Mostrando postagens com marcador JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

SESSÃO LEITURA - ADEUS, 1976 - JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

ADEUS, 1976

1. Para o fim do ano: miudezas e pérolas, enquanto se faz um exame de consciência.
A pérola fica por conta de Vinicius de Moraes. Antônio e eu fomos visitá-lo, e encontramos o poetinha na santa paz de seu coração, acompanhado do filho Pedro que é também um artista. Vinicius nos mostrou um álbum de magníficas fotos do Rio de Janeiro, com textos assinados por ele e por Ferreira Gullar. Depois, comentou:
— Imaginem vocês que as pessoas ficando doidas, generosas e sem critério. Apareceu aí um publicitário me oferecendo um dinheiro por 30 segundos na TV. Meu trabalho era só aparecer com um copo de uísque na mão, dizendo:
“Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto DRURY'S”!
2. Por falar em Gullar, sonhei que ele estava de volta ao Brasil, após longa temporada no exterior. Fiquei feliz (depois de acordar), ao percorrer as livrarias e verificar que o Poema sujo está esgotado. Feliz pelo poema, a voz reencontrada, a saudade do Brasil concentrada na infância e no Maranhão. Triste, por ser apenas um sonho. Só quem andou longe pode avaliar o que vem a ser a saudade deste país, onde nascemos e, bem ou mal, temos que tocar para a frente. Certa vez, intentando um exílio voluntário, fui apanhado por esse sentimento em plena neve, no Boulevard de Montparnasse. Algumas horas depois, voava de volta ao lar. Sabem o que me lançara naquela necessidade urgente de pátria? O mais infantil dos desejos: eu queria provar o gosto da cerveja Malzbier, geladinha, num botequim bem vagabundo! Por isso abandonei a França e um destino que já se configurava. O único país que temos é este Brasilzinho avacalhado, de samba, futebol e outras bossas que não trocamos por nenhum outro. No sonho, recebíamos Gullar com solene festa, ao jeito que ele prefere, sem destemperos e com aguda percepção do nosso destino nacional. Os seus mortos queridos, que se vão na flor da idade, estavam presentes. E recitavam o meu predileto na coleção da Luta Corporal:
“As rosas que colho não são essas, frementes na iluminação da manhã”...
3. Bomba! Bomba! Paul Newman despistou todo mundo e está em minha casa, bebendo champanhe e fazendo retiro espiritual. Explicou que não pretende badalar com Jorginho Guinle, Tânia Caldas, Odile e Paulo Coelho. “Badalação eu tenho em toda parte, o ano inteiro”, comentou. E anunciou a chegada, em três ou quatro semanas, de Frank Sinatra em pessoa, agora que foi desfeita a maldição da bruxa. Todos sabem que uma bruxa, nos anos 40, advertiu Sinatra: “Não vá ao Brasil antes de 1977, que a morte te alcança”.
Liberado agora pelas potências infernais, poderá finalmente conhecer o nosso jet set.
Mas pede que não o obriguem a cantar no Fantástico, andando descalço na beira do mar.
4. Não vejo Ronaldinho há três meses. É um boêmio de Ipanema, famoso pelas confusões em que se envolve, e que felizmente sempre terminam bem. Telefonei para lhe dar as boas festas e o papo foi rápido:
— Alô? Ronaldinho?
— Ele mesmo.
— Aqui é o Carlinhos, pô.
A resposta veio apavorada, do fundo do abismo dessa noite que principiou na véspera do Natal:
— Carlinhos... Eu não me lembro de nada, mas estou profundamente arrependido!
Desliguei, concluindo que, como diz Vinicius, o pessoal está mesmo doido e sem critério.
Agora, avancemos, trôpegos, na direção de 1977!

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16305/adeus-76.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

SESSÃO LEITURA - AVÔ E NETA - JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

