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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - O SARGENTO VERDE - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/.
Boa leitura!

O SARGENTO VERDE

Era uma vez um homem muito rico, que tinha uma filha, linda, linda. Um dia apareceu um moço, também muito lindo, que quis casar com ela. Foi combinado o casamento, mas Nossa Senhora, que era madrinha de batismo da moça, apareceu-lhe num sonho e disse:
– Minha filha, toma cuidado, porque vais casar com o “cão”. Depois do casamento teu marido há de querer levar-te para a casa dele, e o que tens de fazer é o seguinte: irás montada no cavalo mais magro que houver; quando chegares a um ponto do caminho, onde há uma encruzilhada, teu marido quererá tomar pela esquerda; tu tomaras pela direita e nesse momento lhe mostrarás um rosário. Ele então estoura e vai para o inferno.
Afinal chegou o dia do casamento e houve grandes festas, mas desde a noite do sonho a moça andava numa grande tristeza. As palavras de Nossa Senhora não lhe saíam da imaginação.
Na hora da partida trouxeram-lhe um lindo cavalo. Ela recordou-se do sonho e não quis montar nele; pediu outro — o mais magro e feio que houvesse. O pai estranhou aquela esquisitice, mas a moça tanto insistiu que ele teve de ceder — e lá se foi ela no cavalo mais magro e feio que havia.
Quando chegaram à encruzilhada, o “cão” quis que a moça tomasse pelo lado esquerdo, dizendo ser esse o caminho que levava à sua casa.
— Vá o senhor na frente — respondeu a moça — eu sigo atrás. — E assim que ele enveredou pela esquerda, ela tomou pela direita e sacudiu no ar o rosário.
Mal fez isso, ouviu-se um estouro e o ar se encheu de fedor de enxofre. É que o “‘cão” havia rebentado e ido para o inferno.
A moça continuou a galope por aquele caminho da direita, até que bem lá adiante teve a ideia de mudar de figura. Apeou, cortou os cabelos e vestiu-se de homem — uma roupa verde. E, verdinha assim, chegou a um reino onde se ofereceu para entrar no exército do rei como sargento.
O rei gostou muito daquele sargento, a ponto de convidá-lo a passear com ele pelos jardins do palácio. É tantos passeios houve que a rainha ficou apaixonada pelo sargento e lhe declarou o seu amor. Mas o sargento respondeu: “Senhora, eu jamais trairei meu rei.”
A rainha, furiosa da vida, levantou um falso contra ele, dizendo ao marido o seguinte:
– Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde anda se gabando de que é capaz de subir a cavalo as escadarias do palácio, jogando para o ar três laranjas e aparando-as no mesmo copo.
Admirado daquilo, o rei mandou chamar o Sargento Verde e contou- lhe o caso. O Sargento Verde respondeu:
– Saiba Vossa Majestade que eu não disse isso; mas como a rainha minha senhora afirma que eu disse, estou pronto para subir a cavalo as escadarias e jogar as três laranjas.
Disse aquilo por dizer e, muito triste da vida, foi conversar com o seu cavalo magro, ao qual contou tudo. O cavalo aconselhou-a a que não se amofinasse e que no dia marcado tudo fizesse como a rainha queria.
No dia marcado o Sargento Verde se apresentou para a grande prova, e de fato subiu e desceu várias vezes as escadarias, montado em seu cavalo magro; e lançou para o ar as três laranjas, que aparou direitinho no copo, sem errar uma só.
Teve os maiores aplausos de todos, menos da rainha, que mordeu os lábios de ódio.
Dias depois, num dos seus passeios pelos jardins do palácio, a rainha achou jeito de novamente lhe declarar amor — e pela segunda vez o sargento respondeu que jamais trairia o seu bom rei. A rainha, então, mais danada ainda, inventou que o Sargento Verde andava dizendo que era capaz de plantar uma bananeira à hora do almoço e ter bananas maduras à hora do jantar.
O rei mandou chamar o Sargento Verde e indagou dele se era verdade aquilo. O sargento respondeu que nada havia dito, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para plantar a bananeira.
Disse isso e foi, muito triste, conversar com o cavalo magro, o qual lhe falou que plantasse a bananeira e deixasse o resto por sua conta.
No outro dia, lá pela hora do almoço, o Sargento Verde foi e plantou uma muda de bananeira no pátio do palácio, e a planta começou logo a crescer e a deitar cacho, de modo que quando o jantar foi posto na mesa já havia bananas maduras.
Todos abriram a boca de admiração, mas a rainha mordeu os lábios até verter sangue. Apesar disso, tentou mais uma vez o Sargento Verde, declarando-se apaixonada por ele, e o sargento pela terceira vez respondeu que jamais enganaria o seu bom rei. A malvada rainha então foi dizer ao marido que o Sargento Verde andava se gabando de ser capaz de passear a cavalo sobre ovos, sem quebrar um só.
O rei mandou chamá-lo e perguntou se era verdade. O Sargento Verde respondeu que não era, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para andar a cavalo em cima dos ovos. E andou. Passeou montado no cavalo magro por cima de dúzias de ovos sem quebrar um só.
A rainha inventou contra ele uma quarta perversidade, e foi que ele andava dizendo ser capaz de ir ao fundo do oceano em busca da irmã do rei, que fora aprisionada por um monstro.
O rei chamou o Sargento Verde e indagou se era verdade. Ele disse que não, mas que estava pronto para ir ao fundo do mar em busca da princesa encarcerada. Disse isso e foi conversar com o cavalo magro, ao qual contou tudo.
– Não se amofine — murmurou o cavalo — arranje uma garrafa de azeite, um saquinho de sal e um papel de alfinetes; depois monte em mim e vá para a praia; lá puxe a espada e corte o mar em cruz: as águas se abrirão; entre pela abertura e vá até onde estiver a moça; agarre-a e ponha- a na garupa e toque para trás. Mas muito cuidado com o monstro que guarda a princesa; ele vai persegui-la, e o meio de evitar isso é derramar o saquinho de sal e depois soltar os alfinetes. Durante a corrida a moça pronunciará três palavras. Tome muito sentido nessas palavras.
O Sargento Verde prestou a maior atenção a tudo; arranjou o azeite, o sal, os alfinetes e partiu para a praia do mar. Lá puxou a espada e cortou as águas em cruz. Imediatamente as águas se abriram e ele entrou, e foi até onde estava a princesa encarcerada. Agarrou-a, botou-a à garupa e voltou correndo para a praia. Assim que saiu do mar, a moça disse: “Já!” Ele tomou nota da palavra e viu que o monstro vinha correndo atrás deles.
Lembrando-se da recomendação do cavalo, derramou o saquinho de sal. Imediatamente formou-se uma cerração que atrapalhou o monstro a ponto de fazê-lo parar, sem saber para onde dirigir-se. Enquanto isso, o moço continuava no galope, com a moça à garupa. Logo adiante ela murmurou “Bela!” O Sargento Verde tomou nota da palavra e viu que o monstro havia rompido o nevoeiro e vinha vindo na disparada. Então soltou no ar os alfinetes. Imediatamente se formou uma cerradíssima floresta de espinheiros, que o monstro não pôde atravessar.
Logo depois a princesa, avistando o palácio, murmurou “Tudo!” — e o Sargento Verde tomou nota. Chegaram, houve grandes festas e a rainha ficou ainda mais apaixonada pelo Sargento Verde.
Mas a princesa trazida do fundo do mar não falava. Além das três palavras ditas durante a viagem não pronunciou nem mais uma só. Todos se convenceram de que era muda — e a rainha se aproveitou do fato para lançar outra falsidade contra o Sargento Verde. “Ele anda dizendo — cochichou ao ouvido do rei — que é capaz de fazer a princesa muda falar.”
O rei indagou do Sargento Verde se era verdade e ele respondeu como das outras vezes; depois foi perguntar ao cavalo o que devia fazer.
– Não tenha medo de nada — respondeu o cavalo. — Na hora do almoço, dê com uma corda na princesa até que ela conte qual foi a primeira palavra que pronunciou logo ao sair do mar; e na hora do jantar dê-lhe outra sova até que ela conte qual foi a segunda palavra; e na hora da ceia, outra sova até que diga a terceira palavra. Faça isso que a princesa ficará falando.
O Sargento Verde assim fez. Na hora do almoço passou mão numa corda e gritou: “Conte, moça, qual foi a palavra que me disse logo que saímos do mar!” E como ela se conservasse de boca fechada, êle, lepte! lepte! e tanto deu que ela falou: “Já!” “E que quer dizer isso?” Com mais algumas lambadas a moça respondeu que queria dizer: “Já estou livre de muitos trabalhos.”
No jantar repetiu-se a cena, e tantas lambadas levou a princesa que repetiu a segunda palavra, “Bela!” e explicou que aquilo queria dizer: “Somos duas donzelas, eu e o Sargento Verde, cujo verdadeiro nome é Lucinda.”
Na ceia, a corda fez que a moça repetisse a terceira palavra, “Tudo!” isto é, que se Lucinda fosse homem há muito tempo que a rainha já teria fugido com ele.
Esses acontecimentos assombraram menos ao rei e à corte do que verem Lucinda aparecer vestida de mulher, com o seu cavalo magro virado num lindo príncipe, que logo se casou com a princesa trazida do fundo do mar. O rei não perdoou a traição da rainha. Mandou que a soltassem pelos campos amarrada a dois burros bravos, e casou-se com a boa Lucinda, no meio de grandes festas. E acabou-se a história.
Emília ficou a olhar a cara de Narizinho.
– Esta história — disse ela — ainda está mais boba que a outra. Tudo sem pé, nem cabeça. Sabe o que me parece? Parece uma história que era dum jeito e foi se alterando de um contador para outro, cada vez mais atrapalhada, isto é, foi perdendo pelo caminho o pé e a cabeça.
– Você tem razão, Emília — disse dona Benta. — As histórias que andam na boca do povo não são como as escritas. As histórias escritas conservam-se sempre as mesmas, porque a escrita fixa a maneira pela qual o autor a compôs. Mas as histórias que correm na boca do povo vão se adulterando com o tempo. Cada pessoa que conta muda uma coisa ou outra, e por fim elas ficam muito diferentes do que eram no começo.
– Quem conta um conto aumenta um ponto — lembrou Pedrinho.
– Sim, aumenta um ponto e introduz qualquer modificação. Ninguém que ouça uma história é capaz de contá-la para diante sem alteração de alguma coisa, de modo que no fim a história aparece horrivelmente modificada. Todas as histórias do folclore são assim. Há sábios que pegam nessas histórias e as estudam, e vão indo até encontrarem o seu ponto de. partida. E mostram as mudanças que o povo fez.
– Mudanças que as deixam sem pé nem cabeça — insistiu Emília. — Essa do Sargento Verde, por exemplo. É tão idiota que um sábio que quiser estudá-la acabará também idiota. Eu, francamente, passo essas tais histórias populares. Gosto mas é das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-sargento-verde-monteiro-lobato/.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

