Mostrando postagens com marcador LOCOMOTIVAS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LOCOMOTIVAS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - DÉCIMA SEGUNDA PARTE (FINAL)

Com esta postagem, encerramos a publicação de reportagens sobre a novela Locomotivas, que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Elas pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Breve, estaremos publicando reportagens sobre a primeira versão de Pecado Capital.
Aguardem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - DÉCIMA PRIMEIRA PARTE

Estamos publicando os pôsteres dos artistas que trabalharam em Locomotivas, novela que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Eles pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - DÉCIMA PARTE

Estamos publicando os pôsteres dos artistas que trabalharam em Locomotivas, novela que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Eles pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - NONA PARTE

Estamos publicando os pôsteres dos artistas que trabalharam em Locomotivas, novela que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Eles pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - OITAVA PARTE

Estamos publicando os pôsteres dos artistas que trabalharam em Locomotivas, novela que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Eles pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - SÉTIMA PARTE

A partir desta semana, estaremos publicando os pôsteres dos artistas que trabalharam em Locomotivas, novela que foi apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. Eles pertencem à revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa diversão!



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - SEXTA PARTE

Estamos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - QUINTA PARTE

Estamos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Na semana que vem tem mais.
Acompanhem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!



segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - QUARTA PARTE

Estamos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Na semana que vem tem mais.
Acompanhem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - TERCEIRA PARTE

Estamos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Na semana que vem tem mais.
Acompanhem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - SEGUNDA PARTE

Estamos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Na semana que vem tem mais.
Acompanhem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!




segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - LOCOMOTIVAS - PRIMEIRA PARTE

A partir desta semana, estaremos publicando a cada semana uma parte de uma matéria sobre a novela Locomotivas, apresentada pela Rede Globo no horário das 19h de 1º de março a 12 de setembro de 1977. A matéria foi publicada na revista Contigo, número 234, publicada em 02 de setembro de 1977.
Para saber mais sobre essa novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/locomotivas.asp.
Na semana que vem tem mais.
Acompanhem!
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!


quarta-feira, 20 de abril de 2011

LOCOMOTIVAS - COMPACTO - PARTE IX E CENAS DO ÚLTIMO CAPÍTULO

Infelizmente, na parte 9 (final) do compacto faltaram algumas cenas, por isso completamos com outros vídeos. Infelizmente, as cenas não ficarão na ordem correta, mas não será difícil deduzir o que houve com os personagens no final.
Gratos pelo compreensão.



http://www.youtube.com/watch?v=H9Ns-H2oPIg

quarta-feira, 16 de março de 2011

LOCOMOTIVAS - CAPÍTULO IV - PARTE II - FINAL



O problema de Netinho era razoavelmente grave, ainda que ele não se desse conta disso. Algumas pessoas convivem anos e anos com uma doença e só resolvem tratar dela quando começam a sentir dores insuportáveis, ou quando surge a ameaça de perder a vida. No caso dele, não se tratava de uma doença mental. Era uma espécie de defeito de personalidade. Ele não era um moço covarde, mas lhe faltava a capacidade de tomar iniciativa em qualquer assunto. Fora educado assim, treinado para depender da mãe, ensinado a não agir diante de um problema.
Havia, no entanto, um remédio infalível para esse mal: uma relação de amor que fosse integral. Se ele encontrasse uma mulher com quem pudesse estabelecer laços afetivos maduros e intensos. Alguém capaz de sacudir-lhe inteiro, por dentro de seu universo pequeno e fechado. Se esse alguém aparecesse em sua vida, Netinho se transformaria em outro homem. Tornar-se-ia de uma hora para outra um adulto, um homem capaz de enfrentar a vida e vencer. Mas... quem seria esse alguém? Patrícia? Renata? Celeste? Ou alguém que ele encontraria na rua?
Naquela tarde, Netinho recebera um "bolo" de Renata. Era raro, mas às vezes acontecia. Talvez por causa de algum mal-entendido na hora de marcar o encontro, ele teve de ficar esperando mais de meia hora no local combinado, antes de concluir que a noiva não viria mesmo. Já estava ligando o carro para voltar para casa, quando viu aquela garota. Era um monumento: alta, cheia de curvas, cabelo até a cintura, um andar de gazela e toda cor de caramelo. Ficou uns instantes petrificado, antes de perceber que ela olhava para ele e sorria. Não era possível, mas a moça simpatizara com ele.
Não era ilusão de óptica. Ela sorria para Netinho, olhando firme em seus olhos e até fazendo beicinho, num evidente convite. Parou ali em frente ao carro, como se o esperasse saltar do automóvel e ir falar com ela. Só que ele não se decidia. Permanecia ali sentado, com os olhos fixos na garota, que já começava a se desinteressar. Pela cabeça dele passavam mil pensamentos. Todos negativos. E se a Renata resolvesse aparecer justo na hora em que ele estivesse falando com a moça? E se, pior ainda, a mãe passasse por ali? Não sabia mais se queria ou não conhecer a garota, ou se apenas tinha medo. Medo era, na verdade, a única sensação palpável naquele momento: uma força que o imobilizava no assento do carro, fazendo-o olhar para o objeto de seu interesse como um idiota, desprovido de consciência e capacidade de agir.
Só acordou quando viu outro carro estacionar na frente do seu. Um rapaz saltou do automóvel e, bem-humorado, fez um galanteio qualquer para a moça e começou a conversar com ela. Depois de alguns segundos de conversa, ela foi entrando no carro do recém-chegado. Só que, antes, lançou um olhar de desdém para Netinho, como se dissesse: "Até nunca mais, seu trouxa!"
Esse incidente quase sem importância serviu para despertar alguma coisa dentro de Netinho. Ele voltou para casa arrasado, tendo de encarar sua própria inibição diante do sexo oposto. Sentia vergonha, nojo de si mesmo e, é claro, mais medo ainda. Não teve vontade de ver a mãe e, quando chegou em casa, foi direto até o apartamento de Celeste para desabafar, como sempre fazia nessas ocasiões. Ela não estava e ele ficou ali na sala.
Quando Celeste voltou para casa, viu Netinho adormecido no sofá.
Aproximou-se dele em silêncio e ficou por uns instantes ali, olhando embevecida para o ser amado. Não se conteve e passou de leve a ponta dos dedos nos cabelos dele. Sem querer, foi aproximando seu rosto do dele. Começou a sentir o calor de sua respiração e o cheiro de sua pele. Quando os lábios dela estavam quase tocando os dele, Netinho acordou assustado e deu com o rosto bonito e amigo de Celeste a poucos milímetros do seu.

