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quinta-feira, 11 de julho de 2013

SESSÃO LEITURA - OS SUSPENSÓRIOS - HUMBERTO DE CAMPOS

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Humberto de Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=640&sid=221.
Boa leitura!

OS SUSPENSÓRIOS

8 de julho

Um advogado ilustre, pessoa da minha estima, contava-me, há dias, um caso curioso que o impressionara profundamente. Procurado por uma senhora, que desejava divorciar-se, fizera ele a petição competente, com todo o segredo, e foi levá-la ao juiz. E regozijava-se com a surpresa que ia causar ao péssimo esposo da sua cliente, quando abriu a boca estupefato: no cartório havia, já, uma petição do marido, que apelava para o mesmo recurso judiciário apoiado nas mesmas razões em que se apoiava a mulher. E, como conversa puxa conversa, contou-me o ilustre causídico uma história interessante, que ele havia lido, poucos dias antes, em certa revista estrangeira.
Homem de gênio desigual, o Sr. Fabiano preparava-se para sair, quando, de repente, começou a perder a paciência. Faltava-lhe o suspensório, que devia estar preso à calça vestida na véspera, e era com indignação que ele berrava, com as mãos segurando o cós:
- Não o viste, Maria?
A criada respondia-lhe negativamente e ele trovejava para a mulher:
- Não o viste, Marcela?
De repente, coordenando as idéias, ajustando o "puzzle" das lembranças recentes, calou-se, acalmando completamente a tempestade. E ia fazer o possível para que ninguém falasse mais em tal coisa, quando a mulher chegou à porta do quarto, avisando:
- Fabiano, aí tem uma pessoa que quer falar contigo, com urgência.
- Quem é?
- O Sr. Octaviano, da farmácia.
Um minuto depois, mostrando nas olheiras escuras as infinitas torturas de uma noite de insônia, entrava no quarto, usando da intimidade que ligava as duas famílias, o Sr. Octaviano, farmacêutico de renome. Estava soturno, grave, circunspecto, e, sentindo-se a sós com o amigo, explicou, misterioso, o motivo daquela visita matinal:
- Você sabe - começou, - que eu tinha absoluta confiança em minha mulher. Em minha casa não entrava, jamais, outro homem. Entretanto, ao penetrar, ontem, no nosso quarto de dormir, encontrei isto debaixo da cama. Veja!
E, dizendo isso, arrancou do bolso do sobretudo, que não tirara, um par de suspensórios azul, com fivelas de prata, que exibiu, confiante, aos olhos espantados do amigo.
A essas vozes, porém, a porta escancara-se e, de um pulo, aparece no meio do quarto uma figura de mulher. Era D. Marcela que, tendo visto e ouvido tudo pela fechadura, bradava, branca de cólera:
- Mas, que é isso, afinal? Esse suspensório é o teu, que estas procurando há meia hora!
E cerrando os punhos, no rumo do esposo:
- Indigno! Canalha! Miserável! Não fico nesta casa mais, nem um minuto! Cachorro!...
E prorrompendo em soluços:
- Bandido! Infame! Desgraçado!..
Atarantado com o que acabava de ouvir, o Sr. Octaviano recuara até à parede, boquiaberto. Pálido, tonto, desorientado, o Sr. Fabiano fizera outro tanto, em sentido contrário. E ia a comédia por essa altura, com a moça a arrancar furiosamente os cabelos no meio do quarto, quando apareceu à porta a criada, trazendo alguma coisa nas mãos.
- Patrão, achei os seus suspensórios.
A patroa parou de chorar, estacando, de olhos escancarados, pálida, de cera. E a criada continuou:
- Estavam na secretária da senhora, ao lado do canapé.
Recobrando animo, o Sr. Fabiano encaminhou-se, rápido, para a rapariga, e vendo que os suspensórios eram cinzentos, e não azuis, como os seus, trovejou, furibundo:
- De quem são estes suspensórios, senhora?
Mas não obteve resposta. D. Marcela. apavorada havia saído pela porta dos fundos.

