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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - O HOMEM DO BONÉ CINZENTO - MURILO RUBIÃO

O texto abaixo é de autoria de Murilo Rubião.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.portugues.com.br/literatura/murilo-rubiao.html.
Boa leitura!

O HOMEM DO BONÉ CINZENTO

O culpado foi o homem do boné cinzento.
Antes da sua vinda, a nossa rua era o trecho mais sossegado da cidade. Tinha um largo passeio, onde brincavam crianças. Travessas crianças. Enchiam de doce alarido as enevoadas noites de inverno, cantando de mãos dadas ou correndo de uma árvore a outra.
A nossa intranquilidade começou na madrugada em que fomos despertados por desusado movimento de caminhões, a despejarem pesados caixotes no prédio do antigo hotel. Disseram-nos, posteriormente, tratar-se da mobília de um rico celibatário, que passaria a residir a li. Achei leviana a informação. Além de ser demasiado grande para uma só pessoa, a casa estava caindo aos pedaços. A quantidade de volumes, empilhados na espaçosa varanda do edifício, permitia suposições menos inverossímeis. Possivelmente a casa havia sido alugada para depósito de algum estabelecimento comercial.
Meu irmão Artur, sempre ao sabor de exagerada sensibilidade, contestava enérgico as minhas conclusões. Nervoso, afirmava que as casas começavam a tremer e apontava-me o céu, onde se revezavam o branco e o cinzento. (Pontos brancos, pontos cinzentos, quadradinhos perfeitos das duas cores, a substituírem-se rápidos, lépidos, saltitantes.)
Daquela vez, a mania de contradição me arrastara a um erro grosseiro, pois antes de decorrida uma semana chegava o novo vizinho. Cobria-lhe a cabeça um boné xadrez (cinzento e branco) e entre os dentes escuros trazia um cachimbo curvo. Os olhos fundos, a roupa sobrando no corpo esquelético e pequeno, puxava pela mão um ridículo cão perdigueiro. Ao invés da atitude zombeteira que assumi ante aquela figura grotesca, Artur ficou completamente transtornado:
— Esse homem trouxe os quadradinhos, mas não tardará a desaparecer.
Não foram poucos os que se impressionaram com o procedimento do solteirão. Os seus hábitos estranhos deixavam perplexos os moradores da rua. Nunca era visto saindo de casa e, diariamente, às cinco horas da tarde, com absoluta pontualidade, aparecia no alpendre, acompanhado pelo cachorro. Sem se separar do boné que, possivelmente, escondia uma calvície adiantada, tirava baforadas do cachimbo e se recolhia novamente. O tempo restante conservava-se invisível.
Artur passava o dia espreitando-o, animado por uma tola esperança de vê-lo surgir antes da hora predeterminada. Não esmorecia, vendo burlados os seus propósitos. A sua excitação crescia à medida que se aproximava o momento de defrontar-se com o solitário inquilino do prédio vizinho. Quando os seus olhos o divisavam, abandonava-se a uma alegria despropositada:
— Olha, Roderico, ele está mais magro do que ontem!
Eu me agastava e lhe dizia que não me aborrecesse, nem se ocupasse tanto com a vida dos outros.
Fazia-se de desentendido e, no dia seguinte, encontrava-o novamente no seu posto, a repetir-me que o homenzinho continuava definhando.
— Impossível — eu retrucava —, o diabo do magrela não tem mais como emagrecer!
— Pois está emagrecendo.
Ainda encontrava-me na cama, quando Artur entrou no meu quarto sacudindo os braços, gritando:
— Chama-se Anatólio!
Respondi irritado, refreando a custo um palavrão: chamasse Nabucodonosor!
Repentinamente emudeceu. Da janela, surpreso e quieto, fez um gesto para que eu me aproximasse. Em frente ao antigo hotel acabara de parar um automóvel e dele desceu uma bonita moça. Ela mesma retirou a bagagem do carro. Com uma chave, que trazia na bolsa, abriu a porta da casa, sem que ninguém aparecesse para recebê-la.
Impelido pela curiosidade, meu irmão não me dava folga:
— Por que ela não apareceu antes? Ele não é solteiro?
— Ora, que importância tem uma jovem residir com um celibatário?
Por mais que me desdobrasse, procurando afastá-lo da obsessão, Artur arranjava outros motivos para inquietar-se. Agora era a moça que se ocultava, não dava sinal da sua permanência na casa. Ele, porém, se recusava a aceitar a hipótese de que ela tivesse ido embora e se negava a discutir o problema comigo:
— Curioso, o homem se definha e é a mulher que desaparece!
Três meses mais tarde, de novo abriu-se a porta do casarão para dar passagem à moça. Sozinha, como viera, carregou as malas consigo.
— Por que segue a pé? Será que o miserável lhe negou dinheiro para o táxi?
Com a partida da jovem, Artur retornou ao primitivo interesse pelo magro Anatólio. E, rangendo os dentes, repetia:
— Continua emagrecendo.
Por outro lado, a confiança que antes eu depositava nos meus nervos decrescia, cedendo lugar a uma permanente ansiedade. Não tanto pelo magricela, que pouco me importava, mas por causa do mano, cujas preocupações cavavam-lhe a face, afundavam-lhe os olhos. Para lhe provar que nada havia de anormal no solteirão, passei a vigiar o nosso enigmático vizinho.
Surgia à hora marcada. O olhar vago, o boné enterrado na cabeça, às vezes mostrava um sorriso escarninho.
* * *
Eu não tirava os olhos do homem. Sua magreza me fascinava. Contudo, foi Artur que me chamou a atenção para um detalhe:
— Ele está ficando transparente.
Assustei-me. Através do corpo do homenzinho viam-se objetos que estavam no interior da casa: jarras de flores, livros, misturados com intestinos e rins. O coração parecia estar dependurado na maçaneta da porta, cerrada somente de um dos lados.
Também Artur emagrecia e nem por isso fiquei apreensivo. Anatólio tornara-se a minha única preocupação. As suas carnes se desfaziam rapidamente, enquanto meu irmão bufava, pleno de gozo:
— Olha! De tão magro, só tem perfil. Amanhã desaparecerá.
Às cinco horas da tarde do dia seguinte, o solteirão apareceu na varanda, arrastando-se com dificuldade. Nada mais tendo para emagrecer, seu crânio havia diminuído e o boné, folgado na cabeça, escorregara até os olhos. O vento fazia com que o corpo dobrasse sobre si mesmo. Teve um espasmo e lançou um jato de fogo, que varreu a rua. Artur, excitado, não perdia o lance, enquanto eu recuava atemorizado.
Por instantes, Anatólio se encolheu para, depois, tornar a vomitar. Menos que da primeira vez. Em seguida, cuspiu. No fim, já ansiado, deixou escorrer uma baba incandescente pelo tórax abaixo e incendiou-se. Restou a cabeça, coberta pelo boné. O cachimbo se apagava no chão.
— Não falei! — gritava Artur, exultante.
A sua voz foi ficando fina, longínqua. Olhando para o lugar onde ele se encontrava, vi que seu corpo diminuíra espantosamente. Ficara reduzido a alguns centímetros e, numa vozinha quase imperceptível, murmurava:
— Não falei, não falei.
Peguei-o com as pontas dos dedos antes que desaparecesse completamente. Retive-o por instantes. Logo se transformou numa bolinha negra, a rolar na minha mão.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-homem-do-bone-cinzento-conto-de-murilo-rubiao/.

