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quinta-feira, 30 de julho de 2026

SESSÃO LEITURA - CANTOR E CANTAR - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

CANTOR E CANTAR

Os cantores são uma gente boa. Admiro o homem e a mulher que se ocupam de seu tempo aqui na terra erguendo a voz no prazer simples ‒ não é tão simples assim ‒ e puramente físico ‒ nem tão físico ‒ de cantar.
Repare nos olhos do cantor, certas linhas em torno da boca: têm uma profundidade que os outros não têm. Gostaria de conhecer melhor os cantores como pessoas. Conheço, um pouco, Agostinho dos Santos. E não me canso de me espantar. O Agostinho parece que está sempre no sábado chegando em festa. Essa festa o Agostinho leva com ele e faz questão, tenho a certeza, de que todos seus amigos estejam convidados. Um contrabaixo invisível deve seguir o Agostinho pelas ruas marcando o compasso, ali adiante está a bateria e ele tem sempre os gestos de quem leva um violão. Agostinho é um trio, um quarteto, um octeto ‒ vá lá: uma orquestra ‒ em plena função 24 horas por dia. Os sonhos do Agostinho têm cordas, percussão e vêm em 3/4 e 6/8 dependendo do dia (mas isso já está parecendo contracapa de LP, mudemos, pois, de cantor e de parágrafo. Aquele amplexo, major).
*
Cantor, em geral, não entende muito da gente, nem faz por entender: faz muito bem, tem toda razão. Há os que fazem música e os que não fazem música. Pertencemos a última categoria? Perfeito, então calemos e escutemos. Cantor tem mais a dizer que a gente. E mais a fazer também, principalmente agora que descobriram que têm braços. Os braços, já dissemos uma vez, foram introduzidos na moderna música popular brasileira pelo ítalo-americano Lennie Dale. Lennie chegou ao Brasil em 1963. Não veio de avião: veio a braçadas. Hoje estão todos de frente para o microfone, nadando nos mais variados estilos: crawl paulistano, butterfly do Beco, etc. Eu sou antiquado: prefiro cantor com voz. Em nado livre mímico-vocal aceito os estilos de Elis Regina e Jair Rodrigues. Wilson Simonal não vale, é norte-americano, conforme descobriu o pesquisador aí de cima, o Mr. Eco. E além do mais, ainda não se naturalizou.
*
E Billie Holiday? Daí eu falo em Billie Holiday e não há mais conversa em matéria de cantor e cantora. E Billie Holiday? Boa pergunta. Uma voz que é uma escada tentando se galgar a si mesma, li em algum lugar, ou escrevi noutro. Billie Holiday: polpa e cerne; carne e fruto; nervo e sangue; aquele longo fio negro; numa ponta gardênia; na outra seringa de injeção.
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A diferença entre palavra escrita e palavra cantada é esta: há mais gente envolta na tarefa de escrever; cantar é feito a sós, por um só, em geral de pé.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12753/cantor-e-cantar.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SESSÃO LEITURA - MANEQUIM, OSSO E PELE - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

