Mostrando postagens com marcador CARLOS EDUARDO NOVAES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CARLOS EDUARDO NOVAES. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de abril de 2024

SESSÃO LEITURA - MEU PRIMEIRO ASSALTO - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa644/carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

MEU PRIMEIRO ASSALTO

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde chegaria a minha vez. Existem coisas inevitáveis a um cidadão de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma delas é pagar impostos. A outra é ser assaltado. Até que resisti muito. Conheço história de garotos que sofreram o primeiro assalto antes da primeira comunhão.
Vinha me preparando durante todos esses anos, com a disciplina de um maratonista, para enfrentar o primeiro assalto. O primeiro assalto é algo tão importante na vida das pessoas quanto o primeiro beijo ou o primeiro amor. Treinei duro, fazendo caras diante do espelho, decorando frases, aperfeiçoando a expressão corporal. Nas reuniões sociais, ouvia atentamente as narrativas dos assaltados. Às vezes, devo dizer, ficava meio deprimido porque todas as pessoas que conheço já tinham sido assaltadas, enquanto eu continuava circulando impunemente há mais de 40 anos pelas ruas e vielas da cidade. Por que essa discriminação?Tenho cara de quem ganha salário mínimo?
Enfim, aconteceu na porta da garagem do meu prédio. Sempre ouvi dizer, nas incontáveis histórias sobre assaltos a edifícios, que os ladrões são rapazes bronzeados, elegantes, terno e gravata(alguns de colete), bem falantes e desembaraçados como um vendedor de enciclopédias. Ao olhar para meu primeiro assaltante, confesso que senti uma pontinha de frustração. Era um tipo magro, abatido, com os dentes em péssimo estado e vestido como se fosse para um arraial de São João. Ainda por cima, era gago.
Devia ser oito e meia da noite quando cheguei com Eliane è porta da garagem. Saltei, toquei a campainha e voltei ao carro, aguardando o porteiro. Foi nesse instante que ele apareceu. Uma forte emoção me subiu pelo corpo. Tratava-se afinal de um momento ansiosamente esperado, por muitos e muitos anos. Aproximou-se da minha janela, exibiu seu 38 e anunciou:
– Isso é um… é um ass… ass… assss…
– Assalto? –antecipei-me, nervoso com aquele suspense.
– É isso aí! Va-vai pas… sando as jó-jó… jó-jó…
– Jó-jó? Não sei o que é… – fiz-me de desentendido, procurando ganhar tempo até a chegada do porteiro.
– Você sa… sa-sa … sa-sa…
– Sassaricando!? – lembrei-me dos meus tempos de jogar mímica.
Ele deu com o cano do revólver no meu ombro, irritado, mas sem nenhuma autoridade. Tinha um comportamento de amador. Eu estava mais preparado para ser assaltado do que ele para assaltar. Sem dúvida era um novato no ramo. Talvez estivéssemos participando, ambos, do primeiro assalto.
– Quero o ouro – disse, muito trêmulo.
– Tudo bem. Você terá… – procurei acalmá-lo. – Fique tranqüilo.
– Quem disse que não tô tranq… tranks… calmo?
Quando Eliane começou a tirar a pulseirinha, o porteiro abriu a porta da garagem com grande estardalhaço (a porta está meio empenada, raspando no chão). O assaltante meteu o revólver na cintura e partiu para cima do porteiro, empurrando-o contra a parede.
– Você fi-fi… fi-ficaí!
– O porteiro, sem saber do que se tratava, reagiu agressivo:
– Fico aqui por quê, pô?
Os dois passaram a discutir na frente do meu carro. Eliane sugeriu que déssemos marcha à ré, aproveitando a distração do ladrão, e fôssemos chamar a PM.
– Negativo – respondi. – Venho me preparando há anos para este momento. Agora quero saber como vai acabar.
-Que loucura!Quer dizer que você quer ser assaltado?
– Quero. Você não sabe que tenho um problema de rejeição com relação a assaltos?Se nós sairmos daqui, quem vai ser assaltado é o porteiro. Ele não vai me roubar a cena. Este assalto é meu!
Recuperamos a tranqüilidade e voltamos a conversar como se estivéssemos parados no Drive-In. À nossa frente, menos de um metro, o porteiro e o assaltante continuavam num bate-boca como se discutissem a Constituinte.
– Fi-ficaí encostado na pa-pa … pa-pa … . pa-rede, que eu tô-tô … mandando!
– Qualé, cara! –retrucou o porteiro. – Quem é você pra mandar em mim?
Botei o farol alto em cima dos dois para ver melhor a cena.
Quando meu assaltante revelou sua atividade, nem o porteiro acreditou. Sorriu com o canto do lábio naquela expressão de descrença. Aí, juro, o assaltante teve uma reação inesperada: virou-se para mim e pediu minha confirmação.
– So-Sou ou não so-sou?
Pedi licença a Eliane, interrompi a conversa, botei a cabeça para fora do carro e falei com o porteiro:
-É isso aí. Ele é um assaltante! (Meu assaltante, pensei. )
O ladrão levantou a fralda da camisa, sempre desajeitado, e mostrou o “documento” na cintura. O porteiro mudou de cor e se jogou de costas, braços abertos contra a parede. O assaltante tornou a empunhar a arma e voltou à minha janela com uma pergunta que contando parece mentira.
– Onde é que nó-nó… nó nós estávamos?
– Bem, se não me engano, falávamos sobre os problemas da Serra Pelada.
– De… o quê?
– Ouro!Toma logo minha pulseira – disse Eliane, nervosa, querendo acabar com aquilo.
No momento em que o assaltante ia metendo a mão pela janela, parou um Fusca ao meu lado, cheio de gatões e gatinhas, buzinado para alguém no prédio. O assaltante recuou o braço, assustado com aquela presença inesperada. Assustou-se mais ainda com as cabeças que apareceram nas janelas. Um pouco apertado entre os dois carros, fez um gesto brusco e saiu correndo ladeira abaixo. Antes, ainda pude ouvi-lo reclamar: “Pronto, estragou tudo!”. No gesto, esbarrou a mão no espelho retrovisor externo e deixou cair a arma. Apanhei-a e levei-a para casa, sem saber se ficava triste ou alegre com o resultado da experiência. Meu primeiro assalto foi mais proveitoso do que poderia imaginar: rendeu uma crônica e um 38. Se é que foi um assalto. Como se chama o delito penal quando o assaltado sai no lucro?