SESSÃO LEITURA - BARBA AZUL - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
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Boa leitura!

BARBA AZUL

1922

JANTÁVAMOS NO HOTEL DO OESTE, eu e o Lucas, um amigo que sabe histórias. A tantas, como percebesse certo vulto lá ao fundo do salão, o rapaz firmou a vista e murmurou em solilóquio:
– Será ele?…
– Ele, quem?
– Estás vendo aquele sujeito gordo, na terceira mesinha à esquerda?
– O de luto?
– Sim… O patife anda sempre de luto…
– Quem é?
– Um celerado que tem muito dinheiro e teve muitas mulheres.
– Até aí nada vejo de mais.
– Tem muito dinheiro porque teve muitas mulheres. Está poderoso. Ri-se do mundo e de sua justiça. Inventou um crime inédito não previsto pelas leis e com isso enriqueceu. Se um de nós o denunciasse, o patife nos processaria e nos meteria na cadeia. Note-lhe bem o tipo; raras vezes terás ocasião de topar um celerado desse tamanho.
– Mas…
– Lá fora contarei tudo. Toca a jantar.
Enquanto jantávamos examinei o sujeito, sem que nada no seu físico me parecesse estranho. Deu-me a impressão dum médico aposentado que vivesse de rendas.
Por que de médico? Não sei. As criaturas dão-me ar disto ou daquilo por força duma aura que pressinto a envolvê-las. Confesso, todavia, que minha adivinhação erra bastante. Sai-me fazendeiro um que eu previa médico, e surge- me corretor de negócios outro que eu jurava engenheiro. Creio que a falha do diagnóstico vem dos homens desrespeitarem as vocações e adotarem na vida atitudes profissionais diversas das que, por injunção natural, deviam eleger. Como no entrudo. As máscaras nunca dizem das caras verdadeiras que escondem.
Terminado o jantar, saímos em direção ao Triângulo, e lá nos abancamos num sórdido café. O meu amigo voltou ao assunto.
– Caso notável o daquele homem! Caso merecedor de novela ou conto, já que a Justiça não tem forças para metê-lo na cadeia. Conheci-o no Oeste, prático de farmácia em Brotas. Um dia casou-se. Lembro-me disso porque assisti ao casamento a convite dos pais da moça. Era a Pequetita Mendes, filha dum sitiante arranjado.
“Pequetita! Bem posto apelido, que não era bem mulher aquela isca de gente. Miudinha, magrinha, sequinha, sem cadeiras, sem ombros, sem seios, Pequetita não passava de um desses restolhos enfermiços que aparecem ao lado das espigas viçosas — sabuguinho débil, um grão aqui, outro ali. Apesar dos seus vinte e cinco anos, representava treze, e ao escolhê-la Panfilo — chamase Panfilo Novais o meu facínora — espantou a todos, a começar pela moça. Como, porém, era ele pobre e ela arranjada, explicou-se financeiramente a união.
“Mas nada poderia resultar de bom duma união dessa ordem, que repugnava aos homens e à natureza. Pequetita não viera ao mundo para o matrimônio. O instinto da espécie fizera-a ponto final. ‘Pararás aí.’
“Ninguém pensou nisso, nem ela, nem os pais, nem ele — nem ele, que depois só pensaria nisso…”
— ?
– Ouve. Casaram-se e tudo correu excelentemente até que…
– … se separaram…
– … até que os separou a morte. Pequetita não resistiu ao primeiro parto; faleceu após cruel intervenção cirúrgica.
“Panfilo, dizem, chorou amargamente a morte da esposa, embora viessem consolá-lo os trinta contos de um seguro por ela constituído em seu favor.
“A meu ver é daqui por diante que surge o criminoso. O desastre do primeiro casamento criou-lhe no cérebro um pensamento sinistro — pensamento que o iria nortear pela vida afora e que o fez, como te disse, rico e poderoso. A morte de Pequetita ensinou-lhe um crime inédito, não previsto pelas leis humanas.”
— ?
– Espera. Compreenderás tudo dentro em pouco.
“Decorrido um ano, o nosso homem, já dono da farmácia, apresentou-se novamente enliçado pelo amor. Aparecera por lá uma família de fora, gente pobre, mãe viúva com quatro filhas casadeiras. Três delas, lindas e viçosas, viram-se logo requestadas por todos os moços desimpedidos do lugar. Já a quarta, restolho maninguera que fazia lembrar Pequetita, só teve um par de olhos que a cobiçassem, os de Panfilo. “Pediu-a em casamento.
“A mãe opôs-se — que era loucura aquilo; que a menina lhe nascera enfezada; que se queria mulher, escolhesse uma das três sadias.
“Nada conseguiu. Panfilo fez pé firme e afinal casou-se.
“Foi um assombro. Arranja-dote que já era, coisa nenhuma justificava tal preferência. Ele defendia-se hipocritamente, lamecha e sentimental:
“— É o meu gênero. Gosto dos bibelôs e esta me lembra a minha amada Pequetita…
“Resumindo: dez meses depois o patife enviuvava de novo nas mesmas circunstâncias da primeira vez. Morreu-lhe de parto a mulher.”
– Novo seguro?
– E grande. Desta feita a bolada subiu a cem contos. Mudou-se de terra, então. Vendeu a farmácia e perdi-o de vista.
“Anos depois fui encontrá-lo no Rio, numa casa de chá. Estava outro, elegantemente vestido, denunciando prosperidade por todos os poros. Viu-me, reconheceu-me e chamou-me para sua mesa. Conversa vai, conversa vem, contou-me que se casara pela quarta vez, havia coisa de um ano.
“Assombrei-me. “— Pela quarta?
“— É verdade. Depois que saí daquela abençoada terrinha onde o destino me fez enviuvar duas vezes, casei-me em Uberaba com a filha do coronel Tolosa. Mas continuei perseguido pelo destino: faleceu-me essa também…
“— Gripe? “— Parto…
“— Como a primeira, então? Mas, doutor, perdoe-me a liberdade: o senhor escolhe mal as mulheres! Vai ver que essa terceira era miudinha como as anteriores — disse eu irrefletidamente.
“O homem franziu os sobrolhos e encarou-me dum modo estranho, como se lhe batera a pacuera ante a ironia dum Sherlock disfarçado. Voltou logo ao natural, porém, e prosseguiu com serenidade:
“— Que quer? É o meu gênero. Não suporto mulheraças… “E mudou de assunto.
“Ao deixá-lo fiquei apreensivo, com a suspeita a gerar-se-me no cérebro. Liguei a estranheza dos seus modos ante a minha observação ao olhar perscrutador com que devassara meu íntimo e deixei escapar em voz alta um Hum! que chamou a atenção de dois ou três passantes. E o caso do doutor Panfilo ficou a verrumar-me os miolos dias e dias.”
– Doutor, dizes tu?
– Está claro. O diploma veio logo atrás dos seguros, como consequência lógica. Quem nesta terra, com algumas centenas de contos no banco, permanece
senhor?
“Por curiosidade, no intuito exclusivo de esclarecer-me, tomei informações relativas à sua quarta esposa. Soube que era de Cachoeira e fisicamente do mesmo naipe das outras.
“Fui além. Tratei de indagar nas companhias de seguros que negócios trazia nelas o doutor Panfilo e soube que a vida da quarta mulher estava garantida em mais de duzentos contos. Com os trezentos e cinquenta já embolsados, arredondaria ele, pela morte desta, um pecúlio de alto bordo para quem começara humildemente como prático de farmácia.
“Tudo isso me consolidou em convicção a suspeita de que Panfilo era de fato um grande criminoso. Segurava as esposas e matava-as…”
– Como, se morriam de parto?
– Está aí o maquiavelismo do celerado. O Barba Azul aproveitou singularmente bem a lição do primeiro matrimônio. Viu que perdera a Pequetita no primeiro parto em virtude da sua má conformação, da sua inaptidão procriativa. Franzina em excesso, muito estreita de bacia…
– Hum!
– Foi um hum! assim que deixei escapar em plena rua do Ouvidor…
“O miserável, que tinha olho médico, só se casou daí por diante com mulheres de vício orgânico semelhante ao da primeira. Cuidadosamente escolhia as esposas entre as predestinadas. E foi amontoando a sua fortuna.
“Imagina tu agora a vida desse miserável, sempre alternando a fase de tocaia da viuvez com um ano de casamento criminoso. Escolhia a vítima, representava a comédia do amor, sagrava a união e… seguro de vida! Depois, imagina o sadismo dessa alma ao ver desenvolver-se no ventre da vítima, não o filho que ela docemente esperava, mas a bolada gorda que viria acrescentar os seus cabedais! Afez-se a tal caçada e nela aperfeiçoou-se de maneira a nunca errar o bote.
“A quarta, soube-o logo depois, fora pelo mesmo caminho das outras em seguida a uma nova intervenção cirúrgica. E entraram os duzentos contos. Vês tu que monstro?…”
No outro dia lá estava na mesma mesa o doutor Panfilo. Entraram na sala várias moças, e pela força do hábito o seu olhar mortiço mediu num relance as ancas de cada uma. Bemfeitas de corpo que eram, nenhuma o interessou — e seu olhar desceu calmamente para o jornal que lia.
“Está viúvo”, pensei comigo. Anda evidentemente tocaiando a quinta mal- conformada…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/barba-azul-conto-de-monteiro-lobato/.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

