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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

SESSÃO LEITURA - BURRO SEM RABO - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/fernando_sabino/.
Boa leitura!

BURRO SEM RABO

São dez horas da manhã. O carreto que contratei para transportar minhas coisas acaba de chegar. Vejo sair a mesa, a cadeira, o arquivo, uma estante, meia dúzia de livros, a máquina de escrever. Quatro retratos de criança emoldurados. Um desenho de Portinari, outro de Pancetti. Levo também este cinzeiro. E este tapete, aqui em casa ele não tem serventia. E esta outra fotografia, ela pode fazer falta lá.
A mesa é velha, me acompanha desde menino: destas antigas, com uma gradinha de madeira em volta, como as de tabelião do interior. Gosto dela: curti na sua superfície muita hora de estudo para fazer prova no ginásio; finquei cotovelos em cima dela noites seguidas, à procura de uma ideia. Foi de meu pai. É austera, simpática, discreta, acolhedora e digna: lembra meu pai.
Esta cadeira foi presente de Hélio Pellegrino, que também me acompanha desde a infância: é giratória e de palhinha. Velha também, mas confortável como as amizades duradouras. Mandei reformá-la, e tem prestado serviços, inspirando-me sempre a sábia definição de Sinclair Lewis sobre o ato de escrever: é a arte de sentar-se numa cadeira.
— Mais alguma coisa? — pergunta o homem que faz o carreto.
— Mais nada — respondo, um pouco humilhado.
E lá vai ele, puxando a sua carroça, no cumprimento da humilde profissão que lhe vale o injusto designativo de burro-sem-rabo. Não tendo mais nada a fazer, vou atrás.
Vou atrás, cioso das coisas que ele carrega, as minhas coisas; parte de minha vida, pelo menos parte material, no que sobrou de tanta atividade dispersa: o meu cabedal.
Pouca coisa, convenhamos. Mas ali dentro daquele arquivo, por exemplo, vão documentos, originais, cartas recebidas ao longo dos anos, testemunhas do convívio. Vem-me a ideia de que, pobres coisas que sejam, com este mesmo carreto é que subirei um dia para dar conta do que fiz e deixei de fazer cá na Terra. E me esbofarei como um propagandista ambulante, tentando fazer entrar pela porta estreita esta carga que me sobrou da aflição do espírito e que, burro-sem-rabo, teimosamente transporto comigo ao longo da vida até o seu termo.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15843/burro-sem-rabo.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

SESSÃO LEITURA - A MULHER DO VIZINHO - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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A MULHER DO VIZINHO

Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora) também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.  
O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.  
O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo a ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:  
— O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: duralex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.  
Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:  
— Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?  
O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.  
— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?  
Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:  
— Da ativa, minha senhora?  
E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:  
— Da ativa, Motinha! Sai dessa…

Fonte: https://arararevista.com/a-mulher-do-vizinho-cronica-fernando-sabino/.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

SESSÃO LEITURA - OS ABISMOS DO ESQUECIMENTO - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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OS ABISMOS DO ESQUECIMENTO