Fonte: https://brincher.com/2016/09/28/carlos-eduardo-novaes-meu-primeiro-assalto/.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

SESSÃO LEITURA - O SONHO DO FEIJÃO - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa644/carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

O SONHO DO FEIJÃO

Dona Abgail sentou-se na cama, sobressaltada, acordou o marido e lhe disse que havia sonhado que iria faltar feijão. Não era  a primeira vez que esta cena ocorria.
Dona Abgail, consciente de seus afazeres de dona de casa, vivia constantemente atormentada por pesadelos desse gênero. E de outros gêneros, quase todos alimentícios. Ainda bêbado de sono, o marido esticou o braço e apanhou a carteira sobre a mesinha de cabeceira: "Quanto é que você quer?" A mulher pensou um pouco e pediu o suficiente para comprar 15 quilos, "depois se a situação se agravar você me dá para comprar mais 15". Levantou-se rápida, mudou de roupa e ligou para sua amiga, dona Etelvina, que era uma espécie de líder das donas de casa de Irajá.
- Alô, Etelvina? Eu estou com o pressentimento de que vai faltar feijão.
- Feijão também? Então deixa eu avisar rápido às outras.
Em menos de cinco minutos a notícia se espalhou por toda a cidade. As donas de casa possuem uma misteriosa rede de comunicação por onde os boatos se propagam com a rapidez de um Boeing-747. É só alguém dizer que vai faltar, por exemplo, azeite, no Leblon, que em três minutos já se forma uma fila no Méier.
Ao sair para comprar o feijão, dona Abgail atrasou-se um pouco para deixar seus quatro filhos na escola. Quando parou na porta do supermercado, viu uma fila enorme que se estendia por mais de 80 metros. Perguntou a uma das enfileiradas.
- Que fila é essa?
- É a do feijão.
Perfilou-se arrependida por ter revelado o seu sonho. Se não tivesse espalhado a notícia poderia fazer sua compra tranquilamente, pois ninguém saberia que o feijão ia faltar. Depois, dona Abgail começou a encontrar outras amigas, estabeleceu-se um animado bate-papo e acabou achando que aquela fila estava ótima. Era uma das melhores que já frequentara.
Existem algumas donas de casa que têm uma atração toda especial por fila. Para muitas há qualquer coisa de heroico numa fila: a espera, a paciência e o que é mais importante, a entrada triunfal em casa sobraçando o tão disputado produto. Esta é a realização suprema da dona de casa, daí elas não permitirem que suas empregadas as substituam nas filas.
Quando chegou a sua hora de comprar, dona Abgail percebeu que as prateleiras já estavam vazias. Voltou-se para dona Etelvina ao seu lado e comentou: "Eu não disse que iria faltar feijão?"
Ao sair notaram que já havia mais três filas formadas:
- Essa fila é de quê?
- De pasta de dentes.
- E essa?
- Essa é de papel higiênico.
- E essa? É pra quê?
- Pra nada. É pra quem não tem o que fazer.
Dona Abgail, que já não arranjara o feijão, pensou que deveria levar alguma outra coisa. Entrou na fila do papel higiênico e convidou dona Etelvina para acompanhá-la, "assim a gente aproveita e conversa um pouco". Dona Abgail comprou 30 rolos de papel higiênico e voltou para casa. Deu de cara com o marido que assustou-se ao vê-la chegar assim carregada e não resistiu em perguntar:
- Tem alguém desarranjado aqui em casa?
Com um apartamento pequeno, dona Abgail ficou sem saber onde colocar aqueles 30 rolos. Resolveu recorrer à sua vizinha dona Olga, companheira de mais de 10 anos de fila:
- Olga, será que eu posso deixar uns 10 rolinhos de papel higiênico em sua casa?
- Pode. Mas por quê?
- Porque como vai faltar eu resolvi estocá-lo.
- Vai faltar? Não me diga. E você não me avisou nada?
Dona Olga se arrumou rapidamente e correu ao supermercado. Já tinha oito filas, sendo que três ela só de papel higiênico. Para provar sua organização, as donas de casa fizeram uma fila para papel branco. Outra para papel rosa e outra para o azul. Dona Olga entrou na fila do azul que combinava com os azulejos de s eu banheiro. Comprou 20 rolos (dona Olga era viúva e não tinha as mesmas condições econômicas de dona Abgail, que podia comprar 30 rolos), cumprimentou algumas conhecidas de fila e perguntou:
- Alguém aí sabe o que vai faltar amanhã?
- Não sei - disse uma senhora que parecia ser a coordenadora da fila - mas parece que vai faltar azeitona.
- Verde ou preta?
- Ainda não decidimos.
- Se for verde você me telefona que eu venho.
A coordenadora informou também a dona Olga que provavelmente faltaria arroz. Dona Olga retornou à sua casa e tratou de avisar a dona Abgail que faltaria arroz.
- Oba - gritou dona Abgail - essa fila é das boas. E correu ao quarto para botar o despertador para as cinco horas.
Dia seguinte levantou-se, fez o café do marido e saiu. A fila ainda estava pequena. Entrou e, caminhando lentamente, foi esbarrar no balcão de enlatados: "Ué, mas eu vim para a fila do arroz".
- Mas o arroz não vai faltar - disse-lhe um empregado - não aqui. Parece que está faltando em Bangu.
- E o senhor sabe se tem fila por lá?
- Olha, até as seis horas a fila dava a volta no quarteirão.
Dona Abgail não pensou duas vezes. Pegou um táxi e foi para Bangu. Realmente a fila estava gigantesca. Saltou e indagou: "Essa é a fila do arroz?"
- Não, é do óleo de soja.
- Mas como do óleo de soja? Não tem óleo de soja.
- Eu sei - respondeu uma enfileirada - mas quando chegar nós já estamos na fila.
A fila foi andando, andando, e quando dona Abgail encostou no balcão o óleo de soja ainda não havia chegado. Aí dona Abgail não teve outra alternativa, pensou um pouco e comprou mais 30 rolos de papel higiênico.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

