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quinta-feira, 2 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - A FACA NO CORAÇÃO - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

A FACA NO CORAÇÃO

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.
– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.
– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.
– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.
– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?
– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.
– No começo eles tomam o partido da mãe.
– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.
– A outra filhinha?
– Também do lado da mãe.
– E o filho?
– Esse é o maior inimigo.
– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.
– Se ela está vendo… Tudo!
– Vendo o quê?
– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?
– …
– Meu filho, sinto uma pena de você!
– Ó Maria, mal de cada dia.
– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.
– É a famosa insônia de viúvo.
– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.
– E quando você acorda, a flor está ali?
– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.
– Deve arrumar uma companheira.
– Quem é que vai me querer?
– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.
– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.
– Mulher é que não falta.
– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.
– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.
– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.
– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.
– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?
– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!
– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?
– …
– Só de traidora degolou o casal de garnisés…
– Nem tremeu a mão de unha dourada.
– … estrangulou o canário no arame da gaiola…
– Não me diga, João!
– … e furou o olho do peixinho vermelho.
– Esqueça a ingrata nos braços de outra.
– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?
– Assim é que se fala, João.
– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/a-faca-no-coracao-conto-de-dalton-trevisan/.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

SESSÃO LEITURA - O ANJO - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

O ANJO

É um anjo, não há dúvida: apalpo, um tantinho gordo e cheiro, um pouco suado. Tem uns apóstolos-suspeitos, que inventam cada milagre! Um anjo, para falar a verdade, decaído, sujo, asa esquerda rasgada. Ao que se soube, dera um salto duplo (tentativa sacrílega de suicídio?) do terceiro vitral na igreja do Bom Jesus.
Feliz da vida, agora se diverte atirando batatinha frita na cabeça das damas da noite que às três da matina tomam sopa de cebola no Bar do Luís. Saúda pelo nome quem chega, sabe os segredos íntimos de todo mundo, cafifas, bofes e coronéis.
De repente a confusão: acusa um guarda-noturno de ter-lhe surrupiado o relógio de pulso (anjo, é sabido, odeia relógio). O guarda exige sua carteira de identidade, ele declara a condição de anjo --- epa! leva um murro no olho.
O anjo numa cuspidela muda-o em botelha de rum da Jamaica, que bebemos todos, o anjo a piscar o olhinho roxo.
Senta uma dama alegre no colo e quer por força um ósculo (linguagem de anjo, ósculo!). Ela se nega, a boca é para beijar o filhinho. O anjo a arrasta pelos cabelos para baixo da mesa onde, entre ossos de frango e espuma de cerveja, dorme por sete dias (na versão de-jornais sensacionalistas).
Invocado, o anjo estranha a costeleta do leiteiro que chega manhã cedinho. Xinga-o de quanto nome feio, o leiteiro saca uma navalha, epa! risca em cruz o nariz do anjo. Esse não pode ver sangue e cai durinho de costas.
Pronto levanta, sacode o pó da asa em frangalhos, cadê o leiteiro? Se escafedeu, longe na carrocinha a galope. Tempo de afastar a atenção geral. Pudera, um anjo baderneiro!
Estala os dedos: encarna as moscas sobre a mesa em bombons de licor, que oferece às musas dos inferninhos. E os garçons em aves do paraíso que se penduram nos globos de luz.
Nessa hora, para ver o anjo, há barricadas nas portas e feros combates na cozinha.
O fim do anjo é triste: surge do meio do nada o maestro Remo de Pérsis e, abraçados, rompem em dó de peito a protofonia do Guarani.
Fatal: antes que puxe do braço uma terceira asa de reserva... Ai, não, linchado pela multidão em fúria. Aos berros de Morte ao tarado!
Mortinho, ninguém mais duvida. É anjo de verdade, na roupinha nova de marinheiro.
Ainda não vi outro anjo.

Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/O-Anjo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

SESSÃO LEITURA - ROMA - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

ROMA

De Roma eu lembro da sede e dos degraus na rua. Inútil falar de qualquer monumento. Só da sede que me resseca a língua, andando nas ruas com escadas.
Soube pela primeira vez do sol em Roma ao ver as pessoas em fuga rente às fachadas brancas. Nas ruas todos seguem de cabeça baixa no lado da sombra. Atravessar uma praça é salto mortal de olho fechado na piscina ofuscante de luz.
Pela manhã ao erguer a cabeça do travesseiro você deixa a tua face molhada no lenço de Verônica.
Posso lavar o rosto com o próprio suor do rosto. Um fósforo aceso não apaga, queima até o fim.
Do vento em junho aqui não há notícia. Esses nichos nas fachadas, com a imagem de santos em santos louça, as únicas manhas negras nos paredões de luz.
Na próxima esquina eu mergulho a cabeça debaixo da fonte. Na seguinte, morrendo de sede, bebo na concha da mão a água cuspida por feias carrancas de pedra.
Os museus são corredores frescos, por onde passeio com sono e sede. Lá fora, as ruínas no meio da cidade --- da história antiga ou da última guerra?
É a estação do sol, do prato fundo de macarrão com garfo e colher, do vinho e, muito mais, da água. Ao refrigério das fontes luminosas me acolho para sentir no rosto os pingos do repuxo.
Paisagem menos de palácio, museu, estátua que das poderosas romanas. Nutrientes fatias de polenta na chapa. Nalgas fornidas, a pé ou de vespa, os longos cabelos esvoaçantes ao vento, num bando de anjos barulhentos.
Suas prendas têm mais cores que as madonas dos museus. Elas, sim, as próprias madonas vivas.
A carne, o osso --- ah, esses braços nus roubados da Vitória de Samotrácia!
Como entender a estátua se não viu a moça, vera loba romana? Ode a uma urna de água fresca do Tibre na epifania do amor.
Ó jarra de vinho generoso para matar a tua sede!

Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Roma.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

SESSÃO LEITURA - O CICLISTA - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

O CICLISTA

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba - levanta vôo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte com o trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.
É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste e o caminhão; o ciclista por muito favor derrubou o boné.
Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto. Se não estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e - uma perna mais curta - foge por entre as nuvens, a bicicleta no ombro.
Opõe o peito magro ao para-choque do ônibus. Salta a poça d'água no asfalto. Num só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.
Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.

Fonte: http://varaldeleitura.blogspot.com/2013/07/contos-de-dalton-trevisan.html.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

SESSÃO LEITURA - ENCONTRO - DALTON TREVISAN

O texto abaixo é da autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

ENCONTRO

Mata-sete de estradas, andarilho por aí, um capim doce na boca. Aos berros, chutando pedras. Descanso à sombra das árvores (mordido pelas formigas) e cuspo três vezes nos marcos do caminho. Cruzo de tardinha a ponte sobre o pequeno rio. Chorões nas margens, os guris pescam e fumam, de papo pro ar.
Avanço na rua de eucaliptos e, à sombra, mesas com manchas de vinho nas toalhas brancas. Uma casa antiga de pedras; no campo, homens em linha ceifam o trigo com suas longas foices.
Bato palmas, uma velha põe a cabeça na janela. Digo que venho de longe, do outro lado do oceano. Tenho sede, minhas botas de sete-léguas por um copo d'água.
Com um sorriso, ela me convida a sentar. Em vez de água, traz um jarro de fresco vinho tinto. Vaidosa, um xale de renda sobre a cabeleira branca. Enquanto bebo, deliciado, me conta da próxima colheita, que se anuncia próspera. E não sei o que sobre a torre do relógio na praça da igreja.
Esbaforidas chegam duas meninas gêmeas, as netas da velha e qual é uma? qual é outra? Agora já sei: uma, Bianca e a outra, Bruna.
Em surdina surge da cozinha uma garota de vestidinho branco (é sua filha mais nova, diz a velha, quando ela foi buscar mais néctar), esbelta e pálida, grandes olhos claros.
Bebo aos poucos o generoso vinho e, enquanto as sombras se insinuam nos cantos, mais brilham os olhos da moça quieta na porta, o pé esquerdo fora do chinelo. Ergo o meu copo e saúdo, ó fruteira de pêssego e romã no fino cristal de Murano!
Ela acena de leve a cabeça. Nem uma só palavra - e tudo foi dito. Entendi que viera de tão longe só para vê-la. E nunca mais esquecer.
O último gole, dobram os sinos no campanário sobre a estrada de sombra. Prometo voltar um dia para a festa da neve sobre o jardim de cerejeiras - e perna pra que te quero.
Na curva do rio olho para trás. A garota ainda na porta. Os olhos agora invisíveis, que adivinho quentes, como a estrada por onde marcho de coração alegre.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/09/1522420-tres-contos-de-dalton-trevisan.shtml?origin=uol.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

SESSÃO LEITURA - NOITE - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

NOITE

Friorento, o sol se recolhe sobre os últimos telhados. O vento balouça de leve a samambaia na varanda. A casa toda em sossego. No quintal o cãozinho late aos pardais que se aninham entre as folhas.