quinta-feira, 7 de março de 2024

SESSÃO LEITURA - OS COMENSAIS - MURILO RUBIÃO

O texto abaixo é de autoria de Murilo Rubião.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.portugues.com.br/literatura/murilo-rubiao.html.
Boa leitura!

OS COMENSAIS

E naqueles dias os homens buscarão a morte e não a acharão; desejarão morrer e a morte fugirá deles.
(Apocalipse, IX, 6)

Desde o primeiro contato Jadon admitiu a precariedade das suas relações com os companheiros de refeitório. E a atitude de permanente alheamento que assumiam na sua presença, ele a recebeu como possível advertência. Sem manifestar irritação ante o isolamento a que o constrangiam, conjeturava se eles não acabariam por se tornar mais expansivos.
Era-lhe penoso, entretanto, encontrá-los sempre na mesma posição, a aparentar indiferença pela comida que lhes serviam e por tudo que se passava ao redor. Enquanto Jadon almoçava, permaneciam quietos, os braços caídos, os olhos baixos. Ao jantar, lá estavam nos mesmos lugares, diante das compridas mesas espalhadas pelo salão. Assentavam-se em grupos de vinte, deixando livres as cabeceiras. Menos uma, justamente a da mesa central, onde ficava um velho alto e pálido. Este, a exemplo dos demais, nada comia, mantendo-se numa postura de rígida abstração, como a exigir que respeitassem o seu recolhimento. Malgrado a sua recusa em se alimentar, silenciosos criados substituíam continuamente os pratos ainda cheios.
A princípio Jadon espreitava-os discretamente, na esperança de surpreendê-los trocando olhares ou segredos entre si. Logo verificou a inutilidade do seu propósito: jamais desviavam os olhos da toalha e prosseguiam com os lábios cerrados. Experimentou o recurso de dirigir-se bruscamente aos vizinhos e desapontou-se por não conseguir despertar-lhes a atenção. Mantinham-se impassíveis, mesmo quando as frases eram ásperas ou acompanhadas de gritos.
Após essa experiência, seguiu-se um período em que Jadon desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheiros taciturnos que, apesar de manifestarem evidente desinteresse pelos alimentos, apresentavam-se saudáveis e tranquilos. Essa observação seria o suficiente para convencê-lo de que os comensais evitavam comer somente durante a sua permanência no recinto. Por certo aguardavam a sua saída para se atirarem avidamente às especialidades da casa. Nesse momento talvez se estendessem em alegres diálogos, aos quais não faltariam desprimorosas alusões à sua pessoa, cuja presença deveria ser bastante desagradável para todos.
Que se danassem, resmungava, esforçando-se por ignorar o procedimento descortês dos que a li tomavam refeições. E concentrava-se em saborear a excelente comida que lhe era servida e sempre renovada sem que isso envolvesse qualquer sugestão ou pedido seu. Nos primeiros tempos achava engraçado acompanhar os movimentos dos garçons que, mesmo vendo-o de pé, pronto a retirar-se, vinham com novas travessas para substituir as que estavam na sua frente.
Contudo desagradava-lhe o silêncio reinante, o segregamento que lhe impunham. Ultrapassado o limite suportável do aborrecimento, desinibia-se nos vizinhos mais próximos, dando-lhes pontapés por debaixo da mesa, à espera de que reagissem ou retrucassem com um palavrão. Em nenhuma oportunidade percebeu neles o menor sinal de constrangimento.
Era também por sadismo que se entretinha às vezes em mortificá-los, calculando o esforço que despenderiam para ignorar a sua impertinência. Numa das ocasiões em que se divertia atirando bolotas de pão no rosto deles, sentiu-se encabulado por ter atingido um senhor idoso que até a véspera não participava do grupo. Mesmo considerando a falta de intimidade com os presentes, reconhecia ter sido tacitamente aceito como companheiro e assim deveria evitar brincadeiras com desconhecidos. Desviou contrariado o olhar para o fundo do salão, onde algo de anormal o surpreendeu: em sítios diversos, encontravam-se pessoas cujas fisionomias lhe eram inteiramente estranhas. A descoberta deixou-o intrigado. Desde que passara a frequentar aquele local, as mesas tinham todos os assentos tomados por antigos fregueses que nunca se ausentavam dos lugares habituais nem os permutavam entre si. Esquadrinhou os semblantes, examinando com atenção se alguém desaparecera para abrir vagas aos novatos e não constatou qualquer ausência. Contava e recontava os ocupantes das mesas, sem deparar mais de vinte em cada, à exceção, naturalmente, daquela em que se postava o pobre velho.
Por outro lado, a área do refeitório, embora extensa, não comportava acréscimos de localidades que permitissem acolher novos frequentadores. E estes, para tornar mais confusa a situação, não se apresentavam juntos, mas entremeados aos veteranos. Havia ainda um detalhe perturbador: jamais ocupavam o seu lugar, mesmo que chegasse com grande atraso.
Daí por diante, Jadon permaneceria bem atento ao que se passava nas imediações e frequentemente surpreendia-se dando com os olhos em indivíduos que dias atrás não partilhavam da mesma mesa. À medida que aumentava sua perplexidade, e não conseguia explicar como faziam os recém-chegados para acomodar-se entre os demais, do seu íntimo emergia a desconfiança de que tudo aquilo poderia ser propositado — um recurso sombrio de intrigá-lo, quebrar-lhe a resistência pelo mistério, e afastá-lo definitivamente daquele local.
Se essa era a intenção real deles — dizia consigo mesmo —, estavam enganados. Apreciava muito o vinho e a comida da casa para pensar em trocá-la por outro restaurante.
Também não se esquivaria à provocação. Iria até a mais franca hostilidade, pois a sua permanência a li dependia de uma ação firme, que obrigasse o adversário a recuar em seus escusos desígnios. Na ocupação das mesas havia uma fraude a ser desmoralizada e nessa tarefa se concentrou.
No dia imediato, animado pela perspectiva de acionar o esquema traçado, chegou bem cedo ao refeitório. Desapontou-se logo à entrada: encontravam-se todos em seus respectivos lugares.