AVÔ E NETA

O avô que veio de Minas está sentado num sofá, junto da neta, diante da janela panorâmica do apartamento. O avô está de pijama e chinelos e a neta está sossegada, curtindo aquele avô que veio de Minas para morar na casa dela, no Leblon. Através da vidraça, do outro lado da janela, eles veem uma agência dos Correios e Telégrafos, em cujo mastro está hasteada, batida de chuva, a bandeira brasileira. É o dia 19 de novembro. O nome da menina é Glorinha; o do velho, Vovô Matos. A menina vai fazer três anos, não demora. Para curtir o avô, que gosta muito de explicar as coisas e contar histórias, ela puxa o papo:
- Vô... Que pano é aquele que está ali naquele pau, tomando chuva?
- Ah... Bem, Glorinha... Aquele pau não é um pau como outro qualquer. Aquele pau é um mastro. E aquele pano não é um pano qualquer. Aquilo é uma bandeira. A nossa bandeira, compreende? A bandeira do Brasil.
- Bandeira do Brasil? Eu já vi na televisão, mas não é assim que eles cantam, não. Eles cantam “Salve lindo”. Eu pensei que o nome dela era “Salve lindo”.
- Bem... “Salve lindo” é o hino da bandeira. (Cantarolando) “Salve lindo pendão da esperança, salve símbolo augusto da paz”... Não é isso?
- É.
- Pois este é o hino da bandeira. Ela hoje está fazendo anos. Quando as crianças fazem anos, a gente canta os “Parabéns pra você”. E, quando a bandeira faz anos, a gente canta o “Salve lindo”.
- A mãe da bandeira do Brasil é lavadeira?
- O quê? - Estou achando que a mãe da bandeira do Brasil é lavadeira, porque ela botou a bandeira pra secar, e agora veio a chuva e estragou tudo.
- Não, Glorinha. Bandeira não tem mãe. Ela está ali porque, quando a bandeira faz anos, a gente bota ela no mastro. Se hoje tivesse sol e vento, ela ia ficar linda, tremulando. Pausa.
- Vô... Uma bandeira é o quê? Um brinquedo?
- De certa forma é um brinquedo, mas um brinquedo muito sério. Vou te explicar. Quando você tira um retrato, sendo pequenina, você aparece inteirinha num retrato. Certo?
- Certo.
- Pois então. Quando foram tirar o retrato do Brasil, verificaram que o Brasil era tão grande, mas tão grande, que não ia caber no retrato. Aí, eles fizeram a bandeira, que representa o Brasil. Ela parece pequenina, mas não é não, é tão grande quanto o Brasil. É um símbolo.
- Quer dizer que o Brasil é verde, amarelo, azul e branco?
- Isso mesmo.
- E as estrelinhas... É o céu do Brasil?
- É o céu do Brasil, sim. Cada estrelinha representa um estado do Brasil. Cada uma tem um nome. Você nasceu no Rio, não foi?
- Nasci na Casa de Saúde Santa Teresinha.
- Pois é, mas a Casa de Saúde Santa Teresinha fica no Rio, por tanto você é carioca. Isto quer dizer que tem ali uma estrelinha só para você. Se não me engano, chama-se Alfa da Hidra Fêmea. Tem uma estrela para Minas, outra para Pernambuco, e assim por diante até pegar tudo quanto é estado brasileiro e, de quebra, o Distrito Federal, que fica em Brasília. [...]
- Vô... quem foi Augusto da Paz?
- O quê?
- Quem foi Augusto da Paz? Eu vejo todo mundo cantando assim na televisão: “Salve o lindo pendão da esperança salve o símbolo Augusto da Paz”...
- Ah, Glorinha, você te m cada uma... Essa pergunta eu não sei responder não... Daria muito trabalho...

Fonte: http://www.colegiosantacatarina.com.br/wp-content/uploads/2020/03/Fund1-5%C2%BAano-Ling-Port-1.pdf.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

SESSÃO LEITURA - O RECÉM-CASADO - JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