SESSÃO LEITURA - A CADEIRA DO DENTISTA - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: enciclopedia.itaucultural.org.br › pessoa644 › carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

A CADEIRA DO DENTISTA

Fazia dois anos que não me sentava numa cadeira de dentista. Não que meus dentes estivessem por todo esse tempo sem reclamar um tratamento. Cheguei a marcar várias consultas, mas começava a suar frio folheando velhas revistas na antessala e me escafedia antes de ser atendido. Na única ocasião em que botei o pé no gabinete do odontólogo - tem uns seis meses -, quando ele me informou o preço do serviço, a dor transferiu-se do dente para o bolso.
- Não quero uma dentadura em ouro com incrustações em rubis e esmeraldas - esclareci -, só preciso tratar o canal.
- É esse o preço de um tratamento de canal!
- Tem certeza? O senhor não estará confundindo o meu canal com o do Panamá?
Adiei o tratamento. Tenho pavor de dentista. O mundo avançou nos últimos 30 anos, mas a Odontologia permanece uma atividade medieval. Para mim não faz diferença um "pau-de-arara" ou uma cadeira de dentista: é tudo instrumento de tortura.
Desta vez, porém, não tive como escapar. Os dentes do lado esquerdo já tinham se transformado em meros figurantes dentro da boca. Ao estourar o pré-molar do lado direito, fiquei restrito à linha de frente para mastigar maminhas e picanhas. Experiência que poderia ter dado certo, caso tivesse algum jeito para esquilo.
A enfermeira convocou-me na sala de espera. Acompanhei-a, após o sinal-da-cruz, e entramos os dois no gabinete do dentista, que, como personagem principal, só aparece depois do circo armado.
- Sente-se - disse ela, apontando para a cadeira.
- Sente-se a senhora - respondi com educada reverência -, ainda sou do tempo em que os cavalheiros ofereciam seus lugares às damas.
Minhas pernas tremiam. Ela tornou a apontar para a cadeira.
- O senhor é o paciente!
- Eu?? A senhora não quer aproveitar? Fazer uma obturaçãozinha, limpeza de tártaro? Fique à vontade. Sou muito paciente. Posso esperar aqui no banquinho.
O dentista surgiu com aquele ar triunfal de quem jamais teve cárie. Ah! Como adoraria vê-lo sentado na própria cadeira extraindo um siso incluso! Mal me acomodei e ele já estava curvado sobre a cadeira, empunhando dois miseráveis ferrinhos, louco para entrar em ação. Nem uma palavra de estímulo ou reconforto. Foi logo ordenando:
- Abra a boca.
Tentei, mas a boca não obedeceu aos meus comandos.
- Não vai doer nada!
- Todos dizem a mesma coisa - reagi. Não acredito mais em vocês!
- Abra a boca! - insistiu ele.
Abri a boca. Numa cadeira de dentista sinto-me tão frágil quanto um recruta diante do sargento do batalhão.
Ele enfiou um monte de coisas na minha boca e tocou o dente com um gancho.
- Tá doendo?
- Urgh argh hogli hugli.
Os dentistas são tipos curiosos. Enchem a boca da gente de algodão, plástico, secadores, ferros e depois desandam a fazer perguntas. Não sou daqueles que conseguem responder apenas movendo a cabeça. Para mim, a dor tem nuances, gradações que vão além dos limites de um sim-não.
- A anestesia vai impedir a dor - disse ele, armado com uma seringa.
- E eu vou impedir a anestesia - respondi duro segurando firme no seu pulso.
Ele fez pressão para alcançar minha pobre gengiva. Permaneci segurando seu pulso. Ele apoiou o joelho no meu baixo ventre. Continuei resistindo, em posição defensiva. Ele subiu em cima de mim. Miserável! Gemi quase sem forças. Ele afastou a mão que agarrava seu pulso e desceu com a seringa. Lembrei-me de Indiana Jones e, num gesto rápido, desviei a cabeça. A agulha penetrou a poltrona. Peguei o esguichador de água e lancei-lhe um jato no rosto. Ele voltou com a seringa.
- Não pense que o senhor vai me anestesiar como anestesia qualquer um - disse, dando-lhe um tapa na mão.
A seringa voou longe e escorregou pelo assoalho. Corremos os dois pra alcançá-la, caímos no chão, embolados, esticando os braços para ver quem pegava a seringa. Tapei-lhe o rosto com meu babador e cheguei antes. A situação se invertera: eu estava por cima.
- Agora sou eu quem dá as ordens - vociferei, rangendo os dentes. - Abra a boca!
- Mas... não há nada de errado com meus dentes.
- A mim você não engana. Todo mundo tem problemas dentários. Por que só você iria ficar de fora? Vamos, abra essa boca!
- Não, não, não. Por favor - implorou. Morro de medo de anestesia.
Era o que eu suspeitava. É fácil ser corajoso com a boca dos outros. Quero ver continuar dentista é na hora de abrir a própria boca. Levantei-me, joguei a seringa para o lado e disse-lhe, cheio de desprezo:
- Você não passa de um paciente!

