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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - POEMA DO MAR - JORGE BARBOSA

O texto abaixo é de autoria do poeta cabo-verdiano Jorge Barbosa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Barbosa.
Boa leitura!

POEMA DO MAR

O drama do Mar,
O desassossego domar,
                   sempre
                   sempre
                   dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossa Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
Roncando nas areias das nossas praias,
Batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão Poe estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficaram
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!
 
O Mar!
Saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,
Histórias da baleia que uma vez virou canoa...
de bebedeiras, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

Este convite de toda a hora
que o Mar nos faz para a evasão!
Este desespero de querer partir
         e ter que ficar!

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/cabo_verde/jorge_barbosa.html

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - TRABALHADORES DE ESTIVA - JOÃO DO RIO

O texto abaixo é de autoria de João do Rio.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/jo_o_do_rio/.
Boa leitura!

TRABALHADORES DE ESTIVA

Às cinco da manhã ouvia-se um grito de máquina rasgando o ar. Já o cais, na claridade pálida da madrugada, regurgitava num vai e vem de carregadores, catraieiros, homens de bote e vagabundos maldormidos à beira dos quiosques. Abriam-se devagar os botequins ainda com os bicos de gás acesos; no interior os caixeiros, preguiçosos, erguiam os braços com bocejos largos. Das ruas que vazavam na calçada rebentada do cais, afluía gente, sem cessar, gente que surgia do nevoeiro, com as mãos nos bolsos, tremendo, gente que se metia pelas bodegas e parava à beira do quiosque numa grande
azáfama. Para o cais da alfândega, ao lado, um grupo de ociosos olhava através das frinchas de um tapume, rindo a perder; um carregador, encostado aos umbrais de uma porta, lia, de óculos, o jornal, e todos gritavam, falavam, riam, agitavam-se na frialdade daquele acordar, enquanto dos botes policrômicos homens de camisa de meia ofereciam, aos berros, um passeiozinho pela baía. Na curva do horizonte o sol de maio punha manchas sangrentas e a luz da manhã abria, como desabrocha um lírio, no céu pálido.
Eu resolvera passar o dia com os trabalhadores da estiva e, naquela confusão, via-os vir chegando a balançar o corpo, com a comida debaixo do braço, muito modestos. Em pouco, a beira do cais ficou coalhada. Durante a última greve, um delegado de polícia dissera-me:
— São criaturas ferozes! Nem a tiro...
Eu via, porém, essas fisionomias resignadas à luz do sol e elas me impressionavam de maneira bem diversa. Homens de excessivo desenvolvimento muscular, eram todos pálidos — de um pálido embaciado como se lhes tivessem pregado à epiderme um papel amarelo, e assim, encolhidos, com as mãos nos bolsos, pareciam um baixo-relevo de desilusão, uma frisa de angústia.
Acerquei-me do primeiro, estendi-lhe a mão:
— Posso ir com vocês, para ver?
Ele estendeu também a mão, mão degenerada pelo trabalho, com as falanges recurvas e a palma calosa e partida.
— Por que não? Vai ver apenas o trabalho — fez com amarga voz.
E quedou-se, outra vez, fumando.
— É agora a partida?
— É.
Entre os botes, dois saveiros enormes, rebocados por uma lancha, esperavam. Metade dos trabalhadores, aos pulos, bruscamente, saltou para os fardos. Saltei também.
Acostumados, indiferentes à travessia, eles sentaram-se calados, a fumar. Um vento frio cortava a baía. Todo um mundo de embarcações movia-se, coalhava o mar, riscava a superfície das ondas; lanchas oficiais em disparada, com a bandeira ao vento; botes, chatas, saveiros, rebocadores. Passamos perto de uma chata parada e inteiramente coberta de oleados. Um homem, no alto, estirou o braço, saudando.
— Quem é aquele?
— É o José. É chateiro-vigia. Passou todo o dia ali para guardar a mercadoria dos patrões. Os ladrões são muitos. Então, fica um responsável por tudo, toda a noite, sem dormir, e ganha seis mil réis. Às vezes, os ladrões atacam os vigias acordados e o homem, só, tem que se defender a revólver.
Civilizado, tive este comentário frio:
— Deve estar com sono, o José.
— Qual! Esse é dos que dobra dias e dias. Com mulher e oito filhos precisa trabalhar. Ah! Meu senhor, há homens, por este mar afora, cujos filhos de seis meses ainda os não conhecem. Saem de madrugada de casa. O José está à espera de que a alfândega tire o termo da carga, que não é estrangeira...
Outras chatas perdiam-se paradas na claridade do sol. Nós passávamos entre as lanchas.
Ao longe, bandos de gaivotas riscavam o azul do céu e o cais dos Mineiros já se perdia distante da névoa vaga. Mas nós avistávamos um outro cais com um armazém ao fundo.
À beira desse cais, saveiros enormes esperavam mercadorias; e, em cima, formando um círculo ininterrupto, homens de braços nus saíam a correr de dentro da casa, atiravam o saco no saveiro, davam a volta à disparada, tornavam a sair a galope com outro saco, sem cessar, contínuos como a correia de uma grande máquina. Eram sessenta, oitenta, cem, talvez duzentos. Não os podia contar. A cara escorrendo suor. Os pobres surgiam do armazém como flechas, como flechas voltavam. Um clamor subia aos céus apregoando o serviço:
— Um, dois, três, vinte e sete; cinco, vinte, dez, trinta!
E a ronda continuava diabólica.
— Aquela gente não cansa?
— Qual! Trabalham assim horas a fio. Cada saco daqueles tem sessenta quilos e para transportá-lo ao saveiro pagam sessenta réis. Alguns pagam menos: dão só trinta réis, mas, assim mesmo, há quem tire dezesseis mil réis por dia.
O trabalho da estiva é complexo, variado; há a estiva da aguardente, do bacalhau, dos cereais, do algodão; cada uma tem os seus servidores, e homens há que só servem a certas e determinadas estivas, sendo por isso apontados.
— É muito — fiz.
— Passam dias, porém, sem ter trabalho e imagine quantas corridas são necessárias para ganhar a quantia fabulosa...
A lancha fizera-se ao largo. Caminhávamos para o poço onde o navio que devia sair naquela noite fundeava, todo de branco. Era o começo do dia. A bordo ficou um terno de homens, e eu com eles. O terno divide-se assim: um no guincho, quatro na embarcação, oito no porão e quatro no convés. Isso quando a carga é seca. Carregava café o vapor.
Logo que o saveiro atracou, eles treparam pelas escadas, rápidos; oito homens desapareceram na fauce aberta do porão, despiram-se, enquanto os outros rodeavam o guincho e as correntes de ferro começavam a ir e vir do porão para o saveiro, do saveiro para o porão, carregadas de sacas de café. Era regular, matemático, a oscilação de um lento e formidável relógio.
