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quinta-feira, 7 de maio de 2026

SESSÃO LEITURA - [SEU LAURO] - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/paulo_mendes_campos/.
Boa leitura!

[SEU LAURO]

Morreu Seu Lauro. Modesto funcionário de um ministério, tinha a mania de ser grande, rico e influente. Referindo-se às coisas que lhe pertenciam, começava por depreciá-las:
“Este terno, que, aliás, não custou muito caro...” E dava um preço de casimira inglesa para o brim ordinário.
Tinha imaginação, espírito e ilimitada capacidade para a mentira. A voz era fanhosa e estridente. Sua linguagem, essa era uma deliciosa mistura de deformações prosódicas, pedantismos e gíria. Não falava ato, mas acto, e não ficava nisso, era Nicterói, perfeicto, completo... “Outro dia, indo a Nicterói inspecionar uma glebas de minha propriedade, quando se deu que, evacuando o transporte por barca, resvalou-se por mim a boiada; uma velhota, que se fazia acompanhar por outra não menos idosa, estendeu o indicador, vociferando: Alá o bonde! Com o gesto papalvo, lá se me foram ao chão os preciosos óculos. Interpelei as anciãs na bochecha: Suas velhas bruacas! Pois retrucaram: Seu velho ignorante! Trepliquei: Ignorante uns tomates! Ignorantes são os óculos, que se caíram e se partiram. Na verdade, aliás, não custaram muito caro – novecentos mangos batidos – mas também, suas decrépitas, não foram feitos para serem quebrados assim: alá o bonde!”
Muitas mentiras de seu Lauro o levaram a um tempo heroico e longínquo, quando pertenceu à Marinha de Guerra. Grumete, estava trabalhando no mastro do antigo
Minas Gerais, quando, sentindo fome, puxou o fabuloso Patek; o relógio, escapando, caiu no mar. “Não me hesitei. Nessa quadra de minha vida, ainda desconhecia a natação. Dei um salto, aliás magnífico, e mergulhei no Atlântico. Lá no fundo, entre meros imensos, cachalotes e enormes árvores marinhas, vagava o meu Patek. Agarrei-o de um gesto decidido e, enquanto galgava-me para a tona, matutava cá comigo: lá em cima é que vão ser elas. Na superfície do oceano, pus-me a esbravejar com os braços, pra cá, pra lá, e não é, meu velho, que, quando dei por mim, estava a deslizar num crau perfeicto!”
Uma vez foi convidado a retirar-se do cassino da Urca, depois de ter ganho mais de oitenta contos. Na roda, um rapaz que entendia de jogo demonstrou que ele deveria ter
ganho mais de cem, de acordo com as paradas descritas. O mentiroso entrava em ira se alguém desconfiasse de sua palavra.
A situação era difícil. Seu Lauro coçou o queixo, mandou o rapaz explicar tudo de novo.
Não havia dúvida, ele deveria ter ganho cento e tantos contos. Seu Lauro proferiu um palavrão e resolveu o impasse: “Não é que me roubaram!”

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7298/seu-lauro.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SESSÃO LEITURA - O FUNCIONÁRIO PÚBLICO - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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Boa leitura!

O FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Sempre impliquei com a denominação de barnabé — dada talvez com uma intenção complacente ao funcionário público. Acho também impertinente quando dizem: “Ela é uma professorinha”! Quem trabalha com palavras sabe que barnabé tende a esvaziar a dignidade do funcionário civil, significando apenas pobre coitado; do mesmo modo, o professorinha tende a reduzir o problema de uma classe em um suspiro de pena. Ora, não interessa a ninguém e nada resolve sentir compaixão pelo funcionário ou pela professora pública: se essas duas classes padecem hoje no Brasil de aflições específicas, o jeito é encará-las de frente e com dignidade.
Mas que aflições são essas? Em tese, acontece o seguinte: o funcionário público, antes demais nada, qualquer que seja a sua categoria funcional, qualquer que seja o seu ordenado é a pessoa que vive acima de suas posses. Ou abaixo de suas necessidades. Ele não é a criatura que tomou um bonde errado, mas a criatura que tomou um bonde cujo itinerário foi alterado. Sem poder apear do veículo, ele vai seguindo em direção ao imprevisível cada vez mais aflito. Porque não reclama do motorneiro ou do condutor? Porque, no caso do funcionalismo público, o motorneiro e o condutor, isto é, as autoridades imediatas sobre os passageiros, estão apenas cumprindo ordens e nada podem fazer. Um funcionário de empresa particular pode a qualquer instante pedir reajustamento de salário: se o funcionário público fosse à mesa do chefe e fizesse o mesmo, a sua sanidade mental seria posta em dúvida. Um funcionário de empresa particular muitas vezes anda tão magro ou tão malvestido que o seu drama pode saltar até aos olhos do patrão. Já o funcionário público, além de não lhe ser permitido andar malvestido, pode ir emagrecendo até sumir, que nenhuma providência poderá ser encaminhada a seu favor.
Tudo isso é miúdo e triste — que se há de fazer? O funcionalismo é uma classe acuada, uma classe que naufragou na travessia e se recolheu em frangalhos a uma ilha deserta. O funcionalismo deixou de ser o grande quadro do poder executivo: passou a ser uma cifra na balança orçamentária. Ontem, o funcionário público era a vítima da inflação; hoje, ele paga para a deflação. Não é mais um ser humano: é um número. Não há planos para resolver seu problema: ele passou a ser considerado o problema. Virou até mesmo bode expiatório, e isso chega a ser engraçado; pois, embora não caiba ao funcionalismo aumentar a produção, a exportação, a renda, enfim, é sobre ele que se tem lançado a culpa de ter o país uma despesa muito grande e uma receita muito curta. Como se pudéssemos culpar a nossa cozinheira pelo fato de não termos os recursos suficientes para pagar-lhe o ordenado.
Essa desagregação do funcionalismo público é coisa que vem se processando lentamente nas últimas décadas. Minha geração ainda se lembra do tempo em que havia uma carreira de funcionário. Hoje o funcionário é exatamente aquilo que uma instituição de beneficência chama de pobreza envergonhada. É a criatura que dorme mal, acorda mal, come mal, diverte-se mal, sem poder educar os filhos como gostaria, sem ter ao menos onde poder passar férias calmas e tranquilas. A continuar assim, o funcionário acaba mesmo virando barnabé — coitado.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16733/o-funcionario-publico.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SESSÃO LEITURA - AS IRMÃS BRONTË - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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AS IRMÃS BRONTË