quinta-feira, 11 de julho de 2019

SESSÃO LEITURA - O DAY AFTER DO CARIOCA - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informaçõe sobre o autor, favor acessar: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa644/carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

O DAY AFTER DO CARIOCA

O dia em que o Rio de Janeiro derreteu

Aparentemente aquele dia amanheceu igual a todos os outros do mês de janeiro. Céu azul, lavado, um sol forte e musculoso ainda se espreguiçando, uma promessa de calor. Manhã sob medida para turistas, estudantes em férias e desempregados. O Rio, quando quer, sabe como nenhuma outra cidade se enfeitar para o verão. D. Odete Araújo abriu a janela de sua casinha em Bangu e girou a cabeça como se tentando perscrutar o tempo. Viu um cidadão parado na calçada segurando um cigarro. A fumaça do cigarro subia em linha reta, parecia traçada a régua. Não havia a mais leve brisa no ar. D. Odete respirou fundo, passou as costas da mão na testa gotejante e comentou com a vizinha:
— Acho que hoje chegaremos aos 45 graus.
Os moradores de Bangu entendem mais do que todos de altas temperaturas. A vizinha deu de ombros. Um grau a mais ou a menos não faz diferença neste inferno suburbano. Na véspera, os termômetros de Bangu acusaram 44.8 graus, quebrando os recordes dos anos de 84, 85, 86 e 87. D. Odete comentou num tom cabalístico que aquele era o 13º dia consecutivo que o Rio se debatia com uma febre de 40 graus.
No Centro da cidade, um movimento típico das manhãs de verão. As pessoas procurando as sombras, procurando os bares, procurando diminuir o ritmo. Nada de anormal. O contínuo Ademar Ferreira, porém, percebeu o termômetro digital, que uma hora antes acusava 43 graus, agora marcando 48. O amigo, com quem conversava numa esquina da Avenida Rio Branco, disse que os termômetros estavam de miolo mole. Ontem vira um marcando 54 graus. Ademar continuou conversando, tornou a olhar o termômetro: 49 graus. Notou certa inquietação no ar. Os transeuntes se mexiam mais, tiravam o paletó, afrouxavam a gravata: 50 graus. Outras pessoas começaram a perceber a escalada dos termômetros. O calor aumentava: 51 graus. Um grupo preocupado se reuniu em torno de um orelhão e ligou para o Serviço de Meteorologia. O que está acontecendo? Os cientistas admitiam que a temperatura subia. vertiginosa, mas desconheciam as razões. Estavam acompanhando uma frente fria encalhada na Patagônia.
As pessoas se aglomeravam diante dos termômetros como se acompanhassem o movimento de apostas no Jóquei: 53 graus. As expressões revelavam medo e tensão. O calor tornava-se escaldante. Era como se tivessem ligado o forno da Rio Branco: 55 graus. Não dava mais para ficar exposto ao sol. As pessoas procuraram proteção embaixo das marquises. Muitas, nervosas, se refugiavam em lojas e escritórios com ar condicionado: 56 graus. Um bando de honrados cidadãos invadiu uma loja de eletrodomésticos:
— Liguem os ventiladores, pelo amor de Deus! — Infelizmente vendemos todos — respondeu o vendedor, torcendo o lenço empapado de suor.
Na Zona Sul o pânico se alastrava como um rastilho de pólvora. Edevaldo Santos, vendedor de picolés na praia, notou que algo estranho acontecia quando abriu a caixa de isopor e viu os palitos boiando num caldo de sorvete: 60 graus. Não dava mais para atravessar a areia quente. Quem ficou na praia já não podia sair. Dois helicópteros procuravam transportar os banhistas. Primeiro, velhos e crianças! A praia, como a cidade, já estava sob o império do caos, apesar das rádios e televisões pedirem calma à população. A corda que pendia dos helicópteros era disputada a tapa: 65 graus. Faltava ar, a garganta secava, o corpo parecia incandescente. A estudante Luísa Coelho lembrou-se de Joana D’Arc. Teve início a invasão de bares, restaurantes, supermercados. Todos corriam às prateleiras de bebidas. Água, refrigerantes, cerveja, vinho, champanhe, qualquer líquido. Tinha gente bebendo Pinho-Sol.