Naquele dia, Sérgio chegou em casa esfuziante de alegria. Trazia presentes para a mulher e a filha. As duas abriram as caixas e ficaram maravilhadas com o que ganharam. Sapatos, bolsas, perfumes e uma garrafa de champanha que ele mandou abrir na hora. Era evidente que se dispunha, a festejar alguma coisa. Chegou até a abraçar e beijar Mirtes, que, atônita, não entendia nada. A alegria era uma coisa tão rara naquela casa que até os criados olhavam apreensivos, julgando que o patrão podia ter enlouquecido.
Quando ele pediu que as duas se arrumassem para jantar fora naquela noite, Patrícia percebeu que algo de muito sério havia acontecido. Os pais não saíam para jantar fora desde que ela se formara no colégio, quatro anos atrás. De qualquer forma, era muito boa aquela sensação de euforia, de vida nova entrando junto com o pai por aquela porta que, para ela, sempre teve o mesmo sentido de uma porteira de campo de concentração.
- Não sei explicar como, mas acho que aconteceu um milagre - disse ele, depois do segundo gole de champanha. - Alguma coisa aconteceu lá no Banco do Brasil... alguma autoridade resolveu rever o processo da minha empresa e eles mudaram de idéia!
- Como assim, papai?
- Vocês não sabiam, mas a falência da fábrica já tinha sido praticamente decretada...
- A fábrica que papai fundou? - assustou-se Mirtes.
- Claro, Mirtes... a gente só tem essa fábrica!
- E o que é que o senhor ia fazer com os funcionários?
- Ia ter de mandá-los embora... vocês já imaginaram? Mais de oitocentos trabalhadores! Mas, graças a Deus, eles mudaram de idéia e vão reconside­rar... vão ampliar o prazo para pagar as dívidas e, ainda por cima, renovar meu crédito.
Patrícia resolveu aproveitar a oportunidade e fez uma tentativa:
- Quer dizer então que agora tudo vai mudar e eu posso namorar o Paulo?
- Absolutamente! De jeito nenhum! E não me faça perder o bom humor!

Kiki demorou alguns dias, mas acabou por se decidir. Dedicara a vida inteira a seus filhos. Não poderia deixar Paulo sofrer sem interceder a seu favor. Arrumou-se e saiu de casa bem cedo, ainda um pouco sonolenta.
Chegou ao escritório de Sérgio, anunciou-se para a secretária e sentou-se na sala de espera. Nem cinco minutos se passaram antes que Sérgio chegasse. Ele cruzou a porta e viu Kiki, sentada, olhando-o fixamente.
- Dr. Sérgio, esta senhora disse que é Josefina Cabral e que está esperando o senhor...
- Pode deixar, vou atendê-la no escritório.
Kiki e Sérgio entraram, ainda atônitos com o reencontro depois de trinta anos...
- Eu pensei que jamais a veria de novo, Jô. Como vai a vida?
- Sérgio, eu pensei muito antes de vir aqui. E só vim por causa de meu filho Paulo. Ele... ele está apaixonado por sua filha, Sérgio. E eu soube que você a proibiu de vê-lo, quando soube que eu era sua mãe... Sérgio, por favor... não vamos magoar nossos filhos por causa do nosso passado. Você não tem esse direito. Quando você me deixou, eu ainda era muito jovem. E sonhava em ser feliz a seu lado, ter muitos filhos, construir um lar. Mas tudo se acabou naquela tarde... Fiquei chorando na estação de trem, sentada nas duas pequenas malas, onde arrumei tudo o que tinha... Você não foi, Sérgio. E eu soube por quê. Seu pai descobriu que eu era vedete, que trabalhava num palco, que tinha coragem de viver como mulher independente. E proibiu-o de me encontrar. Mas você foi covarde... podia até me abandonar, mas não precisava se casar com Mirtes só pelo dinheiro, Sérgio, por puro interesse. Eu... não peço nada pra mim, porque o passado não vai voltar. Eu peço por meu filho. Por favor, Sérgio, deixe-o namorar Patrícia. Eles não podem pagar por um erro que nós dois cometemos.
Sérgio não disse sequer uma palavra durante todo o discurso de Kiki. Estava de cabeça baixa e, pela primeira vez, sentia-se um covarde, um verme, que durante toda a vida enganara a si e a sua família, exibindo um falso orgulho de ser Sérgio Mello. Na verdade, sentia-se um farrapo e deixou sua emoção fluir, ao menos naquele momento.
- Jô, eu... não sei o que dizer... mas eu também gostaria de lhe pedir uma coisa. Eu preciso que você me perdoe, Jô. Eu também era jovem e imaturo. Amava você com todas as forças, mas me acovardei diante do meu pai. Me perdoe, por favor. Eu vou fazer o possível pra que esse erro não destrua mais ninguém; já basta o que nós dois sofremos com isso.
Kiki se recompôs da emoção do encontro. Perdoou-o, sinceramente. E sentiu que um peso de muitos anos saía de sua cabeça.
- Adeus, Sérgio. Foi bom revê-lo. Desejo-lhe muita sorte. E prosperidade na empresa, que agora também fica incluída no seu perdão.
- Não estou entendendo, Jô. O que tem a empresa a ver com nós dois?
- A falência, Sérgio. Paulo me contou sobre a sua falência. Não foi muito difícil pra mim. Dois ou três telefonemas para dr. Alcântara, do Banco do Brasil, e pronto. Você foi salvo.
- Jô, então... foi você quem... quem... não pode ser! .
- Pode sim, Sérgio. Eu não guardo mágoas. Ajudei-o pra ajudar meu filho. Até um dia.
Já na rua, Kiki Blanche pensou na única coisa que não tivera coragem de revelar. Naquele dia, na estação, não eram só as malas que carregava consigo. Dentro do ventre, levava também um segredo, uma surpresa que revelaria na hora do encontro. Estava grávida dele. Sem imaginar que Milena nasceria e cresceria sem jamais conhecer o verdadeiro pai...