Pouco se sabe sobre as irmãs Brontë. Ignoramos muito dos 39 anos que viveu Charlotte e quase tudo dos 30 dezembros selvagens que viveu Emily.
O mistério atiçou um sem número de escritores, sendo relativamente das mais ricas na literatura inglesa a bibliografia delas. Objetivamente, porém, nenhuma das pesquisas apresenta resultados definitivos, as interpretações são múltiplas e desencontradas. Assim como Hamlet se enriquece de mistério à medida que se procura defini-lo, da mesma forma as sucessivas interpretações que vêm sendo feitas sobre esta ou aquela Brontë, ampliam a perspectiva de Yorkshire, mas não espanejam a névoa que a envolve. E não há nenhum exemplar desta espécie literária que é o poeta incapaz de exprimir-se que não tenha sofrido a sedução das Brontë, deixando-se levar pelo desejo de resgatar-lhes o segredo. O resultado não podia ser outro: há centenas de retratos de Emily e de Charlotte... à imagem e semelhança das pessoas que os fizeram.
Charlotte, acredita-se que tenha amado Heger, embora uma inglesa. May Sinclair afirma, numa defesa bastante acrimoniosa, que a criadora de Jane Eyre, isenta de todas as ilusões, manhas e corrupções do sentimentalismo, era incapaz de sentir em si mesma a possibilidade da paixão.
Quanto a Emily, é ainda muito mais improvável determinar a espécie de amor que a possuía.
Embora pouco esclarecido o seu sentimento para com Branwell, é mais acertado supor que a intensidade de sua paixão transcendeu as pessoas, seja qual for o motivo, não importa. Quem quiser que a contemple como uma jovem mística, “in love with the absolute”. Quem não se afeiçoar a esta terminologia pode achar simplesmente, com Virginia Woolf, que o amor de Emily Brontë foi inspirado em uma concepção mais ampla, mais poética, diríamos, se significássemos com a palavra uma complexa afetividade para com as coisas do mundo.
O fato, porém, é que o véu em torno desta família, pela liberdade que concede, constituía um excelente material para um filme. Hollywood, que já nos dera boas versões de Wuthering Heights e Jane Eyre, duas novelas que os inúmeros defeitos se apagam na potencialidade emocional da narrativa, apresenta-nos hoje uma história sobre as autoras destes livros e a estranha família de que faziam parte. Se sob o ponto de vista da autenticidade anedótica e dos temperamentos, esse filme não chega a ser ridículo, como foi aquele sobre Edgard Poe, cabe-lhe infelizmente a qualificação de bisonho. Com esse mesmo script tão apropriada para o cinema como a passagem dos Brontë sobre a Terra. Poucas histórias exigem espontaneamente uma linguagem fotográfica, uma linguagem ao mesmo tempo tão expressiva e tão muda como a própria vida de Emily, Charlotte, Ann Branwell, o pastor, a tia e o cachorrinho. Mais do que a literatura, está o cinema credenciado para apresentar esta gente e o mito que se vai tecendo em torno dela. Entretanto, mesmo sem medir a “chance” com a realização, o celuloide americano não satisfaz o menos exigente dos curiosos admiradores daquelas moças. E não creio que satisfaça igualmente ao crítico de cinema.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/8194/as-irmas-bronte.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

SESSÃO LEITURA - O MÉDICO E O MONSTRO - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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O MÉDICO E O MONSTRO