Aqueles seres ligavam-se aos guinchos; eram parte da máquina; agiam inconscientemente. Quinze minutos depois de iniciado o trabalho, suavam arrancando as camisas. Só os negros trabalhavam de tamancos. E não falavam, não tinham palavras inúteis. Quando a ruma estava feita, erguiam a cabeça e esperavam a nova carga. Que fazer? Aquilo tinha que ser até às cinco da tarde!
Desci ao porão. Uma atmosfera de caldeira sufocava. Era as correntes caírem do braço de ferro um dos oito homens precipitava-se, alargava-as, os outros puxavam os sacos.
— Eh! Lá!
De novo havia um rolar de ferros no convés, as correntes subiam enquanto eles arrastavam os sacos. Do alto a claridade caía fazendo uma bolha de luz, que se apagava nas trevas dos cantos. E a gente, olhando para cima, via encostados cavalheiros de pijama e bonezinho, com ar de quem descansa do banho a apreciar a faina alheia. Às vezes, as correntes ficavam um pouco alto. Eles agarravam-se às paredes de ferro com os passos vacilantes entre os sacos e, estendendo o tronco nu e suarento, as suas mãos preênseis puxavam a carga em esforços titânicos.
— Eh! Lá!
Na embarcação, fora, os mesmos movimentos, o mesmo gasto de forças e de tal forma regular que em pouco eram movimentos correspondentes, regulados pela trepidação do guincho, os esforços dos que se esfalfavam no porão e dos que se queimavam ao sol.
Até horas tardes da manhã trabalharam assim, indiferentes aos botes, às lanchas, à animação especial do navio. Quando chegou a vez da comida, não se reuniram. Os do porão ficaram por lá mesmo, com a respiração entrecortada, resfolegando, engolindo o pão, sem vontade.
Decerto pela minha face eles compreenderam que eu os deplorava. Vagamente, o primeiro falou; outro disse-me qualquer coisa e eu ouvi as ideias daqueles corpos que o trabalho rebenta. A principal preocupação desses entes são as firmas dos estivadores. Eles as têm de cor, citam de seguida, sem errar uma: Carlos Wallace, Melo e François, Bernardino Correia Albino, Empresa Estivadora, Picasso e C., Romão Conde e C., Wilson, Sons, José Viegas Vaz, Lloyd Brasileiro, Capton Jones. Em cada uma dessas casas o terno varia de número e até de vencimentos, como por exemplo o Lloyd, que paga sempre menos que qualquer outra empresa.
Os homens com quem falava têm uma força de vontade incrível. Fizeram com o próprio esforço uma classe, impuseram-na. Há doze anos não havia malandro que, pegado na Gamboa, não se desse logo como trabalhador de estiva. Nesse tempo não havia a associação, não havia o sentimento de classe e os pobres estrangeiros pegados na Marítima trabalhavam por três mil réis dez horas de sol a sol. Os operários reuniram-se. Depois da revolta, começou a se fazer sentir o elemento brasileiro e, desde então, foi uma longa e pertinaz conquista. Um homem preso, que se diga da estiva, é, horas depois, confrontado com um sócio da União, tem que apresentar o seu recibo de mês. Hoje, estão todos ligados, exercendo uma mútua polícia para a moralização da classe. A União dos Operários Estivadores consegue, com uns estatutos que a defendem habilmente, o seu nobre fim. Os defeitos da raça, as disputas, as rusgas são consideradas penas; a extinção dos tais pequenos roubos, que antigamente eram comuns, merece um cuidado extremado da União, e todos os sócios, tendo como diretores Bento José Machado, Antônio da Cruz, Santos Valença, Mateus do Nascimento, Jerônimo Duval, Miguel Rosso e Ricardo Silva, esforçam-se, estudam, sacrificam-se pelo bem geral.
Que querem eles? Apenas ser considerados homens dignificados pelo esforço e a diminuição das horas de trabalho, para descansar e para viver. Um deles, magro, de barba inculta, partindo um pão empapado de suor que lhe gotejava da fronte, falou-me, num grito de franqueza:
— O problema social não tem razão de ser aqui? Os senhores não sabem que este país é rico, mas que se morre de fome? É mais fácil estoirar um trabalhador que um larápio? O capital está nas mãos de um grupo restrito e há gente demais absolutamente sem trabalho. Não acredite que nos baste o discurso de alguns senhores que querem ser deputados. Vemos claro e, desde que se começa a ver claro, o problema surge complexo e terrível. A greve, o senhor acha que não fizemos bem na greve? Eram nove horas de trabalho. De toda a parte do mundo os embarcadiços diziam que o trabalho da estiva era só de sete!
Fizemos mal? Pois ainda não temos o que desejamos. A máquina, no convés, recomeçara a trabalhar.
— Os patrões não querem saber se ficamos inúteis pelo excesso de serviço. Olhe, vá à Marítima, ao Mercado. Encontrará muitos dos nossos arrebentados, esmolando, apanhando os restos de comida. Quando se aproximam das casas às quais deram toda a vida correm-nos!
Que foi fazer lá? Trabalhou? Pagaram-no; rua! Toda a fraternidade universal se cifra neste horror!
Do alto caíram cinco sacas de café mal presas à corrente. Ele sorriu, amargurado, precipitou-se, e, de novo, ouviu-se o pavor do guincho sacudindo as correntes donde pendiam dezoito homens estrompados. Até a tarde, encostado aos sacos, eu vi encher a vastidão do porão bafos e escuro. Eles não pararam. Quando deu cinco horas um de barba negra tocou-me no braço:
— Por que não se vai?Estão tocando a sineta. Nós ficamos para o serão à noite.... Trabalhar até a meia-noite.
Subi. Os ferros retiniam sempre a música sinistra. Encostados à amurada, damas roçagando sedas e cavalheiros estrangeiros de smoking debochavam, em inglês, as belezas da nossa baía; no bar, literalmente cheio, ao estoirar do champagne, um moço vermelho de álcool e de calor levantava um copo dizendo:
— Saudemos o nosso caro amigo que Paris receberá...
Em derredor do paquete, lanchas, malas, cargas, imprecações, gente querendo empurrar as bagagens, carregadores, assobios, um brouhaha formidável.
Um cavalheiro cheio de brilhantes, no portaló, perguntou-me se eu não vira a Lola. Desci, meti-me num bote, fiz dar a volta para ver mais uma vez aquela morte lenta entre os pesos. A tarde caíra completamente. Ritmados pelo arrastar das correntes, os quatro homens, dirigidos do convés do steamer, carregavam, tiravam sempre de dentro do saveiro mais sacas, sempre sacas, com as mãos disformes, as unhas roxas, suando, arrebentando de fadiga.
Um deles, porém, rapaz, quando o meu bote passava por perto do saveiro, curvou-se, com a fisionomia angustiada, golfando sangue. — Oh! Diabo! — Fez o outro, voltando-se.
— Oh! Diabo! — Fez o outro, voltando-se. — O José que não pode mais.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15654/os-trabalhadores-de-estiva.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - O SARGENTO VERDE - MONTEIRO LOBATO