A conversa corria amena naquela casa, enquanto os três casais tomavam um aperitivo, aguardando o jantar. Foi quando um dos convidados pediu silêncio e comunicou que iria contar um caso sensacional. Exatamente assim:
— Atenção todo mundo, calem a boca que eu vou contar um caso sensacional.
Todo mundo se calou. Ele começou o seu caso dizendo que havia comprado uma filmadora super-8 marca “Canon”. O outro convidado encaixou logo um comentário:
— Boa câmera. Mas a melhor é aquela francesa, como é mesmo que se chama?
— Eu sei — tornou o primeiro, aborrecido: — Aliás, é a que eu pretendia comprar, só que não encontrei. Chama-se… Espera que eu já te digo.
Ficaram os dois concentrados, à procura do nome esquecido. As mulheres ameaçaram começar uma conversa à parte, mas foram fulminadas pelo olhar de um deles. Resolveram colaborar, prestimosas:
— Estou com o nome aqui na ponta da língua — disse uma.
— Kodak — disse outra.
— Calem a boca — cortou um dos homens, e voltou-se para o dono da casa: — Você também já andou lidando com super-8, deve saber.
— Estou cansado de saber. Uma câmera francesa. Tem super-8 e tem de 16. Se não me engano, tem até de 35. Só que não consigo me lembrar.
E os três em silêncio, revirando a memória pelo avesso, como se o destino de cada um dependesse daquela palavra perdida. Um deles se dirigiu resolutamente ao telefone e ficou tentando em vão localizar algum amigo que os ajudasse a desencalhar a conversa:
— O Marcos Vasconcelos deve saber.
Dali por diante nada mais conversaram, e o jantar transcorreu em silêncio, entrecortado apenas pelo queixume das mulheres:
— Que coisa mais sem graça…
— Por que vocês não desistem?
— Parecem três idiotas.
O dono da casa, boca aberta e olhos cravados no ar, parecia mesmo um débil mental. Acabou deixando escapar, com voz roufenha:
— Parece com o nome de um escritor francês… Começa com B.
— Balzac! — exclamou, triunfante, uma das mulheres. — Os três homens a olharam, intrigados, como se estivessem diante de um estranho animal. Já não comiam: tendo perdido o apetite, imóveis como estátuas em suas cadeiras, cada um em posição mais extravagante que a do outro, pareciam siderados pela angustiosa busca nos abismos do esquecimento. A certa altura um deles levou lentamente as duas mãos à cabeça e saiu caminhando como se carregasse uma abóbora, foi trancar-se no banheiro. Molhou o rosto, e olhou-se ao espelho, enquanto forçava a memória como se quisesse expelir da mente um corpo estranho. Soltou um suspiro de desistência e simultaneamente viu seu rosto iluminar-se num sorriso: acabava de surpreender a palavra passando fugaz pelo fundo da memória, por pouco não a segurou pelo rabo como a uma lagartixa. Só ficou na lembrança uma sílaba:
— Bô… Bô…
Saiu do banheiro às pressas, para comunicar aos outros dois:
— Bô! Bô! Bô! – repetia, a instigá-los, sacudindo os punhos cerrados no ar: — Começa com bô!
— Isto! Isto! — saltou um deles, excitado.
— Boileau? — arriscou-se o outro.
— Quase! Boileau é o escritor francês.
Deixou-se cair na cadeira, exausto. De súbito se abriu num sorriso beatífico e os outros dois viram sair de sua boca, como numa história em quadrinhos, um balãozinho com a palavra procurada, em letras de ar. Saltaram sobre ele:
— Fala! Fala!
Ele pediu calma com as mãos espalmadas para a frente, respirou fundo, limpou a garganta e falou de mansinho:
— Beaulieu…
Sentiu como se tivesse feito um gol, saudado num só grito pelos outros dois.
Serenados os ânimos, pediram ao dono da câmera que contasse enfim o seu caso sensacional. Mas ele confessou que não podia: havia se esquecido.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/os-abismos-do-esquecimento-cronica-de-fernando-sabino/.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

SESSÃO LEITURA - O PIANO NO PORÃO - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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UM PIANO NO PORÃO