Avental branco, pincenê vermelho, bigodes azuis, ei-lo, grave, aplicando sobre o peito descoberto duma criancinha um estetoscópio, e depois a injeção que a enfermeira lhe passa.
O avental na verdade é uma camisa de homem adulto a bater-lhe pelos joelhos; os bigodes foram pintados por sua irmã, a enfermeira; a criancinha é uma boneca de olhos cerúleos, mas já meio careca, que atende pelo nome de Rosinha; os instrumentos para exame e cirurgia saem duma caixinha de brinquedos.
Ela, seis anos e meio; o doutor tem cinco. Enquanto trabalham, a enfermeira presta informações:
– Esta menina é boba mesmo, não gosta de injeção, nem de vitamina, mas a irmãzinha dela adora.
O médico segura o microscópio, focaliza-o dentro da boca de Rosinha, pede uma colher, manda a paciente dizer aaá. Rosinha diz aaá pelos lábios da enfermeira. O médico apanha o pincenê, que escorreu de seu nariz, rabisca uma receita, enquanto a enfermeira continua:
– O senhor pode dar injeção que eu faço ela tomar de qualquer jeito, porque é claro que se ela não quiser, né, vai ficar muito magrinha que até o vento carrega. O médico, no entanto, prefere enrolar uma gaze em torno do pescoço da boneca, diagnosticando:
– Mordida de leão.
– Mordida de leão? – pergunta, desapontada, a enfermeira, para logo aceitar este faz-de-conta dentro do outro faz-de-conta. – Eu já disse tanto, meu Deus, para essa garota não ir na floresta brincar com Chapeuzinho Vermelho…
Novos clientes desfilam pela clínica: uma baiana de acarajé, um urso muito resfriado, porque só gostava de neve, um cachorro atropelado por lotação, outras bonecas de vários tamanhos, um Papai Noel, uma bola de borracha e até mesmo o pai e a mãe do médico e da enfermeira.
De repente, o médico diz que está com sede e corre para a cozinha, apertando o pincenê contra o rosto. A mãe se aproveita disso para dar um beijo violento no seu amor de filho e também para preparar-lhe um copázio de vitaminas: tomate, cenoura, maçã, banana, limão, laranja e aveia. O famoso pediatra, com um esgar colérico, recusa a formidável droga.
– Tem de tomar, senão quem acaba no médico é você mesmo, doutor.
Ele implora em vão por uma bebida mais inócua. O copo é levado com energia aos seus lábios, a beberagem é provada com uma careta. Em seguida, propõe um trato:
– Só se você depois me der um sorvete.
A terrível mistura é sorvida com dificuldade e repugnância, seus olhos se alteram nas órbitas, um engasgo devolve o restinho. A operação durou um quarto de hora. A mãe recolhe o copo vazio com a alegria da vitória e aplica no menino uma palmadinha carinhosa, revidada com a ameaça dum chute. Já estamos a essa altura, como não podia deixar de ser, presenciando a metamorfose do médico em monstro.
Ao passar zunindo pela sala, o pincenê e o avental são atirados sobre o tapete com um gesto desabrido. Do antigo médico resta um lindo bigode azul. De máscara preta e espada, Mr. Hyde penetra no quarto, onde a doce enfermeira continua a brincar, e desfaz com uma espadeirada todo o consultório: microscópio, estetoscópio, remédios, seringa, termômetro, tesoura, gaze, esparadrapo, bonecas, tudo se derrama pelo chão. A enfermeira dá um grito de horror e começa a chorar nervosamente. O monstro, exultante, espeta-lhe a espada na barriga e brada:
– Eu sou o Demônio do Deserto!
Ainda sob o efeito das vitaminas, preso na solidão escura do mal, desatento a qualquer autoridade materna ou paterna, com o diabo no corpo, o monstro vai espalhando terror a seu redor: é a televisão ligada ao máximo, é o divã massacrado sob os seus pés, é uma corneta indo tinir no ouvido da cozinheira, um vaso quebrado, uma cortina que se despenca, um grito, um uivo, um rugido animal, é o doce derramado, a torneira inundando o banheiro, a revista nova dilacerada, é, enfim, o flagelo à solta no sexto andar dum apartamento carioca.
Subitamente, o monstro se acalma. Suado e ofegante, senta-se sobre os joelhos do pai, pedindo com doçura que conte uma história ou lhe compre um carneirinho de verdade.
E a paz e a ternura de novo abrem suas asas num lar ameaçado pelas forças do mal.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-medico-e-o-monstro-cronica-de-paulo-mendes-campos/.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

SESSÃO LEITURA - O CEGO DE IPANEMA - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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O CEGO DE IPANEMA