O desapontamento não desencorajou Jadon, que, nas manhãs seguintes, foi encurtando gradativamente o horário de chegada. E por mais que o encurtasse, seria sempre o último a tomar assento entre eles.
Durante algum tempo insistiria na decisão de desvendar, a todo custo, a maneira pela qual se processava o aumento progressivo de comensais sem que se multiplicasse o número de cadeiras. No final, cansou-se. Além de lhe desagradar o almoço em horas tão matinais, convencera-se da necessidade de mudar a estratégia. Já que não lhe permitiam ser o primeiro a chegar, decidiu obrigá-los a sair antes dele ou se submeterem ao seu capricho de vê-los ao menos uma vez jantar na sua frente.
Evitando incorrer novamente na leviandade de subestimar a teimosia dos circunstantes, preparou-se para executar programas ociosos. Com a ajuda de jornais, revistas e livros emendava as duas refeições. Se com o passar das horas lhe vinha o cansaço ou o tédio pela leitura, levantava-se, passeava pela sala ou ia até a rua, voltando logo.
No curso da noite, mal contendo o sono, aguardava em vão que os parceiros tomassem a iniciativa de se alimentar. Quando entrevia neles a determinação de permanecerem nos seus postos, indiferentes à comida, dava-se por vencido e se dispunha a regressar a casa. Da soleira da porta, voltava a cabeça para trás e estremecia de ódio ante uma cena terrivelmente familiar: os criados, indo e vindo como autômatos; os comensais, de ombros curvados, a esconderem o olhar.
Não tardou a compenetrar-se de que cometera outro erro de previsão. Nem por isso mostrava-se convencido da esterilidade da luta que enfrentava. É que ainda o amparava um vacilante otimismo. Somente ao verificar que não mais experimentava prazer em degustar as bebidas e saborear a comida, constatou que tinha pela frente uma única alternativa: a violência. A ela recorreu.
Nos dias subsequentes, a fisionomia endurecida, passadas largas, irrompia pelo salão. No caminho, distribuía insultos e murros. E mesmo sem arrancar um gesto de reação ou repulsa das pessoas agredidas, os excessos refrescavam-lhe a mente.
Das arbitrariedades também se cansou. Esgotara os recursos disponíveis para romper a opressiva indiferença dos comensais, e falhara. Só lhe restava agora buscar um restaurante no extremo oposto da cidade.
Foi uma resolução demorada e sofrida: naquele almoço faria a sua despedida. E a desejava com todos os requintes do seu ritual de agressão.
Desde a entrada veio agredindo e destratando um por um os presentes.
Cumpria com calculada lentidão a tarefa, escolhendo bem o alvo, pronunciando com sádica clareza as sílabas dos palavrões. De súbito imobilizou-se, abaixando o punho prestes a desferir violento golpe.
Diante dele estava uma jovem que possivelmente não ultrapassara os dezesseis anos. O olhar fixo no semblante delicado da adolescente, percebeu que um sentimento antigo lhe retornava.
Percorria com os olhos o corpo de linhas perfeitas, os cabelos castanhos, entremeados de fios dourados, compondo-se em longas tranças. Quase nada mudara nela. Apenas o rosto lhe parecia mais pálido, talvez faltasse o sorriso que trinta anos atrás era constante nos seus lábios.
— Hebe, Hebe, minha flor! Que alegria! — gritou, as palavras tensas, numa voz repentinamente enrouquecida.
Quis falar da sua emoção e conteve-se, chocado com a insensibilidade dela ante a carinhosa acolhida que ele lhe proporcionava. Pálpebras cerradas, os braços pendentes, Hebe parecia refugiar-se na mesma solidão dos outros.
Constrangido, a buscar uma saída para o seu embaraço, Jadon teve a suficiente isenção de relevar o procedimento da sua primeira namorada. À distância, o largo intervalo entre o último encontro e agora. O silêncio, ele que prometera escrever longas cartas.
Encaminhou-se vagarosamente para o seu lugar. Um aroma distante, vindo de um passeio matinal, o envolvia. Mantinha os olhos presos à figura grácil de Hebe e a contemplava com igual encantamento de três decênios passados. A mesma beleza acanhada de moça do interior, o mesmo vestido de bolinhas azuis.
Jadon era moço, se bem que mais velho do que ela. Naquele dia se despediam. Ele se transferia, com os pais, para uma cidade maior e Hebe acompanhava-o até a pequenina estação, distante um quilômetro. O rapaz carregava uma mala de papelão fingindo couro e os dois caminhavam preguiçosamente porque havia tempo.
Caminho afora, naquela manhã friorenta de junho, o orvalho a molhar o capim, enquanto um tímido sol aumentava o brilho das gotículas depositadas nas folhas do arvoredo, eles sentiam o universo parar ao contato do amor.
A espaços, detinham-se, Jadon depositava a mala no chão, beijavam-se.
Outras vezes ela corria ao redor do namorado ou se afastava, para de longe jogar-lhe beijos com a ponta dos dedos. Brincalhona, a alegria e a tristeza se revezando nos seus olhos, não poderia suspeitar que aquele encontro seria o último.
Ele prometera voltar, mas em breve esqueceria a promessa, rendido ao alumbramento da grande cidade, a fêmeas mais adestradas para o amor.
O lugar de Hebe no salão ficava distante e Jadon não conseguia divisar-lhe o rosto, sempre escondido pela cabeça de algum comensal. Por sua vez ela se despreocupava em ser vista, forçando-o a levantar-se frequentemente.
Logo verificou que pouco lhe adiantaria ficar de pé ou assentado. Qual fosse a sua posição, o desinteresse da moça não se alterava. Ressentido, preferiu acreditar que exagerava as proporções daquele namoro esquecido no tempo e que tolamente tentara reatar. O mais sensato era afastar-se definitivamente dali, conforme sua decisão anterior.
Seguia em direção à porta de saída, quando fez menção de parar defronte da jovem e dizer-lhe algo. Refreou a tempo o impulso, estugando o passo.
Bem antes de chegar em casa já se arrependera e esgotou o resto da tarde entre aceitar e repelir o desejo de retornar ao refeitório. Ao vencer, por fim, as suas próprias contradições, abeirava-se a noite.