A magnólia pende a cabeça com sono. Já não bole a cortina.

No silêncio da penumbra se ouve cada vez mais alto o coração delator do tempo: um relógio.

Diante da janela o passarão da noite farfalha as asas. O galo não gala a galinha. Duros objetos perdem os contornos agressivos. Há paz na cidade.

Em pé no balcão os operários bebem cálice de pinga. As caixeiras deixam as lojas com a bolsinha na mão. Eis a noite que se esgueira em surdina no fundo dos quintais.

As mulheres são mais queridas a essa hora. O rosto iluminado pelo farol dos carros é promessa de delícias.

Os bondes sacolejam nos trilhos, em cada janela um rosto diferente. O mundo não é uma festa de prodígios: gnomos, baleias voadoras, unicórnios, basiliscos de fogo?

Escancaram as sete portas da noite. O ar povoado de sombras. Não mais o dia dos pequenos ódios nos olhos, das injúrias furiosas pelas costas. Os carros já não devoram ciclistas.

Enxugando os dedos no avental, as mães chamam os filhos que brincam na rua.

Se aquietam as vozes. Os pardais não pipiam nas árvores. Nem late o cãozinho.

A pomba da noite é mansa. Arrulha o amor na sopa quente sobre a mesa.


Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/09/1522420-tres-contos-de-dalton-trevisan.shtml?origin=uol.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

SESSÃO LEITURA - NAMORADA - DALTON TREVISAN

O texto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

NAMORADA

Depois que vê a garota ele corre se olhar no espelho: não pode negar, meio feio? quase feio? Numa palavra, feio. Dia seguinte desiste do bigode ralo. Quem sabe costeleta ou cavanhaque?
A menina o enfeitiça. Possuído, sim. Febrícula, sonho delirante, falta de ar, sede mas não de água.
Ela surge enrolada no garfo do suculento espaguete à bolonhesa. De sainha xadrez na primeira tarde, ó deliciosa bolacha Maria com geleia de uva. Formigas de fogo mordem sob a camisa quando ela vem na rua, brincando com o arco-íris na ponta dos dedos.
Consegue afinal apertar-lhe a mãozinha na luva de crochê, ri (descuidoso de ser feio) dentro de seus olhos glaucos. Discutem o narizinho, quem sabe arrebitado, segundo ela. E para ele, nada mais bonito que tal narizinho.
Meio do sono acorda, olho arregalado no escuro. A sua imagem o percorre, impetuoso vento por uma casa de portas abertas. Ninguém por perto, fala sozinho. A mãe o acha mais magro. Quem dera ser o terceiro motociclista do Globo da Morte.
Em guarda no portão, as mãos suadas, fumando. Ela aparece: um caramanchão florido de glicínia azul. Olhinho esquivo que fixa e foge. O sorriso (uma virgem fatal?) na pequena boca fresca.
Um dentinho ectópico no lado esquerdo, onde a palavra tiau esbarra quando sai. Ah, se ela deixar, passa o resto da vida adorando esse dentinho.
Espera outras vezes, fumando aflito, um cigarro aceso no outro. Ele mesmo um cigarro em chamas. A mocinha não quer lhe dar a mão. Como pode, uma santinha disfarçada na terra? Depois, deu.
Brava, ainda mais linda. Toda rosa, o lenço no pescoço, gatinha na janela depois do banho. A curva altaneira da testa, os cachos loiros arrepiados ao vento.
Ai, não, uma pérola na orelha. A pérola da orelha. Uma divina orelhinha esquerda, sabe o que é?
A voz meio rouca: Adivinhe o que eu tenho na mão? “Bem, pode ser tanta coisa.” Bala de mel, seu bobo. Pra você que não merece.
Já esquecido de timidez e feiura: “Sabe o que eu mais quero? É embalar você no colo.”
Pronto, ofendida, lhe negaceou o rosto.
De mal, até amanhã. Amanhã nosso herói vai cultivar uma barbicha.