Há bastante tempo que não o vejo e me pergunto se terá morrido ou adoecido. É um homem moço e branco. Caminha depressa e ritmado, a cabeça balançando no ato, como um instrumento, a captar os ruídos, os perigos, as ameaças da Terra. Os cegos, habitantes do mundo esquemático, sabem aonde ir, desconhecendo nossas incertezas e perplexidades. Sua bengala bate na calçada, com um barulho seco e compassado, investigando o mundo geométrico. A cidade é um vasto diagrama, da qual ele conhece as distâncias, as curvas, os ângulos. Sua vida é uma série de operações matemáticas, enquanto a nossa costuma ser uma improvisação constante, uma tonteira, um desvairio. Sua sobrevivência é um cálculo.
Ele parava ali na esquina, inclinava sua cabeça para o lado, de onde vêm ônibus monstruosos, automóveis traiçoeiros, animais violentos dessa selva de asfalto. Se da rua viesse o vago e inquieto ruído a que chamamos silêncio, ele a atravessava como um bicho assustado, sumia dentro da toca, que é um botequim sombrio. Às vezes, ao cruzar a rua, um automóvel encostado à calçada impedia-lhe a passagem. Ao chocar-se contra o obstáculo, seu corpo estremecia; ele disfarçava, como se tivesse apenas tropeçado, e permanecia por alguns momentos em plena rua, como se a frustração o obrigasse a desafiar a morte.
Mora em uma garagem, deixou crescer uma barba espessa e preta, só anda de tamancos. Como profissão, por estranho que seja, faz chaves e conserta fechaduras, chaves perfeitas, chaves que só os cegos podem fazer. Vive (ou vivia) da garagem do botequim, onde bebe, conversa e escuta rádio. Os trabalhadores que almoçam lá o tratam afavelmente, os porteiros conversam com ele. Amigos meus que o viram a caminhar com agilidade e segurança não quiseram acreditar que fosse completamente cego.
― Já reparou como ele é elegante?
Seu rosto alçado, seu passo firme a disfarçar um temor quase imperceptível, seus olhos esvaziados de qualquer expressão familiar, suas roupas rotas compunham uma figura misteriosamente elegante, uma elegância hostil, uma elegância que nossas limitações e hábitos mentais jamais conseguirão exprimir.
Às vezes, revolta-se perigosamente contra seu fado. Há alguns anos, saíra do boteco e se postara em atitude estranha atrás de um carro encostado ao meio-fio. Esperei um pouco na esquina. Parecia estar à espreita de alguma coisa, uma espreita sem olhos, um pressentimento animal. A rua estava quieta, só um carro vinha descendo silenciosamente. O cego se contraía à medida que o automóvel se aproximava. Quando o carro chegou à altura do ponto onde se encontrava, ele saltou agilmente à sua frente. O motorista brecou a um palmo de seu corpo, enquanto o cego vibrava sua bengala, gritando: “Está pensando que você é o dono da rua?”
Outra vez, eu o vi num momento particular de mansidão e ternura. Um rapaz que limpava um Cadillac sobre o passeio deixou que ele apalpasse todo o carro. Suas mãos percorreram o para-lamas, o painel, os faróis e os frisos. Seu rosto se iluminou, deslumbrado, como se seus olhos vissem pela primeira vez uma grande cachoeira. O mar de encontro aos rochedos, uma tempestade, uma bela mulher.
E não me esqueço também de um domingo quando ele estava saindo do boteco. Sol morno e pesado. Meu amigo cego estava completamente bêbado. Encostava-se à parede em uma tentativa improvável de equilibrar-se. Ao contrário de outros homens que se embriagavam aos domingos, e cujos rostos ficavam irônicos e ferozes, ele mantinha uma expressão ostensiva de seriedade. A solidão de um cego rodeava a cena e a comentava. Era uma agonia magnífica. O cego de Ipanema representava, naquele momento, todas as alegorias da noite escura da alma, que é a nossa vida sobre a Terra. A Poesia servia-se dele para manifestar-se aos que passavam. Todos os cálculos do cego se desfaziam em meio à turbulência do álcool. Com esforço, despregava-se da parede, mas então já não encontrava o mundo. Tornava-se um homem trêmulo e desamparado, como qualquer um de nós. A agressividade, que lhe emprestava segurança, desaparecera. A cegueira não mais o iluminava com seu sol opaco e furioso. Naquele instante, ele era só um pobre cego. Seu corpo gingava para um lado, para o outro, sua bengala espetava o chão, evitando a queda. Volta assustado à certeza da parede, para recomeçar, momentos depois, a tentativa desesperada de desprender-se da embriaguez e da Terra, que é um globo cego girando no Caos.

Fonte: https://www.deficienciavisual.pt/r-O%20Cego_de_Ipanema-Paulo_Mendes_Campos.htm.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

SESSÃO LEITURA - OS ANJOS CONTAM HISTÓRIAS - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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Boa leitura!