SESSÃO LEITURA - O PÁSSARO PRETO - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/.
Boa leitura!

O PÁSSARO PRETO

Havia um homem que possuía um pássaro preto de muita estimação. Tinha também um filho muito reinador, que indo dar comida ao pássaro esqueceu a portinhola aberta. O pássaro fugiu e levou o menino no bico.
Longo tempo voou o pássaro com o menino no bico, até que chegou a um palácio maravilhoso. Lá soltou-o e mandou pôr a mesa para o almoço. Terminado o almoço entregou ao menino uma chave, dizendo ser a chave do primeiro dos sete quartos que davam para aquele salão. E foi-se embora voando.
O menino abriu o quarto e encontrou uma porção de cavalos, com os quais se divertiu grandemente, a ponto de esquecer de jantar.
No dia seguinte, antes de sair, o pássaro preto deu ao menino a chave do segundo quarto, onde havia uma porção de arreios. E assim o pássaro preto foi dando as chaves de todos os quartos até chegar ao quinto.
O terceiro estava cheio de moças brancas; o quarto estava cheio de mulatinhas e o quinto estava cheio de espadas.
O menino cresceu naquele palácio, onde tinha tudo quanto desejava. O pássaro dizia sempre: “Seja bonzinho e obediente, que darei a você tudo quanto houver por aqui. Só não quero que abra as portas do sexto e do sétimo quartos. Se abri-las, perderá o que já tenho dado e não ganhará nada do que está prometido.”
Mas o moço não resistiu à tentação, e um dia entrou no sexto quarto. Encontrou lá um lindo rio de prata. Enfiou o dedo e ficou com o dedo prateado. Como era agora? Para que o pássaro preto não visse o seu dedo prateado, amarrou-o com uma tira de pano.
O pássaro preto, porém, era bom adivinhador; ao ver aquele dedo amarrado, percebeu tudo.
– Já sei que abriu o sexto quarto — disse ele. — E o moço, com muito medo, confessou tudo: “Abri, sim, padrinho (ele tratava o pássaro de padrinho), mas espero que não me castigue.”
– Desta vez perdoo, mas castigarei se abrir o sétimo quarto — disse o padrinho, entregando-lhe a chave e voando.
O moço resistiu quanto pôde, mas afinal abriu também o sétimo quarto, onde encontrou um rio de ouro. Molhou o dedo no ouro líquido e ficou com o dedo dourado. Teve de amarrá-lo com outra tira de pano.
O pássaro preto voltou e, percebendo tudo, disse:
– Como castigo da desobediência, vou mergulhar você nesses dois rios e botá-lo daqui para fora. — E mergulhou-o no rio de prata, depois no rio de ouro e por fim soltou-o fora do palácio. Mas de dó do afilhado lhe deu uma varinha de condão.
O moço foi andando até dar num reino onde encontrou um negro velho de nome Gaforinha. Pintou a cara e comprou a roupa desse negro, para poder entrar na cidade sem que o povo percebesse que ele era dourado e prateado.
Mas uma princesa que estava à janela viu de longe a cena e foi dizer ao rei, seu pai, que queria casar-se com o mais esfarrapado negro velho que entrasse na cidade. O rei muito se assombrou com o desejo da filha, mas não teve remédio senão fazer-lhe a vontade. Mandou que pegassem o negro e o trouxessem ao palácio. Quando o negro soube que a princesa queria casar-se com ele, ficou também assombradíssimo, porque estava longe de supor que ela sabia de tudo.
Casaram-se e ele nem tinha coragem de deitar-se na cama da princesa; dormia no chão, numa tábua. Aquilo desgostou imensamente o rei, a ponto de fazê-lo cair doente, muito mal do coração. A família fez uma promessa a Nossa Senhora, que se o rei sarasse haveria uma grande festa. O médico veio e receitou como remédio três pássaros de pluma.
O negro soube de tudo, e soube também que os príncipes casados com as outras filhas do rei iam sair a cavalo pelo mundo em procura dos pássaros de pluma. Ele então pediu à varinha mágica que lhe desse um coche muito rico, um vestuário deslumbrante e três pássaros de pluma. Entrou no coche e lá se foi ao encontro dos genros do rei.
Assim que estes viram naquele coche os três pássaros, perguntaram ao viajante se eram mesmo pássaros de pluma e se os queria vender. O viajante respondeu que só cederia os pássaros se os moços se deixassem marcar na perna com um ferro em brasa. Eles consentiram. Foram marcados na perna e correram ao palácio do rei doente com os três pássaros de pluma. O rei comeu-os e sarou. Começaram as grandes festas.
A princesa casada com o negro foi para a igreja sozinha, mas o seu marido pediu à vara de condão que fizesse aparecer outro coche ainda mais lindo que o primeiro e outro vestuário deslumbrante — e entrando no coche foi no galope, de modo a chegar à igreja antes de sua mulher. Entrou no templo, onde todos se admiraram de tanta beleza. Mas quem mais se admirou foi sua própria esposa, que estava a mil léguas de imaginar que aquele fosse o seu marido negro. As irmãs casadas com os príncipes disseram-lhe: “Com um moço assim é que você devia ter-se casado, e não com um negro tão preto.”
Na festa do dia seguinte o negro pediu à vara de condão que fizesse aparecer um coche ainda mais lindo e um vestuário ainda mais deslumbrante — e foi esperar a esposa na igreja, deixando-a terrivelmente impressionada com a sua beleza e a sua riqueza.
No terceiro dia, a mesma coisa: um coche ainda mais lindo e um vestuário que era um céu aberto. Depois das festas na igreja houve banquete no palácio — e o negro se apresentou no mesmo coche e nos mesmos trajes do dia em que cedeu os pássaros de pluma aos genros do rei.
Os príncipes ficaram muito espantados de ver ali aquele homem, e mais ainda quando o desconhecido declarou que não se sentava em mesa em que sentassem seus escravos.
– Que escravos? — perguntou o rei.
O moço apontou para os genros do rei dizendo que eram seus escravos, pois tinham as pernas marcadas com a mesma marca com que ele marcava os seus bois.
O rei examinou a perna dos moços e viu as marcas. Ao saberem disso, as princesas casadas com eles se atiraram pelas janelas; e os pobres príncipes fizeram o mesmo. E o rei ficou numa tal tristeza que morreu dias depois. E então o Gaforinha ficou dono de todo o reino.
– Esta história — disse dona Benta — foi recolhida pelo erudito Sílvio Romero, da boca do povo de Pernambuco. A gente percebe com muita clareza que é uma história truncada, bastante sem pé nem cabeça, como diz a Emília. Em geral as histórias encerram uma moralidade, uma lição qualquer — mas nesta não vemos nada disso. O fim até deixa a gente desapontada.
– Também acho — disse Emília. — Essa princesa que se casa com um negro velho, o pássaro preto que leva o menino no bico, aqueles quartos cheios, de cavalos um, de arreios outro, de moças brancas outro, de mulatinhas outro — e os últimos com os tais rios de prata e ouro, tudo isso não tem o menor propósito. E o castigo que o pássaro preto inventou? Então dar uma vara mágica a uma pessoa é castigar? Quem me dera ser castigada assim! Tudo bobagens de negra velha. Nessa história vejo uma fieira de negras velhas, cada qual mais boba que a outra — que vão passando a história para diante, cada vez mais atrapalhada.
– E os tais pássaros de pluma? — disse Narizinho. — Que é que entende você por pássaros de pluma, Nastácia?
– Não sei, menina — respondeu a preta. — A história eu ouvi assim e por isso conto assim. Pássaro de pluma é pássaro de pena, parece.
– E já viu pássaro que não seja de pena, sua tola? — disse Emília. — O que vale é que você mesma confessa não ter culpa das idiotices da história, senão eu cortava um pedaço desse beiço…
– Emília, respeite os mais velhos! — ralhou dona Benta.
– A senhora me perdoe — disse a pestinha – mas, cá para mim, isso de respeito nada tem com a idade. Eu respeito uma abelha de um mês de idade que me diga coisinhas sensatas – mas. se Matusalém vier para cima de mim com bobagens, pensa que não boto fogo na barba dele? Ora, se boto!…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-passaro-preto-monteiro-lobato/.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