O texto abaixo é de autoria de Monteiro Lobato.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/.
Boa leitura!

O SARGENTO VERDE

Era uma vez um homem muito rico, que tinha uma filha, linda, linda. Um dia apareceu um moço, também muito lindo, que quis casar com ela. Foi combinado o casamento, mas Nossa Senhora, que era madrinha de batismo da moça, apareceu-lhe num sonho e disse:
– Minha filha, toma cuidado, porque vais casar com o “cão”. Depois do casamento teu marido há de querer levar-te para a casa dele, e o que tens de fazer é o seguinte: irás montada no cavalo mais magro que houver; quando chegares a um ponto do caminho, onde há uma encruzilhada, teu marido quererá tomar pela esquerda; tu tomaras pela direita e nesse momento lhe mostrarás um rosário. Ele então estoura e vai para o inferno.
Afinal chegou o dia do casamento e houve grandes festas, mas desde a noite do sonho a moça andava numa grande tristeza. As palavras de Nossa Senhora não lhe saíam da imaginação.
Na hora da partida trouxeram-lhe um lindo cavalo. Ela recordou-se do sonho e não quis montar nele; pediu outro — o mais magro e feio que houvesse. O pai estranhou aquela esquisitice, mas a moça tanto insistiu que ele teve de ceder — e lá se foi ela no cavalo mais magro e feio que havia.
Quando chegaram à encruzilhada, o “cão” quis que a moça tomasse pelo lado esquerdo, dizendo ser esse o caminho que levava à sua casa.
— Vá o senhor na frente — respondeu a moça — eu sigo atrás. — E assim que ele enveredou pela esquerda, ela tomou pela direita e sacudiu no ar o rosário.
Mal fez isso, ouviu-se um estouro e o ar se encheu de fedor de enxofre. É que o “‘cão” havia rebentado e ido para o inferno.
A moça continuou a galope por aquele caminho da direita, até que bem lá adiante teve a ideia de mudar de figura. Apeou, cortou os cabelos e vestiu-se de homem — uma roupa verde. E, verdinha assim, chegou a um reino onde se ofereceu para entrar no exército do rei como sargento.
O rei gostou muito daquele sargento, a ponto de convidá-lo a passear com ele pelos jardins do palácio. É tantos passeios houve que a rainha ficou apaixonada pelo sargento e lhe declarou o seu amor. Mas o sargento respondeu: “Senhora, eu jamais trairei meu rei.”
A rainha, furiosa da vida, levantou um falso contra ele, dizendo ao marido o seguinte:
– Saiba Vossa Majestade que o Sargento Verde anda se gabando de que é capaz de subir a cavalo as escadarias do palácio, jogando para o ar três laranjas e aparando-as no mesmo copo.
Admirado daquilo, o rei mandou chamar o Sargento Verde e contou- lhe o caso. O Sargento Verde respondeu:
– Saiba Vossa Majestade que eu não disse isso; mas como a rainha minha senhora afirma que eu disse, estou pronto para subir a cavalo as escadarias e jogar as três laranjas.
Disse aquilo por dizer e, muito triste da vida, foi conversar com o seu cavalo magro, ao qual contou tudo. O cavalo aconselhou-a a que não se amofinasse e que no dia marcado tudo fizesse como a rainha queria.
No dia marcado o Sargento Verde se apresentou para a grande prova, e de fato subiu e desceu várias vezes as escadarias, montado em seu cavalo magro; e lançou para o ar as três laranjas, que aparou direitinho no copo, sem errar uma só.
Teve os maiores aplausos de todos, menos da rainha, que mordeu os lábios de ódio.
Dias depois, num dos seus passeios pelos jardins do palácio, a rainha achou jeito de novamente lhe declarar amor — e pela segunda vez o sargento respondeu que jamais trairia o seu bom rei. A rainha, então, mais danada ainda, inventou que o Sargento Verde andava dizendo que era capaz de plantar uma bananeira à hora do almoço e ter bananas maduras à hora do jantar.
O rei mandou chamar o Sargento Verde e indagou dele se era verdade aquilo. O sargento respondeu que nada havia dito, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para plantar a bananeira.
Disse isso e foi, muito triste, conversar com o cavalo magro, o qual lhe falou que plantasse a bananeira e deixasse o resto por sua conta.
No outro dia, lá pela hora do almoço, o Sargento Verde foi e plantou uma muda de bananeira no pátio do palácio, e a planta começou logo a crescer e a deitar cacho, de modo que quando o jantar foi posto na mesa já havia bananas maduras.
Todos abriram a boca de admiração, mas a rainha mordeu os lábios até verter sangue. Apesar disso, tentou mais uma vez o Sargento Verde, declarando-se apaixonada por ele, e o sargento pela terceira vez respondeu que jamais enganaria o seu bom rei. A malvada rainha então foi dizer ao marido que o Sargento Verde andava se gabando de ser capaz de passear a cavalo sobre ovos, sem quebrar um só.
O rei mandou chamá-lo e perguntou se era verdade. O Sargento Verde respondeu que não era, mas como não queria desmentir a rainha, estava pronto para andar a cavalo em cima dos ovos. E andou. Passeou montado no cavalo magro por cima de dúzias de ovos sem quebrar um só.
A rainha inventou contra ele uma quarta perversidade, e foi que ele andava dizendo ser capaz de ir ao fundo do oceano em busca da irmã do rei, que fora aprisionada por um monstro.
O rei chamou o Sargento Verde e indagou se era verdade. Ele disse que não, mas que estava pronto para ir ao fundo do mar em busca da princesa encarcerada. Disse isso e foi conversar com o cavalo magro, ao qual contou tudo.