OS ANJOS CONTAM HISTÓRIAS

O chefe da família na máquina de trabalhar. A mulher na enceradeira. A cozinheira no fogão. O passarinho na gaiola. Os peixes no mar. A gaivota pescando. A menina rolando no chão. O menino, doente, na cama. Todos nós somos deste mundo, menos as crianças. E o menino, perseguido de visões febris, vai falando sem parar:
“O filho da vaca é o bezerrinho, o pai da vaca é o boi. Não é? Eu vou morar num sítio. Morar muito. Um dia, quando eu fui fazer pipi, vi duas professoras de inglês. Igual. Eu vou trazer um pato do sítio e botar em cima da cabeça do Didi. Quando eu ficar bom, quero ir no circo. Eu já cortei a mão. Papai, papai-i: conta uma história de camelinho. História triste, não. Nova e alegre. Mãe, tá doendo, tou com dor de cabeça. Eu só gosto daquele remédio cor de laranja. Cafiaspirina eu não gosto. O gatinho caiu no poço, vestido de amarelo, todo mundo veio em volta pensando que era marmelo. Quando eu fui no colégio vi nuvens. A nuvem estava passando nas nuvens. Não estava chovendo. Ai, eu quero sair da cama! Laurita, eu não vou comer aquela coisa que arde. Papai é um burro, mamãe é a mulher do burro, e eu sou um burrinho. Mãe-i, você vai um dia naquela esquina longe? Lá tem anzol. Você compra uma vara nova, que o peixinho não gosta de vara velha, não.
Eu te dou um bombom. Galibi é menina, mas ela gosta de pescar. Se não fizer um poleiro, o galo sobe na árvore e estraga as pitangas. Pai-i, quando eu crescer, vou ganhar um trem de ferro elétrico. Você vai dar. Meu dodói dói. Eu não comi muita azeitona. Maionese eu não gosto. Maionese é aquele remédio que eu tomei agora.
Eu só gosto de remédio vermelho. Elefante gosta de amendoim. Tia Edir sabe fazer espantalho: snowman ela não sabe, não: aqui não tem inverno. Se você fala inglês, papagaio também fala. Mas fala também paracopaco, não fala? Leão de circo não come você, não; de jardim zoológico come. Galibi, conta uma história…”
A irmã sobe na cama e começa a contar uma história:
“Era uma vez um nenê. Era só cantar ‘Dorme, nenê’, que ele dormia. Mas logo depois precisava de chegar uma porção de anjos. Já conheciam a dona daquela casa, e por isso tinham dado o nenê para ela. A mãe fazia roupa para o seu nenê querido. Um dia, a família foi viajar; o nenê foi de roupa muito bonita. Quando voltaram da linda viagem, quem adorou mais foi o nenê. Era só o que faltava! Os anjos! Sim, sua mãe sempre precisava dos anjos para ajudar. O nenê adorava sua mãe, mas não podia faltar nada para ele, e, assim, não deixava ela fazer nada, gritava, chorava, fazia tantas molecagens que a mamãe não podia trabalhar. A mãe um dia chamou os anjos e pediu que eles dessem um jeito. Os anjos, muito espertos, levaram o nenê para a mata, para o galho duma árvore. O nenê ficou contente da vida! Os passarinhos traziam flores para ele, as abelhas traziam mel, o nenê ria. Enquanto isso, seu pai tinha viajado e sua mãe também. Antes de voltar da viagem, a mãe, de tanta saudade daquele nenê querido, mandou o irmão buscar ele na mata. Quando o irmão chegou, o nenê estava brincando com as estrelas do céu, e os anjos estavam procurando diamantes. Já era bem de noite e o sol estava se escondendo. Até o seu corrupião estava com fome. Mas, aí, sua mãe já era tão pobre que não tinha mais empregada. Todos eram pobres, o cachorro, a árvore, o cavalo. Mas enfim tudo estava em silêncio e quieto. Era uma hora da madrugada, e já estava quase ficando de dia. A noite era tão triste e a mãe não tinha comida. Na hora de jantar, só tinha dado leite, bife, batata, sopa, salada e aveia. Então chegou um anjinho e contou uma história para o nenê: ‘Era uma vez uma cidade que tinha muitas casas de frutas, mas o sol estava tão quente que mandava seus raios para todos os lados’. O nenê sentiu muito o sol da história, e o anjo então mandou que os raios de luz começassem a ir embora. Quando ficou de noite outra vez, o sol foi para a China. A China não é perto, é muito longe. O nenê também foi para a China, porque não gostava de escuro. E todo dia, quando ficava escuro, ia para a China. E os anjinhos nunca mais encontraram o nenê naquela caminha tão boa.”
O menino diz: “Pai, a Inês me ensinou a fazer navio”.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/os-anjos-contam-historias-cronica-de-paulo-mendes-campos/.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SESSÃO LEITURA - RÉQUIEM PARA OS BARES MORTOS - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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RÉQUIEM PARA OS BARES MORTOS

Me perdia muito pelas grutas sombrias dos bares. À noite, conchas iluminadas, a ressoar em profundezas submarinas. Hoje sou um homem derramado. Fugindo à tempestade, entrei uma vez no Nacional, e lá se erguia – portentosa figura – um velho, alto e cavo, a recitar os sonetos de Mallarmé. Foi uma visão dura, hermética, definitiva.
Antros de perdição – sim, é verdade – os bares são odiados por mães, esposas, filhos. A bebida é quase sempre ordinária; os moços que servem são falsos; os proprietários são ávidos. Rixas, despesas descabidas, saúde comprometida – os bares não prestam. Mas depois os bares morrem, e de seus túmulos surgem os espelhos, os mármores, os painéis históricos e a matéria plástica das agências bancárias. O tempo trança e destrança os velhos frequentadores, cúmplices de um espaço, de duas ou três anedotas, de uma canção dissipada em dias e semanas, cúmplices de uma certa mistura de luz e sombra. Então os velhos frequentadores são como peixes desentocados, e os bares antigos perdem suas arestas, suas escamas pontiagudas, seus vômitos repugnantes. Ali os amigos foram mais amigos, os inimigos, mais inimigos, as mulheres, mais compreensivas, e a vida tinha um programa.
Hoje sou um homem entornado. Mas no tempo do Alvear, por exemplo, alcei-me nas tristezas mais lindas de beira-mar. Ama-se o bar morto porque ele possui o dom – o dom é ilusão – de coagular o tempo. Habitamos essas gotas luminosas. Elas revolvem à nossa frente, várias, aparentemente opacas. Mas, se aproximamos a visão, esses cristais mágicos começam a funcionar como um palco, cheios de vida. Descortina-se em luz amarelada o bar do Hotel Central: há ostras em uma bandeja, fatias coradas de rosbife e uma garrafa de Old Parr. São três à mesa: um mau pintor, um mau milionário e um mau almirante. Apesar de simpáticos, nunca nos falamos. Mas hoje (quando é hoje?) eu os visito com frequência nesse coágulo de treva e refulgência, onde os três convivas se abrigaram da morte. À meia-noite, o milionário faz a barba com uma gilete nua, molhando o rosto em uísque.
O Vermelhinho, com um pouco de exagero, foi um entreposto de todas as motivações humanas. Poetas negros – reaparecidos pela primeira vez depois do Simbolismo – defendiam do naufrágio da raça, apertando-os contra o peito, originais que nunca seriam publicados. Foi uma época de facilitário poético, com um crédito de esperança a perder de vista. Não se fechava a porta da glória a ninguém. Todas as estradas do país se entrecruzavam no Vermelhinho, que ainda guardava embrulhos e recados. A geração tomava batida com fervor e a esquerda festiva punha seus primeiros ovos, discretamente, nas cadeiras de palhinha.