SESSÃO LEITURA - HERDEIRO DE SI MESMO - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/.
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HERDEIRO DE SI MESMO

O povo de Dois Rios não cessava de comentar a inconcebível “sorte” do coronel Lupércio Moura, o grande milionário local. Um homem que saíra do nada. Que começara modesto menino de escritório dos que mal ganham para os sapatos, mas cuja vida, dura até aos trinta e seis anos, fora daí por diante a mais espantosa subida pela escada do Dinheiro, a ponto de aos sessenta ver-se montado numa hipopotâmica fortuna de sessenta mil contos de réis.
Não houve o que Lupércio não conseguisse da Sorte — até o posto de coronel, apesar de já extinta a pitoresca instituição dos coronéis. A nossa velha Guarda Nacional era uma milícia meramente decorativa, com os galões de capitão, major e coronel reservados para coroamento das vidas felizes em negócios. Em todas as cidades havia sempre um coronel: o homem de mais posses. Quando Lupércio chegou aos vinte mil contos, a gente de Dois Rios sentiu-se acanhada de tratá-lo apenas de “senhor Lupércio”. Era pouquíssimo. Era absurdo que um detentor de tanto dinheiro ainda se conservasse “soldado raso” — e por consenso unânime promoveram-no, com muita justiça, a coronel, o posto mais alto da extinta milícia.
Criaturas há que nascem com misteriosa aptidão para monopolizar dinheiro. Lembram ímãs humanos. Atraem a moeda com a mesma inexplicável força com que o ímã atrai a limalha. Lupércio tomara-se ímã. O dinheiro procurava-o de todos os lados, e uma vez aderido não o largava mais. Toda gente faz negócios em que ora ganha, ora perde. Ficam ricos os que ganham mais do que perdem e empobrecem os que perdem mais do que ganham. Mas caso de homens de mil negócios sem uma só falha, existia no mundo apenas um — o do coronel Lupércio.
Até aos trinta e seis anos ganhou dinheiro de modo normal, e conservou-o à força da mais acirrada economia. Juntou um pecúlio de quarenta e cinco contos e quinhentos mil-réis como o juntam todos os forretas. Foi por essas alturas que sua vida mudou. A Sorte “encostou-se” nele, dizia o povo. Houve aquela tacada inicial de Santos e a partir daí todos os seus negócios foram tacadas prodigiosas. Evidentemente, uma Força Misteriosa passara a protegê-lo.
Que tacada inicial fora essa? Vale a pena recordá-la.
Certo dia, inopinadamente, Lupércio apareceu com a ideia, absurda para o seu caráter, de uma estação de veraneio em Santos. Todo mundo se espantou. Pensar em veraneio, em flanar, botar dinheiro fora, aquela criatura que nem sequer fumava para economia dos níqueis que custam os maços de cigarros? E quando o interpelaram, deu uma resposta esquisita:
– Não sei. Uma coisa me empurra para lá…
Lupércio foi para Santos. Arrastado, sim, mas foi. E lá se hospedou no hotelzinho mais barato, sempre atento a uma só coisa: o saldo que lhe ficaria dos quinhentos mil-réis que destinara à “maluquice”. Nem banhos de mar tomou, apesar da grande vontade, para economia dos vinte mil-réis da roupa de banho. Contentava-se com ver o mar.
Que enlevo de alma lhe vinha da imensidão líquida, eternamente a aflar em ondas e a refletir os tons do céu! Lupércio extasiava-se diante de tamanha beleza. “Quanto sal! Quantos milhões de milhões de toneladas de sal!”, dizia lá consigo — e seus olhos em êxtase ficavam a ver pilhas imensas de sacas de sal amontoadas por toda a extensão das praias.
Também gostava de assistir à puxada das redes dos pescadores, enlevando- se no cálculo do valor da massa de peixes recolhida. Seu cérebro era a mais perfeita máquina de calcular que o mundo ainda produzira.
Num desses passeios afastou-se mais que de costume e foi ter à Praia Grande. Um enorme trambolho ferrugento semienterrado na areia chamou-lhe a atenção.
– Que é aquilo? — indagou dum passante.
Soube tratar-se dum cargueiro inglês que vinte anos antes dera à costa naquele ponto. Uma tempestade arremessara-o à praia onde encalhara e ficara a afundar-se lentissimamente. No começo o grande casco aparecia quase todo de fora — “mas ainda acaba engolido pela areia”, concluiu o informante.
Certas criaturas nunca sabem o que fazem nem o que são, nem o que as leva a isto e não aquilo. Lupércio era assim. Ou andava assim agora, depois do “encostamento” da Força. Essa Força o puxava às vezes como o cabreiro puxa para a feira um cabrito — arrastando-o. Lupércio veio para Santos arrastado. Chegara até aquele casco arrastado — e era a contragosto que permanecia diante dele, porque o sol estava terrível e Lupércio detestava o calor. Travava-se dentro dele uma luta. A Força obrigava-o a atentar no casco, a calcular o volume daquela massa de ferro, o número de quilos, o valor do metal, o custo do desmantelamento — mas Lupércio resistia. Queria sombra, queria escapar ao calor terrível. Por fim venceu. Não calculou coisa nenhuma — e fez-se de volta para o hotelzinho com cara de quem brigou com a namorada — evidentemente amuado.
Nessa noite todos os seus sonhos giraram em torno do casco velho. A Força insistia para que ele calculasse a ferralha, mas mesmo em sonhos Lupércio resistia, alegava o calor reinante — e os pernilongos. Oh, como havia pernilongos em Santos! Como calcular qualquer coisa com o termômetro perto de quarenta graus e aquela infernal música anofélica? Lupércio amanheceu de mau humor, amuado. Amuado com a Força.
Foi quando ocorreu o caso mais inexplicável de sua vida: o casual encontro de um corretor de negócios que o seduziu de maneira estranha. Começaram a conversar bobagens e gostaram-se. Almoçaram juntos. Encontraram-se de novo à tarde para o jantar. Jantaram juntos e depois… a farrinha!
A princípio a ideia de farra tinha assustado Lupércio. Significava desperdício de dinheiro — um absurdo. Mas como o homem lhe pagara o almoço e o jantar, era bem possível que também custeasse a farrinha. Essa hipótese fez que Lupércio não repelisse de pronto o convite, e o corretor, como se lhe adivinhasse o pensamento, acudiu logo:
– Não pense em despesas. Estou cheio de “massa”. Com o negocião que fiz ontem, posso torrar um conto sem que meu bolso dê por isso.
A farra acabou diante de uma garrafa de uísque, bebida cara que só naquele momento Lupércio veio a conhecer. Uma, duas, três doses. Qualquer coisa levitante começou a desabrochar dentro dele. Riu-se à larga. Contou casos cômicos. Referiu cem fatos de sua vida e depois, oh, oh, oh, falou em dinheiro e confessou quantos contos possuía no banco!
– Pois é! Quarenta e cinco contos — ali na batata!
O corretor passou o lenço pela testa suada. Uf! Até que enfim descobrira o peso metálico daquele homem. A confissão dos quarenta e cinco contos era algo absolutamente aberrante na psicologia de Lupércio. Artes do uísque, porque em estado “normal” ninguém nunca lhe arrancaria semelhante confissão. Um dos seus princípios instintivos era não deixar que ninguém lhe conhecesse “ao certo” o valor monetário. Habilmente despistava os curiosos, dando a uns a impressão de possuir mais, e a outros a de possuir menos, ao que realmente possuía. Mas “in whiskey veritas”, diz o latim — e ele estava com quatro boas doses no sangue.
O que se passou dali até a madrugada Lupércio nunca o soube com clareza. Vagamente se lembrava de um estranhíssimo negócio em que entravam o velho casco do cargueiro inglês e uma companhia de seguros marítimos.
Ao despertar no dia seguinte, ao meio-dia, numa ressaca horrorosa, tentou reconstruir o embrulho da véspera. A princípio, nada; tudo confusão. De repente, empalideceu. Sua memória começava a abrir-se.
– Será possível?
Fora possível, sim. O corretor havia “roubado” os seus quarenta e cinco contos! Como? Vendendo-lhe o ferro-velho. Esse corretor era agente da companhia que pagara o seguro do cargueiro naufragado e ficara dona do casco. Havia muitos anos que recebera a incumbência de apurar qualquer coisa daquilo – mas nunca obtivera nada, nem cinco, nem três, nem dois contos — e agora o vendera àquele imbecil por quarenta e cinco!
A entrada triunfal do corretor no escritório da companhia, vibrando no ar o cheque! Os abraços, os parabéns dos companheiros tomados de inveja…
O diretor da sucursal fê-lo vir ao escritório.
– Quero que receba o meu abraço — disse-lhe. — A sua façanha vem pô- lo no primeiro lugar entre os nossos agentes. O senhor acaba de tornar-se a grande estrela da Companhia.
Enquanto isso, lá no hotelzinho, Lupércio amarfanhava o travesseiro desesperadamente. Pensou na polícia. Pensou em contratar o melhor advogado de Santos. Pensou em dar tiro — um tiro na barriga do infame ladrão; na barriga, sim, por causa da peritonite. Mas nada pôde fazer. A Força lá dentro o inibia. Impedia-o de agir neste ou naquele sentido. Forçava-o a esperar.
– Mas esperar que coisa?
Ele não sabia, não compreendia, mas sentia aquela impulsação tremenda que o forçava a esperar. Por fim, exausto da luta, ficou de corpo largado — vencido. Sim, esperaria. Não faria nada — nem polícia, nem advogado, nem peritonite, apesar de ser um caso de escroqueria pura, desses que a lei pune.
E como não tivesse ânimo de regressar a Dois Rios, deixou-se ficar em Santos num empreguinho dos mais modestos — esperando, esperando… não sabia o quê.
Não esperou muito. Dois meses depois rebentava a Grande Guerra, e a tremenda alta dos metais não demorou a sobrevir. No ano seguinte Lupércio revendeu o casco do Sparrow por trezentos e vinte contos de réis. A notícia encheu Santos — e o corretor estrela foi tocado da companhia de seguros quase a pontapés. O mesmo diretor que o promovera ao “estrelato” despediu-o com palavras ferozes:
– Imbecil! Esteve anos e anos com o Sparrow e vai vendê-lo por uma ninharia justamente nas vésperas da valorização. Rua! Faça-me o favor de nunca mais me pôr os pés aqui, seu coisa!
Lupércio voltou para Dois Rios com os trezentos e vinte contos no bolso e perfeitamente reconciliado com a Força. Daí por diante nunca mais houve amuos, nem hiatos na sua ascensão ao milionarismo. Lupércio dava ideia do demônio. Enxergava no mais escuro de todos os negócios. Adivinhava. Recusava muitos que todos consideravam da China, para realizar outros que todos refugavam — e o que inevitavelmente sucedia era o fracasso desses negócios da China e a vitória dos de todos refugados.