O RECÉM-CASADO

Encontro um velho companheiro de farras:
— Estou indo para a Cidade — diz ele. — Agora estou trabalhando no setor imobiliário. Olha o meu dedo. (Mostra-me a aliança no anular esquerdo.) Casei. É, casei. Você lembra como a gente brigava. Pois é, mas acabamos casando. Ninguém sabe como é isso; depois do casamento, não brigamos mais. Casamos porque todo dia a gente brigava, se separava, e na semana seguinte tudo recomeçava. Ela chegou à conclusão de que a única maneira de a gente se separar mesmo era casando... O casamento foi legal. — Nos dois sentidos. Apareceu um juiz togado e ela ficou uma fera. "Ora vejam!" disse ela. "Por que não me avisaram que o negócio seria à fantasia?" O juiz ficou encabulado. Nós estávamos um pouco tontos, esta é que é a verdade. A comemoração começou de manhã cedo. Mas o casamento só ficou chato quando o juiz começou a falar aquelas palavras que todo mundo conhece. Perguntou a ela: "A senhora insiste?" Ela respondeu que sim. E o juiz perguntou: "A senhora persiste?" E ela respondeu: "Bom, persistir... não chego a tanto. Insistir, insisto, mas persistir já acho meio forte." Mas o pior foi quando o juiz nos chamou de nubentes. Ora veja você: nubentes! Eu tive vontade de dizer que nubente era a vovozinha dele.
— Ela está descansando na serra. Vou subir no fim da semana. Estamos comprando uma casinha lá na serra. Quando tudo estiver arrumado, vou reunir a turma. Você está convidado. Nós não brigamos mais, porém estou proibido de contar as histórias nossas, da turma. Ela me disse: "Você nunca me contou uma história de bebedeira que terminasse bem. Todas as suas histórias terminam com todo mundo brigando ou todo mundo no distrito." E ela tem toda razão. Fiz um balanço das minhas histórias com a turma e, de fato, todas terminam em pancadaria. Você se lembra quando fomos presos em Magé? Pois é. Até hoje não compreendi como é que fomos parar naquela delegacia. E aquele botequim de Teresópolis? Olha, outro dia estávamos lá e ela quis entrar no boteco para comprar não sei o quê. Eu disse que não entrava e ela perguntou qual a razão. Mudei de assunto, ela insistiu, acabamos entrando. Na hora de entrar, pensei: "Pronto, vai começar tudo de novo." Felizmente, não me reconheceram. Você se lembra do botequim, não é? O tal que o dono veio contar anedota pornográfica para nós. A gente estava com a Lili e eu resolvi interpelar o camarada. Ele veio com o revolver e eu disse: "Vem você com o teu revolver e chama mais dois, pois eu sou mais eu." O cara medrou, lembra? Pois é. Mas essa história eu não posso contar a ela, pois termina em briga... Quer dizer, a história termina em briga, e ela acaba brigando comigo por causa das minhas histórias que sempre terminam em briga... Não, não tenho visto a turma não. Deixei de ir aos botecos. Agora sou um homem direito. Eu agora sou nubente, morou? Nubente... Acontece cada uma! E você? Casou? Ah, não? Quer dizer que continua na farra? Você é que é feliz...

quinta-feira, 12 de junho de 2014

SESSÃO LEITURA - PSICOLOGIA DO TORCEDOR - JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

O texto que apresentamos abaixo é da autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/jcoliveira_menu.asp.
Boa leitura!

PSICOLOGIA DO TORCEDOR

Acompanhei o jogo ao lado de meu primo Robertinho. Encostado num carro, em frente ao Café e Bar Silva Cruz (Posto 6), Robertinho ouvia a partida num rádio de pilha, fazendo comentários que achei quase tão interessantes quanto a dramática luta da seleção brasileira contra a do Peru:
— Zero a zero. O negócio não está mole. Meu Deus, o Aimoré insiste em botar o Tostão jogando pelo lado direito: Meu Deus, meu Deus… Sadi, segura o homem, Sadi… Segura o homem, Sadi. Segura esse tal de Bailon, Sadi! Ai meu Deus, é gol.
Peru, 1 a zero.
— Cláudio não tem tamanho para ser goleiro de seleção. Ele pegou a bola e largou. Pegar a bola e largar, veja só. E Gérson está jogando muito recuado. Estamos fritos. Ai Jesus, lá vão eles. Segura os homens, Joel! Não me faça uma coisa dessas Brito! Pronto… É gol… E agora?
Peru 2, Brasil zero.
— O Rivelino não está jogando bulhufas. Os homens estão cansados com essa excursão inteiramente maluca. Eles jogam de dia e viajam de noite; jogam de noite e viajam de dia. Assim não vai. Esse negócio de ir fazer festa para os crioulos em Moçambique não tem o menor sentido. Se queremos mostrar o nosso amor pelo Dr. Oliveira Salazar, o certo é a gente jogar lá mesmo em Lisboa. O pessoal aqui dos botequins ficaria feliz da mesma forma. Mas essa de Moçambique, essa não é normal. Não é normal; compreende? Anda, Natal, manda bala! Manda bala, Natal! E gol.
Peru 2, Brasil 1.
— Pelo menos de zero não vamos perder: Esse Aimoré está completamente por fora, com suas táticas superadas. A derrota até que vai ser boa, em certo sentido, porque a gente poderá exigir que Zagalo seja o técnico da seleção. Olha lá que mulher boa esta vindo para cá. Aquela de mini-saia em frente ao Cinema Caruso. Meu Deus, mini-saia com meias três-quartos eu não agüento. Essa moda não é normal. Palavra de honra que isso não é normal: Ai; Lá vão eles. Segura os homens, Sadi! Não posso crer: é gol. Gol dos peruanos.
Peru 3, Brasil 1.
— Você viu a pelota que a garota me deu? O papai aqui está agradando mais do que Coca-Cola em festa de criança. O juiz marcou. Gérson vai cobrar. Dá-lhe, Gérson. Ah, não. Essa não: Chuta em gol, meu Deus. Manda bala! Gérson deu a Roberto, essa não… E gol! É gol!
Peru 3, Brasil 2.
— Jairzinho está combinando bem com Roberto. Tostão já deu no pé. Coitado, um grande jogador tendo que se disciplinar para obedecer à tática do Aimoré. Lá vai Jairzinho. Lá vai e ele. E o Botafogo, o negócio é o Botafogo! É gol! Empatamos! Conseguimos empatar!
Brasil 3, Peru 3.
— O negócio agora está quente. O que Gérson está jogando não é normal. Palavra de honra que não é normal. Agora nós vamos no no embalo. É só ir no embalo. Lá vamos nós. Todo mundo na área inimiga. Assim é que eu gosto. Carlos Alberto, carimba. Carlos Alberto! E não é que ele carimbou? É gol! É gol!
Brasil 4, Peru 3.
— Esses peruanos não são de nada. Vencemos na raça. Conosco ninguém podemos. Eu quero ver a gringalhada lá no México. Brasil! Brasil!