Nas mãos levava rosas e foi direto à mesa de Hebe. As primeiras frases lhe escaparam tímidas, balbuciadas, até que mais seguro de si reencontrou o pequeno discurso decorado. Em breve julgaria improvisar, porém as palavras se nutriam de velhas ressonâncias. Quando notou que as flores jaziam intocadas sobre a toalha, perturbou-se e o desapontamento espalhou-se pela sua face. A custo prendeu um soluço, prenuncio de um desespero prestes a desencadear-se. Com apaixonada violência tentou ainda subtrair Hebe à sua dolorosa clausura, mas aos poucos a sua voz perdia a segurança, o calor. Levou a mão à boca, sem conseguir evitar o pranto, um pranto manso. Faltando-lhe ânimo para somar o que lhe restava de amor-próprio, voltou-se humilde para trás, à espera de uníssona gargalhada de uma plateia que devia estar atenta a seu ridículo procedimento. Apenas o ar pesado, o silêncio.
Foi para seu lugar e não tocou na comida. Pôs-se a beber descontroladamente e no álcool diluiu a humilhação. Vagava em triste euforia, retornava ao rapaz sentimental que tinha sido. Por entre pensamentos soltos e imagens da infância, recuou até o velho casarão colonial da fazenda de seus pais. O rio, as lavadeiras — o mistério da puberdade sendo decifrado —, o trem de ferro a acender a imaginação dele e dos companheiros, levando-os a lugares distantes. As reminiscências se dispersavam em retalhos e nem sempre traziam o retrato de Hebe. Porém nos melhores lá estavam as suas tranças, os olhos ligeiramente estrábicos.
Bebera demasiado. E encorajado pela embriaguez tentou levantar-se para colher Hebe nos braços, arrancar-lhe o perdão. O corpo recusou-se a obedecer-lhe. Caiu pesadamente na cadeira e, debruçado sobre a mesa, veio-lhe um sono entorpecedor.
Acordou madrugada alta, ignorando o tempo que dormira. Mal desperto, seus olhos se chocaram com um espetáculo que antes não lhe parecera tão repugnante: diante dele encontravam-se os comensais na mesma posição em que os deixara ao adormecer, enquanto os garçons, maquinalmente, trocavam os pratos, como se o jantar tivesse iniciado há pouco. Um pressentimento terrível perpassou-lhe pela mente e num lampejo de súbita lucidez compreendeu que todos moravam no refeitório. Por isso jamais conseguira chegar antes ou sair depois deles. Essa tardia revelação estarreceu-o. Sabia que tinha pela frente a última oportunidade de escapar dali. Levantou-se de um salto e ao passar por Hebe tentou levá-la consigo:
— Vamos, Hebe, vamos — gritava, puxando-a pelos braços que não ofereciam resistência, transformados em uma coisa gelatinosa. O corpo grudara-se no assento. Não esmorecia, apesar de sentir-se incapaz de removê-la. No momento em que mais se empenhava em arrastá-la, um gesto brusco seu lançou para trás a cabeça de Hebe e as suas pálpebras, movendo-se como se pertencessem a uma boneca de massa, descerraram-se. Largou-a, aterrorizado. Teve ímpeto de correr e controlou-se. Foi-se afastando de costas, os olhos siderados, em direção ao corredor. No meio do caminho, ocorreu-lhe que precisava liquidar seu débito com a casa.
— Diabo! Onde seria a gerência? — perguntou a si mesmo, achando estranho não ter-se preocupado até aquele dia em saber da sua localização. — Se nunca lhe tinham cobrado, por que não tomara a iniciativa de pagar as despesas?
A pressa levou-o a afastar essa e outras indagações. Tratou de enfiar-se por uma dependência, na qual jamais entrara, calculando que a li acharia o gerente ou a pessoa encarregada das cobranças. Deparou com um cômodo sem janelas, as luzes acesas, vazio. Proferiu uma palavra obscena, decidindo-se por enviar um cheque pelo correio, mesmo desconhecendo o montante da dívida.
Rapidamente ganhou o corredor, rumo à porta principal. Verificou, com certa surpresa, que, no lugar onde ela deveria estar, uma parede lisa vedava-lhe a passagem. Retrocedeu célere, julgando que possivelmente se desorientara. Também não a encontrou no lado oposto. Retornou várias vezes ao ponto de partida e tinha a impressão de que não saíra do lugar. Indo e vindo, gastou excessiva energia antes de lembrar-se do refeitório. Lá encontraria uma saída para os fundos do prédio. Agora era o salão que ele não achava. Ia crescendo a sua inquietação e, sentindo-se encurralado, buscava uma janela, uma abertura qualquer que o levasse à rua. Nada, nada além do corredor. Nem reparou que a iluminação decaíra e poucas lâmpadas estavam acesas. O suor escorria-lhe pela testa, mas Jadon perseverava na sua inútil tentativa de fugir daquele recinto.
Apenas parou — e por alguns minutos — ao sentir falta de ar. Afrouxou o colarinho, jogou fora a gravata, levando as mãos ao coração, a bater descompassado. Temia uma síncope — tinha o coração frágil. Contudo voltou a correr, detendo-se somente para esmurrar as paredes. Ofegante, a tremer, apelava por um socorro que sabia impossível. Olhava para cima, para os lados, a língua seca, o fio de esperança nos olhos acovardados. — Devia haver uma saída, por que não haveria?
Pela última vez atravessava o longo corredor. Sentia-se fraco, uma necessidade premente de uma bebida forte, da presença da mãe. A lembrança dela fê-lo rezar, sem que conseguisse chegar ao fim das orações, saltando do princípio de uma para o final de outra.
Apoiou-se numa das paredes. O corpo escorregou por ela abaixo e perdeu os sentidos. Mais tarde o coração retomaria o ritmo normal, enquanto Jadon se levantava, a mente desanuviada, alheio à pressa e sem explicação por que estivera sentado no chão.
Diante do espelho da saleta tentou ainda lembrar-se de algo momentaneamente esquecido. Desistiu e contemplou, com vaidade, o belo rosto nele refletido. Alisava os cabelos, sorrindo para os vinte anos que a sua face mostrava. Ao lembrar-se que poderia estar atrasado para o almoço, apressou-se. Já na sala de jantar, caminhou até a grande mesa de refeições, assentando-se descuidadamente numa das cadeiras. Os braços descaíram e os olhos, embaçados, perderam-se no vazio. Estava só na sala imensa.

