonete e esgueira-se na casa de banho, onde se despe devagarzinho, passa um tempão alisando o peito nu com as palmas das mãos e finalmente cai n’água. Na água, Os peixinhos se agitam em volta das bolhas turvas de sabão e as plantas aquáticas balançam na corrente. Depois do banho, um chá com creme e rosquinhas doces… À noite, um passeio ou uma partida de uíste com os vizinhos.
- Sim, seria bom comprar uma propriedade – diz a mulher, também sonhando. Lê-se em seu rosto que está encantada com os próprios pensamentos.
Ivan Dmítritch imagina o outono chuvoso, as noites frias, o veranico. Nessa época é preciso andar um tempão pelo jardim, pela horta, pela margem do rio até sentir bem o frio e depois beber um copo cheinho de vodka junto com cogumelos salgados ou um pepino em salmoura e pronto – tomar outro trago. As crianças vêm correndo da horta, trazendo cenoura e nabo. Sente-se o cheiro fresco da terra… Depois, estirar-se no sofá e folhear uma revista qualquer, sem pressa, até que o sono chegue. Cobrir o rosto com a revista, desabotoar o colete e entregar-se…
Após o veranico o tempo é fechado, ruim. Chove dia e noite. As árvores despidas choram, o vento é úmido e frio. Os cachorros, os cavalos, as galinhas – não há quem não esteja molhado, melancólico, encolhido. Não se tem por onde passear; sair de casa, nem falar! Passa-se o dia inteiro andando de um canto para outro e olhando tristemente pelas janelas embaçadas. Que coisa enfadonha!
Ivan Dmítritch parou e olhou para a mulher.
- Sabe de uma coisa, Macha, eu iria é para o estrangeiro.
E ficou pensando como seria bom viajar para o estrangeiro, cruzar o oceano profundo e ir para algum lugar no sul da França, para a Itália… Para a Índia!
- Eu também iria para o estrangeiro correndo – disse a mulher. – Mas olhe o número do bilhete!
- Espere! Daqui a pouco…
Andou pelo quarto e continuou a pensar. E se a mulher fosse realmente para o estrangeiro? Viajar é bom sozinho, ou em companhia de mulheres despreocupadas, sem compromisso, que vivem o momento presente, e não com aquelas que ficam o tempo todo pensando e falando em crianças, suspirando, tremendo com medo de gastar um copeque que seja. Ivan Dmítritch imaginou sua mulher no vagão, cheia de embrulhos, cestas, pacotes: suspira e queixa-se que a viagem lhe deu dor de cabeça, que gastou muito dinheiro. É preciso correr na estação atrás de água quente, sanduíches, água potável. Almoçar ela não pode, custa caro…
“Tenho certeza que ela iria controlar cada copeque”, pensou ele, olhando para a mulher. “O bilhete é dela, não é meu! E pra que ela precisa ir para o estrangeiro! O que é que lhe falta ver lá de importante? Já sei. Ficará fechada o tempo todo no hotel e não me deixará desgrudar dela um só momento.”
E pela primeira vez em sua vida reparou que a mulher tinha envelhecido, ficara feia e cheirava a cozinha, enquanto ele ainda era moço, saudável, viçoso, bom para se casar uma segunda vez.
“Claro, tudo isso é bobagem, é besteira”, pensou. “Mas… para que iria ela ao estrangeiro? O que ela aproveitaria lá? Mas iria mesmo… Imagino. Para ela Nápoles ou Klin iriam ser a mesma coisa. Ficaria me atormentando e eu dependeria dela. Tenho certeza de que na hora em que recebesse o dinheiro, iria trancá-lo a sete chaves, como faz o mulherio… Iria escondê-lo de mim… Aos parentes dela tudo, mas para mim, contaria cada copeque.
Ivan Dmítritch ficou pensando na parentela. Logo que todos esses irmãozinhos, irmãzinhas, titias, titios soubessem do ganho, viriam se arrastando, bancando os mendigos, sorrindo untuosamente, bajulando. Eta gentinha sórdida! Se lhe oferecem a mão, pegam o braço. Se não lhe oferecem, amaldiçoam, rogam pragas, desejam todo tipo de desgraça.
Ivan Dmítritch lembrou-se de seus parentes e seus rostos, que ele sempre olhara com indiferença, pareciam-lhe agora odiosos, repulsivos.
“São uns canalhas”, ele pensou.
E o rosto da mulher começou também a parecer-lhe odioso, repulsivo. Em seu íntimo começou a ferver um ressentimento contra ela e ele pensou com alegria perversa: “Não entende nada de dinheiro, por isso é avarenta. Se ganhasse, mal me daria cem rublos, e o resto iria direto para o cofre”.
Já olhava agora para a mulher com ódio e não mais com um sorriso. Ela também olhava para ele com maldade e com ódio. Ela tinha seus próprios sonhos dourados, seus pianos, suas idéias e sabia perfeitamente no que estava pensando o marido. Sabia que seria o primeiro a avançar no que ela teria ganho.
“É bom sonhar por conta dos outros!”, dizia o olhar dela. “Não, você não conseguirá!”.
O marido compreendeu seu olhar: o ódio ferveu-lhe no peito e para decepcionar sua mulher e fazer-lhe mal olhou rápido na quarta página do jornal e anunciou solene:
- Série 9499, bilhete 46! Não 26!
A esperança e o ódio desapareceram ambos de repente e, no mesmo instante, Ivan Dmítritch e sua mulher acharam os aposentos escuros, pequenos e abafados, e o jantar que tinham acabado de comer pesado e insosso, e as noites longas e enfadonhas.
- Só o diabo sabe – disse Ivan Dmítritch, começando a implicar. – Por todo lado que eu pise, só há papéis, migalhas, casquinhas, sei lá. Será que nunca varreram esses quartos! Terei de ir embora de casa, o diabo que me carregue. Vou sair e me enforcar na primeira árvore.

Fonte: http://contosdocovil.wordpress.com/2008/05/28/o-bilhete-premiado/.