– Não se amofine — murmurou o cavalo — arranje uma garrafa de azeite, um saquinho de sal e um papel de alfinetes; depois monte em mim e vá para a praia; lá puxe a espada e corte o mar em cruz: as águas se abrirão; entre pela abertura e vá até onde estiver a moça; agarre-a e ponha- a na garupa e toque para trás. Mas muito cuidado com o monstro que guarda a princesa; ele vai persegui-la, e o meio de evitar isso é derramar o saquinho de sal e depois soltar os alfinetes. Durante a corrida a moça pronunciará três palavras. Tome muito sentido nessas palavras.
O Sargento Verde prestou a maior atenção a tudo; arranjou o azeite, o sal, os alfinetes e partiu para a praia do mar. Lá puxou a espada e cortou as águas em cruz. Imediatamente as águas se abriram e ele entrou, e foi até onde estava a princesa encarcerada. Agarrou-a, botou-a à garupa e voltou correndo para a praia. Assim que saiu do mar, a moça disse: “Já!” Ele tomou nota da palavra e viu que o monstro vinha correndo atrás deles.
Lembrando-se da recomendação do cavalo, derramou o saquinho de sal. Imediatamente formou-se uma cerração que atrapalhou o monstro a ponto de fazê-lo parar, sem saber para onde dirigir-se. Enquanto isso, o moço continuava no galope, com a moça à garupa. Logo adiante ela murmurou “Bela!” O Sargento Verde tomou nota da palavra e viu que o monstro havia rompido o nevoeiro e vinha vindo na disparada. Então soltou no ar os alfinetes. Imediatamente se formou uma cerradíssima floresta de espinheiros, que o monstro não pôde atravessar.
Logo depois a princesa, avistando o palácio, murmurou “Tudo!” — e o Sargento Verde tomou nota. Chegaram, houve grandes festas e a rainha ficou ainda mais apaixonada pelo Sargento Verde.
Mas a princesa trazida do fundo do mar não falava. Além das três palavras ditas durante a viagem não pronunciou nem mais uma só. Todos se convenceram de que era muda — e a rainha se aproveitou do fato para lançar outra falsidade contra o Sargento Verde. “Ele anda dizendo — cochichou ao ouvido do rei — que é capaz de fazer a princesa muda falar.”
O rei indagou do Sargento Verde se era verdade e ele respondeu como das outras vezes; depois foi perguntar ao cavalo o que devia fazer.
– Não tenha medo de nada — respondeu o cavalo. — Na hora do almoço, dê com uma corda na princesa até que ela conte qual foi a primeira palavra que pronunciou logo ao sair do mar; e na hora do jantar dê-lhe outra sova até que ela conte qual foi a segunda palavra; e na hora da ceia, outra sova até que diga a terceira palavra. Faça isso que a princesa ficará falando.
O Sargento Verde assim fez. Na hora do almoço passou mão numa corda e gritou: “Conte, moça, qual foi a palavra que me disse logo que saímos do mar!” E como ela se conservasse de boca fechada, êle, lepte! lepte! e tanto deu que ela falou: “Já!” “E que quer dizer isso?” Com mais algumas lambadas a moça respondeu que queria dizer: “Já estou livre de muitos trabalhos.”
No jantar repetiu-se a cena, e tantas lambadas levou a princesa que repetiu a segunda palavra, “Bela!” e explicou que aquilo queria dizer: “Somos duas donzelas, eu e o Sargento Verde, cujo verdadeiro nome é Lucinda.”
Na ceia, a corda fez que a moça repetisse a terceira palavra, “Tudo!” isto é, que se Lucinda fosse homem há muito tempo que a rainha já teria fugido com ele.
Esses acontecimentos assombraram menos ao rei e à corte do que verem Lucinda aparecer vestida de mulher, com o seu cavalo magro virado num lindo príncipe, que logo se casou com a princesa trazida do fundo do mar. O rei não perdoou a traição da rainha. Mandou que a soltassem pelos campos amarrada a dois burros bravos, e casou-se com a boa Lucinda, no meio de grandes festas. E acabou-se a história.
Emília ficou a olhar a cara de Narizinho.
– Esta história — disse ela — ainda está mais boba que a outra. Tudo sem pé, nem cabeça. Sabe o que me parece? Parece uma história que era dum jeito e foi se alterando de um contador para outro, cada vez mais atrapalhada, isto é, foi perdendo pelo caminho o pé e a cabeça.
– Você tem razão, Emília — disse dona Benta. — As histórias que andam na boca do povo não são como as escritas. As histórias escritas conservam-se sempre as mesmas, porque a escrita fixa a maneira pela qual o autor a compôs. Mas as histórias que correm na boca do povo vão se adulterando com o tempo. Cada pessoa que conta muda uma coisa ou outra, e por fim elas ficam muito diferentes do que eram no começo.
– Quem conta um conto aumenta um ponto — lembrou Pedrinho.
– Sim, aumenta um ponto e introduz qualquer modificação. Ninguém que ouça uma história é capaz de contá-la para diante sem alteração de alguma coisa, de modo que no fim a história aparece horrivelmente modificada. Todas as histórias do folclore são assim. Há sábios que pegam nessas histórias e as estudam, e vão indo até encontrarem o seu ponto de. partida. E mostram as mudanças que o povo fez.
– Mudanças que as deixam sem pé nem cabeça — insistiu Emília. — Essa do Sargento Verde, por exemplo. É tão idiota que um sábio que quiser estudá-la acabará também idiota. Eu, francamente, passo essas tais histórias populares. Gosto mas é das de Andersen, das do autor do Peter Pan e das do tal Carroll, que escreveu Alice no Pais das Maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-sargento-verde-monteiro-lobato/.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

SESSÃO LEITURA - CONTRARIEDADES - CESÁRIO VERDE

A poesia abaixo é de autoria de Cesário Verde.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ces%C3%A1rio_Verde.
Boa leitura!