Fonte: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/biografias/bernardoelis.htm.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

SESSÃO LEITURA - A MINA - HUMBERTO DE CAMPOS

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Humberto de Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: educacao.uol.com.br/biografias/humberto-de-campos.jhtm.
Boa leitura!

A MINA

A notícia daquela descoberta correra célere por toda a comarca, por toda a província, por todo o país. Há muito tempo se suspeitava a existência de uma opulenta jazida de ouro ali mesmo, na encosta da serra, entre a linha de córregos, que desabava da montanha; ninguém se havia aventurado, todavia, a uma pesquisa mais demorada, mais completa, mais eficiente, até que chegou da África do Sul, via Londres, especialmente contratado para estudar o terreno, aquele engenheiro tostado do sol e de chapéu de cortiça, que espantara logo a vila com a excentricidade das suas roupas e a bizarria das suas maneiras.
Informado da exploração feita pelo inglês, ordenou o coronel Jesuíno Botelho que se iniciassem logo as escavações, para não perder tempo. Os maquinismos aperfeiçoados e modernos estavam, já, em viagem, pedidos por telegrama; enquanto, porém, não chegavam, iriam os homens perfurando o grande poço, em busca do veeiro, que ficava, na opinião do técnico, a oitenta metros da superfície.
O coronel Botelho não era, como a generalidade dos fazendeiros de Itaobara, um espírito refratário ao progresso, ao aperfeiçoamento do homem, aos empreendimentos suavizadores da vida. Educado em um seminário de Ouro-Preto, adquirira, com alguns professores leigos, uma noção positiva do mundo, e dos seus fenômenos; a disciplina religiosa ficara-lhe, porém, como lastro do espírito, e era assim que ele se conduzia pela terra, entre os ímpetos de conquistas e recuos de superstição. Por mais de uma vez havia tomado iniciativas atrevidas, importando arados, cultivando o melhor solo da fazenda; chegada, entretanto, a época da colheita, detinha-se em casa, no seu quarto, dias inteiros, mandando, daí, despachar os trabalhadores, e entregando o milho, o arroz, o feijão, as batatas, à fome das cotias, das pacas, das capivaras, dos tatus e dos papagaios irrequietos.
A alegria com que o coronel via, naquele ano, cavar a terra, no lugar da mina de ouro era, por isso, motivo de surpresa para toda a gente que o conhecia.
— É a tal coisa, - dizia um, perverso - para o milho, o feijão, o arroz, ele é religioso, e acha que se deve cuidar só da alma; fala-se, porém, em ouro, e esquece tudo. Agora só pensa na mina!
— E o buraco já está fundo! - informava outro.
E estava, de fato. Não obstante os aparelhos primitivos empregados na obra atrevida, o poço media, já, setenta metros de profundidade, faltando apenas dez para o ponto em que devia começar a galeria. E o coronel não desanimava, não se arrependia, demonstrava, timorato, o menor propósito de recuo.
— Agora, vai mesmo! - diziam os trabalhadores, fazendo subir, nas caçambas vagarosas, o barro, a areia, a pedra arrancada às entranhas virgens da terra.
— O homem está doido! - observavam outros com ironia, assinalando, admirados, o progresso dos trabalhos.
Certo dia, achava-se o coronel à mesa do almoço com a família, quando um operário lhe foi dizer, ansiado pela rapidez da marcha, que haviam dado com a mina. As primeiras estrias de ouro tinham aparecido, estando começada, já, a abertura da galeria. Boca escancarada, de que o bigode ralo era simples reposteiro, o fazendeiro deu um pulo, desamarrou o guardanapo, e saiu, correndo, no rumo do poço. E foi na mesma carreira que se atirou para o elevador primitivo e tosco, descendo, aos solavancos, os oitenta e quatro metros daquela perfuração audaciosa.