O trânsito enlouqueceu de vez. Os motoristas abandonavam seus carros nos congestionamentos. Os ônibus eram largados em qualquer lugar. Os veículos transformavam-se em fornos crematórios: 74 graus. Os pneus começaram a derreter. Nas ruas as pessoas iam se desfazendo das roupas. Vários executivos foram vistos se esgueirando pelos cantos, de cueca, meias e pasta. Começou a invasão dos apartamentos com ar condicionado. Eles viraram uma espécie de abrigo nuclear. Só na minha sala havia 67 pessoas se empurrando para botar a cara na frente do aparelho: 80 graus. De repente ouviu-se um ruído e logo o silêncio do ar-condicionado. A cidade ficara sem energia. O calor derreteu os cabos da Light. O sol esquentava os vidros e o concreto dos prédios. Era insuportável o calor nos apartamentos. A população desesperada saiu às ruas à cata de sombras. Num poste em Madureira havia 23 pessoas espremidas e perfiladas ao longo de sua tira de sombra: 84 graus!
Os carros dos Bombeiros circulavam pelas ruas com um restinho de água molhando a população. “Aqui, aqui! Joga aqui antes que eu pegue fogo!” Os chafarizes da cidade. estavam mais cheios do que trem da Central. Milhares de. pessoas mergulhavam na Lagoa Rodrigo dA Freitas. Só que esta, como as outras lagoas da cidade, secava rapidamente. As poucas matas pegavam fogo. As ruas de terra rachavam ao melhor estilo nordestino. O asfalto começou a borbulhar. Ploft! A cidade se transformava num caldeirão: 88 graus. No cais do porto os marinheiros se atiravam do convés como se os navios estivessem naufragando. No Santos Dumont um avião da Ponte-Aérea, ao invés de levantar vôo, embicou dentro d’água. O piloto foi aplaudidíssimo pelos passageiros.
A temperatura estava em torno dos 94 graus. No Sumaré as antenas das emissoras de televisão adernavam, desmaiando lentamente. O Pão de Açúcar começou a derreter como um sorvete de casquinha. Uma mancha escura se espalhava pelo mar. No meio, boiando, o bondinho com turistas americanos fotografando tudo. Outros morros também derretiam. O Dois Irmãos, para surpresa geral, entrou em erupção. A estátua de Cristo tinha desaparecido do alto do Corcovado. Dizem que, quando o morro começou a desmanchar, Ele saiu voando com seus braços abertos. Todo mundo já estava tendo visões e alucinações. Nas calçadas da Visconde de Pirajá — lado da sombra — as pessoas se arrastavam aos gritos de “água, água”. Eram inúmeras as miragens. O pipoqueiro Manuel de Souza jura que viu as Sete Quedas na Praça Nossa Senhora da Paz.
As 17h12min, por fim, o sol começou a perder a força. As pessoas, ainda desconfiadas, foram saindo de dentro das geladeiras, freezers, frigoríficos. Nas câmaras frigoríficas da Cibrazem — contou-se … — havia 12 mil 344 pessoas. Uma sensação de forno quente pairava sobre o Rio. Somente à meia-noite os termômetros voltaram ao normal: 40 graus. Terminara o efeito-estufa, deixando um rastro de dor e destruição. Não havia uma única gota d’água na cidade. Fomos dormir e no Day After, como não havia trabalho, saímos todos para a praia. Pois creiam: no meio do comércio de sanduíches naturais, chapéus, cocadas, óleo para bronzear, o diabo, já tinha nego vendendo um aparelhozinho para dessalinizar a água do mar.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

SESSÃO LEITURA - NO PAÍS DO FUTEBOL - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa644/carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