CONTRARIEDADES

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

Fonte: https://www.culturagenial.com/poemas-imperdiveis-literatura-portuguesa/

quinta-feira, 30 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - CANTOR E CANTAR - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

CANTOR E CANTAR

Os cantores são uma gente boa. Admiro o homem e a mulher que se ocupam de seu tempo aqui na terra erguendo a voz no prazer simples ‒ não é tão simples assim ‒ e puramente físico ‒ nem tão físico ‒ de cantar.
Repare nos olhos do cantor, certas linhas em torno da boca: têm uma profundidade que os outros não têm. Gostaria de conhecer melhor os cantores como pessoas. Conheço, um pouco, Agostinho dos Santos. E não me canso de me espantar. O Agostinho parece que está sempre no sábado chegando em festa. Essa festa o Agostinho leva com ele e faz questão, tenho a certeza, de que todos seus amigos estejam convidados. Um contrabaixo invisível deve seguir o Agostinho pelas ruas marcando o compasso, ali adiante está a bateria e ele tem sempre os gestos de quem leva um violão. Agostinho é um trio, um quarteto, um octeto ‒ vá lá: uma orquestra ‒ em plena função 24 horas por dia. Os sonhos do Agostinho têm cordas, percussão e vêm em 3/4 e 6/8 dependendo do dia (mas isso já está parecendo contracapa de LP, mudemos, pois, de cantor e de parágrafo. Aquele amplexo, major).
*
Cantor, em geral, não entende muito da gente, nem faz por entender: faz muito bem, tem toda razão. Há os que fazem música e os que não fazem música. Pertencemos a última categoria? Perfeito, então calemos e escutemos. Cantor tem mais a dizer que a gente. E mais a fazer também, principalmente agora que descobriram que têm braços. Os braços, já dissemos uma vez, foram introduzidos na moderna música popular brasileira pelo ítalo-americano Lennie Dale. Lennie chegou ao Brasil em 1963. Não veio de avião: veio a braçadas. Hoje estão todos de frente para o microfone, nadando nos mais variados estilos: crawl paulistano, butterfly do Beco, etc. Eu sou antiquado: prefiro cantor com voz. Em nado livre mímico-vocal aceito os estilos de Elis Regina e Jair Rodrigues. Wilson Simonal não vale, é norte-americano, conforme descobriu o pesquisador aí de cima, o Mr. Eco. E além do mais, ainda não se naturalizou.
*
E Billie Holiday? Daí eu falo em Billie Holiday e não há mais conversa em matéria de cantor e cantora. E Billie Holiday? Boa pergunta. Uma voz que é uma escada tentando se galgar a si mesma, li em algum lugar, ou escrevi noutro. Billie Holiday: polpa e cerne; carne e fruto; nervo e sangue; aquele longo fio negro; numa ponta gardênia; na outra seringa de injeção.
*
A diferença entre palavra escrita e palavra cantada é esta: há mais gente envolta na tarefa de escrever; cantar é feito a sós, por um só, em geral de pé.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12753/cantor-e-cantar.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - O MIANTONOMAH - EÇA DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Eça de Queiroz.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/eca_queiroz/.
Boa leitura!