Fonte: https://www.fantasticacultural.com.br/artigo/856/os_comensais_-_murilo_rubiao__conto_completo.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

SESSÃO LEITURA - TELECO, O COELHINHO - MURILO RUBIÃO

O texto abaixo é de autoria de Murilo Rubião.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.portugues.com.br/literatura/murilo-rubiao.html.
Boa leitura!

TELECO, O COELHINHO

Três coisas me são difíceis de entender, e uma quarta eu a ignoro completamente: o caminho da águia no ar, o caminho da cobra sobre a pedra, o caminho da nau no meio do mar, e o caminho do homem na sua mocidade.
(Provérbios, XXX, 18 e 19)

– Moço, me dá um cigarro?
A voz era sumida; quase um sussurro. Permaneci na mesma posição em que me encontrava, frente ao mar, absorvido com ridículas lembranças.
O importuno pedinte insistia:
– Moço, oh! moço! Moço, me dá um cigarro? Ainda com os olhos fixos na praia, resmunguei:
– Vá embora, moleque, senão chamo a polícia.
– Está bem, moço. Não se zangue. E, por favor, saia da minha frente, que eu também gosto de ver o mar.
Exasperou-me a insolência de quem assim me tratava e virei-me, disposto a escorraçá-lo com um pontapé. Fui desarmado, entretanto. Diante de mim estava um coelhinho cinzento, a me interpelar delicadamente:
– Você não dá é porque não tem, não é, moço?
O seu jeito polido de dizer as coisas comoveu-me. Dei-lhe o cigarro e afastei-me para o lado, a fim de que melhor ele visse o oceano. Não fez nenhum gesto de agradecimento, mas já então conversávamos como velhos amigos. Ou, para ser mais exato, somente o coelhinho falava. Contava-me acontecimentos extraordinários, aventuras tamanhas que o supus com mais idade do que realmente aparentava.
Ao fim da tarde, indaguei onde ele morava. Disse não ter morada certa. A rua era o seu pouso habitual. Foi nesse momento que reparei nos seus olhos. Olhos mansos e tristes. Deles me apiedei e convidei-o a residir comigo. A casa era grande e morava sozinho — acrescentei.
A explicação não o convenceu. Exigiu-me que revelasse minhas reais intenções:
– Por acaso, o senhor gosta de carne de coelho? Não esperou pela resposta:
– Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.
Dizendo isso, transformou-se numa girafa.
– À noite — prosseguiu — serei cobra ou pombo. Não lhe importará a companhia de alguém tão instável?
Respondi-lhe que não e fomos morar juntos.
Chamava-se Teleco.
Depois de uma convivência maior, descobri que a mania de metamorfosear-se em outros bichos era nele simples desejo de agradar ao próximo. Gostava de ser gentil com crianças e velhos, divertindo-os com hábeis malabarismos ou prestando-lhes ajuda. O mesmo cavalo que, pela manhã, galopava com a gurizada, à tardinha, em lento caminhar, conduzia anciãos ou inválidos às suas casas.
Não simpatizava com alguns vizinhos, entre eles o agiota e suas irmãs, aos quais costumava aparecer sob a pele de leão ou tigre. Assustava-os mais para nos divertir que por maldade. As vítimas assim não entendiam e se queixavam à polícia, que perdia o tempo ouvindo as denúncias. Jamais encontraram em nossa residência, vasculhada de cima a baixo, outro animal além do coelhinho. Os investigadores irritavam-se com os queixosos e ameaçavam prendê-los.
Apenas uma vez tive medo de que as travessuras do meu irrequieto companheiro nos valessem sérias complicações. Estava recebendo uma das costumeiras visitas do delegado quando Teleco, movido por imprudente malícia, transformou-se repentinamente em porco-do-mato. A mudança e o retorno ao primitivo estado foram bastante rápidos para que o homem tivesse tempo de gritar. Mal abrira a boca, horrorizado, novamente tinha diante de si um pacífico coelho:
– O senhor viu o que eu vi?
Respondi, forçando uma cara inocente, que nada vira de anormal.
O homem olhou-me desconfiado, alisou a barba e, sem se despedir, ganhou a porta da rua.
A mim também pregava-me peças. Se encontrava vazia a casa, já sabia que ele andava escondido em algum canto, dissimulado em algum pequeno animal. Ou mesmo no meu corpo sob a forma de pulga, fugindo-me dos dedos, correndo pelas minhas costas. Quando começava a me impacientar e pedia-lhe que parasse com a brincadeira, não raro levava tremendo susto. Debaixo das minhas pernas crescera um bode que, em disparada, me transportava até o quintal. Eu me enraivecia, prometia-lhe uma boa surra. Simulando arrependimento, Teleco dirigia-me palavras afetuosas e logo fazíamos as pazes.