Acreditava-se em samba.

A vida tinha um caminho,
a vida tinha mais vinho
nos juncos do Vermelhinho

Em frente, no alto, entre vegetações grossas, ficava o bar da ABI. Tinha a princípio um certo rigor suíço, prematuramente desmoralizado. Alemães, árabes, italianos, nordestinos, gaúchos e mineiros, com esse cinismo que é a nossa força destrutiva abrasileiraram depressa o terraço. Mais de uma senhora tornou-se mãe de repente entre as grossas vegetações; e instituiu-se, por força, o espeto.
Hoje sou um homem esvaziado de seu conteúdo: vou alcançando a perfeição do vazio. Já estou seguindo com pouco receio por esses Tibetes sem princípio e sem fim. Mas cumpri as estações do caminho; paguei por tudo aquilo que aprendi.
Bar morto, bêbedo morto, caminho morto. Há azulões no crepúsculo; ou uma saudade de azulões. É sempre safra de cajus quando me surge o Pardellas. Consumo de novo as tardes consumidas. Aí me sinto com o charuto de Eustáquio, os óculos de Santa, e um tomo das Origens da França contemporânea, conduzido por Zé Lins nas tardes da Cinelândia e do Castelo de antigamente. Ali a vida era canto e conto. Mas no velho Recreio as sombras se espessam, aglutinadas. Quem mastiga sem convicção peito de boi com molho de raiz forte?
Recreio velho, rogai por nós. Túnel da Lapa, Chave de Ouro, rogai por nós. Hoje sou um homem sem mais nada. Rogo por vós. Rogo por vós um céu, com o vosso firmamento, os vossos luzeiros, os vossos ornatos, os vossos homens imaginosos e as vossas freguesas perdidas. E assim me recolho do chão em que fui derramado e subo até vós.

quinta-feira, 5 de março de 2020

SESSÃO LEITURA - O AMOR ACABA - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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Boa leitura!

O AMOR ACABA

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

SESSÃO LEITURA - A AURORA - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: www.ebiografia.com › paulo_mendes_campos.
Boa leitura!

A AURORA

A aurora chegou vestida de cor-de-rosa, passou pela vidraça, passou através de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas não me acordou a alma, que ficou dorme-dormindo, boba e semi-iluminada. Depois ela, a aurora, foi esvoaçar sobre os telhados, e era como se aquilo estivesse acontecendo no passado. Meus olhos ficaram expiando aquela aurora doida que esvoaçava e se adelgaçava e deixava nascer de seu ventre róseo os primeiros passarinhos matutinos.
Como são vivos e novos os passarinhos enxotados pela aurora! Como a alma de um homem é boba e vadia! Como a doçura  da preguiça de uma criatura que amanhece é infinita! Como às vezes, ao surgir o dia, o homem se descobre miraculosamente perdoado de todos os crimes, crimes não, de todas as coisas feias que cometeu. Que nem cometeu, que deixou acontecer. Quem nos perdoa, não sabemos. Talvez seja assim: o sofrimento se junta, vai se juntando dentro da gente, lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta que nos pune. Então, ficamos perdoados. Puros, recomeçamos de alma nova, passada a limpo como um exercício de escola.
Voltando à aurora, ela começou a sentir que morria. Ficou pálida. Um vento frio levantava as grinaldas da janela. As árvores começaram miraculosamente a dar folhas e frutos. Os pássaros se coloriram. Trens fumacentos avançaram sobre a cidade. Homens gritavam vendendo coisas. Ah, a aurora foi ficando palidíssima e morreu, morreu bem em cima dos meus olhos, no instante em que as duas últimas estrelinhas eram riscadas do show noturno. Amanhecia implacavelmente.
Aí chegou a vez do enterro da aurora. O coche foi levado por andorinhas de sobrecasaca, foi levado para muito longe, para muito além de um monte escuro, e desapareceu.
Fiquei só outra vez. Por um momento quis que ela voltasse. Depois resolvi ser novamente um homem, com duas pernas, dois braços, dez dedos práticos, com uma cabeça que deve decidir onde devo pôr os meus pés. É meio mórbido ficar lamentando indefinidamente a perda de uma aurora, mesmo uma aurora especial como aquela, capaz de perdoar-nos os pecados.
Ergui-me da cama resoluto como um rei e fui lavar a cara. Escovei os dentes com um máximo de alegria. Abençoado sejas, irmão dentifrício, que me refrescas a boca.
Em jejum, acendi como sempre o primeiro cigarro. Que me dá tosse. Não importa. Abençoado sejas, irmão fumo, irmã fumaça que sobes para o céu.
Deitei-me na cama de novo enquanto os cavalos dos poemas antigos traziam o Sol em atropelada brilhante. Vi-os fortes e louros irromper pelo céu onde tinha morrido de morte linda a aurora. Abençoado seja o Sol. Abençoado seja o dia. Abençoado seja o descanso. Abençoados sejam os pássaros diurnos e noturnos. Abençoadas sejam as criaturas de todo o mundo. Abençoado o fogo; a terra; o ar; a água. Abençoada seja a aurora. Que me perdoa de meus pecados.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

SESSÃO LEITURA - O AMOR ACABA - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/paulo-mendes.htm.
Boa leitura!