NO PAÍS DO FUTEBOL

Juvenal Ouriço aproximou-se de um vendedor parado à porta de uma loja de eletrodomésticos e perguntou:
– Qual desses oito televisores os senhores vão ligar na hora do jogo?
– Qualquer um – disse o vendedor desinteressado.
– Qualquer um não. Eu cheguei com duas horas de antecedência e mereço uma certa consideração.
– Para que o senhor quer saber?
– Para já ir tomando posição diante dele.
O vendedor apontou para um aparelho. Juvenal observou os ângulos, pegou a almofada que o acompanhava ao Maracanã e sentou-se no meio da calçada.
– Ei, psiu – chamou-o um mendigo recostado na parede da loja – como é que é, meu irmão?
– Quer me botar na miséria? Esse ponto aqui é meu.
– Eu não vou pedir esmola.
– Então senta aqui ao meu lado.
– Aí não vai dar para eu ver o jogo.
– Na hora do jogo nós vamos lá pra casa.
– Você tem TV em cores?
– Claro. Você acha que eu fico me matando aqui pra quê?
Juvenal agradeceu. Disse que preferia ficar na loja, onde tinha marcado encontro com uns amigos que não via desde a final da Copa de 90.
Aos poucos o público foi aumentando, operários, vendedores, contínuos, vagabundos, e às 15h e 45min já não havia mais lugar diante das lojas de eletrodomésticos, os retardatários corriam de uma para a outra à procura de uma brecha. Alguns ficavam pulando atrás da multidão tentando enxergar a tela do aparelho.
As lojas concentravam multidões. As calçadas da cidade, que já são poucas, desapareciam completamente. Em jogos da Seleção Brasileira, durante a semana, cresce bastante o número de atropelamentos porque o pedestre é obrigado a circular pelas ruas. Além disso, os motoristas ficam muito mais ligados no rádio do que no trânsito.
Na porta da loja onde estava Juvenal havia umas 200 pessoas do lado de fora e somente uma do lado de dentro: o gerente. Até os vendedores da loja já tinham se bandeado afirmando que assistir a um jogo atrás da televisão não é a mesma coisa que vê-lo atrás do gol. Quando a bola saía entravam os comentários dos torcedores.
No início do segundo tempo um cidadão que não se interessava por futebol (um dos 18 que a cidade abriga) foi pedindo licença à galera e com muita dificuldade conseguiu entrar na loja. O gerente foi ao seu encontro: “O senhor deseja algo?”
– Um aparelho de televisão.
– Por que o senhor não leva aquele?
– Qual?
– Aquele que está ligado ali na porta.
– É bom?
– O senhor ainda pergunta? Acha que haveria 200 pessoas diante dele se não tivesse uma boa imagem?
– Bem…
– E não é só isso – completou o gerente aproveitando a euforia do público com um gol do Brasil – que outro aparelho transmite emoções tão fortes?
O cidadão convenceu-se. Disse que ia levá-lo. O gerente, precavido, pediu-lhe para ir à porta da loja apanhá-lo. O cidadão não teve dúvidas. Ignorando aquela massa toda diante do seu aparelho, foi lá tranquilamente e cleck. Desligou-o.
O que aconteceu depois eu deixo por conta da imaginação de vocês.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

SESSÃO LEITURA - A INFORMAÇÃO VESTE HOJE O HOMEM DE AMANHÃ - CARLOS EDUARDO NOVAES

O texto abaixo é de autoria de Carlos Eduardo Novaes.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa644/carlos-eduardo-novaes.
Boa leitura!

A INFORMAÇÃO VESTE HOJE O HOMEM DE AMANHÃ

Pelé tinha razão ao pedir pelos microfones – no dia em que marcou seu milésimo gol – que se cuidasse mais das criancinhas. Realmente é necessário mais cuidado com elas. Eu conheço muita criancinha que já nada lendo a Playboy.
Não, meus caros, as criancinhas não mais aquelas. Estão perdendo rapidamente a infância. E a prosseguir nesse ritmo, daqui a pouco com cinco anos já serão adolescente. Há pouco tempo, remexendo o passado, dei de cara com um pião, velho companheiro de brincadeiras de rua. Sem saber o que fazer com ele resolvi dar de presente para o filho do porteiro. O garoto pegou-o, examinando-o sem muita animação e me perguntou insensível:
- O que é isso?
Seu pai que se aproximava respondeu: um pião. E esquecendo-se por um momento de suas funções na portaria apanhou o brinquedo, agachou-se e numa animação quase infantil ficou tentando solta-lo. O filho, em pé, olhou-o fixo, virou-se para mim e assumindo um ar critico comentou:
- Olha aí – disse apontando para o pai abaixado- parece um débil mental.
Segundo educadores, as mudanças decorrem do fato de as crianças da década crescerem muito bem informadinhas. Um jornal publicou uma matéria baseada em pesquisa realizada entre crianças de 3 a 15 anos (se é que hoje ainda se pode chamar um cidadão de 15 anos de criança) cujo titulo era: “Como se está fazendo o homem de amanhã”. Eu particularmente creio que o homem do amanhã continua sendo feito com os mesmos ingredientes com que se fazia o homem de ontem, ou seja: um homem e uma mulher, que devem ser temperados com uma pitada de amor antes de levados ao forno. Mas não é isso que interessa. Num determinado trecho, a reportagem dizia: “O menino André Luiz, de quatro anos, viu pela TV a chegada do homem a lua. Achou o fato natural, pois estava informado sobre os preparativos e podia descrever perfeitamente o módulo lunar. Sabia de cor o nome dos astronautas e discutia sobre as possibilidades de o homem chegar a marte”. Os senhores estão sentido o drama? André Luiz sabia mais sobre o espaço do que qualquer datilografo da NASA.
A pesquisa revela também que as novas crianças preferem novelas e outros tipos de programa aos feitos especialmente para classe. Outro dia fui a casa do vizinho pedi gelo, e ao chegar assisti a maior discussão entre ele e o filho de cinco anos diante da televisão. Meu vizinho querendo ver desenhos animados e seu filho interessado no National Geographic.
Antigamente os campos eram bem definidos: as crianças de um lado e os adultos do outro. Agora não há mais fronteiras. As crianças invadiram e tomam de assalto mundo dos adultos. Eu me lembro do dia em que, com quatro ou cinco anos, meu pai me levou ao Jóquei Clube. Paramos ali junto ao padoque e pela primeira vez vi um cavalo de perto. Excitado com a novidade, depois de um esforço – se vocês me permitem: cavalar -, o máximo que consegui perguntar ao meu pai era o que o cavalo comia. Pois bem, ontem voltei com meu sobrinho de seis anos ao hipódromo. Recostamos no padoque perto de um cavalo castanho e eu me recordei da cena com o meu pai. Imaginando que o garoto poderia me fazer a mesma pergunta, antecipei-me com um certo orgulho e fui logo lhe informando que “o cavalo come aveia, alfafa e cenoura”. Quando acabei de falar, o menino me lançou um olhar enfastiado e disse:
- O que o cavalo come, eu já sei, tio. Agora estou interessado em saber é quanto ela vai pagar na ponta.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CRÔNICA "AEROPORTO DE CONGONHAS, UMA, DUAS, VÁRIAS VERGONHAS" - AUTOR: CARLOS EDUARDO NOVAES