Fonte: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Namorada.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

SESSÃO LEITURA - CHOVE CHUVA - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

CHOVE CHUVA

A fumaça da chuva sobe pela chaminé das casas e se espalha sobre a cidade. Um fio de silêncio cai de cada gota. As gatas dengosas se viram de costas para dormir. Chove chuvinha, um lado da palmeira nunca se molha.
A casa das formigas não tem porta, e quando chove, não se afogam? Piam milhares de pardais entre as folhas do chorão. Não existe melhor conchego que um barzinho. Nada como a meia grossa de lã. Apaixonadas ou não, mocinhas espirram na fila do ônibus.
Neste instante há no mínimo três mil pessoas infelizes com o sapato furado. Basta que não chova eu me chamo Felipe, o Belo. Como pisar na lama, garotas da várzea, sem sujar as sapatilhas? Orelhas de piás são puxadas por brincarem na chuva. Os mascates que vendem maçã na rua, em desespero comem as maçãs?
Não estivesse chovendo eu teria sete filhos.
Guardas de trânsito abrem os braços na esquina e apitam: por que choves, Senhor? Chove que chuva, apaga o meu recado de amor no muro.
Mães pensam nos filhos tão longe, uns dedos trêmulos na vidraça: dona mãe, me deixa entrar. Em cada lata vazia repicam os sinos da chuva.
As mãos no bolso não esquentam. Alguns viúvos choram na fila, esse ônibus nunca vem. Ora, gotas de chuva, pensam os vizinhos. Todos querem esse guarda-chuva esquecido num dia de sol, quando havia sol.
Os rabanetes no canteiro pulam as cabecinhas de fora.
Os armários das velhas casas estalam. Antigos baús são abertos, dia ruim para as traças. Há medo de vampiro na cidade.
Asinhas encharcadas, filhotes de pardais caem das árvores e se afogam nas poças.
As vovozinhas choram de frio na beira do fogão de lenha. Cães arranham a porta, licença para entrar. A sopa de caldo de feijão, epa! te queimou a língua.
Mesmo com chuva, há pares de namorados à sombra das árvores. Nem a chuva tira uma solteirona da janela.
Chapinhando as poças investe uma trinca de gordalhufas – pra cá pra lá, bundalhões hotentotes tremelicantes!
Senhor, tão bom se não chovesse. Ah, não chovesse, eu usaria barbicha. Não tivesse chovido eu casava com a Lia e não a Raquel.
Pra onde fogem os sorveteiros quando chove? Se chove, mais difícil enfrentar o vento sul sem perder o chapéu. Homens chegam em casa esfregam o pé no capacho e sentam para comer, dizendo: chuva desgracida.
Uma rosa no teu jardim abre as mil pálpebras do único olho.
O vento despenteia a cabeleira da chuva sobre os telhados.
Mesmo quando para a chuva, as árvores continuam chovendo.
A chuva lava o rosto dos teus mortos queridos.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SESSÃO LEITURA - MARIA PINTADA DE PRATA - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

