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quinta-feira, 26 de março de 2026

SESSÃO LEITURA - UM CHUTE - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
Boa leitura!

UM CHUTE

13, sexta-feira. E pela manhã um jornal me dá uma notícia que me deixa amargurado, morreu, nesse terrível desastre de aviação de Aracaju, um amigo meu, Evaldo Coutinho. Revejo sua figura de adolescente tímido, no Recife de 1935, escrevendo sobre King Vidor. E penso em nossa esquiva, silenciosa amizade através desses anos todos.
Talvez eu nunca o tenha procurado para uma conversa, nem ele a mim; mas sempre tive prazer em ver esse homem profundamente inteligente e delicado, quieto, organizado, eficiente que sempre foi uma de minhas admirações de homem desatento, estabanado e desigual.
Sabendo de sua morte fiquei com remorso de não tê-lo conhecido melhor, de não ter sido mais seu amigo.
Vou para a cidade, encontro Pompeu de Souza, falamos de Evaldo com tristeza. Mas logo depois encontro Lêdo Ivo e ele me dá a notícia de que houve um engano do Jornal: quem morreu deve ter sido um primo de Evaldo. Evaldo está vivo, tranquilo, silencioso e cordial atrás de seus óculos. Um abraço para Evaldo, e viva Evaldo!

*

14 de julho, o povo dançará nas ruas de Paris, através das noites quentes e iluminadas. Penso em Beatrix Reynal, que revi outro dia, e está organizando a exposição de desenhos infantis — dos desenhos que sobraram daquele imenso concurso que ela, com um esforço monstruoso e gastando uma pequena fortuna, fez durante a guerra, entre as crianças brasileiras. E que algum sabotador criminoso deixou apodrecer, aos milhares, em um porão da embaixada francesa. Nenhum francês fez tanto pela sua terra, na hora da desgraça, como essa mulherzinha nascida no Uruguai. E poucos brasileiros terão feito tanto pela nossa gente doente e miserável, pelas nossas crianças pobres e tristes. 14 de julho, eu mando um aperto de mão a Beatrix Reynal.

*

Circulo um pouco pela cidade, de manhã, resolvo umas coisas mais ou menos cacetes. E de repente, na Esplanada do Castelo, reparo nesta coisa simples: estou feliz. Não me acontece nada de especial; minha felicidade é gratuita, deriva destas coisas simples: o céu está azul, o sol está louro, eu estou andando na rua. Meu sapato é confortável, minha roupa é limpa, meu corpo está bem. Passa uma menina com uma fita nos cabelos; em um terreno livre há um grupo de mecânicos que aproveitam a hora do almoço para um bate-bola. A bola vem para o meu lado; devolvo-a com um chute, e meu chute é certo, e é saudado com um “oba!” por um dos homens de macacão, que pega a bola com a cabeça. Estou definitivamente feliz. Meus problemas de dinheiro, minhas tristezas, minhas aflições, nada tem importância. Posso amar a quem não me liga, fazer o que me desgosta, não fazer o que queria — mas neste momento sou apenas um animal feliz: o dia está lindo e eu estou andando com prazer de andar. Sou um animal feliz. E meu chute foi bonito.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/9865/um-chute.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

SESSÃO LEITURA - VIZINHA II - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
Boa leitura!