Fonte: http://contobrasileiro.com.br/?p=893.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

SESSÃO LEITURA - AQUELE NATAL - JOSÉ CARLOS DE OLIVEIRA

A crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.secult.es.gov.br/?id=/noticias/materia.php&cd_matia=2875.
Boa leitura!

Aquele Natal

No dia 24 de dezembro, há dez anos (tinha eu dezoito), preparei-me tranqüilamente para passar o Natal em solidão. Chegara ao Rio em setembro. Depois do período natural de dificuldades que todo provinciano atravessa, começara a trabalhar numa revista. E agora estava ali, na redação, terminando de escrever uma reportagem e pensando nas ruas festivas, onde multidões faziam compras e em como seria bela a noite para os que tinham parentes e amigos. O crítico cinematográfico da revista aproximou-se de mim e disse:
"Olha eu sei que você não conhece ninguém no Rio, de modo que quero convidá-lo para passar a noite no apartamento de uma amiga minha. Ela vai dar uma festa para gente assim como você."
Tomei nota do endereço e ele disse: "Ao chegar, é só dizer que você é o José Carlos, que ela já está avisada."
Às nove horas da noite, rumei para lá. Os sonhos mais ardentes me dominavam. A moça dona da casa era linda e passaríamos a noite dançando colados! Coisas assim; eu ia andando cheio de esperança. Diante do apartamento, toquei a campainha e então fluíram segundos de espera ansiosa. Abriu-se a porta: uma jovem linda, de vestido vermelho, surgiu à minha frente. Atrás dela vi um corredor, e depois uma sala onde outras moças estavam sentadas, uma das quais conversava com um rapaz. Da vitrola vinha uma canção tristonha.
— Que é que o senhor deseja? — perguntou a moça.
— Eu sou o José Carlos.
Ao ouvir essas palavras, ela me olhou com expressão indefinível: espanto, ou esquecimento, ou então não ouvira direito, o certo é que ficou olhando fixamente o provinciano durante um minuto bastante penoso. Finalmente, falou:
— José Carlos ainda não chegou. Com licença — e bateu a porta na minha cara.
Meia hora depois, outra vez na rua, eu ainda não sabia se devia rir ou chorar. Fui andando sem rumo, e afinal entrei no Alcazar, sentei, pedi cuba-libre e comecei a encher a cara.

quinta-feira, 24 de março de 2011

SESSÃO LEITURA

A crônica que reproduzimos em seguida é da autoria de José Carlos de Oliveira.
Boa leitura!