MARIA PINTADA DE PRATA

Grandalhão, voz retumbante, é adorado pelos filhos. João não vive bem com Maria ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetéias. Ele ganha pouco, mal pode com os gastos mínimos. Economiza um dinheirinho, lá se foi com a asma do guri, um dente de ouro da mulher. Ela não menos trabalhadeira: faz todo o serviço, engoma a roupinha dos meninos, costura as camisas do marido. Inconformada porém da sorte, humilhando o homem na presença da sogra.
Para não discutir ele apanha o chapéu, bate a porta, bebe no boteco. Um dos pequenos lhe agarra a ponta do paletó:
— Não vá, pai. Por favor, paizinho.
Comove-se de ser chamado Paizinho. Relutante, volta-se para a fulana: em cada olho um grito castanho de ódio.
— O paizinho vai dar uma volta.
Tão grande e forte, embriaga-se fácil com alguns cálices. Estado lastimável, atropelando as palavras, é o palhaço do botequim. E, pior que tudo, sente-se desgraçado, quer o conchego do corpo gostoso da mulher.
Mais discutem, mais ele bebe e falta dinheiro em casa. Maria se emboneca, muito pintada e gasta pelos trabalhos caseiros. Desespero de João e escândalo das famílias, a pobre senhora, feia e nariguda, canta no tanque e diante do espelho as mil marchinhas de carnaval. Os filhos largados na rua, ocupada em depilar sobrancelha e encurtar a saia — no braço o riso de pulseiras baratas.
Com uma vizinha de má fama inscreve-se no programa de calouro:
— Sou artista exclusiva — ufana-se, com sotaque pernóstico. — A féria é gorda!
Aos colegas de rádio oferece salgadinhos e cerveja. João escapole pelos fundos, envergonhado da barba por fazer. Volta bêbado e Maria tranca a porta do quarto, obrigado a dormir no sofá da sala. Noite de inverno, o filho mais velho, ao escutá-lo gemer, traz um cobertor:
— Durma, paizinho.
A cada sucesso de Maria — o quinto prêmio da marchinha, o retrato no jornal, a carta com pedido de autógrafo:
— Ela ainda recebe uma vaia — é o comentário de João. – Com uma boa vaia ela aprende!
Ó não — essa aí quem é de cabelo oxigenado? Acompanhada a casa, horas mortas, pelo parceiro de vida artística. Ora o cantor de tangos, ora o mágico de ciências ocultas. Demora-se aos beijos na porta e as mães proíbem as crianças de brincar com os dois meninos. João sabe que é o fim — dona casada que tinge o cabelo não é séria. Vai dormir no puxado da lenha, encolhido na enxerga imunda, a garrafa na mão.
Dois dias fechado (assusta-lhe a própria força e jamais bate nos filhos), urra palavrão e desfere murro na parede. Maria faz as malas e, sem que os pequenos se despeçam de João, muda-se para casa dos pais.
Lá deixa os meninos e amiga-se com um pianista de clube noturno. Mais uma bailarina, que obriga os clientes a beber. O pianista, vicioso e tísico, toma-lhe o dinheiro e, se a féria não é gorda, ainda apanha.
Cansada de surra, volta à casa dos pais. Então a velha sai em busca de João e sugere as pazes.
— Ela que fique onde está. Não quero Maria, nem pintada de prata.
Despedido da fábrica por embriaguez, sobrevive com biscates. Ao vestir o paletó, da manga surge uma cobra e, aos berros, lança-o no fogo. Aranha cabeluda morde-lhe a nuca; inútil esmagá-la com o sapato, de uma nascem duas e três — enrodilha-se medroso a um canto e esconde nos joelhos a cabeça.
Domingo recebe a visita dos filhos, enviados pela sogra. Divertem-se no Passeio Público a espiar os macaquinhos. O pai compra amendoim e pipoca, que os três mordiscam deliciados. Afasta-se de mansinho e, atrás de uma árvore, empina a garrafa saliente no bolso traseiro da calça — as mãos cessam de tremer. Os meninos desviam os olhos: sapato furado, calça rasgada, paletó sem botão. Alisando a mão gigantesca:
— Não, paizinho. Não beba mais, pai.
Lágrimas correm pelo narigão de cogumelo encarnado. Despede-se com sorriso sem dentes. Na esquina gorgoleja a cachaça até a última gota.
Em delírio na sarjeta, recolhido três vezes ao hospício. A crise medonha da desintoxicação, solto quinze dias mais tarde. Mal cruza o portão, entra no primeiro boteco.
Maria cai nos braços do mágico de ciências ocultas e, proibida de cantar com voz tão horrorosa, consola-se no tanque de roupa. Nem o amante nem os velhos querem saber dos piás, internados no asilo de órfãos.
Cada um aprende seu ofício e, no último domingo do mês, com permissão da freira, vão bem penteadinhos à casa do pai. Ainda deitado, curte a ressaca; com alguns goles sente-se melhor. Os pequenos varrem a casa, acendem o fogo, olhinho irritado pela fumaça. No almoço apresentam café com pão e salame rosa. Sentado na cama, o pai contenta-se em vê-los comer. Sorri em paz, um deles enxuga-lhe o suor frio da testa. Sem coragem de abandoná-lo, os filhos a seu lado durante a noite: fala bobagem, treme da cabeça aos pés, bolhas de escuma espirram no canto da boca.
Os meninos adormecem, ouvindo o ronco feio do afogado. O maior acorda no meio da noite, vai espiar o pai em sossego, olho branco. Fala com ele, não se mexe. Tem medo e chama o irmão:
— O paizinho morreu.
Sem chorar, encolhidos na beira da cama, à escuta dos pardais da manhã.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

SESSÃO LEITURA - DOIS VELHINHOS - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é da autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/daltontrevisan_bio.asp.
Boa leitura!

DOIS VELHINHOS

Dois inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.
Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um consegue espiar lá fora.
Junto à porta, no fundo da cama, para o outro é a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, pergunta o que acontece. Deslumbrado, anuncia o primeiro:
- Um cachorro ergue a perninha no poste.
Mais tarde:
- Uma menina de vestido branco pulando corda.
Ou ainda:
- Agora é um enterro de luxo.
Sem nada ver, o amigo remorde-se no seu canto. O mais velho acaba morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.
Não dorme, antegozando a manhã. O outro, maldito, lhe roubara todo esse tempo o circo mágico do cachorro, da menina, do enterro de rico.
Cochila um instante - é dia. Senta-se na cama, com dores espicha o pescoço: no beco, muros em ruína, um monte de lixo.