VIZINHA II

Eu falei de uma redação no vigésimo andar e de uma vizinha, rosada e loura, no terraço ao lado.
O jornal era um jornal muito vivo, e continuou assim até que um dia lhe aconteceu o que acontece com tudo o que é vivo: morreu.
Os rapazes foram-se embora: uns a resmungar, porque não haviam recebido o último ordenado; outros, mais polidos, apresentaram pêsames e lamentaram o fato. Um a um, juntaram coisas de suas gavetas e partiram para outras redações. Fiquei apenas eu na sala grande que a penumbra ia invadindo. Levantei-me da cadeira, comecei a fechar as janelas. Para os lados do poente ainda havia uma vaga luz sobre as montanhas, e contemplei um instante o morro com bananeiras e o grande relógio azul da Central, lá longe. Quando fui fechar as janelas do lado sul vi que a vizinha estava à porta de sua casa no terraço.
Cantarolava uma coisa qualquer; dei-lhe um adeus a que ela não respondeu; e parti.
E a grande sala ficou fechada, com inúteis papéis e fotografias nas gavetas de suas mesas; fechada, escura e fria. O jornal foi esquecido: mas enquanto se resolvia o destino das coisas a grande sala continuou desabitada.
Uma destas manhãs precisei ir lá. Quando entrei, achei o ar pesado e morno, e embora não devesse demorar muito, resolvi abrir todas as janelas. A vizinha estava de costas, junto ao muro do terraço defronte de uma janela, secando seus cabelos ao sol. Ouvindo o ruído da janela que se abria, voltou-se, e deu comigo. Cumprimentei-a gravemente com um aceno de cabeça; e ela, surpreendida, retribuiu a minha saudação. Depois foi para mais longe. Afastei-me da janela, mas fiquei um instante a observá-la. Ela passava os pentes nos cabelos molhados, esticando-os ao sol. Assim como tantas vezes a vimos, lá estava a “holandesa” ou a “madona”, loura, roliça, eterna, eternamente a enxugar seus cabelos ao sol de toda manhã. Agora estava de perfil, mas achei que espreitava com um canto de olho enquanto eu abria todas as janelas. Durante muito tempo ela vira aquelas cinco janelas fechadas: era natural que estranhasse a novidade.  
Quando fui fechar a janela para sair, fiquei tentado a dizer-lhe alguma coisa — perguntar se alguma vez sentira saudade de nós, ou se estava mais feliz sem os olhares importunos dos rapazes da redação. Tive vontade de dizer: “eles vão voltar”!, ou de perguntar-lhe porque lavava tanto os cabelos. Olhei-a um instante indeciso. Imagino que ela tinha a consciência de que eu a olhava, embora não se tivesse voltado. Hesitei um instante, a mão na correia que puxa a persiana. E então considerei que a imagem daquela mulher moça, com seus braços rosados e roliços e seus cabelos molhados brilhando ao sol talvez tivesse ficado também na lembrança de todos os rapazes da redação. Certamente nenhum se lembrou dela depois da morte do jornal, e quando eles se encontram nenhum terá a ideia de falar dessa imagem sem nome e sem história. Entretanto estivemos todos na sua vizinhança, meses e meses, sobre a cidade múrmure; nossos destinos se defrontaram assim em silêncio, e se afastaram. Rapazes, inquietos rapazes de Jornal; quem sabe se a felicidade de algum de vós não estaria naquela mulher sossegada, roliça e cantarolante, muito loura e rosada, no seu terraço modesto, a lavar e enxugar com preguiça os cabelos toda manhã de sol?
Tenho uma tendência a pensar tolices meigas; pensar na solidão da criatura humana, no acaso que dirige o encontro das pessoas, e seus desencontros no tempo e no espaço; no gesto que ninguém fez, na palavra que não se disse, no sentimento que não se suspeitou. Olhei ainda um instante a mulher: ela me parecia eterna como uma estátua ao sol, a estátua de todo o banal mistério humano, a estátua de toda a vida que não acontece, de todo o destino que poderia ter sido. Lentamente, em silêncio, baixei a janela sobre sua imagem, apanhei minhas coisas, e parti.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/10493/vizinha-ii. 

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - A TRISTE LÍNGUA DO RÁDIO - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
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Boa leitura!