O MIANTONOMAH

Há duzentos anos uns poucos de calvinistas exilados fretaram um barco na Holanda úmida e úbere, e sob o equinócio e os grandes ventos, miseráveis, austeros, levando uma Bíblia, partiram para as bandas da América.
Duzentos anos depois, estes homens que tinham ido solitários, num barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra épica pelo mediterrâneo, pelo Pacífico, pelo mar das Índias, pelo Atlântico, pelos mares do Norte.
Aquela colônia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados, rotos, que dormiam às umidades do ar numa capa esfarrapada, é hoje a América do Norte os Estados Unidos.
América do Norte significa trabalho, fé, heroísmo, indústria, capital, força e matéria.
Ultimamente via eu o Miantonomah, sinistro e negro caçador de esquadras: é toda a imagem da América frio, sereno, contente, material, e cheio de fogos, de estrondos, de maquinismos, de forças e de fulminações.
É o que amedronta naquele navio a frieza na força.
Ele representa a consciência soberba da força e da indústria e os grandes orgulhos do cálculo: despreza as iras e as hostilidades dos elementos: ele tem de atravessar o Pacífico, o oceano Índico, o Mediterrâneo, os grandes desvairamentos da água, os ventos imensos, os equinócios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente aparecidos, os nevoeiros infames, os magnetismos, as eletricidades, toda a vil populaça das tempestades: então todos os navios se preparam cordagens, velames, mastreações, complicações e resistências de forças, toda a combinação astuciosa de lonas e calabres que transforma as hostilidades em auxílios; ele, o Miantonomah, contenta-se com uma tábua rasa.
Em tempo de luta precaveem-se os almirantes e os cabos de guerra: um formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o arsenal reluzente das abordagens; a ele basta-lhe uma muralha de ferro.
O vento é temido: nas vastas solidões azuis ele é o lobo sinistro que anda rondando e uivando, à caça dos navios: ele acalenta o mar, massa inerte e salgada; ele faz com a água estranhas núpcias ferozes; extermina, cantando com alegrias bárbaras; esfarrapa as nuvens, persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente: em alguns mares do Norte, quando ele sopra as estrelas têm maior tremor: mas o grande horror do vento é que ataca com o peso, com a violência, com a força, com a compressão combinada e defende-se com o esvaecimento.
O Miantonomah é assim: ataca serenamente, com violências enormes, com fulminações trágicas, e defende-se com a impassibilidade e quase com o esvaecimento.
Na luta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas flamejantes, entre semelhanças abrasadas, os terríveis pendões do fogo, e os fantasmas do fumo, e as efervescências da água ele passa, solta a sua fulminação enorme, despedaça, esmigalha, dispersa e continua lento, frio, impassível, mudo, tenebroso, coberto de ferro.
Ele não receia o mar: os outros navios erguem amuradas imensas para conter o encrespamento da onda: forram-nas de cobre, erriçam- nas de pregaria. O Miantonomah não: ele julga a demência do mar um prejuízo; corta a amurada e fica com o convés raso, ao rés da água: satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por misericórdia dá-lhe hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a triturar, a roer dá-lhe por compaixão uma varanda de hastes de ferro enferrujado, e pedaços de corda podre. E o mar entra, desesperado, mugindo e lambe o chão do navio americano: embaixo nas camas, agasalhados e preguiçosos, os marinheiros dizem: “Lá anda o mar a varrer e a lavar o tombadilho.” E com efeito o velho oceano dos dilúvios faz humildemente o serviço dos últimos grumetes.
Em cima, na superfície da água, há o vento, as espumas, os nevoeiros, as chuvas, as trombas; ele, aborrecido, afasta-se deste bando miserável e vai investigar o fundo das águas, as vegetações fantásticas, a região dos corais, as cavernas enceládicas, as purezas infinitas da transparência, todo aquele antigo ideal feroz de que os velhos mareantes falavam benzendo-se com terror religioso: com a quilha de ferro enorme ele brutaliza aquelas virgindades do mar: embaixo a tripulação nada sabe das tempestades: em vão ruge o mar e torce-se; e desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o convés do navio com o ruído de mil carros de batalha; os marinheiros embaixo riem, cantam, baloiçam-se, pulem os aços dos maquinismos, cachimbam, leem a Bíblia serenos.
Como não há mastreação, nem velame, nem cordagens, nem toda a amontoação confusa de calabres e de lonas o tombadilho aberto é cheio de ar e de luz: e durante as viagens, é uma pousada das algas, das conchas, das aves do mar e dos granizos.
Dentro são as máquinas, as forças, os motores trabalham solitários com vozes, impaciências, preguiças, friamente; como as fatalidades da matéria. Ao atravessar os espaços obscuros vê-se o frio luzir dos aços e os cobres luminosos; depois são as fogueiras flamejantes, que dão a vida aos maquinismos — vermelhas como corações sobrenaturais: o ar é descido por máquinas de respiração, pulmões terríveis; e um vento geral, fecundo, benéfico, escorre constantemente por todo o negro bojo: fazem-se assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores pesados e frescuras das manhãs do Sul: nas suas viagens pelo mundo aquele navio desmente quando quer os climas e as temperaturas: os marinheiros passam silenciosos, limpos, rosados, graves: alguns leem.
Ora, sobre aquele negro navio, sobre os maquinismos frios, aquelas forças pavorosas, aquelas fogueiras terríveis, no convés entre as negras torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoaçando na sua gaiola — canta um canário.
Tal é o Miantonomah, navio de guerra da América do Norte.
Nós entrevemos a América como uma oficina sombria e resplandecente, perdida ao longe nos mares, cheia de vozes, de coloridos, de forças, de cintilações.
Entrevemo-la assim: movimentos imensos de capital: adoração exclusiva e única do deus Dólar; superabundância de vida; exageração de meios; violenta predominação do individualismo; grande senso prático; atmosfera pesada de positivismos estéreis; uma febre quase dolorosa do movimento industrial; aproveitamento avaro de todas as forças; extremo desprezo pelos territórios; preocupação exclusiva do útil e do econômico; doutrinas de uma filosofia e uma moral egoísta e mercantil; todo o pensamento repassado dessa influência; uma fria liberdade de costumes; uma seriedade artificial e brusca; dominação terrível da burguesia; movimentos, construções, maquinismos, fábricas, colonizações, exportações colossais, forças extremas, acumulação imensa de indústrias, esquadras terríveis, uma estranha derramação de jornais, de panfletos, de gazetas, de revistas, um luxo excessivo; e por fim um profundo tédio pelo vazio que deixa na alma as adorações do deus Dólar: depois a mesma temperatura e a mesma geologia da Europa. Assim entrevemos a América, ao longe, como uma estação entre a Europa e a Ásia, aberta ao Atlântico e ao Pacífico, com uma bela costa de navegação cheia de enseadas, molhada de grandes lagos, com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as fábricas, as plantações, os engenhos, levados pomposamente pelo Mississipi para o golfo do México: e depois uma Natureza vigorosa, fecunda, eleita, desaparecendo entre as indústrias, os fumos das fábricas, as construções, os maquinismos, todas as complicações mercantis da América — como uma pouca de erva de uma campina fértil que desaparece sob uma amontoação nervosa de homens.