Eu era menino ainda quando o piano velho foi removido para o porão, cedendo lugar ao novo que meu pai comprara para minha irmã Luisa, excelente pianista. Por que não venderam o outro logo, não sei dizer; minha mãe talvez se impressionasse com a leitura de um conto de Aníbal Machado, uma de suas histórias prediletas, que narra as agruras de uma família tentando desfazer-se de um piano velho como o nosso.
E no porão ele ficou, para tornar-se minha exclusiva propriedade: esgotado o repertório de brincadeiras no fundo do quintal, ou por esquivança à companhia de outros meninos, ia sentar-me diante de suas teclas e ficava brincando sozinho de fazer ruído com notas desafinadas.
Tanto bastou para que suspeitassem em mim uma vocação musical. Suspeita bastante equívoca, de resto; poderiam ter suspeitado igual vocação para a brincadeira, para o ruído ou para a solidão. Então me fizeram aluno de dona Abília, professora de piano. Ao fim de uma semana fugi para sempre ao suplício das aulas, depois de corresponder em precocidade ao que ela esperava de mim: aprendi a tocar “Linda borboleta” com as duas mãos e mais de uma vez beijei a netinha dela num canto escuro da varanda.
Um dia o piano velho desapareceu do porão, e me tornei homem, deixando para trás minhas secretas aptidões musicais.
Mas a ideia de aprender a tocar sempre me acompanhou. E se tornou mesmo uma constante de minha prosápia, quando o assunto era abordado numa roda de amigos e eu declarava, como que casualmente, que “sempre tive certo jeito”, era uma pena que não me houvesse dedicado.
“Pois então que se dedique!” – era o que parecia dizer o olhar de minha filha, anos mais tarde, estendendo-me a chave amarrada com um lacinho de fita – chave de um piano autêntico, embora usado, que me aguardava na outra sala, e que me haviam comprado para uma comovente surpresa de aniversário.
Quando, tempos depois, tive de desfazer-me dele, não me restou sequer o consolo de ter desvendado o mais elementar de seus segredos, qual fosse o misterioso caminho que meus dedos deveriam percorrer em suas teclas para delas extrair ao menos as notas de “Linda borboleta”, para sempre esquecida.
Minha pretensa vocação musical, trazida da infância como um complexo, com o tempo já se achava um pouco comprometida pela confirmação melancólica de que papagaio velho não aprende a falar, que dirá tocar piano. Ainda assim, acabei um dia esvaziando o pé-de-meia e comprando outro, insuflado pelo ensinamento de Platão, que adaptei às exigências de minha duvidosa inclinação musical: só se aprende a tocar, tocando. E me entreguei à competência de um professor que resolvi contratar.
Fui, todavia, levado a suspender as aulas, ao saber que a intenção do eficiente mestre era a de me fazer ao fim de um ano estar tocando Mendelssohn. Ora, jamais na minha vida pretendi tocar Mendelssohn, mas somente arranhar uma musiquinha de jazz tradicional, para deleite apenas de meus ouvidos e a tolerância masoquista dos vizinhos. E como mesmo tão modesta pretensão faz com que o piano continue sorrindo com todas as teclas ao atropelo simiesco de meus dedos, resolvo abandoná-lo e me recolher à insignificância das minhas desafinadas horas de lazer.
Até que um dia, à falta de melhor proveito, antes que o atirem ao mar como o de Aníbal Machado, o piano seja recolhido a um porão, para que os dedos de um menino possam descobrir nas suas velhas teclas uma vocação de pianista capaz de redimir esta frustração do pai.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

SESSÃO LEITURA - CONVERSINHA MINEIRA - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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CONVERSINHA MINEIRA

— É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?
— Sei dizer não senhor: não tomo café.
— Você é dono do café, não sabe dizer?
— Ninguém tem reclamado dele não senhor.
— Então me dá café com leite, pão e manteiga.
— Café com leite só se for sem leite.
— Não tem leite?
— Hoje, não senhor.
— Por que hoje não?
— Porque hoje o leiteiro não veio.
— Ontem ele veio?
— Ontem não.
— Quando é que ele vem?
— Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.
— Mas ali fora está escrito “Leiteria”!
— Ah, isso está, sim senhor.
— Quando é que tem leite?
— Quando o leiteiro vem.
— Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?
— O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?
— Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?
— Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.
— E há quanto tempo o senhor mora aqui?
— Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.
— Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?
— Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.
— Para que Partido? — Para todos os Partidos, parece.
— Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.
— Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida...
— E o Prefeito?
— Que é que tem o Prefeito?
— Que tal o Prefeito daqui?
— O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.
— Que é que falam dele?
— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.
— Você, certamente, já tem candidato.
— Quem, eu? Estou esperando as plataformas.
— Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?
— Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

SESSÃO LEITURA - DEZ MINUTOS DE IDADE - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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DEZ MINUTOS DE IDADE