No jogo dos marcos alemães o mundo inteiro perdeu — menos Lupércio. Um belo dia deliberou “embarcar nos marcos”, contra o conselho de todos os prudentes locais. A moeda alemã estava a cinquenta réis. Lupércio comprou milhões e mais milhões, empatou nela todas as suas disponibilidades. E com espanto geral o marco principiou a subir. Foi a sessenta, a setenta, a cem réis. O entusiasmo pelo negócio tornou-se imenso. Iria a duzentos, a trezentos réis, diziam todos — e não houve quem não se atirasse à compra daquilo.
Quando a cotação chegou a cento e dez réis, Lupércio foi à capital consultar um banqueiro das suas relações, verdadeiro oráculo em finanças internacionais – o “infalível”, como diziam nas rodas bancárias.
– Não venda — foi o conselho do homem. — A moeda alemã está firmíssima, vai a duzentos, pode chegar mesmo a oitocentos — e só então será o momento de vender.
As razões que o banqueiro deu para demonstrar matematicamente o asserto eram de perfeita solidez; eram a própria evidência materializada em raciocínio.
Lupércio ficou absolutamente convencido daquela matemática — mas arrastado pela Força encaminhou-se para o banco onde tinha os seus marcos — arrastado como o cabritinho que o cabreiro conduz à feira — e lá, em voz sumida, submisso, envergonhado, deu ordens para a venda imediata dos seus milhões.
– Mas, coronel — objetou o empregado a quem se dirigiu —, não acha que é erro vender agora que a alta está numa vertigem? Todos os prognósticos são unânimes em garantir que teremos o marco a duzentos, a trezentos, e isso antes de um mês…
– Acho, sim, que é isso mesmo — respondeu Lupércio, como que agarrado pela garganta. — Mas quero, sou “forçado” a vender. Venda já, já, hoje mesmo.
– Olhe, olhe… — disse ainda o empregado. — Não se precipite. Deixe essa resolução para amanhã. Durma sobre o caso.
A Força quase estrangulou Lupércio, que com os últimos restos de voz apenas pôde dizer:
– É verdade, tem razão — mas venda, e hoje mesmo…
No dia seguinte começou a degringolada final dos marcos alemães, na descida vertiginosa que os levou ao zero absoluto.
Lupércio, comprador a cinquenta réis, vendera-os pelo máximo da cotação alcançada — e justamente na véspera de debacle! O seu lucro foi de milhares de contos.
Os contos de Lupércio foram vindo aos milhares, mas também lhe vieram vindo os anos, até que um dia se convenceu de estar velho e inevitavelmente próximo do fim. Dores aqui e ali — doencinhas insistentes, crônicas. Seu organismo evidentemente decaía à proporção que a fortuna aumentava. Ao completar os sessenta anos Lupércio tomou-se de uma sensação nova, de pavor — o pavor de ter de largar a maravilhosa fortuna reunida. Tão integrado estava no dinheiro, que a ideia de separar-se dos milhões lhe parecia uma aberração da natureza. Morrer! Teria então de morrer, ele que era diferente dos outros homens? Ele que viera ao mundo com a missão de chamar a si quanto dinheiro houvesse? Ele que era o ímã atrator da limalha?
O que foi a sua luta com a ideia da inevitabilidade da morte não cabe em descrição nenhuma. Exigiria volumes. Sua vida ensombreceu. Os dias iam se passando e o problema se tornava cada vez mais angustioso. A morte é um fato universal. Até aquela data não lhe constava que ninguém houvesse deixado de morrer. Ele, portanto, morreria também — era o inevitável. O mais que poderia fazer era prolongar a vida até os setenta, até oitenta. Poderia mesmo chegar a quase cem, como o Rockefeller — mas ao cabo teria de ir-se, e então? Quem ficaria com os duzentos ou trezentos mil contos que deveria ter por essa época?
Aquela história de herdeiros era o absurdo dos absurdos para um celibatário de sua marca. Se a fortuna era dele, só dele, como deixá-la a quem quer que fosse? Não. Tinha de descobrir um jeito de não morrer, ou…
Lupércio interrompeu-se no meio do raciocínio, tomado de súbita ideia. Uma ideia tremenda, que por minutos o deixou de cérebro paralisado. Depois sorriu.
– Sim, sim… Quem sabe? — e seu rosto iluminou-se de uma luz nova. As grandes ideias emitem luz…
Desde esse momento Lupércio revelou-se outro, com preocupações que nunca tivera antes. Não houve em Dois Rios quem o não notasse.
– O homem mudou completamente — diziam. — Está se espiritualizando. Compreendeu que a morte vem mesmo e começa a arrepender-se da sua feroz materialidade.
Lupércio fez-se espiritualista. Comprou livros, leu-os, meditou-os. Passou a frequentar o centro espírita local e a ouvir com a maior atenção as vozes do Além, transmitidas pelo Chico Vira, o famoso médium da zona.
– Quem havia de dizer! — era o comentário geral. — Esse usurário, que passou a vida inteira só pensando em dinheiro e nunca foi capaz de dar um tostão de esmola, está virando santo. E vão ver que faz como o Rockefeller: deixa toda a fortuna para o Asilo de Mendigos…
Lupércio, que nunca lera coisa nenhuma, estava agora se tornando um sábio, a avaliar pelo número de livros que adquiria. Entrou a estudar a fundo. Sua casa fez-se centro de reuniões de quanto médium aparecia por lá — e muitos de fora vieram a Dois Rios a convite seu. Generosamente hospedava-os, pagava- lhes a conta do hotel — coisa inteiramente aberrante dos seus princípios financeiros. O assombro da população não tinha limites.
Mas o doutor Dunga, diretor do Centro Espírita, começou a estranhar uma coisa: o interesse do coronel Lupércio pela metapsíquica centrava-se num só ponto — a reencarnação. Só isso o preocupava realmente. Pelo resto passava como gato por brasas.
– Escute, irmão — disse ele um dia ao doutor Dunga. — Há na teoria da reencarnação um ponto para mim obscuro e que no entanto me apaixona. Por mais autores que eu leia, não consigo firmar as ideias.
– Que ponto é esse? — indagou o doutor Dunga.
– Vou dizer. Já não tenho dúvidas sobre a reencarnação. Estou plenamente convencido de que a alma, depois da morte do corpo, volta — reencarna-se em outro ser. Mas em quem?
– Como em quem?
– Em quem, sim. Meu ponto é saber se a alma do desencarnado pode escolher o corpo em que vai novamente encarnar-se.
– Está claro que escolhe.
– Até aí vou eu. Sei que escolhe. Mas “quando” escolhe? O doutor Dunga não percebia o alcance da pergunta.
– Escolhe quando chega o momento de escolher — respondeu.
A resposta não contentou o coronel. O momento de escolher! Bolas! Mas que momento é esse?
– Meu ponto é o seguinte: saber se a alma de um vivo pode antecipadamente escolher a criatura em que vai futuramente encarnar-se.
O doutor Dunga estava tonto. Fez cara de não entender nada.
– Sim — continuou Lupércio. — Quero saber, por exemplo, se a alma de um vivo pode antes de morrer marcar a mulher que vai ter um filho em quem essa alma se encarne.
A perplexidade do doutor Dunga recrescia.
– Meu caro — disse por fim Lupércio —, estou disposto a pagar até cem contos por uma informação segura — seguríssima. Quero saber se a alma de um vivo pode antes de desencarnar-se escolher o corpo da sua futura reencarnação.
– Antes de morrer?
– Sim…
– Em vida ainda?
– Está claro…
O doutor Dunga quedou-se pensativo. Estava ali uma hipótese em que jamais refletira e sobre que nada lera.
– Não sei, coronel. Só vendo, só consultando os autores — e as autoridades. Nós aqui somos bem pouco neste assunto, mas há mestres na Europa e nos Estados Unidos. Podemos consultá-los.
– Pois faça-me o favor. Não olhe as despesas. Darei cem contos, e até mais, em troca de uma informação segura.
– Sei. Quer saber se ainda em vida do corpo podemos escolher a criatura em que vamos reencarnar-nos…
– Exatamente.
– E por que isso?
– Maluquices de velho. Como ando a estudar as teorias da reencarnação, lógico que me interesso pelos pontos obscuros. Os pontos claros esses já os conheço. Não acha natural a minha atitude?
O doutor Dunga teve de achar naturalíssima aquela atitude.
Enquanto as cartas de consulta cruzavam o oceano, endereçadas às mais famosas sociedades psíquicas do mundo, o estado de saúde do coronel Lupércio agravou-se — e concomitantemente se agravou a sua pressa pela solução do problema. Chegou a autorizar pedido de resposta pelo telégrafo — custasse o que custasse.
Certo dia o doutor Dunga, tomado de vaga desconfiança, foi procurá-lo em casa. Encontrou-o mal, respirando com esforço.
– Nada ainda, coronel. Mas a minha visita tem outro fim. Quero que o amigo fale claro, abra esse coração. Quero que me explique a verdadeira causa do seu interesse pela consulta. Francamente, não acho natural isso. Sinto, percebo, que o coronel tem uma ideia secreta na cabeça…
Lupércio olhou-o de revés, desconfiado. Mas resistiu. Alegou que era apenas curiosidade. Como nos seus estudos sobre a reencarnação nada vira sobre aquele ponto, viera-lhe a lembrança de esclarecê-lo. Só isso…
O doutor Dunga não se satisfez. Insistiu:
– Não, coronel, não é isso, não. Eu sinto, eu vejo, que o senhor tem uma ideia oculta na cabeça. Seja franco. Bem sabe que sou seu amigo.
Lupércio resistiu ainda por algum tempo. Por fim confessou, com relutância.
– É que estou no fim, meu caro — e tenho de fazer o testamento…
Não disse mais, nem foi preciso. Um clarão iluminou o espírito do doutor Dunga. O coronel Lupércio, a mais pura encarnação humana do dinheiro, não admitia a ideia de morrer e deixar a fortuna aos parentes. Não se conformando com a hipótese de separar-se dos sessenta mil contos, pensava em fazer-se o herdeiro de si mesmo em outra reencarnação… Seria isso?
Dunga olhou-o firmemente, sem dizer palavra. Lupércio leu-lhe o pensamento nos olhos inquisidores. Corou — pela primeira vez na vida. E, baixando a cabeça, abriu o coração.
– Sim, Dunga, é isso. Quero que vocês me descubram a mulher em que vou nascer de novo — para fazê-la em meu testamento a depositária da minha fortuna…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/herdeiro-de-si-mesmo-conto-de-monteiro-lobato/.