A vida da América do Norte é quase um paroxismo.
Isto é decididamente uma grande força, uma vida enorme, superabundante. Mas será vital, fecundo, cheio de futuro?
Todos os dias dizem à Europa: “Olhai para os Estados Unidos, lá está o ideal liberal, democrático, e, sobretudo, a grande questão, o ideal econômico.”
Mas a América consagra a doutrina egoísta e mercantil de Monroe, pela qual uma nacionalidade se encolhe na sua geografia e na sua vitalidade, longe das outras pátrias; esquece as suas antigas tradições democráticas e as ideias gerais para se perder no movimento das indústrias e das mercancias; alia-se com a Rússia; a raça saxônia vai desconhecendo os grandes lados do seu destino, enrodilha-se estreitamente nos egoísmos políticos e nas preocupações mercantis, cisma conquistas e extensões de territórios, subordina o elemento grandioso e divino ao elemento positivo e egoísta, e a grande figura sideral do Direito às fábricas, que fumegam negramente, nos arredores de Goetring. Isto dizem muitos.
Uma das inferioridades da América é a falta de ciências filosóficas, de ciências históricas e de ciências sociais.
A nação que não tem sábios, grandes críticos, analisadores, filósofos, reconstruidores, ásperos buscadores do ideal, não pode pesar muito no mundo político, como não pode pesar muito no mundo moral.
Enquanto a superioridade foi daqueles que batalhavam, que lançavam grandes massas de cavalarias, que apareciam reluzentes entre as metralhas, o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a superioridade foi daqueles que pensavam, que descobriam sistemas, civilizações, que estudavam a Terra, os astros, o homem, e faziam a geologia, a astronomia, a filosofia, o Oriente caiu, miserável e rasteiro.
Há, sobretudo, na América um profundo desleixo nas ciências históricas.
Inferioridade. As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais.
É a superioridade da Europa: sob a mesma aparência de febre industrial há uma geração forte, grave, ideal, que está construindo a nova humanidade sobre o direito, a razão e a justiça.
O nosso mundo europeu é também uma estranha amontoação de contrastes e de destinos; é uma época esta anormal em que se encontram todas as eflorescências fecundas e todas as velhas podridões; políticas superficiais; grandes fanatismos: e ao mesmo tempo um desafogo das livres consciências, expurgação dos velhos ritos, e a alma moderna ligada na sua moral e na sua justiça às almas primitivas com exclusão da Idade Média; políticas pacificas e transigentes, e um espírito de guerra surdo, aceso e flamejante: territórios violentos e conquistados, e a aniquilação pela política, pela história e pela filosofia dos conquistadores e dos heróis: nem são as influências monárquicas, nem é o individualismo; nem é o humanitarismo, nem são os políticos egoístas, não é a importância das individualidades, nem a importância dos territórios; é uma confusão horrível de mundos, e, em cima, triunfal e soberba, está a indústria, entre as músicas dos metais, as arquiteturas das Bolsas, reluzente, cintilante, colorida, sonora, enquanto no vento passa o seu sonho eterno que são fortunas, impérios, festas, empresas, parques, serralhos.
Ora embaixo, sob a confusão, sereno, fecundo, forte, justo, bom, livre, move-se em germe um novo mundo econômico.
Este germe é que a América não tem, creio eu. Mas vê-se que todos a apontam como o ideal econômico que é necessário que os pensadores meditem, e todos os que no vazio fecundo das filosofias riscam as sociedades.
Ora toda a América econômica se explica por esta palavra — feudalismo industrial…
Diz-se, na América há um constante aumento de tráfico, de receitas, de riquezas: não há aumento; há deslocação, deslocação em proveito da alta finança — com detrimento das pequenas indústrias produtoras.
Logo que na ordem econômica não haja um balanço exato de forças, de produção, de salários, de trabalhos, de benefícios, de impostos, haverá uma aristocracia financeira, que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de produtores que emagrece, definha e dissipa-se nos proletariados: e como o equilíbrio não cessa, não cessam estas terríveis desuniformidades.
Mas o grande mal da predominância exclusiva da indústria é este: o trabalho pela repugnância que excita, pela absorção completa de toda a vitalidade física, pela aniquilação e quebrantamento da seiva material, pela liberdade em que deixa as faculdades de concepção — por isso mesmo sobrexcita o espírito, estende os ideais, abre grandes vazios na alma, complica as precisões, torna insuportável a pobreza: nas grandes democracias industriais onde as posições são obtidas pela perseverança, conquistadas pela habilidade, onde há mil motores — a ambição, a inveja, a esperança, o desejo, o cérebro aquece-se, espiritualiza-se, cria sonhos, ambições, necessidades impossíveis; o querer chegar torna-se uma verdadeira doença de alma: exageram-se os meios: e toda a seiva moral se altera e se deforma.
É o que vai acontecendo na América: debaixo da frieza aparente, move-se todo um mundo terrível de desejos, de desesperanças, de vontades violentas, de aspirações nevrálgicas.
Depois, como no meio das indústrias ruidosas e absorvedoras muitas amarguras ficam por adoçar, muitas angústias por serenar, muitas fomes por matar, muitas ignorâncias por alumiar, tudo isso se ergue terrível no meio da febre da vida social, e toma-a mais perigosa. Londres dá hoje o aspecto desta luta.
De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o desejo das riquezas; aferventa o cérebro, sobrexcita a sensibilidade, a população cresce, a concorrência é áspera, as necessidades descomedidas, infinitas as complicações econômicas, e aí está sempre entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a luta dos interesses, a guerra das classes, o assalto das propriedades e por fim as revoluções políticas.
E todavia a liberdade da América parece tão serena, tão confiada, tão assente, tão satisfeita!
No entanto há muita força fecunda nos Estados Unidos! Ainda há pouco deram o exemplo glorioso de uma nação que deixa os seus positivismos, a sua indústria, os seus egoísmos, o seu profundo interesse, e arma exércitos, esquadras, dissipa milhões, e vai bater-se por uma ideia, por uma abstração, por um princípio, pela justiça.
O Sul quis corrigir a liberdade pela escravatura; desune-se; o escravo que trabalhe, que cultive, que produza, que sue, que morra sob a força metálica, baça e sinistra do clima e do Sol. Pois bem. A América do Norte quer a liberdade, o amor das raças, e bate-se pela liberdade, pela legalidade, pela união, pelo princípio, pela metafísica! E dispersa os exércitos da Virgínia!
Eram estas as coisas que me lembravam há dias, no Tejo, estando a ver o Miantonomah, navio dos Estados Unidos em viagem pelo Sul, comandante Beaumont, fundeado no nosso Tejo…