A TRISTE LÍNGUA DO RÁDIO

Quando ouço alguém dizer que domina perfeitamente uma língua estrangeira, não acredito. O sentimento que temos de cada palavra é alguma coisa funda e fluida, que vem desde a infância, que faz parte de nossa própria vida, que tem gosto, som, temperatura, consistência, cheiro; cada palavra é uma longa experiência sensorial, emocional e intelectual que vivemos ao longo de toda a existência. Podemos aprender o seu sentido; mas como apreender sua substância, ouvir seu eco mais íntimo se antes não “vivemos” essa palavra?
Há palavra que nos levam à infância — “torresmo”, “tacho”, “jenipapo”, outras ao fim do curso primário, como “aliás” ou “adversário”.
A infância de hoje tem um vocabulário diferente do meu tempo de menino, porque aprendeu muita coisa na linguagem quase sempre pernóstica do rádio — que existe de mais alarmante que a falsa riqueza vocabular de alguns locutores de futebol? Já essa palavra “locutor” me arrepia um pouco, com seu ar douto e latinizante. Acho que está bem e não proponho nenhuma outra em seu lugar — mas é irresistivelmente antipática, lembra colégio, sala de operação, processo inquisitorial.
O rádio, com sua força tremenda, tende a unificar a linguagem nacional a um ponto impossível de imaginar antes; a língua oficial falada no Brasil em todos os círculos sociais e em todos os estados é, afinal de contas, a da Rádio Nacional. Se amanhã o pessoal dessa estação resolver inventar um adjetivo qualquer — suponhamos, “obvioso” —, esse adjetivo passará a ser falado e escrito por milhões de pessoas, do Acre ao Rio Grande do Sul, com a maior naturalidade.
De alguns anos pra cá a gíria carioca passou a ser fabricada pelo rádio; se em um programa muito ouvido uma pessoa com voz engraçada disser, de vez em quando, “porém talvez”, essa tolice será repetida por nós todos.
Antigamente uma expressão de gíria, para vencer, tinha que passar por um longo processo de seleção; devia ser transmitida de boca em boca até alcançar uma letra de samba ou uma revista de teatro.
Hoje, o Estado ou um grupo capitalista pode impor até um falso folclore, pré-fabricado, como impõe sentimentos e opiniões. O pior é que o rádio se popularizou sem nenhuma tradição intelectual ou cultural e até hoje é relativamente fraco nesse terreno. E grandes massas votam “de ouvido”, pensam “de ouvido”, sentem “de ouvido”…
No meio desses males, a influência pernóstica ou cafajeste do rádio sobre a língua é um mal menor. Mas sempre me dói ouvir uma criança dizer “ludibriar” ou “ultrapassar”… Isso me dá pena.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/a-triste-lingua-do-radio-cronica-de-rubem-braga/.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

SESSÃO LEITURA - A TARTARUGA - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
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A TARTARUGA

Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, Rua Bolívar, 70, de propriedade do Sr. Francisco Mandarino. Porque eis que ele é um homem de bem.
O caso foi que lhe mandaram uma tartaruga de cerca de cento e cinquenta quilos, dois metros e (dizem) duzentos anos, a qual ele expôs em sua peixaria durante três dias e não quis vender; e levou até a praia, e a soltou no mar.
Havia um poeta dormindo dentro do comerciante, e ele reverenciou a vida e a liberdade na imagem de uma tartaruga.
Nunca mateis a tartaruga.
Uma vez, na casa de meu pai, nós matamos uma tartaruga. Era uma grande, velha tartaruga-do-mar que um compadre pescador nos mandara para Cachoeiro.
Juntam-se homens para matar uma tartaruga, e ela resiste horas. Cortam-lhe a cabeça, ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho, de súbito. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo.
De repente os homens param e se entreolham, com o vago sentimento de estar cometendo um crime.
Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, de Francisco Mandarino, porque nele, em um momento belo de sua vida vulgar, o poeta venceu o comerciante. Porque ele não matou a tartaruga.

Rubem Braga, Rio de Janeiro, julho de 1959.

Fonte: https://www.tamar.org.br/noticia1_ing.php?cod=580.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

SESSÃO LEITURA - DESPEDIDA - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
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DESPEDIDA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.
Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?
Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.
Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.
A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Fonte: https://iclnoticias.com.br/cronica-rubem-braga-saudade-amores-que-findam/.

quinta-feira, 14 de março de 2024

SESSÃO LEITURA - AS BOAS COISAS DA VIDA - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
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AS BOAS COISAS DA VIDA

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:
– Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.
– Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.
– Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.
– Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.
– Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.
– Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.
– Viajar, partir…
– Voltar.
– Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.
– Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

Fonte: https://manoelafonso.com.br/cronica/as-boas-coisas-da-vida/.