No mais, era o amigo dócil, que nos encantava com inesperadas mágicas. Amava as cores e muitas vezes surgia transmudado em ave que as possuía todas e de espécie inteiramente desconhecida ou de raça já extinta.
– Não existe pássaro assim!
– Sei. Mas seria insípido disfarçar-me somente em animais conhecidos.
O primeiro atrito grave que tive com Teleco ocorreu um ano após nos conhecermos. Eu regressava da casa da minha cunhada Emi, com quem discutira asperamente sobre negócios de família. Vinha mal-humorado e a cena que deparei, ao abrir a porta da entrada, agravou minha irritação. De mãos dadas, sentados no sofá da sala de visitas, encontravam-se uma jovem mulher e um mofino canguru. As roupas dele eram mal talhadas, seus olhos se escondiam por trás de uns óculos de metal ordinário.
– O que deseja a senhora com esse horrendo animal? — perguntei, aborrecido por ver minha casa invadida por estranhos.
– Eu sou o Teleco — antecipou-se, dando uma risadinha.
Mirei com desprezo aquele bicho mesquinho, de pelos ralos, a denunciar subserviência e torpeza. Nada nele me fazia lembrar o travesso coelhinho.
Neguei-me a aceitar como verdadeira a afirmação, pois Teleco não sofria da vista e se quisesse apresentar-se vestido teria o bom gosto de escolher outros trajes que não aqueles.
Ante a minha incredulidade, transformou-se numa perereca. Saltou por cima dos móveis, pulou no meu colo. Lancei-a longe, cheio de asco.
Retomando a forma de canguru, inquiriu-me, com um ar extremamente grave:
– Basta essa prova?
– Basta. E daí? O que você quer?
– De hoje em diante serei apenas homem.
– Homem? — indaguei atônito. Não resisti ao ridículo da situação e dei uma gargalhada:
– E isso? — apontei para a mulher. — É uma lagartixa ou um filhote de salamandra?
Ela me olhou com raiva. Quis retrucar, porém ele atalhou:
– É Tereza. Veio morar conosco. Não é linda?
Sem dúvida, linda. Durante a noite, na qual me faltou o sono, meus pensamentos giravam em torno dela e da cretinice de Teleco em afirmar-se homem.
Levantei-me de madrugada e me dirigi à sala, na expectativa de que os fatos do dia anterior não passassem de mais um dos gracejos do meu companheiro.
Enganava-me. Deitado ao lado da moça, no tapete do assoalho, o canguru ressonava alto. Acordei-o, puxando-o pelos braços:
– Vamos, Teleco, chega de trapaça.
Abriu os olhos, assustado, mas, ao reconhecer-me, sorriu:
– Teleco?! Meu nome é Barbosa, Antônio Barbosa, não é, Tereza?
Ela, que acabara de despertar, assentiu, movendo a cabeça.
Explodi, encolerizado:
– Se é Barbosa, rua! E não me ponha mais os pés aqui, filho de um rato!
Desceram-lhe as lágrimas pelo rosto e, ajoelhado, na minha frente, acariciava minhas pernas, pedindo-me que não o expulsasse de casa, pelo menos enquanto procurava emprego.
Embora encarasse com ceticismo a possibilidade de empregar-se um canguru, seu pranto me demoveu da decisão anterior, ou, para dizer a verdade toda, fui persuadido pelo olhar súplice de Tereza, que, apreensiva, acompanhava o nosso diálogo.
Barbosa tinha hábitos horríveis. Amiúde cuspia no chão e raramente tomava banho, não obstante a extrema vaidade que o impelia a ficar horas e horas diante do espelho. Utilizava-se do meu aparelho de barbear, da minha escova de dentes e pouco serviu comprar-lhe esses objetos, pois continuou a usar os meus e os dele. Se me queixava do abuso, desculpava-se, alegando distração.
Também a sua figura tosca me repugnava. A pele era gordurosa, os membros curtos, a alma dissimulada. Não media esforços para me agradar, contando-me anedotas sem graça, exagerando nos elogios à minha pessoa.
Por outro lado, custava tolerar suas mentiras e, às refeições, a sua maneira ruidosa de comer, enchendo a boca de comida com auxílio das mãos.
Talvez por ter me abandonado aos encantos de Tereza, ou para não desagradá-la, o certo é que aceitava, sem protesto, a presença incômoda de Barbosa.
Se afirmava ser tolice de Teleco querer nos impor sua falsa condição humana, ela me respondia com uma convicção desconcertante:
– Ele se chama Barbosa e é um homem.
O canguru percebeu o meu interesse pela sua companheira e, confundindo a minha tolerância como possível fraqueza, tornou-se atrevido e zombava de mim quando o recriminava por vestir minhas roupas, fumar dos meus cigarros ou subtrair dinheiro do meu bolso.
Em diversas ocasiões, apelei para a sua frouxa sensibilidade, pedindo-lhe que voltasse a ser coelho.
– Voltar a ser coelho? Nunca fui bicho. Nem sei de quem você fala.
