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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

SESSÃO LEITURA - AFRICANIZANDO - MORGADO MBALATE

O texto abaixo é de autoria do escritor moçambicano Morgado Mbalate.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Morgado_Mbalate.
Boa leitura!

AFRICANIZANDO

Quando o meu sonho me ilumina eu
escrevo África.
África me faz e me rodeia. Eu amo
essa gente cheia de África.
O chão da África tem cheiro de mim.
Na África, todos os caminhos nos
levam às fontes da terra e às origens
do mundo.

E o que me torna africano?
É o amor pela terra e pela cultura.
A terra me ilumina.
A cultura me encanta.
Minha alma é atravessada por imensos
rios, como o rio Nilo, que nasce no meu
corpo.

Em mim, há quedas de águas, sobre
mim, caminham cursos de rios.
A maioria dos rios da África nasce no
planalto dos olhos.
Por isso, eu caminho de mãos dadas
com a flora e a fauna.
Sou savana africana de mim mesmo.
A poesia africana é para se vestir dela
e correr poemas pelo mundo.

E eu escrevo para justificar a poesia
africana.
Não acredito na riqueza material fácil e
rápida para todos os africanos.
Mas acredito no ideal de riqueza
espiritual através da promoção da
cultura.
Eu hoje escrevo o coração da África.
Nunca me separo da África porque a
trago dentro de mim.
África é dentro de mim.

Fonte: https://palavracomum.com/poemas-morgado-mbalate/

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

SESSÃO LEITURA - BARCOS - YOLANDA MORAZZO

O texto abaixo é de autoria da poetisa cabo-verdiana Yolanda Morazzo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Yolanda_Morazzo.
Boa leitura!

BARCOS

"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

Fonte: https://www.escritas.org/pt/t/10362/barcos

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SESSÃO LEITURA - NARCISO - CAPINAM

O texto abaixo é de autoria do poeta e letrista brasileiro Capinam.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://en.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Capinam.
Boa leitura!

NARCISO

Enquanto nos atormentam as furiosas serpentes da

solidão
Eu sei de ti, como nenhum menino sabe de si mesmo
E te salvo da sombra de todos os teus espelhos
De onde emergem intactas as imagens claras da

compaixão
E cai no fundo das águas o céu do verão
Frutas vermelhas amadurecem o peco desejo
Há um cardume de ânsias mergulhadas no peito
Estás com ar transfigurado, a insone paixão
Nunca abandona o insondável aquário
E disfarças como ontem o inevitável beijo
Anunciando a Narciso seu adiado naufrágio

Fonte: https://www.escritas.org/pt/t/6442/narciso

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - POEMA DO MAR - JORGE BARBOSA

O texto abaixo é de autoria do poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Barbosa.
Boa leitura!

POEMA DO MAR

O drama do Mar,
O desassossego domar,
                   sempre
                   sempre
                   dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!
 
O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
         e ter que ficar!

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/jorge_barbosa.html

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - CONTRARIEDADES - CESÁRIO VERDE

A poesia abaixo é de autoria de Cesário Verde.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1rio_Verde.
Boa leitura!

CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

Fonte: https://www.culturagenial.com/poemas-imperdiveis-literatura-portuguesa/

quinta-feira, 16 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - HAIKAIS - ALICE RUIZ

A poesia abaixo é de autoria de Alice Ruiz.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/alice_ruiz/.
Boa leitura!

HAIKAIS

mar bravio
a cada onda
novo silêncio

diante do mar
três poetas
e nenhum verso

manhã de outono
o verde do mar
também amarela

sinal fechado
o menino atravessa
escrevendo versos

contra o prédio cinza
uma só flor
e todas as cores

procurando a lua
encontro o sol
mas já de partida

pôr-do-sol
em torno dele
todos os cinzas

começo de outono
cheia de si
a primeira lua

som alto
vento na varanda
a samambaia samba

trânsito parado
os mesmos olhares
e ninguém se olha

último raio de sol
primeiro da lua
outono nascendo

cerimônia do chá
três convidados
e um mosquito

nuvem de mosquitos
tocando violão
silenciosamente

sob a folha ver-escura
a folha verde-clara
trêmula dissimula

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/parana/alice_ruiz.html

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SESSÃO LEITURA - A CLÁUDIO MANUEL DA COSTA - ALVARENGA PEIXOTO

O poema que reproduzimos abaixo é da autoria de Alvarenga Peixoto.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/alverenga_peixoto.html.
Boa leitura!

A CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Às margens destas águas silenciosas
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!

Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao por do sol da vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...

Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!

O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/alverenga_peixoto.html

quinta-feira, 4 de junho de 2026

SESSÃO LEITURA - CANÇÃO DO EXÍLIO ÀS AVESSAS - JÔ SOARES

O texto abaixo é de autoria de Jô Soares.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/jo_soares/.
Boa leitura!

CANÇÃO DO EXÍLIO ÀS AVESSAS

Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Nào fazem cocoricó.

O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem piscina,
Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.
Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.

No meio daquelas plantas
Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.

Minha Dinda tem primores
De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Até os lagos das carpas
São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Finalmente, aqui na Dinda,
Sou tratado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depois de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.

Fonte: https://recantopoeticolettig3.blogspot.com/2012/04/cancao-do-exilio-as-avessas-jo-soares.html

quinta-feira, 14 de maio de 2026

SESSÃO LEITURA - HOMEM - ANTÓNIO GEDEÃO

O texto abaixo é de autoria de António Gedeão.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Gede%C3%A3o.
Boa leitura!

HOMEM

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

Fonte: https://www.citador.pt/poemas/homem-antonio-gedeao

quinta-feira, 23 de abril de 2026

SESSÃO LEITURA - A ESCOLA PORTUGUESA - GUERRA JUNQUEIRO

O texto abaixo é de autoria de Guerra Junqueiro.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=189.
Boa leitura!

A ESCOLA PORTUGUESA

Eis as crianças vermelhas
Na sua hedionda prisão;
Doirado enxame de abelhas!
O mestre-escola é o zangão.
 
Em duros bancos de pinho
Senta-se a turba sonora,
Dos corpos feitos de arminho
Das almas feitas d'aurora
 
Soletram versos e prosas
Horríveis; contudo, ao lê-las,
Daquelas bocas de rosas
Saem murmúrios de estrelas.
 
Contemplam de quando em quando,
E com que inveja, senhor!
As andorinhas passando
Do azul no livre esplendor
 
Oh, que existência dourada
Lá de cima, no azul, na glória,
Sem cartilha, sem tabuada,
Sem mestre e sem palmatória!
 
E como os dias são longos
Nestas prisões sepulcrais!
Abrem a boca os ditongos
E as cifras tristes dão ais.
 
Desgraçadas toutinegras,
Que insuportáveis martírios!
João Félix com as unhas negras,
Mostrando as vogais aos lírios!
 
Como querem que despontem
Os frutos na escola aldeã,
Se o nome do mestre é - Ontem
E o do discípulo - Amanhã!
 
Como é que há-de na campina
Surgir o trigal maduro,
Se é o passado que ensina
O b a bá ao futuro!
 
Entregar a um tarimbeiro
Um espírito infantil!
Fazer o calvo Janeiro
Preceptor do loiro Abril!
 
Barbaridade irrisória
Estúpido despotismo!
Meter uma palmatória
Nas mãos dum anacronismo!
 
A palmatória, o açoite,
A estupidez decretada:
A lei incumbindo a Noite
Da educação da Alvorada!
 
Gravai na vossa lembrança
E meditai com horror,
Que o homem sai da criança
Como o fruto sai da flor.
 
Da pequenina semente
Que a escola régia destrói
Pode fazer-se igualmente
Ou o assassino ou o herói.
 
Desta escola a uma prisão
Vai um caminho agoureiro:
A escola produz o grão
De que a enxovia é o celeiro.
 
Deixem ver o sol doirado
À infância, eis o que eu vos peço,
Esta escola é um atentado
Um roubo feito ao progresso.
 
Vamos, arrancai a infância
Da lama deste paúl;
Rasgai no muro ignorância
Trezentas portas de azul!
 
O professor asinino
Segundo entre nós ele é
Dum anjo extrai um cretino,
Dum cretino um chimpanzé.
 
Empunhando as rijas férulas,
Vós esmagais e partis,
As crianças - essas pérolas -
Na escola - esse almofariz.
 
Isto escolas!... que indecência!
Escolas esta farsada!
São açougues de inocência!
São talhos d'anjos, mais nada.