quinta-feira, 9 de março de 2023

SESSÃO LEITURA - O ENGRAÇADO ARREPENDIDO - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/.
Boa leitura!

O ENGRAÇADO ARREPENDIDO

1917

FRANCISCO TEIXEIRA DE SOUZA PONTES, galho bastardo duns Souza Pontes de trinta mil arrobas afazendados no Barreiro, só aos trinta e dois anos de idade entrou a pensar seriamente na vida.
Como fosse de natural engraçado, vivera até ali à custa da veia cômica, e com ela amanhara casa, mesa, vestuário e o mais. Sua moeda corrente eram micagens, pilhérias, anedotas de inglês e tudo quanto bole com os músculos faciais do animal que ri, vulgo homem, repuxando risos ou matracolejando gargalhadas.
Sabia de cor a Enciclopédia do riso e da galhofa de Fuão Pechincha, o autor mais dessaborido que Deus botou no mundo; mas era tal a arte do Pontes, que as sensaborias mais relambórias ganhavam em sua boca um chiste raro, de fazer os ouvintes babarem de puro gozo.
Para arremedar gente ou bicho, era um gênio. A gama inteira das vozes do cachorro, da acuação aos caititus ao uivo à lua, e o mais, rosnado ou latido, assumia em sua boca perfetibilidade capaz de iludir aos próprios cães — e à lua.
Também grunhia de porco, cacarejava de galinha, coaxava de untanha, ralhava de mulher velha, choramingava de fedelho, silenciava de deputado governista ou perorava de patriota em sacada. Que vozeio de bípede ou quadrúpede não copiava ele às maravilhas, quando tinha pela frente um auditório predisposto?
Descia outras vezes à pré-história. Como fosse de algumas luzes, quando os ouvintes não eram pecos ele reconstituía os vozeirões paleontológicos dos bichos extintos — roncos de mastodontes ou berros de mamutes ao avistarem-se com peludos Homos repimpados em fetos arbóreos — coisa muito de rir e divulgar a ciência do senhor Barros Barreto.
Na rua, se pilhava um magote de amigos parados à esquina, aproximava-se de mansinho e — nhoc! — arremessava um bote de munheca à barriga da perna mais a jeito. Era de ver o pinote assustado e o “Passa!” nervoso do incauto, e logo em seguida as risadas sem fim dos outros, e a do Pontes, o qual gargalhava dum modo todo seu, estrepitoso e musical — música de Offenbach.
Pontes ria parodiando o riso normal e espontâneo da criatura humana, única que ri além da raposa bêbeda; e estacava de golpe, sem transição, caindo num sério de irresistível cômico.
Em todos os gestos e modos, como no andar, no ler, no comer, nas ações mais triviais da vida, o raio do homem diferençava-se dos demais no sentido de amolecá-los prodigiosamente. E chegou a ponto de que escusava abrir a boca ou esboçar um gesto para que se não torcesse em risos a humanidade. Bastava sua presença.
Mal o avistavam, já as caras refloriam; se fazia um gesto, espirravam risos; se abria a boca, espigaitavam-se uns, outros afrouxavam os coses, terceiros desabotoavam os coletes. E se entreabria o bico, Nossa Senhora!, eram cascalhadas, eram rinchavelhos, eram guinchos, engasgos, fungações e asfixias tremendas.
– É da pele, este Pontes!
– Basta, homem, você me afoga!
E se o pândego se inocentava, com cara palerma:
– Mas que estou fazendo? Se nem abri a boca…
– Quá, quá, quá — a companhia inteira, desmandibulada, chorava no espasmo supremo dos risos incoercíveis.
Com o correr do tempo não foi preciso mais que seu nome para deflagrar a hilaridade. Pronunciando alguém a palavra “Pontes”, acendia-se logo o estopim das fungadelas pelas quais o homem se alteia acima da animalidade que não ri.
Assim viveu Pontes até a idade de Cristo, numa parábola risonha, a rir e fazer rir, sem pensar em nada sério — vida de filante que dá momos em troca de jantares e paga continhas miúdas com pilhérias de truz.
Um negociante caloteado disse-lhe um dia entre frouxos de riso babado:
– Você ao menos diverte, não é como o major Carapuça que caloteia de carranca.
Aquele recibo sem selo mortificou seu tanto ao nosso pândego; mas a conta subia a quinze mil-réis — valia bem a pelotada. Entretanto, lá ficou a lembrança dela espetada como alfinete na almofadinha do amor-próprio. Depois vieram outros e outros, estes fincados de leve, aqueles até a cabeça.
Tudo cansa. Farto de tal vida, entrou o hilarião a sonhar as delícias de ser tomado a sério, falar e ser ouvido sem repuxo de músculos faciais, gesticular sem promover a quebra da compostura humana, atravessar uma rua sem pressentir na peugada um coro de “Lá vem o Pontes!” em tom de quem se espreme na contenção do riso ou se ajeita para uma barriga das boas.
Reagindo, tentou Pontes a seriedade. Desastre.
Pontes sério mudava de tecla, caía no humorismo inglês. Se antes divertia como o Clown, passava agora a divertir como o Tony.
O estrondoso êxito do que a toda a gente se afigurou uma faceta nova da sua veia cômica verteu mais sombras na alma do engraçado arrependido. Era certo que não poderia traçar outro caminho na vida além daquele, ora odioso? Palhaço, então, eternamente palhaço à força?
Mas a vida de um homem feito tem exigências sisudas, impõe gravidade e até casmurrice dispensáveis nos anos verdes. O cargo mais modesto da administração, uma simples vereança, requer na cara a imobilidade da idiotia que não ri. Não se concebe vereador risonho. Falta ao dito de Rabelais uma exclusão: o riso é próprio à espécie humana, fora o vereador.
Com o dobar dos anos a reflexão amadureceu, o brio cristalizou-se, e os jantares cavados deram a saber-lhe a azedo. A moeda pilhéria tornou-se-lhe dura ao cunho; já a não fundia com a frescura antiga; já usava dela como expediente de vida, não por folgança despreocupada, como outrora. Comparava-se mentalmente a um palhaço de circo, velho e achacoso, a quem a miséria obriga a transformar reumatismo em caretas hílares como as quer o público pagante.
Entrou a fugir dos homens e despendeu bons meses no estudo da transição necessária ao conseguimento de um emprego honesto. Pensou no balcão, na indústria, na feitoria duma fazenda, na montagem dum botequim — que tudo era preferível à paspalhice cômica de até ali.
Um dia, bem maturados os planos, resolveu mudar de vida. Foi a um negociante amigo e sinceramente lhe expôs os propósitos regeneradores, pedindo por fim um lugar na casa, de varredor que fosse. Mal acabou a exposição, o galego e os que espiavam de longe à espera do desfecho torceram-se em estrondoso gargalhar, como sob cócegas.
– Esta é boa! É de primeiríssima! Quá! quá! quá! Com que então… Quá! quá! quá! Você me arruína os fígados, homem! Se é pela continha dos cigarros, vá embora que me dou por bem pago! Este Pontes tem cada uma…
E a caixeirada, os fregueses, os sapos de balcão e até passantes que pararam na calçada para “aproveitar o espírito” desbocaram-se em “quás” de matraca até lhe doerem os diafragmas.
Atarantado e seriíssimo, Pontes tentou desfazer o engano.
– Falo sério, e o senhor não tem o direito de rir-se. Pelo amor de Deus não zombe de um pobre homem que pede trabalho e não gargalhadas.