Patrícia atendeu ao telefone, pensando ser Netinho:
- Alô? Papai? O quê? O senhor está me dizendo que eu posso namorar com o Paulo? Mas o senhor disse... Está bem, papai. Não vou perguntar por que o senhor mudou de idéia. Está bem. Obrigada, pai, muito obrigada.
E desligou, intrigada com a mudança do pai. Mas aceitou-a e ligou para Paulo.

Quando acordou e viu o rosto de Celeste assim tão perto do seu, Netinho sentiu uma espécie de descarga elétrica que lhe fez ferver o sangue: um misto de surpresa e prazer o atravessou por inteiro. Celeste também não recuou o rosto e percebeu que seus olhos estavam colados aos de Netinho. Não havia nada que dizer, apenas se deixar envolver por essa magia que os lançava um ao outro. Seus lábios se tocaram, suas mãos se uniram e seus corpos se colaram num abraço que parecia não ter limite.
Netinho não voltou para sua casa naquela noite. No dia seguinte não foi trabalhar. No apartamento de Celeste, anos de auto-repressão, séculos de medo e inibição estavam sendo derrubados. Em seu lugar, florescia um relacionamento que estava fadado a não mais desaparecer. Entre aquelas quatro paredes, nasciam um novo homem e uma nova mulher. Seres que faziam parte de uma nova raça disposta a tudo para defender sua própria felicidade.
Margarida estava preocupadíssima com o sumiço do filho. Sabia que ele estava com alguma mulher. Não temia pela segurança dele, mas morria de medo de que o filho se envolvesse profundamente com alguém. Foi até o apartamento de Celeste para ver se ela tinha alguma idéia. A porta estava aberta. Ela entrou e acabou deparando com uma cena inesperada.
No começo foi difícil. Foi preciso muita conversa e alguns comprimidos de calmante. Lentamente Margarida foi caindo na realidade e começando a pensar em substituir o papel de supermãe pelo de superavó. Netinho só precisou dizer tudo o que sempre quisera e não conseguira. Agora não sentia mais medo e era capaz de enfrentar qualquer inimigo. O amor salvara sua vida.

Quando souberam do casamento de Netinho e Celeste, Patrícia e Renata entraram em violenta depressão. Passaram noites em claro amargando a frustração e o arrependimento por terem se apaixonado por quem não as merecia. Depois foram aos poucos percebendo a cilada em que tinham caído. Apaixonaram-se por um rapaz por causa de sua fragilidade; comoveram-se justamente com a insegurança e a fraqueza dele. O instinto maternal as fizera gostar de Netinho, sem desconfiar de que ele precisava exatamente de uma mulher mais velha, assim como Celeste.
Renata começou a namorar Cássio, que era amigo de Netinho e tinha alguma coisa dele. Era uma forma de fazer menos dolorida a separação definitiva. Ou talvez fosse o início de um caso de amor que tinha tudo para dar certo.
Patrícia ficou noiva de Paulo. Sérgio mudara completamente depois de seu encontro com Kiki e até fizera questão de organizar pessoalmente a festa de noivado. Mas Patrícia mudou muito depois desses dois choques, o amadurecimento de Netinho e a modificação do pai. Na noite em que ia ser celebrado seu compromisso com Paulo, ela resolveu jogar tudo para o alto. Chamou o rapaz a seu quarto e lhe contou toda a verdade. Ia se casar com ele só para poder sair de casa. Agora descobrira que podia fazer isso sem precisar se casar. Não o amava, mas gostava dele o suficiente para não querer arruinar-lhe a vida.
Na noite do noivado que não houve, Paulo saiu da casa de Patrícia sem se despedir de ninguém. Racionalmente entendia tudo e até agradecia ao destino pelo que tinha acontecido. Sabia que seu casamento sem amor com Patrícia poderia resultar em tragédia. Mas estava emocionalmente arrasado. Só pensava em tomar um porre e começar o processo de esquecer tudo. Ligou o motor da moto e definiu o bar em que pretendia se embebedar: o Tia Joana.