A enfermeira surgida de uma porta me impôs silêncio com o dedo junto aos lábios e mandou-me entrar. Estava nascendo! Era um menino.
Nem bonito nem feio; tem boca, orelhas, sexo e nariz no seu devido lugar, cinco dedos em cada mão e em cada pé. Realizou a grande temeridade de nascer, e saiu-se bem da empreitada. Já enfrentou dez minutos de vida. Ainda traz consigo, nos olhinhos esgazeados, um resto de eternidade.
Portanto, alegremo-nos. A vida também não é bonita nem feia. Tem bocas que murmuram preces, orelhas sábias no escutar, sexos que se contentam, perfumes vários para o nariz, mãos que se apertam, dedos que acariciam, múltiplos caminhos para os pés. É verdade que algumas palavras, melhor fora nunca dizê-las, outras nunca escutá-las. Olhos há que procuram ver o que não podem, alguns narizes se metem onde não devem. Há muito prazer insatisfeito, muito desejo vão. Mãos que se fecham. Pés que se atropelam. Mas o simples ato de nascer já pressupõe tudo isso, o primeiro ar que se respira já contém as impurezas do mundo. O primeiro vagido é um desafio. A vida aceitou um novo corpo e o batismo vai traçar-lhe um destino. A luta se inicia: mais um que será salvo. Portanto, alegremo-nos.
Menino sem nome ainda, não te prometo nada. Não sei se terás infância: brinquedos, quintal, monte de areia, fruta verde, casca de árvore, passarinho, porão de fantasmas, formigas em fila, beira de rio, galinha no choco, caco de vidro, pé machucado. O mundo de hoje, tal como o estou vendo da janela do meu apartamento, desconfio que te reserva para a infância um miraculoso aparelho eletrocosmogônico de brincar. Ou apenas uma eterna garrafa de Coca-Cola e um delicioso Chicabon.
Aceita, menino, esses inofensivos divertimentos. Leva-os a sério, com toda aquela seriedade grave da infância, chupa o Chicabon, bebe a Coca-Cola, desmonta e torna a montar a miraculosa máquina de brincar de nosso século que a imaginação de teu pai jamais poderia sequer conceber. Impõe a essas coisas e a essa vida que te oferecerão como infância a sofreguidão da tua boca, a ousadia de teus olhos e a força de tuas mãos. Imprime a tudo que tocares a alegria que me deste por nasceres. Qualquer que seja a tua infância, conquista-a, que te abençoo. Dela te nascerá uma convicção. Conquista-a também e vá viver, em meu nome. Nada te posso dar senão um nome.
Nada te posso dar. No teu primeiro instante de vida minha estrela não se apagou. Partiu-se em duas e lá no alto uma delas te espera, será tua. Nada te posso dar senão um nome e esta estrela. Se acreditares em estrela, vai buscá-la.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

SESSÃO LEITURA - O REVÓLVER DO SENADOR - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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O REVÓLVER DO SENADOR

O Senador ainda estava na cama, lendo calmamente os jornais, e eram dez horas da manhã. Súbito ouve a voz do netinho de quatro anos de idade por detrás da folha aberta, bem junto de sua cabeça:
– Vovô, eu vou te matar.
Abaixou o jornal e viu, aterrorizado, que o menino empunhava com as duas mãos o revólver apanhado na gaveta da cabeceira.  Sempre tivera a arma ali ao seu alcance, para qualquer eventualidade, carregada e com uma bala na agulha. Nunca essa eventualidade se dera na longa seqüência de riscos e tropeços que a política lhe proporcionara. No entanto, ali estava, agora, apanhado de surpresa, sob a mira de um revólver. O menino começou a rir de sua cara de espanto.
– Eu vou te matar – repetiu, dedinho já no gatilho.
O menor gesto precipitado e a arma dispararia.
Pensou em estender o braço e ao menos afastar o cano de sua testa, que já começava a porejar suor. Mas temeu o susto da criança, o dedo se contraindo no gatilho... Tentou falar e de seus lábios saíram apenas sons roufenhos e mal articulados.
– Não me mata não – gaguejou, afinal: – você é tão bonzinho...
– Pum! Pum! – e o demônio do menino sempre a rir, só fez dar um passo para trás; que o colocou fora de seu alcance. Agora estava perdido.
– Cuidado, tem bala... – deixou escapar, e a voz de novo lhe faltou. Toda uma vida que terminava ali, estupidamente nas mãos de uma criança – de que adiantara?  Tudo aflição de espírito e esforço vão. Se alguém entrasse no quarto de repente, a mãe, a avó do menino... Que é isso, menino! Você mata seu avô! Com o susto... Sentiu o pijama já empapado de suor. Era preciso fazer alguma coisa, terminar logo com aquela agonia. Estendeu mansamente o braço trêmulo:
– Me dá isso aqui...
– Mãos ao alto! – berrou o menino, ameaçador, dando passo para trás, e as mãos pequeninas se firmaram ainda mais no cabo da arma. O Senador não teve outra coisa a fazer senão obedecer.
E assim se compôs o quadro grotesco: o velho com os braços erguidos, o guri a dominá-lo com o revólver. De repente, porém, o telefone tocou.
– Atende aí ­– pediu o Senador, num sopro.
Estava salvo: o menino tomou do fone, descobrindo brinquedo novo, e abaixou o revólver. O Senador aproveitou a trégua para apoderar-se da arma. Então pôs-se a tremer, descontrolado, enquanto retirava as balas com os dedos aflitos. O menino começou a chorar:
– Me dá! Me dá!
A mulher do senador vinha entrando:
–O que foi que você fez com ele? Está com uma cara esquisita... Que aconteceu?
– Acabo de nascer de novo – explicou simplesmente.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