O AMOR ACABA

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

SESSÃO LEITURA - PARA MARIA DA GRAÇA - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/pmcampos_bio.asp.
Boa leitura!

PARA MARIA DA GRAÇA

Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

SESSÃO LEITURA - MENINA NO JARDIM - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://brasilescola.uol.com.br/biografia/paulo-mendes.htm.
Boa leitura!

MENINA NO JARDIM

Em seus 14 meses de permanência neste mundo, a garotinha não tinha tomado o menor conhecimento das leis que governam a nação. Isso se deu agora na praça, logo na chamada República Livre de Ipanema.
Até ontem ela se comprazia em brincar com a terra. Hoje, de repente, deu-lhe um tédio enorme do barro de que somos feitos: atirou o punhado de pó ao chão, ergueu o rosto, ficou pensativa, investigando com ar aborrecido o mundo exterior. Por um momento seus olhos buscaram o jardim à procura de qualquer novidade. E aí ela descobriu o verde extraordinário: a grama. Determinada, levantou-se do chão e correu para a relva, que era, vá lá, bonita, mas já bastante chamuscada pela estiagem.
Não durou mais que três minutos seu deslumbramento. Da esquina, um crioulão de bigodes, representante dos Poderes da República, marchou até ela, buscando convencê-la de que estava desrespeitando uma lei nacional, um regulamento estadual, uma postura municipal, ela ia lá saber o quê.
Diga-se, em nome da verdade, que no diálogo que se travou em seguida, maior violência se registrou por parte da infratora do que por parte da Lei, um guarda civil feio, mas invulgarmente urbano.
- Desce da grama, garotinha - disse a Lei.
- Blá blé bli bá - protestou a garotinha.
- É proibido pisar na grama - explicou o guarda.
- Bá bá bá - retrucou a garotinha com veemência.
- Vamos, desce, vem para a sombra, que é melhor.
- Buh buh - afirmou a garotinha, com toda razão, pois o sol estava mais agradável do que a sombra.
A insubmissão da garotinha atingiu o clímax quando o guarda estendeu-lhe a mão com a intenção de ajudá-la a abandonar o gramado. A gentileza foi revidada com um safanão. Dura lex sed lex.
- Onde está sua mamãe?
A garotinha virou as costas ao guarda, com desprezo. A essa altura levantou-se do banco, de onde assistia à cena, o pai da garota, que a reconduziu, sob chorosos protestos, à terra seca dos homens, ao mundo sem relva que o Estado faculta ao ir e vir dos cidadãos.
A própria Lei, meio encabulada com o seu rigor, tudo fez para que o pai da garotinha se persuadisse de que, se não há mal para que uma brasileira tão pequenininha pise na grama, isso de qualquer forma poderia ser um péssimo exemplo para os brasileiros maiores.
- Aberto o precedente, os outros fariam o mesmo - disse o guarda com imponência.
- Que fizessem, deveriam fazê-lo - disse o pai.
- Como? - perguntou o guarda confuso e vexado.
- A grama só podia ter sido feita, por Deus ou pelo Estado, para ser pisada. Não há sentido em uma relva na qual não se pode pisar.
- Mas isso estraga a grama, cavalheiro!
- E daí? Que tem isso?
- Se a grama morrer, ninguém mais pode ver ela - raciocinou a Lei.
- E o senhor deixa de matar a sua galinha só porque o senhor não pode mais ver ela?
O guarda ficou perplexo e mudo. O pai, indignado, chegou à peroração:
- É evidente que a relva só pode ter sido feita para ser pisada. Se morre, é porque não cuidam dela. Ou porque não presta. Que morra. Que seja plantado em nossos parques o bom capim do trópico. Ou que não se plante nada. Que se aumente pelo menos o pouco espaço dos nossos poucos jardins. O que é preciso plantar, seu guarda, é uma semente de bom-senso nos sujeitos que fazem os regulamentos.
- Buh bah - concordou a menina, correndo em disparada para a grama.
- O senhor entende o que ela diz? - perguntou o guarda.
- Claro - respondeu o pai.
- Que foi que ela disse agora?
- Não a leve a mal, mas ela mandou o regulamento para o diabo que o carregue.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SESSÃO LEITURA - MEU REINO POR UM PENTE - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é da autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/pmcampos_bio.asp.
Boa leitura!