Milena traiu-se ao pedir a Fábio que parasse com aquela história de descobrir a verdadeira mãe de Fernanda. Isso só serviu para aguçar ainda mais sua curiosidade. Fábio fez todos os contatos possíveis e chegou à verdade. Então, Milena era mãe de Fernanda... Tão logo descobriu, sentiu uma ternura infinita por Milena, e seu amor por ela cresceu ainda mais, somando-se àquele sentimento uma enorme admiração por sua coragem.
Telefonou a Milena e marcou um encontro. Com sua intuição, ela percebeu que ele já sabia de tudo...
Eles se encontraram no mesmo lugar onde se conheceram, em frente à escola de Lia e Regina. Bem em frente havia uma linda praça, cheia de flores e árvores, o lugar perfeito para esse encontro definitivo.
Quando Milena chegou, encontrou, Fábio sentado num banco do jardim, desfolhando uma flor. Milena foi até ele e sentou-se a seu lado.
- Milena, eu descobri duas coisas muito importantes, A primeira é sobre Fernanda. Eu já sei de tudo, Milena. E admiro-a por tudo o que fez. Acho apenas que você foi longe demais. Você quase me perdeu. Por alguns momentos eu cheguei a acreditar que você não me amava mais.
- Você... vai contar tudo a Fernanda, Fábio?
- Não. Mas você vai. E vai contar a ela também que eu vou me casar com você, o mais rápido possível. Nós já perdemos tempo demais...
- Mas... Fábio. Como é que você tem tanta certeza de que eu também quero me casar com você?
- Por causa da segunda coisa que eu descobri. Enquanto você não chegava, fiz algo que nunca tive coragem de fazer. Uma bobagem. Arranquei uma flor do jardim e comecei a arrancar suas pétalas, uma a uma. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer... e a flor me contou que você ainda me quer bem...
- Ela estava certa, Fábio. Eu te amo!
- Então, você quer se casar comigo, Milena?
- É a coisa que eu mais quero na vida...
Com um longo beijo, selaram ali um pacto eterno de felicidade...

- Você está triste, Fernanda? - perguntou Machadinho, abraçando-a.
- Não é tristeza, Machadinho. Eu não sei como isso se chama. Durante toda a vida eu percebia que Milena me tratava de uma maneira diferente, especial, e sempre a magoei muito por isso. Achava que ela me perseguia, sempre ali, me tratando como uma criança. Imagino o que ela deve ter sofrido... Todo esse tempo, sem nunca poder me chamar de filha... Mas eu fiquei muito feliz ao saber que Milena é minha mãe, sabe? Antes eu achava que não tinha nenhuma, e agora tenho duas! Kiki e Milena! Dá até pra revezar quando uma ficar chata! - e riram como crianças.
- Mas... e o Fábio, Fernanda? Você ainda sente alguma coisa por ele?
- Claro que sinto! Mas não é nada parecido com amor... Acho que Milena tinha razão. Eu estava mesmo procurando um pai... e acabei encontrando! Quando ele se casar com Milena, vai me adotar também!
- Por falar nisso, Fernanda, eu queria lhe fazer uma proposta. Mas você pode pensar quanto tempo quiser. Eu, bem... eu já montei um apartamento, tenho dinheiro guardado... e, bem, me sinto muito só aqui no Brasil. Além disso, bem, além disso eu te amo, Fernanda. E quero me casar com você. E, se você quiser, vamos ter muitos filhos e adotar uma porção de crianças!
Fernanda parou por um momento. Escolheu bem as palavras antes de falar:
- Eu não preciso de tempo pra pensar. Porque eu não penso com a lógica, só com o coração. E, pela batida aqui no peito, eu só tenho vontade de dizer sim. Eu quero, sim, quero me casar com você, criar um monte de crianças, cozinhar muito bacalhau, sardinha e até conhecer Portugal!
Machadinho abraçou Fernanda, comovido. Afinal, descobrira uma coisa muito importante, para toda a vida: sua terra não era Portugal, ou Brasil, ou outro país qualquer. A pátria de um homem só existe no amor da mulher amada... e era ali, no corpo de Fernanda, que ele construiria seu lar.

Adelaide fazia tricô na sala, e Kiki, a seu lado, ouvia uma velha canção de amor na vitrola.
- Sabe, Adelaide, eu estou pensando em escrever um livro, ou uma peça de teatro, qualquer coisa assim... o que você acha'?
- Eu acho ótimo. Ninguém tem mais aventuras do que você... coisa pra contar é que não falta. Só quero saber se seus filhos vão poder ler tudo!
- Não, Adelaide, eu não quero escrever só sobre a maravilha do teatro de revista, do teatro, da vida de artista. Eu gostaria de deixar um legado pra todos os jovens do mundo. Um conselho, um depoimento do fundo do meu coração. Porque, às vezes, Adelaide, Deus nos dá a felicidade, mas nós não temos a humildade e a coragem de aceitá-la. E deixamos o amor escorrer por nossos dedos, como a areia que nos escapa das mãos... Talvez eu estivesse hoje com Sérgio, aqui ao meu lado, afagando meus cabelos brancos, brincando com meus netos, se ao menos eu tivesse lhe contado que ia ter uma filha sua. Mas eu fui covarde, exatamente como ele. E, por causa dessa mesma covardia, Milena quase comete o mesmo erro, fazendo a própria filha infeliz. Graças a Deus, esse ciclo de medos foi interrompido. Fernanda está feliz com Machadinho, Milena descobriu a felicidade com Fábio, Renata está gostando de Cássio e Paulo vai amadurecer na Europa, ao lado de Gracinha. Eu só penso agora em Regininha. Ela ainda é uma criança, mas precisa começar a aprender os segredos da vida e do tempo. Pois, quando menos se espera, no lugar da boneca de pano temos um filho no colo, cabelos embranquecidos, e um coração amargo...
Depois de refletir um pouco, Kiki concluiu:
- Não, Adelaide, eu preciso dizer a ela que todos nós vivemos numa locomotiva, movida pelo tempo... e só temos direito a uma única viagem. E, se formos pelo caminho errado, jamais chegaremos a lugar algum. O grande segredo do mundo está em saber exatamente o momento de embarcar nessa locomotiva louca chamada amor, que só caminha numa direção e só passa uma vez na vida de cada pessoa...