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/dois-velhinhos-634328.shtml.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SESSÃO LEITURA - ÀS TRÊS DA MANHÃ - DALTON TREVISAN

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/daltontrevisan_bio.asp.
Boa leitura!

ÀS TRÊS DA MANHÃ

Ela borda sob a luz amarela do abajur. Se pudesse aquela noite acabar o trabalho... Cerram-se os olhos, cansados, a mulher sabe que não poderá dormir. No quente círculo de luz sente-se protegida – ouve o seu nome chamado pelos retratos na parede. São retratos de mortos e as suas vozes ressoam numa casa onde todos dormem. Já passara a roupa, escolhera o arroz, ao lado do fogão apagado, e enchera o filtro de água. E, quando as vozes se calam, escuta o lento pingar das gotas do filtro.
Fechadas as janelas, a garrafa de leite diante da porta. Esta noite quem sabe ela dormirá. Guarda a agulha e os fios na cestinha; ergue-se, a sombra atrás dela, apagando as lâmpadas da sala e do corredor. Antes de extinguir a luz do quarto, acende a lamparina sobre a cômoda: a última luz do mundo.
Reza de joelhos, as mãos no rosto, e deita-se no canto da enorme cama de casal. A essa hora em que descaminhos andam sumidos o marido e os filhos? Suspende de vez em quando a cabeça no travesseiro para olhar o copo iluminado. É luz tão fraca e se, na penumbra do quarto, ela tivesse uma sombra, não se acharia tão só... Percebe uns dedos à janela: o galho do pessegueiro que, com o vento, ali bate de leve. Como se o pessegueiro estivesse acordado e quisesse conversar com ela; tem dedos descarnados e caem-lhe as folhas, é inverno.
Quando se deita há passos na rua, apitos de trem ao longe e sente ainda numa das faces o calor do abajur. Levanta a cabeça do travesseiro – os seus olhos mantêm acesa a lamparina. Basta que durma (e sabe que vai dormir, de tão cansada) para que a chama se apague. O copo está cheio de azeite, o pavio é novo, mas a chama se apaga, assim que ela fecha os olhos. Pode ser o vento ou o marido, o ratinho ou a morte.
Acorda no meio da noite – três horas é a hora dos ladrões e que ladrão lhe rouba a sua luzinha? - ficou só na cama escura. Não há passos na calçada, não há vento, o pessegueiro recolheu os galhos. O marido dorme a seu lado, mas ficou só. Dormem em sossego, não os ouve e reza para que não estejam mortos nas camas. Nem sequer pode chamá-los... Era doença o simples bater apressado do coração? Tem tanto medo que se senta na cama, a mão na boca: Por favor, Senhor. Não agora, não no escuro!
O marido, quem sabe, soprara o lume, antes de se deitar. Ou fora o camondongo que afundara o pavio, para beber gulosamente o azeite? O mesmo bichinho que agora roía o forro: alguém mais está acordado no mundo. Rói, ratinho, é a súplica da mulher. Não direi nada ao meu marido. Você seria preso numa ratoeira, então eu ficaria só. Rói, meu ratinho. Rói, por favor...
Põe-se a escutar, além do ratinho, e lá na cozinha, as gotas de água pingando no filtro. Disparam as gotas cada vez mais depressa: é seu coração. Acima de todos os sons da noite repercute, mais alto, o coração. O bichinho para de roer e fica, orelhas em pé, assistindo a mulher morrer.
Ela sente que a crise tinha passado quando entende novamente o camondongo. Pode chorar, não há mais perigo. Que as lágrimas enxuguem por si – e ela fica, de olhos fechados, a espreita dos pardais do crepúsculo. Ergue-se da cama e vai, tateando a parede, até a cômoda. Riscando um fósforo depois de outro, acende a lamparina.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

SESSÃO LEITURA - APELO - DALTON TREVISAN

O conto que reproduzimos abaixo, intitulado “Apelo” é da autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u476.jhtm.
Boa leitura!

APELO

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

SESSÃO LEITURA

O texto que reproduzimos abaixo é do autor paranaense Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre ele, favor consultar: http://www.releituras.com/daltontrevisan_bio.asp.
Boa leitura!

Uma Vela para Dario

Dalton Trevisan


Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.