SESSÃO LEITURA - MULHER DE MATAR - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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MULHER DE MATAR

Olhou distraidamente para o relógio e deu um pulo na cadeira: Ih, Cacilda, quatro e meia da manhã! Mais um pouco e encontraria a mulher acordada.
Enquanto a noite durasse, nada a temer. Mas não podia se deixar se apanhar na rua quando a claridade do céu começava a anunciar o novo dia. A partir de então a mulher acordava a qualquer barulhinho. Houve um dia, por exemplo, em que mal havia tirado a roupa, ouviu a voz dela lá na cama, você vai sair a esta hora? Não teve remédio senão dizer que sim, tinha de estar bem cedo no escritório. E tornou a sair, foi mesmo para o escritório, dormir no sofá da sala de espera o restinho da manhã.
— Gente, eu tenho de me mandar.
Chamou o garçom, pagou sua conta, despediu-se dos amigos que, já bêbados, nem deram por sua partida. Meio bebido, ele próprio, na rua firmou-se sobre as pernas e fez sinal para um táxi que passava.
Alguém mais se adiantou e acenou para o mesmo táxi. Era uma mulher que também acabava de sair da boate.
Pronto, pensou rápido: se perco este táxi, lá vai minha última chance de chegar ainda de noite.
Quando o táxi parou, fingiu que não via a mulher e avançou para abrir a porta. Ela também avançou, tocou-lhe o braço:
— Por favor, estou com pressa!
A voz, aflita, era educada e insinuante. Então ele reparou que era uma mulher bonita. Ainda assim resistiu: pediu-lhe também de maneira educada que o desculpasse, mas sua pressa era maior. A menos que seguissem juntos no táxi, e ele a deixaria no caminho, se é que iam para o mesmo lado. Vacilaram ambos:
— Se não se incomoda…
— Incômodo nenhum.
— Bem, nesse caso…
Estavam nisso quando surgiu um grandalhão, de terno xadrez e segurou a mulher pelo braço. Ignorou a presença dele e falou com a voz carregada:
— Eu agorra te matarr.
Notou que o homem tinha à ilharga algo avolumado sob o paletó, só podia ser revolver. E a manopla já avançando para sacá-lo.
— Não faça isso! — gritou, com a mão espalmada no ar, como um guarda de trânsito: — O senhor não pode fazer uma coisa dessas!
O homem se voltou, como se o visse só então:
— Não poderr porr quê? Quem é senhorr?
Agora era distrair o gringo e tomar o táxi:
— Tenho mulher e filhos em casa me esperando, e o senhor quer me envolver num crime?
— Sernhor não saberr que esta mulherr fazerr comigo.
— Seja o que for, não vá matá-la, pelo menos na minha vista.
Mesmo que fosse embora, estaria envolvido: o chofer do táxi seria testemunha. E a mulher não tinha a menor reação, ia morrer sem um pio. O jeito era ficar:
— Do you speak English?
— Eu serr alemon.
— Neste caso vai em português mesmo. Vamos tomar um drinque.
Dispensou o táxi e conduziu ambos pelo braço de volta à boate.
Era dia claro quando se viu noutro táxi, em companhia da mulher e do alemão, reconciliados graças à sua intervenção. A idéia era deixá-la primeiro, para evitar que o homem, sozinho com ela, tivesse novo ímpeto homicida.
Quando ela saltou, o alemão quis descer também, foi um custo contê-lo:
— Você prometeu, Fritz.
Ela se foi, sã e salva, e os dois seguiram viagem. Ele convidou o alemão para tomar o café da manhã em sua casa — única maneira de sua mulher acreditar naquela história:
— Quero que você conheça minha mulher. Esta sim, é de matar.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

SESSÃO LEITURA - NOTÍCIA DE JORNAL - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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NOTÍCIA DE JORNAL

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.
Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morrer de fome.
E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciantes, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escarmento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.
Morreu de fome.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

SESSÃO LEITURA - DEIXA O ALFREDO FALAR! - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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DEIXA O ALFREDO FALAR!