A emoção havia sido, porém, forte demais para os seus nervos abalados. Surpreendido pela notícia no momento da refeição, correra quase um quilômetro, sem parar. E era o efeito dessa temeridade que o coronel ia sentindo à medida que o aparelho descia, e que atingiu proporções assustadoras, antes, mesmo, de chegar ao fundo da escavação.
— Levem-me para cima! Levem-me! - pediu Botelho, metendo a mão no colarinho da camisa, rompendo-a com violência. - Levem-me daqui. Quero morrer lá em cima. Eu sufoco! Eu morro!
Vagaroso, como sempre, o elevador pôs-se, de novo, a subir. E tal era a morosidade da sua marcha, que, ao chegar no alto, o coronel jazia sem sentidos, agarrado por baixo dos braços pelos dois homens que o acompanhavam.
Dois dias e duas noites esteve o velho fazendeiro completamente desacordado. E no seu sono, entre a morte e a vida, teve um sonho sinistro, horrendo, desvairado, que o agitava, como num pesadelo.
A princípio, a sua fazenda era um grande navio, que navegava na noite e no silêncio, dirigido por um comandante alto e magro, que andava sempre embuçado, passeando, soturno, no tombadilho, de um lado para outro. Passageiro da embarcação-fantasma, ele, Botelho, tentara, por várias vezes, travar palestra com o capitão. Este afastara-se, porém, no mesmo passo, sem uma palavra, sem um gesto, sem um olhar. De uma das vezes, indignado, resolveu pedir-lhe explicações daquela descortesia: foi ao seu encontro, tomou-lhe o caminho, e intimou-o:
— Olhe para mim, ou eu o esbofeteio!
Pala em cima dos olhos, o comandante quedou-se, calmo. E, como não atendesse à segunda intimação, avançou Botelho no seu rumo, e, de um safanão, arrancou-lhe violentamente o boné. E recuou, com um grito: diante dele estava, crânio calvo, órbitas vazias, dentes à mostra num sorriso sinistro, um esqueleto, cujas mãos apareciam sob as mangas do capote, chocalhando todos os ossos!
— Quem és tu? - gemera o coronel, recuando, espavorido, até à amurada.
— Não me conheces? - respondeu, fanhoso, o espetro apavorante, movendo o queixo sem carnes. - Eu sou a Morte. E tu, que tanto me temes, um simples passageiro do meu navio!
E irônico:
— Já viste os teus companheiros de viagem? Desce; vai vê-los.
À imposição das falanges nuas, que lhe indicavam uma escada, ele descera um buraco semelhante àquele da mina, mas cortado, lá em baixo, por uma grande galeria, na qual se abriam, de um lado e de outro, numerosos camarotes, divididos em beliches. Diante de cada beliche havia, porém, uma cortina de veludo preto, com unia cruz de galão dourado. Suspendeu a primeira cortina, e recuou: o beliche era um caixão funerário, no qual repousava, estirado, um esqueleto. Ergueu outra cortina, e apresentou-se-lhe aos olhos o mesmo esquife, com o mesmo passageiro. Foi a outro camarote, a outro mais, e ainda a outro, e em cada um deles, quatro beliches, isto é, quatro caixões, e em cada caixão uma ossada. Cansado da peregrinação, queria, já, um beliche desocupado, quando despertou.
De salto, pôs-se de pé.
— E a mina? - indagou, pálido, mãos trêmulas, olhos arregalados.
— Está sendo aberta a galeria, - informou, alguém, da família.
— Tapem-na! Soterrem-na! Obstruam-na! - gritou, apavorado, as mãos na cabeça.
Nesta mesma noite, à luz de quarenta archotes, começava a ser enterrada, como uma enorme sepultura ao clarão de quarenta círios, a grande, a riquíssima, a famosa mina de Itaobara.