O negociante desabotoou o cós da calça.
– Fala sério, pff! Quá! quá! quá! Olha, Pontes, você…
Pontes largou-o em meio da frase e se foi com a alma atenazada entre o desespero e a cólera. Era demais. A sociedade o repelia, então? Impunha-lhe uma comicidade eterna?
Correu outros balcões, explicou-se como melhor pôde, implorou. Mas por voz unânime o caso foi julgado como uma das melhores pilhérias do “incorrigível” — e muita gente o comentou com a observação do costume:
– Não se emenda o raio do rapaz! E olhem que já não é criança…
Barrado no comércio, voltou-se para a lavoura. Procurou um velho fazendeiro que despedira o feitor e expôs-lhe o seu caso.
Depois de ouvir-lhe atentamente as alegações, conclusas com o pedido do lugar de capataz, o coronel explodiu num ataque de hilaridade.
– O Pontes capataz! Ih! Ih! Ih!
– Mas…
– Deixe-me rir, homem, que cá na roça isto é raro. Ih! Ih! Ih! É muito boa! Eu sempre digo: graça como o Pontes, ninguém!
E berrando para dentro:
– Maricota, venha ouvir esta do Pontes. Ih! Ih! Ih!
Nesse dia o infeliz engraçado chorou. Compreendeu que não se desfaz do pé para mão o que levou anos a cristalizar-se. A sua reputação de pândego, de impagável, de monumental, de homem do chifre furado ou da pele, estava construída com muito boa cal e rijo cimento para que assim esboroasse de chofre.
Urgia, entretanto, mudar de tecla, e Pontes volveu as vistas para o Estado, patrão cômodo e único possível nas circunstâncias, porque abstrato, porque não sabe rir nem conhece de perto as células que o compõem. Esse patrão, só ele, o tomaria a sério — o caminho da salvação, pois, embicava por ali.
Estudou a possibilidade da agência do correio, dos tabelionatos, das coletorias e do resto. Bem ponderados os prós e contras, os trunfos e naipes, fixou a escolha na coletoria federal, cujo ocupante, major Bentes, por avelhantado e cardíaco, era de crer não durasse muito. Seu aneurisma andava na berra pública, com rebentamento esperado para qualquer hora.
O ás de Pontes era um parente do Rio, sujeito de posses, em via de influenciar a política no caso da realização de certa reviravolta no Governo. Lá correu atrás dele e tantas fez para movê-lo à sua pretensão que o parente o despediu com promessa formal.
– Vai sossegado que, em a coisa arrebentando por cá e o teu coletor rebentando por lá, ninguém mais há de rir-se de ti. Vai, e avisa-me da morte do homem sem esperar que esfrie o corpo.
Pontes voltou radioso de esperança e pacientemente aguardou a sucessão dos fatos, com um olho na política e outro no aneurisma salvador. A crise afinal veio; caíram ministros, subiram outros e entre estes um politicão negocista, sócio do tal parente. Meio caminho já era andado. Restava apenas a segunda parte.
Infelizmente, a saúde do major encruara, sem sinais patentes de declínio rápido. Seu aneurisma, na opinião dos médicos que matavam pela alopatia, era coisa grave, de estourar ao menor esforço; mas o precavido velho não tinha pressa de ir-se para melhor, deixando uma vida onde os fados lhe conchegavam tão fofo ninho, e lá engambelava a doença com um regime ultrametódico. Se o mataria um esforço violento, sossegassem, ele não faria tal esforço.
Ora, Pontes, mentalmente dono daquela sinecura, impacientava-se com o equilíbrio desequilibrador dos seus cálculos. Como desembaraçar o caminho daquela travanca? Leu no Chernoviz o capítulo dos aneurismas, decorou-o; andou em indagações de tudo quanto se dizia ou se escreveu a respeito; chegou a entender da matéria mais que o doutor Iodureto, médico da terra, o qual, seja dito aqui à puridade, não entendia de coisa nenhuma desta vida.
O pomo da ciência, assim comido, induziu-o à tentação de matar o homem, forçando-o a estourar. Um esforço o mataria? Pois bem, Souza Pontes o levaria a esse esforço! “A gargalhada é um esforço”, filosofava satanicamente de si para si. “A gargalhada, portanto, mata. Ora, eu sei fazer rir…”
Longos dias passou Pontes alheio ao mundo, em diálogo mental com a serpente.
– Crime? Não! Em que código fazer rir é crime? Se disso morresse o homem, culpa era da sua má aorta.
A cabeça do maroto virou picadeiro de luta onde o “plano” se batia em duelo contra todas as objeções mandadas ao encontro pela consciência. Servia de juiz à sua ambição amarga, e Deus sabe quantas vezes tal juiz prevaricou, levado de escandalosa parcialidade por um dos contendores.
Como era de prever, a serpente venceu, e Pontes ressurgiu para o mundo um tanto mais magro, de olheiras cavadas, porém com um estranho brilho de resolução vitoriosa nos olhos. Também notaria nele o nervoso dos modos quem o observasse com argúcia — mas a argúcia não era virtude sobeja entre os seus conterrâneos, além de que estados da alma do Pontes eram coisa de somenos, porque Pontes…
– Ora, Pontes…
O futuro funcionário forjicou, então, meticulosos planos de campanha. Em primeiro era mister aproximar-se do major, homem recolhido consigo e pouco amigo de lérias; insinuar-se-lhe na intimidade; estudar suas venetas e cachacinhas até descobrir em que zona do corpo tinha ele o calcanhar de aquiles. Começou frequentando com assiduidade a coletoria, sob pretextos vários, ora para selos, ora para informações sobre impostos, que tudo era ensejo de um parolar manhoso, habilíssimo, calculado para combalir a rispidez do velho.
Também ia a negócios alheios, pagar cisas, extrair guias, coisinhas; fizera-se muito serviçal para os amigos que traziam negócios com a fazenda.
O major estranhou tanta assiduidade e disse-lho, mas Pontes escamoteou-se à interpelação montado numa pilhéria de truz, e perseverou num bem calculado dar tempo ao tempo que fosse desbastando as arestas agressivas do cardíaco.
Dentro de dois meses já se habituara Bentes àquele serelepe, como lhe chamava, o qual, em fim de contas, lhe parecia um bom moço, sincero, amigo de servir e sobretudo inofensivo… Daí a lá em dia de acúmulo de serviço pedir- lhe um obséquio, e depois outro, e terceiro, e tê-lo afinal como espécie de adido à repartição, foi um passo. Para certas comissões não havia outro. Que diligência! Que finura! Que tato! Advertindo certa vez o escrevente, o major puxou aquela diplomacia como lembrete.
– Grande pasmado! Aprenda com o Pontes, que tem jeito para tudo e inda por cima tem graça.
Nesse dia convidou-o para jantar. Grande exultação na alma de Pontes! A fortaleza abria-lhe as portas.
Aquele jantar foi o início duma série em que o serelepe, agora factótum indispensável, teve campo de primeira ordem para evoluções táticas.
O major Bentes, entretanto, possuía uma invulnerabilidade: não ria, limitava suas expansões hílares a sorrisos irônicos. Pilhéria que levava outros comensais a erguerem-se da mesa atabafando a boca nos guardanapos encrespava apenas os seus lábios. E se a graça não era de superfina agudeza, ele desmontava sem piedade o contador.
– Isso é velho, Pontes, já num almanaque Laemmert de 1850 me lembra de o ter lido.
