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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O INFERNO DE UM ANJO - CAPÍTULO 22 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’unAnge



Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL


Capítulo XXII

“GAIOLA DE OURO”

Quando Maria "Flor de Amor" voltou a si, após quase duas horas de sono provocado pelo narcótico que havia ingerido, assustou-se vendo ao seu lado Leopoldo Verdier, que agora não tirava os olhos da estrada, rodando com sua charrette a grande velocidade.
- Oh! Minha querida! Despertou, afinal! Sente-se bem? - exclamou Leopoldo Verdier, olhando para ela, não sem certa ironia.
- Diga-me onde estamos - retrucou Maria "Flor de Amor", olhando em volta - Para onde me leva o senhor?
- Levo-a para a minha fazenda, a qual eu dei o nome de "Meu Paraíso". Você verá como lhe agradará. Daqui a pouco chegaremos.
Maria “Flor de Amor” não respondeu e fez um grande esforço para não explodir em soluços. Seu olhar vagava em torno, distraidamente. E diante da majestosidade das montanhas, no fim da extensão da planície, sentia-se tremendamente pequena e abandonada.
Meia hora transcorreu e a charrete abandonou a estrada para penetrar numa outra de terra batida, que enveredava por um bosque, em rápida curva. E finalmente, depois de outra curva, começou a aproximar-se da entrada a uma vasta fazenda de lavoura e criação de cavalos.
O capataz e uma mulher, com aspecto de ama de chaves, saíram de uma das casas, indo ao encontro dos recém-chegados, saudando a Leopoldo Verdier com o máximo respeito, ajudando-os a descer da charrete.
Leopoldo dirigiu algumas palavras à governanta, depois voltou-se para Maria "Flor de Amor", dizendo:
- Aqui estará como em sua própria casa, querida. Margot a levará ao aposento que lhe está destinado. Espero que lhe agrade. Até já...
A moça mal ouviu aquelas palavras, ocupada que estava em observar a grande fazenda para onde fora trazida, e os barracões lá existentes.
- Por aqui - disse a empregada, abrindo uma porta e fazendo Maria "Flor de Amor" penetrar num rústico vestíbulo.
Subiram por uma escada de madeira e, quando chegaram ao patamar do sobrado, Margot indicou à Maria "Flor de Amor" uma pesada porta:
- Queira entrar.
Maria "Flor de Amor" obedeceu sem dizer palavra.
- Gosta? Está mobiliado ao seu gosto? - perguntou a governanta. - As janelas dão para o nascente, e todas as manhãs os raios do sol penetram por elas. Procure acordar sempre cedo, ou pelo menos algumas vezes, para apreciar o espetáculo do sol sobre as montanhas, é maravilhoso!
Vendo que a governanta se mostrava expansiva e sentindo nela o desejo de que trocassem algumas palavras, se não o de lhe dissipar a preocupação ante a situação em que se encontrava, Maria "Flor de Amor" perguntou gentilmente:
- Como se chama a senhora?
- Meu nome é Margot Delvost.
- É francesa, não? Vejo que fala muito bem a língua da França.
Um sorriso iluminou o semblante da mulher.
- Claro que falo bem o francês! Nasci em Marselha, onde melhor se pronuncia o nosso idioma - acrescentou ela, orgulhosamente.
Maria "Flor de Amor" sentou-se numa poltrona forrada de couro verde. Sentia-se cansada e, naturalmente, ainda um pouco sob os efeitos do narcótico. Mas queria saber alguma coisa mais sobre a governanta, sobretudo, se fosse possível, arrancar alguma informação referente ao misterioso Leopoldo Verdier. E perguntou ainda:
- Está a serviço do senhor Verdier há muito tempo?
- Muito, muitíssimo, devo dizer. Imagine que quando vim para cá tinha apenas vinte anos, e olhe agora para mim, tornei-me uma velha feia!
- Não diga assim. Não parece velha e dá uma excelente impressão de saúde.
Conquistada pela conversa simples e doce da mocinha, a governanta corou e exclamou, olhando Maria "Flor de Amor", já agora com olhos afetuosos:
-Muito boazinha, senhorita, e procura agradar-me... Mas não falemos de mim, agora. Venha, quero mostrar-lhe as outras peças. Que lhe parece? Olhe só que luxo! Ah, se eu pudesse viver num ambiente assim! Que sorte a sua! A senhorita é que é feliz!
Na verdade, a pobre Maria "Flor de Amor" não se sentia nada feliz, e trocaria de boa vontade sua situação com a da governanta, para ter a liberdade de ir onde lhe aprouvesse. Todavia, sabendo que isso seria impossível, resignou-se a examinar tudo, convindo, entretanto, que efetivamente, o luxo que reinava ali era impressionante. Nenhum detalhe fora esquecido para tornar os aposentos os mais cômodos e confortáveis possível, na casa grande da fazenda.
- Oh! O patrão é muito bom - continuou dizendo, entretanto, Margot. - E não é nada seguro, sabe? Estou certa de que se lhe pedir qualquer coisa, seja o que for, ele a satisfará imediatamente. Se desejar peles, vestidos de máximo luxo, joias... Não tem mais que lhe pedir...
- Pode ser - concordou a mocinha, de modo algum impressionada com aquelas palavras - mas o que eu desejaria é muito mais precioso que o ouro ou que as joias... Muito mais precioso.
Estava a ponto de abrir seu coração com a governanta, mas as últimas palavras desta fizeram-na desistir desse propósito, induzindo-a, pelo menos por enquanto, a conservar o segredo.
- Aqui é o salão - continuou Margot, mostrando à moça uma peça toda atapetada com tapeçarias de seda azul, - e este é o seu quarto de dormir...
A velha acompanhou-a depois à sala de refeições, no centro da qual se ostentava uma bela mesa redonda, não grande demais, mas suntuosamente posta. Depois de lhe pedir que esperasse uns minutos, afastou-se, para logo retornar trazendo uma bandeja de prata, na qual estavam arrumados pratos com alimentos artisticamente preparados,
- Comida preparada pelo nosso cozinheiro parisiense - explicou - e espero que lhe agrade. O senhor Leopoldo aprecia os pratos refinados, e Gaston, o cozinheiro, que é um verdadeiro artista, sabe contentá-lo.
- E esse homem veio também de Paris? - perguntou Maria "Flor de Amor", servindo-se, embora com parcimônia, porque, apesar de tudo, sentia necessidade de se alimentar.
- Mas para quem está habituado a viver numa grande metrópole, deve ser terrível permanecer sempre aqui, neste isolamento.
- Não duvide, mas Gaston está satisfeito, e como! Escute... - a camareira hesitou um momento - além do elevado ordenado que recebe, tem seus motivos para preferir não se afastar muito...
- Como assim? - perguntou Maria "Flor de Amor", com a sua costumeira ingenuidade.
- Como assim? Oh, minha menina, bem se vê que é inocente... Porque ele prefere uma cômoda morada, aqui, a uma cela numa prisão. Se voltasse à França, teria de acertar umas continhas com a justiça que talvez o mandasse para a guilhotina... Compreende, agora, não?
- Então, o senhor Leopoldo é muito bom para ele, - concordou Maria "Flor de Amor".
Ela estava terrivelmente impressionada por saber que se o cozinheiro era um assassino, logo, o que não seriam os demais empregados?
A governanta, que ficara um instante silenciosa, murmurou:
- Sim, é certo. Às vezes, comporta-se como um verdadeiro benfeitor... Mas, outras vezes, o senhor Leopoldo, que é muito nervoso, deixa-se dominar por acessos de cólera, e então não respeita nada nem ninguém. Nessas ocasiões, ai de quem ousar contrariá-lo! Os criados e os escravos o temem, e com razão!
- Agradeço-lhe, Margot, pelo esclarecimento que me deu sobre as pessoas que aqui vivem. Aliás, quero que saiba, espero permanecer muito pouco tempo aqui...
- Não foi isso o que me disse o senhor Leopoldo... Ele falou que a senhorita permanecerá durante uma boa temporada nesta fazenda...
- Ele falou isso com a senhora? - perguntou Maria "Flor de Amor", não dissimulando sua inquietude.
- Silêncio! - disse Margot. - Ele está chegando. Conheço bem os seus passos.