O AUTOR

Quando ainda era ator e redator de rádio, o paulista CASSIANO GABUS MENDES foi chamado para fazer parte da equipe que montaria a pioneira TV Tupi de São Paulo: "Fui para a Tupi sete meses antes de ela ser inaugurada, justamente por ser um homem familiarizado com o rádio", afirma ele. "Parti para esse veículo novo sem conhecê­lo direito. Meu pai fizera cinema e eu, desde pequeno, vivia vendo filmes. Achei que seria um bom caminho aproveitar um pouco de cinema em meus primeiros programas de TV. Baseei-me então na linguagem cinematográfica."
Em 1950, Cassiano produziu a primeira peça para a televisão: uma adaptação do filme americano A Vida por um Fio. Mas não parou aí: idealizou o TV de Vanguarda, programa que mostrava grandes textos do teatro e da literatura, como Hamlet, de Shakespeare; Crime e Castigo, de Dostoiévski; Casa de Bonecas, de Ibsen etc. Também criou Alô Doçura: histórias bem-humoradas que envolviam um casal, interpretado por John Herbert e Eva Wilma. E as aventuras românticas de Os Galãs Atacam de Madrugada, com Tarcísio Meira, Carlos Zara, Fúlvio Stefanini e Hélio Souto.
Embora em 1972 Cassiano tenha se desligado da Tupi, não deixou, em definitivo, a televisão: enquanto aguardava a aprovação de duas si­nopses que havia mandado para a Globo, fez alguns trabalhos para a TV Record e a Cultura, ambas de São Paulo.
Em 1975, Régis Cardoso deu o "sinal verde" para a sinopse de Anjo Mau e, dessa forma, Cassiano estreava como autor de telenovelas: "Pelo que sei, Anjo Mau bateu o recorde de audiência no último capítulo, e essa é a recompensa que a gente recebe", diz ele. "Mas, confesso, mesmo que a primeira experiência como autor de telenovelas não fosse boa, eu voltaria aos bastidores, contra a vontade, mas voltaria, pois não conseguiria viver fora da TV."
Em 1977, Cassiano repetiu a dose dos altos índices de audiência com Loco Motivas.

Outras novelas de destaque: Te Contei? (1978); Marron Glacé (1979); Plumas e Paetês (1980); Elas por Elas (1982); Champagne (1983).

FICHA TÉCNICA

LOCO MOTIVAS

Autor: Cassiano Gabus Mendes
Diretor: Régis Cardoso

ELENCO

Eva Todor - Kiki Blanche
Araci Balabanian – Milena
Lucélia Santos – Femanda
João Carlos Barroso – Paulo
Walmor Chagas – Fábio
Célia Biar – Sílvia
Elisângela - Patricia
Míriam Pires – Margarida
Denis Carvalho – Netinho
Thaís de Andrade - Renata
Gisela Carneiro – Regina
Carmem Silva – Adelaide
Míriam Fisher – Lia
Heloísa Mafalda – Joana
Rogério Fróes - Dr. Sérgio
Suzy Arruda - Mirtes
Tony Correa - Alberto César Machado
Lídia Iório – Marcelina
Oswaldo Louzada - Chico Rico
Ilka Soares - Celeste
Roberto Pirillo – Cássio
Terezinha Sodré – Lurdinha
Isaac Bardavid - Vitor
Maria Cristina Nunes - Gracinha

quarta-feira, 9 de março de 2011

LOCOMOTIVAS- CAPÍTULO IV - PARTE I



Gracinha nem falava mais com Machadinho, O presente que ele lhe dera teve um efeito contrário.
- Se ele pensa que pode me comprar, está muito enganado!
- Muito bem, Gracinha, assim é que se fala - reforçava Lurdinha.
Enquanto acumulava decepções com Gracinha e Lurdinha, Machado alimentava suas esperanças de se aproximar de Fernanda. Na casa de Vítor e Joana, nada parecia dar certo. A não ser os negócios. Mas ele não era um mercenário. Sabia que dinheiro não era tudo e só queria ganhar o suficiente para viver bem e sem problemas. Para matar a saudade de Portugal que às vezes lhe apertava o peito, ele precisava de uma companhia feminina. Por isso tinha se aproximado de Gracinha, mesmo sem amá-la.
O pior é que o escândalo armado por Lurdinha ainda estava presente na lembrança de todos. Como se tivesse acontecido no dia anterior. Ninguém parecia disposto a esquecer o incidente. Principalmente Gracinha. Quanto mais tentava se explicar e contar a verdade, menos as pessoas acreditavam nele. Só Chico Rico parecia disposto a aceitar sua versão dos acontecimentos. Ele desconfiava de Lurdinha. Mas Machadinho já estava ficando enjoado daquele ambiente e já não encontrava estímulo para permanecer ali, além das horas de trabalho.
Quando Vítor ficou sabendo que ele ia se mudar dentro de alguns dias, ficou seriamente preocupado. E se ele resolvesse ir embora de vez e rompesse a sociedade? O homem era um gênio em matéria de restaurante e poderia ficar rico sozinho montando um outro estabelecimento. O Tia Joana certamente iria direto para o vinagre. "Não tem cabimento uma coisa dessa", concluiu.
- Gracinha! Vem já aqui!
- Que foi, pai?
- Deixe de lado essa besteira de colocar o Machadinho no gelo! A não ser que você queira ver sua família na miséria outra vez!