A ARTE brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte.
Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo, erigido numa das mais requintadas instituições nacionais.
Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo? A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat”, na acepção que lhe dá o dicionário: “to converse in an easy or gossipy manner; talk familiarly.” Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez michar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.
No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto-de-vista oposto, desde que os que o defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de uma apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes.
Esta última observação, aliás, é pertinente ela própria, já que falei em futebol, quando se trata de papo acalorado como o que batiam aqueles dois amigos, parados numa esquina, violando o silêncio da rua adormecida:
— Se o último jogo do Campeonato fosse do Botafogo contra o Fluminense…
— Ora, Alfredo, pra cima de mim! Ia ser de goleada.
— Você não me deixou terminar, Dagoberto. Eu queria dizer que o Botafogo…
— Que Botafogo que nada! Com o Vasco diziam a mesma coisa…
— Dagoberto, você não me deixa falar!
— … e no entanto ele acabou entrando bem. Essa não, Alfredo.
— Não estou falando no Vasco. Eu disse que o Botafogo…
— E no ano passado, que foi que o Botafogo fez? Me diga só o que ele fez.
— Você não me deixa falar, Dagoberto.
— Desde o princípio todo mundo sabia que o Fluminense…
— Você não me deixa falar!
A essa altura abriu-se uma janela no edifício da esquina e surgiu um indivíduo estremunhado:
— Ô Dagoberto! Deixa o Alfredo falar!
A boa conversa implica sempre em deixar o Alfredo falar. Além disso a discussão, ainda que gratuita, pode exaurir o papo diante de uma impossível opção, como a de saber qual é o melhor, Tolstoi ou Dostoievski, Corcel ou Opala, Caetano ou Chico. A menos que ocorra ao discutidor o recurso daquele outro, hábil em conduzir o papo, que teve de se calar quando, no melhor de sua argumentação sobre energia atômica, soube que estava discutindo com um professor de física nuclear:
— Você é presidencialista ou parlamentarista? — perguntou então.
— Presidencialista.
— Pois eu sou parlamentarista.
E recomeçaram a discutir.
Mais ardente praticante do que estes, só mesmo o que um dia se intrometeu na nossa roda, interrompendo animadíssima conversa:
— Posso dar minha opinião?
Todos se calaram para ouvi-lo. E ele, muito sério:
— Qual é o assunto?
Mas percebo que me perdi em discussões, polêmicas, argumentos e desaguisados, afastando-me do verdadeiro espírito que deve presidir o culto dessa arte. De preferência, que ela seja praticada apenas a dois — como diz o mineiro, mais de dois é comício. E entre estes dois, bom será que reine amável concordância, para que, alternadamente ouvindo e falando, possam ambos conjugar o delicioso verbo discretear.
De minha parte, possa eu encerrar a conversa rendendo minha homenagem a um amigo: àquele que, no consenso geral dos que com ele privam, veio dar a esta arte o melhor do seu talento criador.
Ao longo de minha vida tive a ventura de conviver com excelentes papos, de Jayme Ovalle a Sérgio Porto, de Milton Campos a Mário de Andrade, para só falar nos mortos mais queridos. Não sendo privilégio de gente ilustre, tenho encontrado grandes praticantes entre marceneiros, pescadores, garçons e choferes de táxi.
Mas nenhum como este, cuja despedida à porta de sua casa se prolonga de meia-noite às quatro, deixando-nos a impressão de haver decorrido apenas meia hora; capaz de reter-nos a noite inteira num café em pé, conversando sobre o que seja, do último boato político à imortalidade da alma. Jânio Quadros, quando Presidente, chegou a mandar chamá-lo a Brasília — queria-o como seu assessor:
— Soube que você gosta de bater papo. Venha fazê-lo aqui.
— Fá-lo-ia, Presidente — que língua, a nossa! — se tivesse competência. Mas não passo de um especialista em ideias gerais.
— Eu também! — exclamou o Presidente, batendo no peito. Depois, olhos brilhantes, apontou um mapa na parede: — E este Brasil inteiro entregue a nós dois! Já pensou?
Tinha razão, o Presidente. E tê-lo-ia (!) levado na conversa, se as intenções presidenciais fossem apenas as de conversar. Porque se trata do rei da conversa, o Pelé do bate-papo, reconhecidamente o mais primoroso cultor desta arte sutil. Já tive mesmo a cautela, apontando-o desde já à posteridade, de compor para ele um epitáfio:
“Aqui jaz Otto Lara Resende,
Mineiro vivo, mancebo guapo.
Deixa saudades, isso se entende:
Passou cem anos batendo papo.”