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

SESSÃO LEITURA - O COLÉGIO DE TIA GRACINHA - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
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O COLÉGIO DE TIA GRACINHA

Tia Gracinha, cujo nome ficou no grupo escolar Graça Guardiã, de Cachoeiro de Itapemirim, era irmã de minha avó paterna, mas tão mais moça, que a tratava de mãe. Eu era certamente menino, quando ela e o tio Guardiã — um simpático espanhol de cavanhaque, que fora piloto em sua terra — saíram de Cachoeiro para o Rio. Assim, tenho do colégio de Tia Gracinha uma recordação em que não sei o que é lembrança mesmo e lembrança de conversas que ouvi menino.
Lembro-me, sobretudo, do pomar e do jardim do colégio, e imagino ver moças de roupas antigas, cuidando das plantas. O colégio era um internato de moças. Elas não aprendiam datilografia nem taquigrafia, pois o tempo era de pouca máquina e nenhuma pressa. Moças não trabalhavam fora. As famílias de Cachoeiro e de muitas outras cidades do Espírito Santo mandavam suas adolescentes para ali; muitas eram filhas de fazendeiros. Recebiam instrução geral, uma espécie de curso primário reforçado, o mais eram prendas domésticas. Trabalhos caseiros e graças especiais: bordados, jardinagem, francês, piano…
A carreira de toda a moça era casar, e no colégio de Tia Gracinha elas aprendiam boas maneiras. Levavam depois, para as casas de seus pais e seus maridos, uma porção de noções úteis de higiene e de trabalhos domésticos, e muitas finuras que lhes davam certa superioridade sobre os homens de seu tempo. Pequenas etiquetas que elas iam impondo suavemente, e transmitiam às filhas. Muitas centenas de lares ganharam, graças ao colégio de Tia Gracinha, a melhoria burguesa desses costumes mais finos. Eu avalio a educação de Tia Gracinha pela delicadeza de duas de suas alunas — minha saudosa irmã e madrinha Carmozina, e minha prima Noemita.
Tudo isto será risível aos olhos das moças de hoje; mas a verdade é que o colégio de Tia Gracinha dava às moças de então a educação de que elas precisavam para viver sua vida. Não apenas o essencial, mas muito do que, sendo supérfluo e superior ao ambiente, era, por isto mesmo, de certo modo, funcional — pois a função do colégio era uma certa elevação espiritual do meio a que servia. Tia Gracinha era bem o que se podia chamar uma educadora.
Lembro-a na casa de Vila Isabel, onde vivia com o marido, a filha, o genro, os netos, a irmã Ana, que ela chamava de mãe, e que para nós era a Vovô Donana, e a sogra de idade imemorial, que, à força de ser Abuelita, acabara sendo, para nós todos, Vovó Bolita. Tinha nostalgia, talvez, de seu tempo de educadora, de seu belo colégio com pomar às margens do Córrego Amarelo, afluente do Itapemirim; lembro-me de que uma vez me pediu algum livro que explicasse os novos sistemas de educação, o método de ensinar a ler sem soletrar — e me fez esta indagação a que eu jamais poderia responder: “E piano, como é que se ensina piano, hoje?”
Gostava de seu piano. O saudoso Mário Azevedo sabia tocar várias de suas composições, feitas lá em Cachoeiro; lembro-me de uma pequena valsa cheia de graça, finura e melancolia — parecida com a alma de Tia Gracinha.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-colegio-de-tia-gracinha-cronica-de-rubem-braga/.

quinta-feira, 29 de junho de 2023

SESSÃO LEITURA - MEU IDEAL SERIA ESCREVER... - RUBEM BRAGA

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MEU IDEAL SERIA ESCREVER...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa),  enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!” 
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário (autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”
E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história…”
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro. 