Ao ser inaugurado, em agosto de 1934, Congonhas era considerado um modelo de "obra aeroviária". Como todo bom aeroporto que se preza, também ficava a alguns minutos da cidade. Cedo, porém, os executivos paulistas, sempre muito atarefados, começaram a reclamar que não podiam perder esses minutos entre a cidade e o aeroporto.
- O senhor compreende - queixou-se um executivo a uma autoridade da época - esse percurso nos rouba um precioso tempo. Será que não dá pra chegar a cidade um pouquinho mais para perto do aeroporto?
A autoridade fez um ar de indignação e exclamou que a proposta "era um absurdo"; mas como São Paulo não pode parar - e não pode parar nem pra pensar - não tomou nenhuma providência. A cidade então foi se aproximando, já ajudada pela população em geral, que desde o início se amarrou em fazer programa no aeroporto. Várias famílias inclusive venderam suas casas de campo e compraram ou­tras em Congonhas para poderem passar um fim de semana mais tranqüilo no aeroporto. A cidade continuou sorratei­ramente se aproximando, se aproximando, pegou as autori­dades distraídas e de repente fez o que os índios fazem com as diligências nos bangue-bangues americanos: cercou o aeroporto.
Hoje, os aviões sobem e descem passando a dois palmos dos telhados das casas e, enquanto outros locais da cidade exaltam suas pracinhas, igrejas, monumentos, lagos, residên­cias, Congonhas se vangloria de ser o único bairro metropo­litano em todo o mundo que possui um aeroporto interna­cional na esquina de suas ruas.
O Aeroporto de Congonhas é um digno exemplo do milagre brasileiro. É realmente um milagre que no local ainda não tenha havido um acidente de proporções super­sônicas. O aeroporto está condenado desde o congresso brasileiro aeronáutico, realizado em 1958. Sua pista prin­cipal tem 1 mil 867 metros e não oferece os padrões de segurança necessários às operações com jatos. Para vocês terem uma idéia: um Boeing-727 necessita de 3 quilômetros de pista para aterrissar ou decolar. E não é muito raro se ver um avião, ao pousar, abrir os pára-quedas, para não varar a pista e sair lá pela Avenida Rubem Berta. Ano passado, um turboélice errou nas contas, atravessou a pista e foi bater num poste na Avenida Jabaquara, causando o maior congestionamento no trânsito. A perícia demorou três horas para chegar (o que não é muito: para os carros demora duas horas) e entre outras coisas concluiu que a empresa deveria pagar uma multa ao Detran.
- Mas - indagou o funcionário da empresa - multa por quê?
- Por avanço de sinal, é claro - disse o perito. ­Várias testemunhas afirmaram que o sinal estava fechado para o seu avião.
E o pior, meus amigos, é que as pistas de Congonhas não podem ser aumentadas, sob pena de se misturarem com as ruas. Já se pensou na solução dos viadutos. São Paulo seria a primeira cidade do mundo a ter uma pista de pouso em cima de um viaduto. Depois, porém, chegou-se à con­clusão de que, pelo tamanho, seria muito oneroso: para satisfazer aos jumbos a pista do aeroporto teria que começar mais ou menos na Praça da República.
Vivendo anos debaixo do ruído permanente das aero­naves, os. moradores de Congonhas, aos poucos, foram modificando seus hábitos, seus costumes, seus encontros:
- Eu queria dar um pulinho aí para lhe ver - disse uma amiga da tia do Aristides, falando pelo telefone.
- Venha mesmo - respondeu a tia - que nós pre­cisamos conversar.
- E qual é a melhor hora pra você? Ah, venha depois do Boeing das oito.
As janelas das casas, por exemplo, só tem a armação.
Os vidros foram dispensados em 1958, quando chegou o primeiro jato. Sempre que levantava vôo, o jato quebrava todas as vidraças do bairro. Os espelhos, para não estilha­çarem, já são comprados aos cacos. As antenas de televisão são subterrâneas. Uma vez, um Lockheed calculou mal a descida e aterrissou com 11 antenas de televisão espetadas no bojo. Apesar de todas as precauções dos moradores, às vezes ocorrem certos imprevistos. Não faz muito tempo, um Jumbo passou tão baixo que arrastou as roupas que estavam estendidas num quintal. A dona da casa teve que ir recla­mar no balcão da companhia:
- Boa tarde - disse ela - eu vim buscar minhas roupas que vieram nesse Jumbo que acabou de descer.
- Pois não - falou a recepcionista - qual é o número de sua mala?
- Não. Elas não estavam na mala.
- Não? - voltou a moça. - Estavam onde, então?
- Estavam no varal lá de casa.