Fonte: http://contobrasileiro.com.br/deixa-o-alfredo-falar-cronica-de-fernando-sabino/.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

SESSÃO LEITURA - EMPREGADAS - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/fernando_sabino/.
Boa leitura!

EMPREGADAS

Desavença

Entre outras virtudes, as novelas de televisão têm a de enriquecer com novas expressões o vocabulário das empregadas. Só porque a patroa riscou três fósforos para acender o gás e em seguida atirou-os ao chão, a cozinheira exclamou:
– A senhora não devia fazer assim! Por causa disso ainda acaba provocando uma desavença no lar.
Como a patroa não entendesse e pedisse explicações, a cozinheira esclareceu o que parecia óbvio:
– Então isso não pode causar um incêndio?

Falar difícil

A empregada de um amigo meu tem mania de falar difícil. Está preparando o enxoval da filha e assegura a todos, com firmeza, que sua filha não se casará enquanto não estiver completamente enxovalhada.
Comentário dela, extasiada diante de um buquê de flores que a patroa trouxe da feira:
– Ah, mas que flores mais bonitas! Tão sinceras! Tão disfarçadas!
Outro dia, o gato da casa começou a se esfregar em suas pernas, ela o espantou com um gesto:
– Chiba, gato, infalivelmente! Que gato exterior, meu Deus.

Os simples de coração

Foi buscar os óculos da patroa, a pedido desta, e depois perguntou, muito séria:
– Afinal de contas, a gente diz “ócris” ou “zócris”?
A empregada veio anunciar o almoço:
– Gente, tá na hora de murçá.
– Não é assim que se fala – corrigiu a patroa.
E ela, imperturbável:
– Eu sei que é “armuçá”. Mas eu quero falar murçá.

O tal da televisão

Ao chegar em casa, recebi o recado da empregada:
– Telefonou um moço para o senhor.
– Deixou o nome?
– Disse que era o tal da televisão.
Tenho vários amigos na televisão. Só a TV Globo está cheia deles. E os da Bandeirantes, da TV Educativa…
No dia seguinte, a mesma coisa:
– O tal da televisão tornou a telefonar.
– Se ligar de novo, pergunta o nome dele.
Da terceira vez, perdi a paciência:
– Eu não disse que era para perguntar o nome?
– Eu perguntei! – protestou ela. – Pois ele tornou a dizer que era o tal da televisão.
Cheguei a pensar se não seria alguém que eu tivesse chamado para consertar a televisão – que, aliás, estava em perfeitas condições.
Até que ele voltou a telefonar – só que desta vez eu estava em casa:
– O tal da televisão está chamando o senhor no telefone.
Fui atender. Era o meu amigo Dalton Trevisan.

Come e dorme

E minha amiga Glória Machado me conta que recebeu da empregada o seguinte recado:
– Seu doutor Alfredo telefonou dizendo que vai levar a senhora com ele hoje de noite no come e dorme.
Deixa o Alfredo falar! Ela sabia que o marido é surpreendente e dele tudo se espera – mas não a este ponto. Come e dorme! Que diabo vinha a ser aquilo?
Só foi entender quando mais tarde ele voltou do trabalho. Na realidade a convidava para um excelente programa: assistir naquela noite à apresentação no Rio da famosa orquestra de Tommy Dorsey.

Só uma vez

Uma amiga me conta o que se passou com uma empregadinha sua, a quem um dia mandou que fosse à padaria comprar pão.
Algum tempo depois a moça apareceu grávida. Quando a patroa lhe perguntou quem tinha sido, informou:
– O padeiro.
– Mas você só foi uma vez à padaria! – estranhou a patroa: – Como foi acontecer uma coisa dessas?
Ela ergueu os ombros, com um suspiro:
– Deus quis…