MANEQUIM, OSSO E PELE

Os manequins profissionais não têm cara, são capa; não passeiam, passarelam; não veem, são vistos (e revistos). Vivem um pouco (nem tanto) ‒ uma vida magra de curvas e cheia de ângulos; sérios em sua ambição de confirmar a teoria de que um vestido é feito mais para o osso que para a pele, pulando de uma expressão para outra como se conformados, o dia inteiro, com um metteur-en-scène invisível; possuídos pelos seus próprios corpos, as almas neles envolvidas são donas de alguns ossos e pouco mais.
São uma classe finíssima (no pisar e na translucidez) e unida (como na aderência do osso à pele) de dimensões longilíneas e diapasão esgalgo. Osso e pele, escudo em opostos, são vagos e no entanto determinados, impessoais e mesmo assim únicos; dão a impressão de que, quando despem o Dior ou o Balenciaga, não ficam nus, mas expostos. Não desarrumam, não despenteiam, não perturbam a atmosfera quando cruzam passarelas.
Se você olhar fixo por mais de 30 segundos para o manequim, verá através: a transparência é sua principal dádiva aos homens.
Todos nós existimos em séries. Somos uma porção de meias-horas, duas horas, 24 horas.
Um manequim é feito de segundinhos espaçados, aquela fração que a luz leva para atravessar a objetiva, interromper-se no diafragma e calcar-se no filme do interior da câmera fotográfica. Nesse ventre em negativo celuloide e papel, o manequim sofre o processo químico de sua genealogia (os manequins se reproduzem em todos os climas e condições, bastando haver por perto uma câmera fotográfica). Está preso para sempre no clichê, no off-set, na rotogravura, dentro de um amarelo, entre uma pulseira e um coqueiro, suspenso pelo fio de Helanca, a anunciar, da revista, que a nova moda é esta:
esguiar.
O manequim leva uma bolsa como quem leva uma vida. Na bolsa pode-se encontrar quase tudo de que é feita sua alma: espelho, pó de arroz, endereços antigos, nomes ilegíveis e abreviados, sobrenomes esquecidos.
O manequim, num canto do salão, encontra o outro manequim. Os dois param e, encarando-se, ajeitam o cabelo, dão um retoque nos lábios: exatamente como se diante de um espelho. Têm razão, pois estão.
Mas há mais surpresas no manequim: lá, onde a pele não interessa, descobrimos os ossos mais inesperados, deixados à maneira dos piratas a fim de indicar tesouros escondidos em praias das caraíbas (trecho da prece de um manequim: “... e depois deste osso, e desse e daquele outro, prestai atenção, Senhor, pois ainda há mais ...”).
Mas a cada foto o manequim perde um pouco: um órgão interno utilíssimo, um jeito só seu de reclamar. E leva cada vez menos de si ao amante. Este o recebe com cuidados adiposos e o medo de que ele (além de quebrar) continue com o delírio diáfano de todo
manequim: emagrecer, emagrecer, cada vez mais até que a gravidade perca seu sentido e, na vertical vertiginosa, ascender a todos os céus e ir posar ao lado de todos os anjos.
Soa-me desarmoniosa esta elegância de manequim. Mulher nenhuma tem o direito de sorrir assim, como se tivesse colado grau em sexo. É preciso tropeçar para acertar o passo, despir para vestir. Falta, em alguma parte do manequim, um elemento de colesterol, um salto quebrado, erro, imprecisão, excesso de proteína, para que eu possa me reconciliar com a noção de que nem sempre toda boniteza quer dizer delicadeza.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12769/manequim-osso-e-pele.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - HAMLET EM MÍMICA - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

HAMLET EM MÍMICA

Uma das coisas boas da vida é não ter que ir ao teatro. Mas a gente só descobre isso quando tem de ir ao teatro. Mesmo sem gravata, teatro é muito chato. E depois não descobriram ainda uma solução para os intervalos. Fica todo mundo pelos corredores fazendo cara de quem está achando alguma coisa da peça e dos atores. Tudo porque se julgam na obrigação de ter uma opinião séria a respeito do teatro: as críticas são tão compenetradas, os atores tão sensíveis, ou autores dizem coisas tão sérias... Todo mundo tem medo de dizer: “Mas isso é uma besteirada horrível e não quer dizer absolutamente nada e nunca encontrei na minha vida quem falasse feito esse personagem e se encontrar viro a cara imediatamente!”. Basta uma coisa ocupar um espaço razoável nos jornais, durante determinado período, para todo mundo ter medo de rir. Agora experimente dizer isso para alguém de teatro. Ele é capaz de bater em você. O ator, por exemplo, fala de sua profissão como o dr. Schweitzer falava de seus hospitais na selva, como se houvesse algo de sagrado em se pintar todo e aparecer debaixo de um facho de luz dizendo coisas que ele não entende de uma maneira que todos entendam.
Aqui no Rio ‒ deve ser em todo Brasil ‒ o espetáculo-festinha continua, sem enredo, mas com texto, sem drama, mas com “ão” (todos terminam em “ão”: Opinião, Reação, Perversão). Descobriram que tá dando um dinheirão, embora se recusem a admitir que façam teatro para ganhar a vida, e encarem o dinheiro como uma espécie de moléstia diabólica, altamente contagiosa a necessitar urgentemente de extirpação. Quem sabe para o ano descobrem que o negócio é show (com um pouquinho de bossa nova aqui e ali para dar gosto) em “inho” ou “íssimo”. Os shows em “inho”, naturalmente, ficariam todos a cargo de Vinicius de Moraes; em “íssimo” seriam todos na cidade, bem fora da mão, com o mínimo de conforto possível e na sala de pingue-pongue de grêmios recreativos obscuros. Mas seriam feitos com um sorriso esperto trocado entre participantes e espectadores que em miúdos significaria: Brecht é fogo, hein? A gente ‒ eu e você ‒mania Brecht, não é mesmo? E repare como ele tem coisas a dizer dentro da atualidade brasileira. Você vai se sentir lisonjeado com aquela intimidade, afinal os realizadores estão incluindo você ‒ dando parceria ‒ na sua sofisticada percepção dramático-sociológica. Você está mal sentado, é verdade, mas a rapadura do conhecimento humano está sendo dividida com você. A equipe é a mais profissional possível (os preços também) do contrário seria impossível montar esse espetáculo com grifos tão amadorísticos.
Ator é um camarada que fica em casa bolando algo inteiramente inútil feito montar Hamlet em mímica. Diretor é aquele outro que dirige esse espetáculo. Empresário é o que o financia. E o pato ‒ que vinha cantando alegremente coén, coén ‒ o pato, meu amigo, é você.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12743/hamlet-em-mimica.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