Ninguém no bairro usa relógio. Todos se orientam pelos vôos. Na casa da tia do Aristides a família acorda às 6h43m quando passa o Viscount prefixo PP-PTB; toma banho às l0h29m, na passagem do Boeing-747; almoça às 12h43m com o Caravelle. Aristides, que passou uns dias em Congonhas, ficou impressionado com a tarimba da tia. Um dia acordou e perguntou a ela como estava o tempo lá fora.
- Nublado.
- Mas como é que a senhora sabe, se nem olhou? Nem precisa. Tem um YS-11 há meia-hora roncando aqui em cima. Não há teto para descer.
Em Congonhas, entretanto, corre-se o risco de dormir na cama e acordar na poltrona de um DC-10. Uma vizinha da tia de Aristides conta que uma noite bateram na sua casa às quatro horas da manhã. Ela se levantou e quando abriu a porta deu de cara com um Boeing. Mais desagradável, porém, do que ver um Boeing entrando pela sala sem ser chamado são os problemas causados pela poluição sonora. São 300 decolagens ou aterrissagens por dia, o que dá em média um ronco de avião a cada quatro minutos. Como o ruído dos jatos alcança 140 decibéis - o ouvido humano suporta sem danos 85 - conclui-se que os moradores de Congonhas em matéria de barulho são vice-campeões mundiais. Só perdem mesmo para os moradores do Cabo Ken­nedy, onde os foguetes espaciais decolam a 180 décibéis. Segundo um trabalho da UNESCO, o maior consumo de algodão em todo o mundo é no bairro de Congonhas.
No Hospital do Servidor Público, próximo ao aero­porto, a primeira providência para com uma criança ao nascer é botar-lhe algodão nos ouvidos. Depois, então, corta-se o cordão umbilical. Aliás, é curioso como o resul­tado de uma pesquisa recente revelou que 90% dos me­ninos do bairro ao crescerem querem ser soldados. E por que isso?
- Pra poder servir nas baterias anti-aéreas.
- E o pessoal aqui do bairro normalmente dorme bem? - perguntou o entrevistador.
- Dorme.
- Ninguém tem insônia?
- Às vezes. Um ou outro.
- E quando não se consegue dormir - voltou o en­trevistador - que é que vocês fazem? Contam carneirinhos?
- Não senhor. Contar carneirinho é coisa do passado.
- Também acho - concordou o entrevistador. ­Que fazem, então?
- Contamos aviões.
Há, contudo, casos excepcionais, como o do marido da tia do Aristides, um senhor de 92 anos (20 a mais que ela), cujas profundas olheiras impressionaram tanto a Aristides que ele foi perguntar à tia: "Ele está doente?"
- Não. É que não dorme desde 1958.
- E por quê?
- Não conseguiu se adaptar ao barulho dos jatos - explicou ela - estamos aqui desde 1930. O ruído dos aviões a pistão e turboélices ele não teve dificuldades em assimilar, mas com os jatos não conseguiu. Disse que já estava muito velho para se adaptar a um novo ronco.
Quando, porém, soube da chegada do primeiro super­sônico a Congonhas, o velho correu para a janela. E ficou maravilhado diante do silêncio com que o avião pousou... Voltou para dentro de casa aos berros: "Estou salvo, viva, viva, até que enfim inventaram um avião silencioso, agora poderei dormir, viva" - e comemorando abraçava a todos até ser interrompido bruscamente por um vigoroso estrondo que parecia estar rachando o céu. Parou lívido no meio da sala e perguntou:
- Que foi isso?
- O som do avião.
- Mas que avião? - perguntou o velho consultando os céus. - Não tem avião agora.
- Foi do que acabou de descer. Ele não é mais rápido que o som? Então. Com avião supersônico é assim mesmo. O som chega sempre com 10 minutos de atraso.

Mas afinal, perguntarão vocês, por que essa conversa toda sobre o aeroporto de São Paulo, se nós moramos no Rio? Porque parece que agora as coisas vão mudar. Reconhecendo que o ruído dos aviões vem criando graves problemas para os moradores de Congonhas, as autoridades resolveram interditar os vôos das 22 às 6 horas da manhã, para que o pessoal possa dormir mais um pouco.
- Mas por que só em Congonhas? - perguntou um carioca. - E o pessoal da Ilha do Governador?
- Bem - respondeu um funcionário do DAC - o pessoal da Ilha tem que esperar. Afinal, não pode dormir todo mundo ao mesmo tempo.
E eu fico aqui pensando, irmãos, que isso, e muito mais que não contei, acontece exatamente na terra do pai da avia­ção. Como não estaríamos, então, se isso fosse apenas a terra de um primo da aviação?

COMENTÁRIO DO BLOG: ESSA CRÔNICA FOI PUBLICADA NO LIVRO OS MISTÉRIOS DO AQUÉM, LANÇADO EM 1976.
LEMBRAM DO ACIDENTE COM O AVIÃO DA TAM A POUCO TEMPO? PROFÉTICO NÃO?
E O PARÁGRAFO FINAL? NÃO NOS FAZ RECORDAR OS ATRASOS E AS CONFUSÕES NOS AEROPORTOS EM CERTAS ÉPOCAS?
E ALGUNS AINDA ACHAM QUE A LITERATURA NÃO SERVE PARA NADA.