Pontes sorria com ar vencido; mas lá por dentro consolava-se, dizendo, dos fígados para o rim, que se não pegara daquela, doutra pegaria.
Toda a sua sagacidade enfocava no fito de descobrir o fraco do major. Cada homem tem predileção por um certo gênero de humorismo ou chalaça. Este morre por pilhérias fesceninas de frades bojudos. Aquele pela-se pelo chiste bonacheirão da chacota germânica. Aquele outro dá a vida pela pimenta gaulesa. O brasileiro adora a chalaça onde se põe a nu a burrice tamancuda de galegos e ilhéus.
Mas o major? Por que não ria à inglesa, nem à alemã, nem à francesa, nem à brasileira? Qual o seu gênero?
Um trabalho sistemático de observação, com a metódica exclusão dos gêneros já provados ineficientes, levou Pontes a descobrir a fraqueza do rijo adversário: o major lambia as unhas por casos de ingleses e frades. Era preciso, porém, que viessem juntos. Separados, negavam fogo. Esquisitices do velho. Em surgindo bifes vermelhos, de capacete de cortiça, roupa enxadrezada, sapatões formidolosos e cachimbo, juntamente com frades redondos, namorados da pipa e da polpa feminina, lá abria o major a boca e interrompia o serviço da mastigação, como criança a quem acenam com cocada. E quando o lance cômico chegava, ele ria com gosto, abertamente, embora sem exagero capaz de lhe destruir o equilíbrio sanguíneo.
Com infinita paciência Pontes bancou nesse gênero e não mais saiu dali. Aumentou o repertório, a gradação do sal, a dose de malícia, e sistematicamente bombardeou a aorta do major com os produtos dessa hábil manipulação.
Quando o caso era longo, porque o narrador o floria no intento de esconder o desfecho e realçar o efeito, o velho interessava-se vivamente, e nas pausas manhosas pedia esclarecimento ou continuação.
– E o raio do bife? E daí? Mister John apitou?
Embora tardasse a gargalhada fatal, o futuro coletor não desesperava, confiando no apólogo da bilha que de tanto ir à fonte lá ficou. Não era mau o cálculo. Tinha a psicologia por si — e teve também por si a quaresma.
Certa vez, findo o Carnaval, reuniu o major os amigos em torno a uma enorme piabanha recheada, presente dum colega. O entrudo desmazorrara a alma dos comensais e a do anfitrião, que estava naquele dia contente de si e do mundo, como se houvera enxergado o passarinho verde. O cheiro vindo da cozinha, valendo por todos os aperitivos de garrafaria, punha nas caras um enternecimento estomacal.
Quando o peixe entrou, cintilaram os olhos do major. Pescado fino era com ele, inda mais cozido por Gertrudes. E naquele bródio primara Gertrudes num tempero que excedia às raias da culinária e se guindava ao mais puro lirismo.
– Que peixe! Vatel o assinaria com a pena da impotência molhada na tinta da inveja — disse o escrevente, sujeito lido em Brillat-Savarin e outros praxistas do paladar.
Entre goles de rica vinhaça ia a piabanha sendo introduzida nos estômagos com religiosa unção. Ninguém se atrevia a quebrar o silêncio da bromatológica beatitude.
Pontes pressentiu oportuno o momento do golpe. Trazia engatilhado o caso dum inglês, sua mulher e dois frades barbadinhos, anedota que elaborara à custa da melhor matéria cinzenta de seu cérebro, aperfeiçoando-a em longas noites de insônia. Já de dias a tinha de tocaia, só aguardando o momento em que tudo concorresse para levá-la a produzir o efeito máximo.
Era a derradeira esperança do facínora, seu último cartucho. Negasse fogo e, estava resolvido, metia duas balas nos miolos. Reconhecia impossível manipular-se torpedo mais engenhoso. Se o aneurisma lhe resiste ao embate, então é que o aneurisma era uma potoca, a aorta uma ficção, o Chernoviz um palavrório, a medicina uma miséria, o doutor Iodureto uma cavalgadura e ele, Pontes, o mais chapado sensaborão ainda aquecido pelo sol — indigno, portanto, de viver.
Matutava assim Pontes, negaceando com os olhos da psicologia a pobre vítima, quando o major veio ao seu encontro: piscou o olho esquerdo — sinal de predisposição para ouvir.
– É agora! — pensou o bandido. E com infinita naturalidade, pegando como por acaso uma garrafinha de molho, pôs-se a ler o rótulo.
— Perrins; Lea and Perrins. Será parente daquele lord Perrins que bigodeou os dois frades barbadinhos?
Inebriado pelos amavios do peixe, o major alumiou um olho concupiscente, guloso de chulice.
— Dois barbadinhos e um lord! A patifaria deve ser marca X.P.T.O. Conta lá, serelepe.
E, mastigando maquinalmente, absorveu-se no caso fatal.
A anedota correu capciosa pelos fios naturais até as proximidades do desfecho, narrada com arte de mestre, segura e firme, num andamento estratégico em que havia gênio. Do meio para o fim a maranha empolgou de tal forma o pobre velho que o pôs suspenso, de boca entreaberta, uma azeitona no garfo detida a meio caminho. Um ar de riso — riso parado, riso estopim, que não era senão o armar bote da gargalhada — iluminou-lhe o rosto.
Pontes vacilou. Pressentiu o estouro da artéria. Por uns instantes a consciência brecou-lhe a língua, mas Pontes deu-lhe um pontapé e com voz firme puxou o gatilho.
O major Antônio Pereira da Silva Bentes desferiu a primeira gargalhada da sua vida, franca, estrondosa, de ouvir-se no fim da rua, gargalhada igual à de Teufalsdröckh diante de Jean Paul Richter. Primeira e última, entretanto, porque no meio dela os convivas, atônitos, viram-no cair de bordo sobre o prato, ao tempo que uma onda de sangue avermelhava a toalha.
O assassino ergueu-se alucinado; aproveitando a confusão, esgueirou-se para a rua, qual outro Caim. Escondeu-se em casa, trancou-se no quarto, bateu dentes a noite inteira, suou gelado. Os menores rumores retransiam-no de pavor. Polícia?
Semanas depois é que entrou a declinar aquele transtorno da alma que toda gente levara à conta de mágoa pela morte do amigo. Não obstante, trazia sempre nos olhos a mesma visão: o coletor de bruços no prato, golfando sangue, enquanto no ar vibravam os ecos da sua derradeira gargalhada.
E foi nesse deplorável estado que recebeu a carta do parente do Rio. Entre outras coisas dizia o ás: “Como não me avisaste a tempo, conforme o combinado, só pelas folhas vim a saber da morte de Bentes. Fui ao ministro mas era tarde, já estava lavrada a nomeação do sucessor. A tua leviandade fez-te perder a melhor ocasião da vida. Guarda para teu governo este latim: tarde venientibus ossa, quem chega tarde só encontra os ossos — e sê mais esperto para o futuro”.
Um mês depois descobriram-no pendente duma trave, com a língua de fora, rígido. Enforcara-se numa perna de ceroula.
Quando a notícia deu volta pela cidade, toda gente achou graça no caso. O galego do armazém comentou para os caixeiros:
— Vejam que criatura! Até morrendo fez chalaça. Enforcar-se na ceroula!
Esta só mesmo de Pontes…
E reeditaram em coro meia dúzia de “quás” — único epitáfio que lhe deu a sociedade.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-engracado-arrependido-conto-de-monteiro-lobato/.