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/dica-cultural/cronica-3-textos-instigantes-para-gostar-do-genero.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

SESSÃO LEITURA - O GAVIÃO - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
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O GAVIÃO

Gente olhando para o céu: não é mais disco voador. Disco voador perdeu o cartaz com tanto satélite beirando o sol e a lua. Olhamos todos para o céu em busca de algo mais sensacional e comovente – o gavião malvado, que mata pombas.
O centro da cidade do Rio de Janeiro retorna assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que “columbófilo”) querem matar o gavião. Os amigos deste dizem que ele não é malvado tal; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.
Não tomarei partido; admiro a túrgida inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry, “a verdade do gavião”, mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.
Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem.

Fonte: https://ead.pucpr.br/blog/o-que-e-cronica.

quinta-feira, 24 de março de 2022

SESSÃO LEITURA - A BORBOLETA AMARELA - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
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A BORBOLETA AMARELA

Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.
Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da A.B.I. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria um jornalista? – pensei com certo tédio.
Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse: ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera no seu voo saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa ideia. Quando eu o mandar fazer os jardins de meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare... Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.
A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel. Naquele ângulo há um jardinzinho, atrás da Biblioteca Nacional. Ela passou entre os ramos de acácia e de uma árvore sem folhas, talvez um "flamboyant"; havia, naquela hora, um casal de namorados pobres em um banco, e dois ou três sujeitos espalhados pelos outros bancos, dos quais uns são de pedra, outros de madeira, sendo que estes são pintados de azul e branco. Notei isso pela primeira vez, aliás, naquele instante, eu que sempre passo por ali; é que a minha borboleta amarela se tornava sensível às cores.
Ela borboleteou um instante sobre o casal de namorados; depois passou quase junto da cabeça de um mulato magro, sem gravata, que descansava num banco; e seguiu em direção à Avenida. Amanhã eu conto mais.
***
Eu ontem parei a minha crônica no meio da história da borboleta que vinha pela rua Araújo Porto Alegre; parei no instante em que ela começava a navegar pelo oitão da Biblioteca Nacional.
Oitão, uma bonita palavra. Usa-se muito no Recife; lá, todo mundo diz: no oitão da igreja de São José, no oitão do Teatro Santa Isabel... Aqui a gente diz: do lado. Dá no mesmo, porém oitão é mais bonito. Oitão, torreão.
Falei em torreão porque, no ângulo da Biblioteca, há uma coisa que deve ser o que se chama um torreão. A borboleta subiu um pouco por fora do torreão: por um instante acreditei que ela fosse voltar, mas continuou ao longo da parede. Em certo momento desceu até perto da minha cabeça, como se quisesse assegurar-se de que eu a seguia, como se me quisesse dizer: "estou aqui".
Logo subiu novamente, foi subindo, até ficar em face de um leão... sim, há uma cabeça de leão, aliás há várias, cada uma com uma espécie de argola na boca, na Biblioteca. A pequenina borboleta amarela passou junto ao focinho da fera, aparentemente sem o menor susto. Minha intrépida, pequenina, vibrante borboleta amarela! pensei eu. Que fazes aqui, sozinha, longe de tuas irmãs que talvez estejam agora mesmo adejando em bando álacre na beira de um regato, entre moitas amigas – e aonde vais sobre o cimento e o asfalto, nessa hora em que já começa a escurecer, oh tola, oh tonta, oh querida pequena borboleta amarela! Vieste talvez de Goiás, escondida dentro de algum avião; saíste no Calabouço, olhaste pela primeira vez o mar, depois...
Mas um amigo me bateu nas costas, me perguntou "como vai bichão, o que é que você está vendo aí?" Levei um grande susto, e tive vergonha de dizer que estava olhando uma borboleta; ele poderia chegar em casa e dizer: "encontrei hoje o Rubem, na cidade, parece que estava caçando borboleta".