SESSÃO LEITURA - A CRÔNICA - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

A CRÔNICA

Crônica, do grego chrónos, tempo, cronicar, feito Tácito, relatar o tempo ou tempos.
Por que nós, brasileiros, fizemos do gênero especialidade da casa — feito muqueca de peixe ou tutu à mineira?
Eu, pela parte que me cabe — e é pouquíssima a parte que me cabe —, eu tenho minhas teoriazinhas.
Primeiro lugar, porque nós trabalhamos bem com poucas armas, isto é, Euclides da Cunha à parte, nosso fôlego literário é curto.
Não há nenhum demérito nisso.
Se a América Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, nós, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o próprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcântara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca.
Segundo lugar, porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível.
Terceiro lugar, em consequência disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa.
A crônica é a nossa autobustificação, por assim dizer.
Ou, em termos da realidade atual: é a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo outro.
E em quarto e último lugar: dinheiro.
Não há motivo nenhum para se ficar encabulado.
Quem não escreve por dinheiro não é digno da profissão.
Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salários mínimos.
Se dividirmos tempo gasto no trabalho e na vida de estante do livro, vai dar nisso mesmo: salário mínimo.
O cronista, por outro lado, mesmo mal pago — e quando é bom não é esse o caso —, tem uns cobres garantidos no fim do mês, se o empregador for bom pagador.
Consequentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro.
Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro.
Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador.
E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley?
A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

SESSÃO LEITURA - CERTIFICADO DE VELHICE - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/ivanlessa_certificado.asp.
Boa leitura!

CERTIFICADO DE VELHICE

Se no Reino Unido você disser CV, todo mundo sabe que está se referindo ao seu "curriculum vitae", ou seja, sua folha corrida em matéria de trabalho.
Mas há outro CV, com mais folha e mais corrido.
É o CV de Certificado de Velhice.
CV que também podem ser as iniciais de Carteira de Velhinho.
Completou 60 anos, e a senhora ou senhorita têm direito a passar nos correios e pegar uma.
Já os homens, são obrigados a esperar mais 5 anos: só aos 65 é que pegam o documento.
A igualdade entre os sexos, ao que parece, ainda não chegou aos sessentões.
Está errado. Mas vamos ao senhor, ao cavalheiro — ou mesmo cavaleiro — que completou 65 anos.
Ele pega uma conta qualquer que tenha seu nome e endereço, a conta de gás, por exemplo.
Pega um documento qualquer que o identifique, carteira de motorista serve, já que no Reino Unido ainda não há carteira de identidade obrigatória.
Pega duas fotos 3 por 4 e vai na agência de correios mais próxima do bairro.
Entra na fila, é atendido poucos minutos depois, preenche um formulário e, num piscar de olhos (como dizem os mais velhos), pronto, eis aí a carteira de velhinho, o certificado de velhice, válido por ao menos pelos próximos dois anos.
A carteirinha é de plástico vermelho, tem uns 5 por 6 centímetros, de um lado fica um cartão com uma fita magnetizada, do outro um com a foto do cidadão.
O cartão com a fita magnetizada é do exato tamanho da passagem de metrô.
Com ele, o velhinho de 65 anos pode andar de graça de segunda a sexta no metrô e no ônibus depois de nove e meia da manhã.
Tem considerável desconto em viagem de trem para qualquer parte do país.
Idem nos cinemas, teatros e museus. Acho que, numa confusão, serve como documento de identificação.
Frise-se que na carteirinha não está escrito Certificado de Velhice ou de Velhinho.
Usam um eufemismo meio pomposo: "Freedom Pass". Passe da liberdade. Parecendo coisa da guerra fria.
Quem paga por ele é o distrito eleitoral, ou bairro, onde mora a figura em questão.
Por figura em questão, entenda-se: — eu.
Peguei meu CV na quinta-feira, dia 11 de maio.
Achei que ia ser mais chato. Não é, não.
De uma certa forma, é mais uma gentileza deles, os ingleses, para comigo.
Espero poder retribuir, espero que não seja a última.