A chegada de Tião provocou muitas mudanças na vida de Celeste. A começar pelo dinheiro que ele lhe depositou na conta, como presente e perdão pelos dez anos sem notícias. Uma quantia proporcional ao tempo, já que nesse período, mesmo trabalhando todos os dias, Celeste não conseguira ganhar todo aquele dinheiro que o irmão lhe dera. De qualquer forma, aceitou-o de bom grado e decidiu investir parte dele na redecoração do apartamento. Ter tanto dinheiro assim, de repente, era quase um sonho, difícil de acreditar. E, embalada por esse sonho, Celeste deixou-se dominar pela fantasia, e passou a escolher os móveis, o tapete, as cortinas, como se estivesse preparando a casa para receber Netinho, não como hóspede e vizinho, mas na condição de homem e companheiro eterno.
Tomou o cuidado de selecionar os padrões e cores de que Netinho mais gostava. Chegou até a pensar em comprar uma mesa de sinuca, só para ver a reação dele... Acabou desistindo da idéia por não encontrar nenhuma explicação plausível para um presente desses a Netinho, principalmente quando lembrou de Margarida. Imaginava o que a mãe dele diria se ela comprasse uma mesa de sinuca para seu filho, e sentia um certo prazer em pensar num provável desmaio da amiga, daqueles bem fajutos, como os que encenava todas as semanas.
Assim, redecorando a sala, Celeste se contentava em pensar em Netinho e em seu amor secreto e platônico. Difícil mesmo foi escolher os móveis do quarto, e principalmente a cama, sem poder pedir a opinião de quem ela mais gostaria de ter a seu lado...
Do outro lado do corredor, bem em frente ao apartamento de Celeste, a vida de Margarida continuava a mesma, talvez um pouco pior. Netinho já estava noivo de Renata, com todas as honras e bênçãos, mas do noivado a única coisa que conseguia sentir era o incômodo da aliança em seu dedo anular. Atrapalhava-o na hora de tomar banho, de lavar as mãos, com medo de que ela lhe fugisse do dedo e caísse no ralinho da pia. Isso para não falar das várias vezes em que tinha de aturar as eternas chateações dos colegas do banco ao verem aquela pequena coleira de ouro, que o prendia covardemente pelo dedo.
Numa noite, esgotado pelo cansaço do trabalho no banco e das intermináveis contas com números aos milhares e aos milhões, Netinho deixou escapar uma palavra fatal para sua mãe: casamento. A reação não poderia ter sido pior:
- O que foi que você disse, Netinho?
- Eu disse que, bem, que eu estava pensando em me casar com a Renata e...
- Estava pensando ou ainda está, Netinho?
- Bom, eu estava pensando, pelo menos até agora. Ela podia arrumar um emprego e com o salário dos dois já daria pra ajudar nas despesas... daria até para a senhora economizar um dinheirinho do condomínio...
- Netinho, você não está pensando em se casar com a Renata e trazer essa menina aqui pra nossa casa...
- Mas, se eu casar com ela, ela vai ser minha mulher, mãe! A casa vai ser dela também!
Margarida ficou histérica. Não podia nem pensar em outra mulher vivendo sob seu teto, ainda mais casada com seu único filho.
- Eu não quero nem que você repita isso aqui dentro! A menos que você queira matar sua pobre mãe do coração... - e começou a fingir-se de doente.
- Mamãe, eu... eu não entendo! Foi a senhora mesma quem sugeriu que eu ficasse noivo da Renata. Pois bem, eu fiquei. E depois do noivado, pelo que eu sei, não resta mais nada a fazer senão casar... e como não temos casa nem nada, eu pensei que poderíamos morar aqui, nós dois e a senhora.
- Ah! Nós dois e a senhora! Você quer dizer nós dois e ela! Porque, que eu saiba, ela é que está chegando agora, ou será que virei uma intrusa?!
- Não, mamãe, a senhora não me entendeu...
- Você é que não me entendeu, Netinho! Você só vai trazer essa menina pra dentro desta casa quando meu caixão sair por aquela porta!

Por vezes, Fernanda chegava a acreditar que o ditado estava certo, o dinheiro não trazia a felicidade. Mesmo morando num apartamento luxuoso, tendo as roupas da moda, não se sentia feliz. Kiki era maravilhosa, mas não era sua verdadeira mãe. Milena, Renata, Paulo e Regininha também não eram seus irmãos legítimos. Amava um homem que não a levava a sério. Não tinha emprego, compromisso, filhos ou faculdade para lhe ocupar o tempo. Na verdade, não tinha absolutamente nada na vida. Os adultos julgavam-na uma criança mimada e teimosa, e os amigos de sua idade eram infantis demais para seu gosto. O resultado era uma terrível solidão, que doía demais em seu coração de dezoito anos. Fernanda sentou-se na cama e pensou em alguma coisa para fazer. Se pudesse, iria até o escritório de Fábio para saber como andava a busca de sua verdadeira mãe, mas sabia que ele não iria recebê-la com prazer e, hoje, especialmente, ela estava querendo muita atenção e carinho.
A partir desse pensamento, Fernanda encontrou a solução para seu problema. Por que não trabalhar num orfanato e cuidar de crianças abandonadas, como ela mesmo fora um dia? Esta era a opção perfeita. Com as crianças do orfanato, ela teria um emprego, uma oportunidade de repartir carinho e de se sentir útil. Acreditava que as crianças iriam gostar dela. Já tivera essa constatação com Lia, a filha de Fábio, e as amiguinhas da irmã Regina, que sempre lhe cercavam de beijos e abraços, quando ia até o colégio.
Pegou a bolsa, ajeitou os cabelos e foi até um orfanato conhecido no bairro oferecer-se como voluntária para trabalhar. Quem sabe assim ela pudesse melhorar sua vida e até conseguir conquistar o amor de Fábio, mostrando-lhe seu lado mais humano.

