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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A AFLIÇÃO DOS INCONSEQÜENTES - AUTORA: VAL



Aconteceu numa fria manhã, destas em que sair da cama é tarefa quase impossível e bastante injusta. Levantei-me bem cedo e me arrumei para o trabalho. Caminhei até o metrô, onde o fluxo de pessoas era intenso. Esperei para embarcar e consegui um lugar, em pé, no corredor. Olhava pela janela aguardando a partida, quando o sinal sonoro avisou do fechamento das portas.
Neste instante, surgiu na plataforma uma mulher, em desabalada carreira, arrastando pela mão uma criança. Jogou-se para dentro do vagão, passando por uma fresta. O tempo foi curto para que as duas entrassem. A menina ficou para trás.
Fiquei injuriada, olhando para aquela mulher inconseqüente e irresponsável, não conseguindo acreditar na tolice de seu ato.
O trem começou a se movimentar.
A mãe fez um gesto para a garota, que não consegui distinguir qual fosse.
Olhei para a menina. Não tinha mais que nove anos. Seu rosto era um misto de medo, desespero e abandono. Era visível que a qualquer momento cairia no choro.
O trajeto até a próxima estação me pareceu uma eternidade. Mil suposições me passaram pela cabeça: A menina compreendera o gesto da mãe? Esperaria por ela onde estava? Tomaria o trem seguinte tentando encontrá-la? Aceitaria a ajuda de um estranho? E este estranho seria confiável? A menina se perderia? Seria seqüestrada? Seria morta ou estuprada? Ou seria entregue ilesa a mãe?
Não conseguia me conformar com a burrice daquela mulher, que para economizar míseros segundos, colocara em risco a segurança da própria filha. Para que tanta pressa? O que poderia justificar esta insanidade? Porque não avaliara antes as conseqüências de seu ato? Por que se colocara numa situação tão aflitiva?
Ou será que a aflição era só minha?
Será que se afligem os inconseqüentes?
Na parada seguinte a mulher desceu e pegou o trem de volta.
E minhas dúvidas ficaram sem respostas.

(Escrito por Valdeci Affonso de Lima, Outubro de 2008)