Lembrei-me de uma história de Lúcio Cardoso, que trabalhava na Agência Nacional: Um dia acordou cedo para ir trabalhar; não estava se sentindo muito bem. Chegou a se vestir, descer, andar um pouco junto da Lagoa, esperando condução, depois viu que não estava mesmo bem, resolveu voltar para casa, telefonou para um colega, explicou que estava gripado, até chegara a se vestir para ir trabalhar, mas estava um dia feio, com um vento ruim, ficou com medo de piorar – e demorou um pouco no bate-papo, falou desse vento, você sabe (era o noroeste) que arrasta muita folha seca, com certeza mais tarde vai chover etc., etc..
Quando o chefe do Lúcio perguntou por ele, o outro disse: "Ah, o Lúcio hoje não vem não. Ele telefonou, disse que até saiu de casa, mas no caminho encontrou uma folha seca, de maneira que não pode vir e voltou para casa."
Foi a história que lembrei naquele instante. Tive – por que não confessar? – tive certa vergonha de minha borboletinha amarela. Mas enquanto trocava algumas palavras com o amigo, procurando despachá-lo, eu ainda vigiava a minha borboleta. O amigo foi-se. Por um instante julguei, aflito, que tivesse perdido a borboleta de vista. Não. De maneira que vocês tenham paciência: na outra crônica, vai ter mais história de borboleta.
***
Mas, como eu ia dizendo, a borboleta chegou à esquina de Araújo Porto Alegre com a Avenida Rio Branco; dobrou à esquerda, como quem vai entrar na Biblioteca Nacional pela escada do lado, e chegou até perto da estátua de uma senhora nua que ali existe; voltou; subiu, subiu até mais além da copa das árvores que há na esquina – e se perdeu.
Está claro que esta é a minha maneira de dizer as coisas; na verdade, ela não se perdeu; eu é que a perdi de vista. Era muito pequena, e assim, no alto, contra a luz do céu esbranquiçado da tardinha, não era fácil vê-la. Cuidei um instante que atravessava a Avenida em direção à estátua de Chopin; mas o que eu via era apenas um pedaço de papel jogado de não sei onde. Essa falsa pista foi que me fez perder a borboleta.
Quando atravessei a Avenida ainda a procurava no ar, quase sem esperança. Junto à estátua de Floriano, dezenas de rolinhas comiam farelo que alguém todos os dias joga ali. Em outras horas, além de rolinhas, juntam-se também ali pombos, esses grandes, de reflexos verdes e roxos no papo, e alguns pardais: mas naquele momento havia apenas rolinhas. Deus sabe que horários têm esses bichos do céu.
Sentei-me num banco, fiquei a ver as rolinhas – ocupação ou vagabundagem sempre doce, a que me dedico todo dia uns 15 minutos. Dirás, leitor, que esse quarto de hora poderia ser mais bem aproveitado. Mas eu já não quero aproveitar nada; ou melhor, aproveito, no meio desta cidade pecaminosa e aflita, a visão das rolinhas, que me faz um vago bem ao coração.
Eu poderia contar que uma delas pousou na cruz de Anchieta; seria bonito, mas não seria verdade. Que algum dia deve ter pousado, isso deve; elas pousam em toda parte; mas eu não vi. O que digo, e vi, foi que uma pousou na ponta do trabuco de Caramuru. Falta de respeito, pensei. Não sabes, rolinha vagabunda, cor de tabaco lavado, que esse é Pai do Fogo, Filho do Trovão?
Mas essa conversa de rolinha, vocês compreendem, é para disfarçar meu desaponto pelo sumiço da borboleta amarela. Afinal arrastei o desprevenido leitor ao longo de três crônicas, de nariz no ar, atrás de uma borboleta amarela. Cheguei a receber telefonemas: "eu só quero saber o que vai acontecer com essa borboleta". Havia, no círculo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grandes proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefonar... Adeus, pequenina borboleta amarela.
 
Rio, setembro de 1952

Fonte: http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/aborboletaamarela.htm.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

SESSÃO LEITURA - O PAVÃO - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
Boa leitura!

O PAVÃO

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rio, novembro, 1958

Fonte: https://armazemdetexto.blogspot.com/2020/07/cronica-o-pavao-rubem-braga-com-gabarito.html.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

SESSÃO LEITURA - O VERÃO E AS MULHERES - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é de autoria de Rubem Braga.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
Boa leitura!

O VERÃO E AS MULHERES

Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Estamos tranquilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.
Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.
Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.
Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.
Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.
Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-verao-e-as-mulheres-cronica-de-rubem-braga/.