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-miantonomah-conto-de-eca-de-queiroz/.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - HAIKAIS - ALICE RUIZ

A poesia abaixo é de autoria de Alice Ruiz.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/alice_ruiz/.
Boa leitura!

HAIKAIS

mar bravio
a cada onda
novo silêncio

diante do mar
três poetas
e nenhum verso

manhã de outono
o verde do mar
também amarela

sinal fechado
o menino atravessa
escrevendo versos

contra o prédio cinza
uma só flor
e todas as cores

procurando a lua
encontro o sol
mas já de partida

pôr-do-sol
em torno dele
todos os cinzas

começo de outono
cheia de si
a primeira lua

som alto
vento na varanda
a samambaia samba

trânsito parado
os mesmos olhares
e ninguém se olha

último raio de sol
primeiro da lua
outono nascendo

cerimônia do chá
três convidados
e um mosquito

nuvem de mosquitos
tocando violão
silenciosamente

sob a folha ver-escura
a folha verde-clara
trêmula dissimula

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/parana/alice_ruiz.html

quinta-feira, 9 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - RESPONDENDO CARTAS - RACHEL DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Rachel de Queiroz.
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Boa leitura!

RESPONDENDO CARTAS

Engraçado, os felizes nunca escrevem. Só procuram a gente os tristes, os fracassados, os que teimam em escalar obstáculos, os ambiciosos, os ressentidos.
No fundo, todos eles não são nada disso; – alimentam a esperança apesar de tudo, têm aquela certeza íntima de que uma fórmula secreta para a felicidade e para o êxito – a questão é apenas descobri-la. E quem sabe Fulano ou Beltrano a conhecem? Então escrevem. Ou leem aqueles ingênuos livros americanos, intitulados Como triunfar na vida, Como fazer amigos, Como vencer no amor – ou A vida começa aos 40 – feitos todos, aparentemente, para leitores de quociente intelectual abaixo dos dez anos de idade, mas que surpreendentemente são devorados por adultos de todas as idades. Sinal de que não são tão adultos quanto parecem.
Eu por mim confesso àqueles que me escrevem, pedindo consolo ou esperança, que não conheço fórmula nenhuma. Ignoro-as todas, e quando sou infeliz ou quando me entrego ao desespero, faço-o com abundância de coração, me afundando na mágoa e no desengano como quem se afoga. E só no fim da crise, quando passada a fase embriagante da tristeza, caio naquele estágio mais suave que os ingleses chamam “self pity”, e ponho-me a pensar que tamanha provação afinal de contas é desmedida, que nada fiz de tão especial para a merecer, que este mundo é um erro imenso, mal-arrumado e prenhe de absurdas injustiças, então é que recorro à minha panaceia particular, e, depois de usá-la, tenho pelo menos um sorriso na boca para me ajudar na volta ao fardo de viver. A panaceia, – sim, confesso que a tenho – é uma passagem do velho Voltaire – algumas linhas do capítulo de “Conclusão”, do Candide.
O caso é que tontos, Candide e seu mestre Pangloss ante a sucessão de desventuras e males que os flagelou neste “melhor dos mundos”, sentem-se um hesitante, o outro embaraçado, e resolvem procurar autoridade que lhes devolva o perdido otimismo. – E segue-se então a passagem aludida, que peço vênia para traduzir:
“Havia nas vizinhanças um celebríssimo dervixe, conhecido como melhor filósofo da Turquia. Foram os nossos amigos consultá-lo. Pangloss tomou a palavra:
– Mestre, aqui vimos pedir-lhe que nos explique por que motivo foi criado esse estranhíssimo animal que é o homem.
E dervixe lhe observou:
– Por que te preocupas com isso? É da tua conta?
– Mas, reverendíssimo padre – interferiu Candide, – há excesso de mal neste mundo.
– E que importa, retrucou o dervixe – que exista mal ou que exista bem? Quando sua alteza ordena a um navio que faça uma viagem ao Egito, estará por acaso preocupado com o conforto ou o desconforto dos ratos que vivem a bordo?
– E então, que devemos fazer? – indagou Pangloss.
– Calar a boca, – foi a resposta do dervixe.
Mas Pangloss insistiu:
– Aí, e eu que me regozijava a pensar que iria discorrer um pouco com vossa
reverendíssima a respeito dos efeitos e das causas, a respeito do melhor dos mundos, de origem do mal, da natureza da alma e da harmonia preestabelecida!
Escutando aquelas palavras, o dervixe deu-lhe com a porta no nariz.”
*
Grandes, humildes palavras. Realmente, que pode importar ao dono do navio, se os ratos de bordo passam mal ou passam bem? E que outra coisa conseguem os Pangloss deste mundo, (ou os Hamlet, que são Pangloss pelo avesso) senão levarem eternamente com a porta no nariz? Indagam, indagam, e sempre levando portas à cara, até que levam com a porta do túmulo, a qual lhes encerra as indagações.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/9095/respondendo-cartas.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - A FACA NO CORAÇÃO - DALTON TREVISAN

O conto abaixo é de autoria de Dalton Trevisan.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/dalton_trevisan/.
Boa leitura!

A FACA NO CORAÇÃO

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.
– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.
– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.
– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.
– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?
– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.
– No começo eles tomam o partido da mãe.
– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.
– A outra filhinha?
– Também do lado da mãe.
– E o filho?
– Esse é o maior inimigo.
– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.
– Se ela está vendo… Tudo!
– Vendo o quê?
– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?
– …
– Meu filho, sinto uma pena de você!
– Ó Maria, mal de cada dia.
– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.
– É a famosa insônia de viúvo.
– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.
– E quando você acorda, a flor está ali?
– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.
– Deve arrumar uma companheira.
– Quem é que vai me querer?
– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.
– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.
– Mulher é que não falta.
– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.
– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.
– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.
– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.
– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?
– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!
– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?
– …
– Só de traidora degolou o casal de garnisés…
– Nem tremeu a mão de unha dourada.
– … estrangulou o canário no arame da gaiola…
– Não me diga, João!
– … e furou o olho do peixinho vermelho.
– Esqueça a ingrata nos braços de outra.
– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?
– Assim é que se fala, João.
– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/a-faca-no-coracao-conto-de-dalton-trevisan/.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

SESSÃO LEITURA - A CLÁUDIO MANUEL DA COSTA - ALVARENGA PEIXOTO

O poema que reproduzimos abaixo é da autoria de Alvarenga Peixoto.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/alverenga_peixoto.html.
Boa leitura!

A CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Às margens destas águas silenciosas
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!

Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao por do sol da vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...

Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!

O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.

Fonte: https://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/brasil/alverenga_peixoto.html

sexta-feira, 19 de junho de 2026

SESSÃO LEITURA - TEMAS QUE MORREM - CLARICE LISPECTOR

O texto abaixo é de autoria de Clarice Lispector.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/clarice_lispector/.
Boa leitura!

TEMAS QUE MORREM

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede?
A exiguidade do tema, talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadeia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam essas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos! É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminada pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12340/temas-que-morrem.