Fonte: https://www.portaldaliteratura.com/poemas.php?id=803

quinta-feira, 2 de abril de 2026

SESSÃO LEITURA - CONCLUSÕES DE ANINHA - CORA CORALINA

O texto abaixo é de autoria de Cora Coralina.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/cora_coralina/.
Boa leitura!

CONCLUSÕES DE ANINHA

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Fonte: https://www.culturagenial.com/cora-coralina-poemas-essenciais/

quinta-feira, 12 de março de 2026

SESSÃO LEITURA - O PASSARO INCUBADO - CACASO

O texto abaixo é de autoria de Cacaso.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cacaso.
Boa leitura!

O PÁSSARO INCUBADO

O pássaro preso na gaiola
é um geógrafo quase alheio:
Prefere, do mundo que o cerca,
não as arestas: o meio.

É isso que o diferencia
dos outros pássaros: ser duro.
Habita cada momento
que existe dentro do cubo.

Ao pássaro preso se nega
a condição acabado.
Não é um pássaro que voa:
É um pássaro incubado.

Falta a ele: não espaços
nem horizontes nem casas:
Sobra-lhe uma roupa enjeitada
que lhe decepa as asas.

O pássaro preso é um pássaro
recortado em seu domínio:
Não é dono de onde mora,
nem mora onde é inquilino.

Fonte: https://ermiracultura.com.br/2019/05/24/cinco-poemas-de-cacaso/

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SESSÃO LEITURA - MAQUINOMEM - HELENA KOLODY

O texto abaixo é de autoria de Helena Kolody.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/helena_kolody/.
Boa leitura!

MAQUINOMEM

O homem esposou a máquina
e gerou um híbrido estranho:
um cronômetro no peito
e um dínamo no crânio.
As hemácias de seu sangue
são redondos algarismos.

Crescem cactos estatísticos
em seus abstratos jardins.

 Exato planejamento,
a vida do maquinomem.
Trepidam as engrenagens
no esforço das realizações.

 Em seu íntimo ignorado,
há uma estranha prisioneira,
cujos gritos estremecem
a metálica estrutura;
há reflexos flamejantes
de uma luz imponderável
que perturbam a frieza
do blindado maquinomem.

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/parana/helena_kolody.html

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - TU ERAS TAMBÉM UMA PEQUENA FOLHA - PABLO NERUDA

O poema que reproduzimos abaixo é da autoria de Pablo Neruda.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: http://educacao.uol.com.br/biografias/pablo-neruda.jhtm.
Boa leitura!

TU ERAS TAMBÉM UMA PEQUENA FOLHA

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo

Fonte: https://editoraviseu.com/blog/poemas-de-amor-curtos/#elementor-toc__heading-anchor-11

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - PARTE ALGUMA - ANA MARTINS MARQUES

O texto abaixo é de autoria de Ana Martins Marques.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Martins_Marques.
Boa leitura!

PARTE ALGUMA

Não te enganes: viajar é aborrecido.
Num ponto, ao menos, todos os lugares
se parecem: neles já se passou
algo terrível.
As viagens cansam
e são tristes.
Viajando apenas constatamos
a repetição tediosa do que existe.
Pois para onde quer que compremos passagem
levamos a nós mesmos na bagagem.
Viajar é conduzir o corpo
– esse comboio imundo –
a um estéril atrito com o mundo
e depois passar o dia inteiro
usando a língua como quem usa dinheiro.
Nem a página em branco dos desertos
nem as savanas e sua promessa de aventura
substituem uma hora de leitura.
Mesmo as longas praias e as montanhas
mesmo os sítios inflacionados de história
mesmo as pirâmides os oráculos a arte
e o lugar preciso para se ver
do melhor ângulo
o sol se pôr como se põe em toda parte
serão depois riscados da memória.
Mais vale afinal ficar em casa
se é que se tem uma
e enviar-te este postal
de parte alguma.

Fonte: https://ermiracultura.com.br/2023/12/31/cinco-poemas-de-ana-martins-marques/

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

SESSÃO LEITURA - DESCULPA - FRANCISCO ALVIM

O texto abaixo é de autoria de Francisco Alvim.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Alvim.
Boa leitura!

DESCULPA

Não peço
Nem peço que me
peçam

Fonte: https://rascunho.com.br/ficcao-e-poesia/oito-poemas-malcriados/

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

SESSÃO LEITURA - HORA E LUGAR - CACASO

O texto abaixo é de autoria de Cacaso.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cacaso.
Boa leitura!