Milena estava instruindo um novo grupo de manicures para o instituto, quando Zé Tião apareceu. O salão de beleza inteiro parou para vê-lo. Suas botas enormes e muito bem engraxadas contrastavam com o enorme chapéu de cow­boy, que lhe pendia nas costas. E faziam um péssimo par com a beleza do imenso buquê de rosas vermelhas que ele segurava no colo, com todo o cuidado. Eram para Milena. Foi o que todo o salão logo veio a saber.
Milena recebeu as rosas e ficou ao mesmo tempo emocionada e irritada. A emoção era facilmente explicável: qual a mulher que não se renderia a várias dúzias de rosas vermelhas, principalmente depois de um colar de esmeraldas e diamantes? Contudo, sentia-se irritada com a insistência de Zé Tião. Queria que ele compreendesse que, por mais que tentasse, não conquistaria seu amor, nem com todas as jóias ou flores do mundo. Mas aceitou o buquê com muito bom humor e tratou-o com delicadeza.
- Tião, você não devia ter comprado essas flores pra mim...
- Por quê, peruana? Que eu saiba, um homem sempre dá flores pra mulher que ama... pelo menos no Uruguai ainda é assim.
Milena pediu licença às funcionárias e foi conversar com Tião num lugar onde pudessem estar a sós.
- Tião, eu... nem sei como lhe dizer isso, mas acho que não vou poder aceitar aquele colar.
- Peruana, você não pode fazer isso comigo! Você não sabe o trabalho que eu tive pra escolher o presente ... Pelo menos, você gostou?
- Claro que sim! Qual a mulher que não gostaria de uma jóia como aquela?
- Então, aceite! Você partiria meu coração devolvendo o presente...
Milena pensou um pouco e compreendeu-o.
- Está bem, Tião. Eu aceito. Mas quero deixar claro que somos apenas bons amigos. Eu não gostaria de iludi-lo ou de lhe dar esperanças de algo mais sério entre nós, está bem?
Tião ficou um pouco desapontado, mas respeitou sua posição.
- Como você quiser, peruana. Meu coração está em suas mãos. Só uma pergunta, Milena. Você não me ama porque... está apaixonada pelo irmão da Sílvia, não é?
Então, ele sabia. Certamente Celeste havia contado sobre Fábio.
- Não é bem assim, Tião... Eu também não tenho nada com o Fábio. Eu realmente não estou apaixonada por ninguém.
Tião deixou-a ali, beijando-lhe a mão e saindo um pouco desanimado.

Milena esperava seu lanche, sentada na mesa do restaurante onde fazia suas refeições durante a semana. Pensava em Zé Tião. Sentia pena dele. No fundo, era um menino crescido com um coração de leão. Mas não seria justo usá-lo só para afastar sua solidão e sua saudade de Fábio. No momento, sua maior preocupação era Fernanda, que, por alguma estranha razão, estava ainda mais distante dela, e com aquele pensamento fixo de encontrar a verdadeira mãe. Se ela soubesse que sua verdadeira mãe era uma mulher covarde, que se escondera durante quase vinte anos atrás de uma máscara de irmã...
O garçom trouxe o sanduíche e um refrigerante. E o destino trouxe-lhe Fábio, que calmamente sentou-se em sua mesa e fez um pedido ao garçom.
Milena sorriu.
- Bom dia, Milena. Que coincidência encontrá-la aqui.
- Não adianta, Fábio. Eu não vou acreditar que você está aqui por acaso.
- É verdade. Eu vim aqui pra ver você, e falar sobre nós dois.
- Não há nada pra ser dito sobre nós dois. Sobre você, pode ser. Sobre mim, também. Mas nós dois, Fábio... isso não existe.
- E posso saber se por acaso existe mais alguém em sua vida?
Essa pergunta tocou Milena profundamente. Então, Fábio estava sentindo ciúme... isso era sinal de que ele ainda a amava, apesar de tudo.
- Por que você me pergunta isso, Fábio? Por acaso eu lhe pergunto o que a Carla Lambrini significa pra você?
- Não, mas ela, apesar de milionária, não me manda presentes e jóias que valem milhões de cruzeiros...
Então, era isso! O colar de Tião. Os homens continuavam os mesmos...
- Quem foi que lhe contou sobre o colar? Foi a Sílvia?
- Não. A Fernanda. Ela levou o colar no meu escritório. Pensou que eu tivesse mandado pra você e foi lá devolvê-lo, morrendo de ciúme. E acabou levando uma bronca. Saiu de lá morrendo de vergonha pelo vexame...
- Mas que menina atrevida! Abriu o pacote antes de mim!
Fábio aproveitou a deixa para falar sobre o assunto principal do dia.
- E... com jeitinho a sua irmã vai passando na sua frente em tudo...
Ela sentiu uma dose de ironia e cinismo nas palavras dele.
- Seja mais claro, Fábio. Eu não gosto de meias palavras.
- Ótimo. E eu não gosto de meios amores e meias mulheres. Eu quero que você pare com esse absurdo de fingir que não me ama, só pra me empurrar pra cima da sua querida irmãzinha. Eu nunca vi uma coisa tão doentia e alucinada. Não posso acreditar que você seja tão masoquista assim, a ponto de desejar sofrer me vendo ao lado de Fernanda. A menos que você esteja fazendo isso pra que ela sofra também...
- Imagine, Fábio! Eu adoro minha irmã. Só faço isso porque tenho certeza de que ela pode fazer você feliz... Ela o ama de verdade.
- Uma verdade que não vai durar um ano. Ela mal sabe o que é a vida. Acabou de sair das fraldas, Milena. Não tem a mínima maturidade pra saber o que é o amor. E uma pirralha de dezoito anos, quase uma adolescente.
Milena lembrou de seus dezoito anos... Com essa idade, Fernanda já tinha dois anos, e ela não se sentia mais uma criança. No lugar da boneca, carregava a filha no colo e se despedia para sempre de sua juventude.
- As mulheres amadurecem muito rapidamente, Fábio. Daqui a pouco tempo ela vai ser uma mulher madura, e muito bonita.
- Madura, bonita e infeliz. A sorte dela é que vocês não são irmãs de verdade, senão ela ainda correria o risco de ficar louca como você.
- Você sabe que eu não sou louca, Fábio. Sou é sensata demais.
O garçom trouxe o lanche de Fábio. Milena ainda nem tocara no seu.
- Milena, eu estou começando a ficar cansado de perseguir você, de tentar reconquistá-la. Vou entregar o meu destino e o de sua irmã nas suas mãos. Eu vou lhe dar um prazo. Um mês. Se dentro de um mês você não voltar atrás nessa sua decisão, eu me caso com Fernanda, mesmo sem sentir nada por ela. E todo esse seu sacrifício só vai servir pra fazer de mim, de você e dela três seres humanos totalmente infelizes. Um mês. E nem mais um dia.
- Está certo. Vou torcer pra que num mês você se apaixone por Fernanda.