– Falo de um coelhinho cinzento e meigo, que costumava se transformar em outros animais.
Nesse meio-tempo, meu amor por Tereza oscilava por entre pensamentos sombrios, e tinha pouca esperança de ser correspondido. Mesmo na incerteza, decidi propor-lhe casamento.
Fria, sem rodeios, ela encerrou o assunto:
– A sua proposta é menos generosa do que você imagina. Ele vale muito mais.
As palavras usadas para recusar-me convenceram-me de que ela pensava explorar de modo suspeito as habilidades de Teleco.
Frustrada a tentativa do noivado, não podia vê-los juntos e íntimos, sem assumir uma atitude agressiva.
O canguru notou a mudança no meu comportamento e evitava os lugares onde me pudesse encontrar.
Uma tarde, voltando do trabalho, minha atenção foi alertada pelo som ensurdecedor da eletrola, ligada com todo o volume. Logo ao abrir a porta, senti o sangue afluir- me à cabeça: Tereza e Barbosa, os rostos colados, dançavam um samba indecente.
Indignado, separei-os. Agarrei o canguru pela gola e, sacudindo-o com violência, apontava-lhe o espelho da sala:
– É ou não é um animal?
– Não, sou um homem! — E soluçava, esperneando, transido de medo pela fúria que via nos meus olhos.
À Tereza, que acudira, ouvindo seus gritos, pedia:
– Não sou um homem, querida? Fala com ele.
– Sim, amor, você é um homem.
Por mais absurdo que me parecesse, havia uma trágica sinceridade na voz deles. Eu me decidira, porém. Joguei Barbosa ao chão e lhe esmurrei a boca. Em seguida, enxotei-os.
Ainda da rua, muito excitada, ela me advertiu:
– Farei de Barbosa um homem importante, seu porcaria!
Foi a última vez que os vi. Tive, mais tarde, vagas notícias de um mágico chamado Barbosa a fazer sucesso na cidade. À falta de maiores esclarecimentos, acreditei ser mera coincidência de nomes.
A minha paixão por Tereza se esfumara no tempo e voltara-me o interesse pelos selos. As horas disponíveis eu as ocupava com a coleção.
Estava, uma noite, precisamente colando exemplares raros, recebidos na véspera, quando saltou, janela adentro, um cachorro. Refeito do susto, fiz menção de correr o animal. Todavia não cheguei a enxotá-lo.
– Sou o Teleco, seu amigo — afirmou, com uma voz excessivamente trêmula e triste, transformando-se em uma cotia.
– E ela? — perguntei com simulada displicência.
– Tereza… — sem que concluísse a frase, adquiriu as formas de um pavão.
– Havia muitas cores… o circo… ela estava linda… foi horrível… — prosseguiu, chocalhando os guizos de uma cascavel.
Seguiu-se breve silêncio, antes que voltasse a falar:
– O uniforme… muito branco… cinco cordas… amanhã serei homem… — as palavras saíam-lhe espremidas, sem nexo, à medida que Teleco se metamorfoseava em outros animais.
Por um momento, ficou a tossir. Uma tosse nervosa. Fraca, a princípio, ela avultava com as mutações dele em bichos maiores, enquanto eu lhe suplicava que se aquietasse. Contudo ele não conseguia controlar-se.
Debalde tentava exprimir-se. Os períodos saltavam curtos e confusos.
– Pare com isso e fale mais calmo — insistia eu, impaciente com as suas contínuas transformações.
– Não posso — tartamudeava, sob a pele de um lagarto.
* * *
Alguns dias transcorridos, perdurava o mesmo caos. Pelos cantos, a tremer, Teleco se lamuriava, transformando-se seguidamente em animais os mais variados. Gaguejava muito e não podia alimentar-se, pois a boca, crescendo e diminuindo, conforme o bicho que encarnava na hora, nem sempre combinava com o tamanho do alimento. Dos seus olhos, então, escorriam lágrimas que, pequenas nos olhos miúdos de um rato, ficavam enormes na face de um hipopótamo.
Ante a minha impotência em diminuir-lhe o sofrimento, abraçava-me a ele, chorando. O seu corpo, porém, crescia nos meus braços, atirando-me de encontro à parede.
Não mais falava: mugia, crocitava, zurrava, guinchava, bramia, trissava.
Por fim, já menos intranquilo, limitava as suas transformações a pequenos animais, até que se fixou na forma de um carneirinho, a balir tristemente. Colhi-o nas mãos e senti que seu corpo ardia em febre, transpirava.
Na última noite, apenas estremecia de leve e, aos poucos, se aquietou. Cansado pela longa vigília, cerrei os olhos e adormeci. Ao acordar, percebi que uma coisa se transformara nos meus braços. No meu colo estava uma criança encardida, sem dentes. Morta.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/teleco-o-coelhinho-conto-de-murilo-rubiao/.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