MEU REINO POR UM PENTE

Filhos – diz o poeta – melhor não tê-los.
Já o Professor Aníbal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los. A conclusão parece simples, mas não era; Aníbal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora de alcance do radar filosófico.
“Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante.”
Engraçado é que depois dessa conversa fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas: “não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”. Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabê-lo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.
Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo. Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola… Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar… Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe que destruísse de vez todos os meus pertences.
O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas, sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro. Stanislaw Ponte Preta andou espalhando que eu usava ventilador para pentear os cabelos. Calúnia. Sou o maior comprador de pentes do Estado da Guanabara. Compro-os em quantidades industriais pelo menos duas vezes por mês, de todos os tamanhos, de todas as cores. Sou quase amigo de infância do vendedor de pentes que estaciona ali na esquina de Pedro Lessa e Rua México.
A princípio, pensou que eu estava substabelecendo o comércio dele, comprando para vender mais caro, mas um dia eu lhe contei minha tragédia familiar, e ele sorriu e confessou: “Lá em casa é a mesma coisa”. Chego em casa com os meus pentes e os distribuo a mancheias. Dois para você, quatro para você – segundo o temperamento e a distração de cada um. Aviso a todos que vou colocar um no armário do quarto, um no banheiro, um em cada mesa de cabeceira, dois na minha gaveta. Terminada essa operação ostensiva, fico malicioso e furtivo; secretamente, vou escondendo outros pentes por todos os cantos e recantos, debaixo do colchão, no alto de um móvel, atrás do exemplar dos Suspiros Poéticos e Saudades. Em seguida, reúno solenemente toda a família, inclusive o Poppy, tiro do bolso um pente singular, o mais ordinário encontrável na praça, e digo: “Este é o meu pente; este ninguém usa; neste, sob pretexto algum, ninguém toca! Estão todos de acordo? Ou algum dos presentes deseja fazer alguma objeção?” Estão todos de acordo.
A sinceridade do meu clã nesses momentos é de tal qualidade que, por um dia ou dois, tenho a ilusão de que, afinal, venci, de que descobri o approach certo para a família incerta. Mas, meu São Luís de Camões, ó caminhos da vida, sempre errados! Os dias passam, o vento passa a descabelar-nos, e os meus pentes, os meus pentes também passam. Misteriosamente, inexplicavelmente, eles desaparecem, pouco a pouco, com certa malícia, um a um, dois a dois, até chegar o momento dramático no qual, depois de vasculhar todos os meus esconderijos, fico em cabelos no meio da sala e, como Ricardo III em plena batalha, exclamo patético: “Um pente, um pente, meu reino por um pente!”.
Eu não fui – diz o primeiro; – eu não fui – diz o segundo; – eu não fui – diz o terceiro. Poppy, cuja especialidade é comer meias e sapatos, não diz nada, mas abana o rabo negativamente. Não foi ninguém, foi Mr. Nobody, foi o diabo, foi a minha sina. Minha mansão tem apenas três quartos e uma sala. Pois é inacreditável a quantidade de objetos que estão desaparecidos aqui dentro. Um dia, quando me mudar, a gente vai achar tudo. E sorrir um para o outro com uma nostalgia imprecisa, e dizer em silêncio que, filhos, e pais, melhor tê-los.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SESSÃO LEITURA - CHATEAR E ENCHER - PAULO MENDES CAMPOS

A crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: www.releituras.com/pmcampos_bio.asp‎.
Boa leitura!

CHATEAR E ENCHER

Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”. Chatear é assim: você telefona para um escritório qualquer na cidade.
— Alô, quer me chamar por favor o Valdemar?
— Aqui não tem nenhum Valdemar.
Daí a alguns minutos você liga de novo.
— O Valdemar por obséquio.
— Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
— Mas não é do número tal?
— É, mas aqui nunca teve nenhum Valdemar.
Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
— Por favor, o Valdemar já chegou?
— Vê se te manca palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
— Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.
— Não chateia.
Daí a dez minutos, ligue de novo.
— Escute uma coisa: o Valdemar não deixou pelo menos um recado?
O outro dessa vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.
Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
— Alô. Quem fala aqui é o Valdemar! Alguém telefonou para mim?

Fonte: http://veredasdalingua.blogspot.com.br/2013/04/texto.html.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

SESSÃO LEITURA

O texto que apresentamos abaixo, intitulado Ser Brotinho, é uma crônica da autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/pmcampos_bio.asp.
Boa leitura!

SER BROTINHO

Paulo Mendes Campos

Ser brotinho não é viver em um píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar um dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. Ser brotinho é ainda possuir vitrola própria e perambular pelas ruas do bairro com um ar sonso-vagaroso, abraçada a uma porção de elepês coloridos. É dizer a palavra feia precisamente no instante em que essa palavra se faz imprescindível e tão inteligente e natural. É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento exato de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois cruzeiros com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. É querer ser rapaz de vez em quando só para vaguear sozinha de madrugada pelas ruas da cidade. Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. É fumar quase um maço de cigarros na sacada do apartamento, pensando coisas brancas, pretas, vermelhas, amarelas.
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite e sem roupa, completamente. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho gozado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. É ter uma vez bebido dois gins, quatro uísques, cinco taças de champanha e uma de cinzano sem sentir nada, mas ter outra vez bebido só um cálice de vinho do Porto e ter dado um vexame modelo grande. É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão da festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado ballet e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gatinho magro que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue-jeans. Ter horror de gente morta, ladrão dentro de casa, fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. Eventualmente, ser brotinho é como se não fosse, sentindo-se quase a cair do galho, de tão amadurecida em todo o seu ser. É fazer marcação cerrada sobre a presunção incomensurável dos homens. Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. É policiar parentes, amigos, mestres e mestras com um ar songamonga de quem nada vê, nada ouve, nada fala.
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.