CÃOMÍCIO NO CALÇADÃO

Reunidos no calçadão central da Avenida Atlântica, entre as Ruas Souza Aguiar e Sá Ferreira, dezenas de cães participaram sábado à tarde de um comício autorizado, em princípio, pela Administração Regional de Copacabana. Eram cachorros das mais variadas raças e dos mais diferentes tamanhos, desde Pastores Alemães até miniaturas Pintcher. Junto ao meio-fio, no local da concentração, um carro-choque do Batalhão de Gatos, armados de unhas e dentes, garantia a ordem.
O primeiro a subir ao tablado, que era um engradado de refrigerantes emborcado, foi um Poodle branquinho, de rabinho cotó
- Nossos donos são irresponsáveis! - gritou ele
- Abaixo os donos irresponsáveis! - respondeu a multidão raivosa (embora toda ela vacinada)
- Todo poder aos cachorros! - prosseguiu veemente o Poodle branco, cujo focinho lembrava vagamente o de Jane Fonda, e que era tido, entre o Posto 6 e o Posto 4, como o líder inconteste do Dog-Power.
Em seguida pediu a palavra um Weimaraner azulado, de olhos tristes. Do alto do caixote, falou ponderadamente:
- Meus modos if... if... (estava chorando o coitado)... Meus modos refletem o do meu dono... Não quero mais passar vergonha sujando a calçada!
- Nós também não! - responderam em uníssono os manifestantes caninos. Lá do meio do povo, alguém latiu com voz de Pointer:
- Nossos donos precisam aprender que lugar de cachorro fazer suas "coisas" é em casa!
- Bravo! Apoiado! - concordou a cãonalhada.
- Pipi-dog! Queremos pipi-dog! - Puseram-se a ladrar cadelinha Basser - cinco ou seis, provavelmente da mesma ninhada. - Somos moças de família, e portanto temos direito a um lugar no apartamento, onde possamos fazer a nossa toalete em que os intrusos invadam a nossa privacidade"
- Muito bem! Falou! Podem crer! - entoaram em coro os cinco Dobermans que moram no Edifício Chopin, um dos mais luxuosos de Copacabana, e que fazem pipi - vejam só a heresia! - na piscina do Copacabana Palace, que fica ali ao lado.
Agora, estava no tablado um musculoso Boxer, com sua cara abobalhada e seu tradicional bom coração.
- Senhoras e senhores - disse ele - sejamos objetivos. Desejo colocar em votação uma proposta simples, de três pontos, a qual, se aprovada, será encaminhada aos nossos donos, em forma de abaixo-assinado. Primeiro ponto:
- "Quero meu pipi-dog no apartamento"
- Apoiado! - gritou a assembléia
Segundo ponto: ... Mas, antes, para evitar tumulto, prefiro que os distintos companheiros, em vez de latirem, ladrarem, rosnarem e coisa e tal, balancem o rabo em sinal de aprovação. Aqueles que não mais possuem rabo poderiam uivar, mais docemente, pois uma de nossas preocupações principais há de ser a de não agravar a poluição sonora, de maneira a não indispor a opinião publica contra a nossa causa...
Todos balançaram o rabo, em silêncio. A questão do orador fora aceita. Ele então prosseguiu:
- Segundo ponto: - "Queremos fazer nosso cooper canino apenas no calçadão central da Avenida Atlântica..."
Rabinhos balaçaram para lá e para cá: aprovado.
- Terceiro ponto: "É preferível que não nos levem à praia, onde involuntariamente causamos uma porção de doenças!"
Rabinhos alegres: de acordo.
- Desta forma - finalizou o Boxer - poderemos afirmar que somos felizardos e que temos donos educados!
- Nosso dono vai ser superlegal! - exclamou a assembléia, esquecendo a recomendação de só balançar o rabo.
Nessa altura, todos ali estavam com vontade de fazer cocô e pipi. Sendo assim, o Poodle branco decidiu dar por encerrada a reunião, recomendando que os manifestantes se dispersassem em ordem.
Mas nesse instante pulou no caixote um autêntico Vira-Lata, magrinho, de olhos famintos, as costelas aparecendo sob o pêlo ralo, o rabo entre as pernas.
- Irmãos! - bradou ele, ou melhor, essa palavra num gemido - Irmãos! Todos somos irmãos! Todos os cachorros são iguais! Portanto, o verdadeiro problema não está no pipi-dog doméstico nem no pinicão de apartamento. O necessário é que todos nós, os de pedigrees e os da rua, os de raça e os vira-latas, tenhamos, todos direito aos cuidados veterinários periódicos, à vacinação gratuita, à alimentação farta e balanceada, à coleira protetora com sua placa de identificação, aos banhos seguidos de talcos contra pulgas.. Viva pois a revolução! Todo o poder aos cachorros, sem distinção de raça, cor ou credo!
-Uh! Fora! - gritaram os cães de luxo, que pertencem todos, naturalmente, à Direita, e preferem que as coisas continuem como estão, no plano da justiça social. - Fora! Sarnento! Babão! Comedor de restos! Ralé!
A multidão de sócios do Kennel Club avançou na direção do anarquista, rosnando ameaçadoramente. Foi preciso que os gatos salvassem o Vira-Lata do linchamento inevitável, para o que o cercaram, dispersando a cachorrada com bomba de gás lacrimogêneo.
Em seguida, o Batalhão de Gatos levou o Vira-Lata para o lugar adequado a essa espécie agitador. Ele agora está sendo processado e é capaz de passar o resto da vida num canil-presídio. Acusação: trata-se de um CÃOMUNISTA.