Durante o dia, o Tia Joana ficava fechado. Lá dentro, Vítor e Machado faziam cálculos e mais cálculos, chegando a ótimos resultados: o Tia Joana já tinha rendido o suficiente para pagar todas as despesas do investimento e começava a dar um excelente lucro. Na cozinha, Joana e Marcelina executavam com exatidão todas as ordens de Machadinho, seguindo suas receitas portuguesas à risca. As duas estavam temperando sardinhas, quando Machadinho chegou.
- Dona Joana, eu não vou almoçar aqui hoje, mas pode guardar o meu prato pro jantar!
- Você vai almoçar fora com a Gracinha? - perguntou a mãe, interessada.
- Não, dona Joana. Eu vou almoçar com uma amiga.
Joana era o tipo de mãe que sabia tudo o que se passava com a filha, as amigas e especialmente os namorados.
- Amiga? É aquela moça do instituto, filha da Kiki Blanche?
- Exatamente, dona Joana. A Fernanda. - e aproveitou para dar um recado a Gracinha, por meio da mãe. - É sempre bom sair com uma moça que nos trata bem, nos dá atenção e nos deposita confiança. Muito bom dia, até mais tarde.
Marcelina olhou para a filha, percebendo seus pensamentos:
- Bem feito pra Gracinha! Fica aí dando ouvidos pra essa Lurdinha, acreditando que ele não presta, tratando mal o rapaz, é nisso que dá...
- Tem razão, mamãe. Se a Gracinha não parar com esse jeito de tratar mal o Machadinho, ele vai acabar desistindo dela...

- Até amanhã, crianças! Comportem-se bem que cedinho a tia Fernanda está de volta! Beijos, beijos, e mais beijos, e até amanhã!
Machadinho sorria enternecido vendo todas aquelas crianças abraçando-se às pernas de Fernanda, com medo de perder seu carinho e sua alegria até o dia seguinte. Esperou até que ela saísse, e caminhou em sua direção.
- Oi, Machadinho, que surpresa!
- Eu vim convidá-la para almoçar. Você aceita?
- Bem... não é exatamente um convite. Parece mais uma intimação! Mas eu gosto de gente assim, impulsiva, que só obedece a seus objetivos.
- Isso é um elogio?       .
- Talvez. Mas não vá ficar muito convencido, viu, Machadinho...
Num clima de muita amizade e felicidade, eles passeavam pela calçada de mãos dadas, conversando e rindo muito. Faziam um par perfeito. Ela encontrava nele um amigo que lhe dava atenção, carinho, mas sem se submeter a seus caprichos, como todos os seus namorados faziam. Fernanda gostava de encontrar uma alma gêmea, tão impulsiva quanto a dela, capaz de agir só por seus impulsos e sentimentos. Machadinho era um rapaz autêntico. E apaixonado pela graça e beleza de Fernanda, que a cada dia parecia, ao mesmo tempo, mais menina e muito mais mulher.
Machadinho parou em frente à praia, tomou as mãos de Fernanda nas suas, e confessou:
- Antes de vir aqui, eu estava sentindo um aperto de saudade no coração... Saudade da minha terra, dos amigos que deixei pra trás. Mas quando vi você saindo do orfanato, Fernanda, descobri que aquele aperto era de saudade, sim. Mas não de Portugal. Era saudade de você...
- A frase é muito bonita, Machadinho, mas não vai ser assim tão fácil. Você sabe que eu estou apaixonada por um outro homem...
- Um homem que ama sua irmã, certo? E que não lhe dá a menor atenção.
Fernanda baixou a cabeça. Ele tinha razão.
- Olhe, Fernanda, eu não estou lhe pedindo nada. Só quero poder estar a seu lado, sempre que possível. Gosto de você. E gostaria que você soubesse que é a pessoa mais cara que conheci desde que cheguei ao Brasil.
- Ah, é? E a Gracinha? Ela não é sua namorada?
- Era, Fernanda. Mas é muito infantil. Desculpe se eu ofendo sua amiga...
- Ela não é minha amiga! Ela é minha funcionária, ora essa!
E saíram rindo dali, de mãos dadas. E qualquer pessoa que os visse os julgaria como dois apaixonados...