HORA E LUGAR

Nosso amor foi um tormento
mas eu queria voltar
com você o sofrimento
era fácil de aguentar
até mesmo o fingimento
tinha lá o seu lugar
Mas sem você é um despeito
eu não me entendo direito
saio da terra e do ar
Nosso amor foi um deserto
mas tinha tudo pra dar
faltou apenas dar certo
questão de hora e lugar
A razão me trouxe embora
mas eu queria ficar
a paixão que me devora
sei que ela vai me matar
A vida vai lá fora
preciso de respirar
mas sem você é um sufoco
eu não me mato por pouco
ando fugindo do azar
Nosso amor passou por perto
tava tão fácil de achar
só faltou ser descoberto
questão de hora e lugar

Fonte: https://jornalnota.com.br/2022/03/13/os-10-melhores-poemas-de-cacaso/

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

SESSÃO LEITURA - QUE MUNDO É ESTE? - LUIZ GAMA

O texto abaixo é de autoria de Luiz Gama.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/luiz_gama/.
Boa leitura!

QUE MUNDO É ESTE?

Que mundo? que mundo é este?
Do fundo seio d’est’alma
Eu vejo… que fria calma
Dos humanos na fereza!
Vejo o livre feito escravo
Pelas leis da prepotência;
Vejo a riqueza em demência
Postergando a natureza[.]

Vejo o vício entronizado;
Vejo a virtude caída,
E de coroas cingida
A estátua fria do mal;
Vejo os traidores em chusma
Vendendo as almas impuras,
Remexendo as sepulturas
Por preço d’áureo metal.

Vejo fidalgos d’estopa,
Ostentando os seus brasões,
Feio enxerto de dobrões
Nos troncos da fidalguia;
Vejo este mundo às avessas,
Seguindo fatal derrota,
Enquanto farfante arrota
Podres grandezas de um dia!

Brônzea estátua – o rico surdo
Aos tristes ais da pobreza
Amostra com vil rudeza
Uma burra aferrolhada;
Manequim de estupidez
No orgulho vão de cobiça
Tem por divisa sediça
– Alguns vinténs e mais nada.

O poder é só dos Cresos,
A ciência é de encomenda;
Sem capital e sem renda
Com pouco peso – o que vai?
Talentos – palavrões ocos! –
Que nunca deixaram saldo;
Não há substância no caldo,
Que não tempera o metal!

Sisudez… que feia masc’ra!
Isso é peste, isso é veneno!
Se é pobre, nasceu pequeno,
Quem aspira a posição?
Não vê que é grande toleima
Querer subir sem moeda.
Pois não escapa da queda
Quem teve um leito no chão!

Que se empertigue enfunado
Algum sandeu que traz marca…
Reparem que a bisca embarca
Que leva à vela o batel!
E o povo que o vê fulgindo
Com lantejoulas brilhantes
Não olha p’ra o que foi d’antes,
E nem lhe enxerga o xarel!

E o mais é que zune e grasna
O pateta aparvalhado!
Parece que é deputado
Os Ministros fulminando;
Grita, berra, espe(r)noteia,
Calunia, faz intriga,
Mas logo fala a barriga,
E vai a teta chupando!

Digam lá o que quiserem,
Fale embora o maldizente;
Eu bem sei que tudo mente;
Sei que o mundo tem razão;
Se eu tivesse na algibeira
Alguns cobres, que ventura! –
Mudava o nome, a figura,
Ficava logo – Barão!

Fonte: https://recantodopoeta.com/3-poemas-de-luis-gama/

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - É PRECISO TAMBÉM NÃO TER FILOSOFIA NENHUMA - ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA)

O texto abaixo é de autoria de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/fernando_pessoa/.
Boa leitura!

É PRECISO TAMBÉM NÃO TER FILOSOFIA NENHUMA

Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/os-melhores-poemas-fernando-pessoa.htm

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

SESSÃO LEITURA - O QUE MAIS DÓI - PATATIVA DO ASSARÉ

O texto abaixo é de autoria de Patativa do Assaré.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/patativa_assare/.
Boa leitura!

O QUE MAIS ME DÓI

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.
Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.
O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.
É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

Fonte: https://www.culturagenial.com/patativa-do-assare-poemas/