Mostrando postagens com marcador GÓTICO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador GÓTICO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de novembro de 2010

LUZ AO LONGE - AUTORA: VAL


Sou filho de um coveiro. Moramos num casarão antigo no alto de uma colina vizinha ao cemitério. Cresci correndo por suas alamedas e brincando de esconde-esconde entre suas lápides.

Por isso, o medo insano que as pessoas sentiam por cemitérios soava-me estranho. Para mim era um lugar como qualquer outro.

Mas houve uma ocasião em que compartilhei deste medo...

Estava atrasado com meus deveres do colégio e fiquei acordado madrugada adentro porque precisava terminar um trabalho para a manhã seguinte. Minha aprovação na matéria dependia de terminá-lo e eu corria contra o tempo na tentativa de concluí-lo. Tinha que fazer um relatório sobre o texto do filósofo Sêneca chamado “Sobre a brevidade da vida”.

Chovia muito aquela noite. E então a luz apagou!

Desci para procurar uma lanterna ou vela para poder prosseguir com minha tarefa, mas não encontrei. E não queria acordar meu pai por tão pouca coisa.

Voltei para o quarto desconsolado e desesperado, sem saber o que fazer. Simplesmente não daria tempo de terminar o trabalho pela manhã, pois minha aula começava bem cedo.

Foi então que olhando pela janela vi brilhando ao longe a luz de uma vela.

Estava em um jazigo no meio do cemitério.

Fiquei paralisado por um momento, sem conseguir pensar direito e então tive a idéia de ir buscá-la.

Peguei uma capa e galochas e saí com cuidado para não acordar meu pai.

Cheguei bem rápido ao local, porque conhecia aqueles caminhos de olhos fechados. Não foi difícil localizar o mausoléu onde ela estava. Voltei correndo e ansioso para prosseguir com minha tarefa.

Subi para meu quarto e continuei o que estava fazendo. Estava quase terminando e estava exausto. Mal conseguia pensar de tanto sono. E faltava pouco para o amanhecer.

De repente ouvi um barulho no andar de baixo, de alguma coisa abrindo com força. Peguei o castiçal e desci para ver o que era. Na cozinha encontrei a porta escancarada e um vento forte apagou a chama. Tranquei a porta e voltei para o quarto. Com certeza não a tinha fechado direito quando voltei para casa.

Enfim terminei o trabalho e deitei sobre os braços para tirar um cochilo. Estava tão cansado que não tive nem ânimo de ir para a cama. Adormeci ali mesmo.

Acordei assustado algum tempo depois, como se alguém tivesse me dado um cutucão. Quase caí da cadeira. Pensei que tivesse sonhado. Mas então me dei conta de algo estranho.

A vela havia desaparecido. E também não encontrei meu manuscrito.

Cocei a cabeça, meio atrapalhado, tentando me lembrar o que eu tinha feito. Será que o guardara na pasta e tinha me esquecido?

Procurei por todo o meu quarto e não o encontrei.

E então meu sangue congelou nas veias!

Ao passar pela janela notei uma luz brilhando lá longe, no mesmo lugar onde eu já estivera.

Fiquei um tempo sem coragem de fazer nada, mas respirei fundo e saí novamente de casa em direção ao mausoléu.

Quando cheguei lá, o que vi me deixou paralisado de terror. Um arrepio percorreu meu corpo e quase me fez desmaiar.

A vela brilhava novamente no mesmo vaso de onde a tirara.

E, embaixo do vaso, molhado e respingado de cera, estava o meu trabalho de escola.