SESSÃO LEITURA - A ARMADILHA - MURILO RUBIÃO

o conto que apresentamos abaixo é da autoria de Murilo Rubião. Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://contosbrasileiros.blogspot.com.br/2007_12_01_archive.html.
Boa leitura!

A Armadilha

Alexandre Saldanha Ribeiro. Desprezou o elevador e seguiu pela escada, apesar da volumosa mala que carregava e do número de andares a serem vencidos. Dez. Não demonstrava pressa, porém o seu rosto denunciava a segurança de uma resolução irrevogável. Já no décimo pavimento, meteu-se por um longo corredor, onde a poeira e detritos emprestavam desagradável aspecto aos ladrilhos. Todas as salas encontravam-se fechadas e delas não escapava qualquer ruído que indicasse presença humana. Parou diante do último escritório e perdeu algum tempo lendo uma frase, escrita a lápis, na parede. Em seguida passou a mala para a mão esquerda e com a direita experimentou a maçaneta, que custou a girar, como se há muito não fosse utilizada. Mesmo assim não conseguiu franquear a porta, cujo madeiramento empenara. Teve que usar o ombro para forçá-la. E o fez com tamanha violência que ela veio abaixo ruidosamente. Não se impressionou. Estava muito seguro de si para dar importância ao barulho que antecedera a sua entrada numa saleta escura, recendendo a mofo. Percorreu com os olhos os móveis, as paredes. Contrariado, deixou escapar uma praga. Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho. Deles emergia uma penosa tonalidade azul. Naquela sala tudo respirava bolor, denotava extremo desmazelo, inclusive as esgarçadas roupas do seu solitário ocupante: — Estava à sua espera — disse, com uma voz macia. Alexandre não deu mostras de ter ouvido, fascinado com o olhar do seu interlocutor. Lembrava-lhe a viagem que fizera pelo mar, algumas palavras duras, num vão de escada. O outro teve que insistir:
— Afinal, você veio.Subtraído bruscamente às recordações, ele fez um esforço violento para não demonstrar espanto: — Ah, esperava-me? — Não aguardou resposta e prosseguiu exaltado, como se de repente viesse à tona uma irritação antiga: — Impossível! Nunca você poderia calcular que eu chegaria hoje, se acabo de desembarcar e ninguém está informado da minha presença na cidade! Você é um farsante, mau farsante. Certamente aplicou sua velha técnica e pôs espias no meu encalço. De outro modo seria difícil descobrir, pois vivo viajando, mudando de lugar e nome.
— Não sabia das suas viagens nem dos seus disfarces. — Então, como fez para adivinhar a data da minha chegada? — Nada adivinhei. Apenas esperava a sua vinda. Há dois anos, nesta cadeira, na mesma posição em que me encontro, aguardava-o certo de que você viria. Por instantes, calaram-se. Preparavam-se para golpes mais fundos ou para desvendar o jogo em que se empenhavam.Alexandre pensou em tomar a iniciativa do ataque, convencido de que somente assim poderia desfazer a placidez do adversário. Este, entretanto, percebeu-lhe a intenção e antecipou-se: — Antes que me dirija outras perguntas — e sei que tem muitas a fazer-me — quero saber o que aconteceu com Ema.— Nada — respondeu, procurando dar à voz um tom despreocupado. — Nada? Alexandre percebeu a ironia e seus olhos encheram-se de ódio e humilhação. Tentou revidar com um palavrão. Todavia, a firmeza e a tranqüilidade que iam no rosto do outro venceram-no.— Abandonou-me — deixou escapar, constrangido pela vergonha. E numa tentativa inútil de demonstrar um resto de altivez, acrescentou: — Disso você não sabia!Um leve clarão passou pelo olhar do homem idoso:— Calculava, porém desejava ter certeza.Começava a escurecer. Um silêncio pesado separava-os e ambos volveram para certas reminiscências que, mesmo contra a vontade deles, sempre os ligariam. O velho guardou a arma. Dos seus lábios desaparecera o sorriso irônico que conservara durante todo o diálogo. Acendeu um cigarro e pensou em formular uma pergunta que, depois, ele julgaria, desnecessária. Alexandre impediu que a fizesse.
Gesticulando, nervoso, aproximara-se da mesa: — Seu caduco, não tem medo que eu aproveite a ocasião para matá-lo. Quero ver sua coragem, agora, sem o revólver. — Não, além de desarmado, você não veio aqui para matar-me. — O que está esperando, então?! — gritou Alexandre. — Mate-me logo! — Não posso. — Não pode ou não quer? — Estou impedido de fazê-lo. Para evitar essa tentação, após tão longa espera, descarreguei toda a carga da arma no teto da sala.Alexandre olhou para cima e viu o forro crivado de balas. Ficou confuso. Aos poucos, refazendo-se da surpresa, abandonou-se ao desespero. Correu para uma das janelas e tentou atirar-se através dela. Não a atravessou. Bateu com a cabeça numa fina malha metálica e caiu desmaiado no chão. Ao levantar-se, viu que o velho acabara de fechar a porta e, por baixo dela, iria jogar a chave. Lançou-se na direção dele, disposto a impedi-lo. Era tarde. O outro já concluíra seu intento e divertia-se com o pânico que se apossara do adversário: — Eu esperava que você tentaria o suicídio e tomei precaução de colocar telas de aço nas janelas.A fúria de Alexandre chegara ao auge: — Arrombarei a porta. Jamais me prenderão aqui! — Inútil. Se tivesse reparado nela, saberia que também é de aço. Troquei a antiga por esta. — Gritarei, berrarei! — Não lhe acudirão. Ninguém mais vem a este prédio. Despedi os empregados, despejei os inquilinos. E concluiu, a voz baixa, como se falasse apenas para si mesmo: — Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos.