O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!
CANTOR E CANTAR
Os cantores são uma gente boa. Admiro o homem e a mulher que se ocupam de seu
tempo aqui na terra erguendo a voz no prazer simples ‒ não é tão simples assim ‒ e
puramente físico ‒ nem tão físico ‒ de cantar.
Repare nos olhos do cantor, certas linhas em torno da boca: têm uma profundidade que
os outros não têm. Gostaria de conhecer melhor os cantores como pessoas. Conheço, um
pouco, Agostinho dos Santos. E não me canso de me espantar. O Agostinho parece que
está sempre no sábado chegando em festa. Essa festa o Agostinho leva com ele e faz
questão, tenho a certeza, de que todos seus amigos estejam convidados. Um contrabaixo
invisível deve seguir o Agostinho pelas ruas marcando o compasso, ali adiante está a
bateria e ele tem sempre os gestos de quem leva um violão. Agostinho é um trio, um
quarteto, um octeto ‒ vá lá: uma orquestra ‒ em plena função 24 horas por dia. Os
sonhos do Agostinho têm cordas, percussão e vêm em 3/4 e 6/8 dependendo do dia (mas
isso já está parecendo contracapa de LP, mudemos, pois, de cantor e de parágrafo. Aquele
amplexo, major).
*
Cantor, em geral, não entende muito da gente, nem faz por entender: faz muito bem, tem
toda razão. Há os que fazem música e os que não fazem música. Pertencemos a última
categoria? Perfeito, então calemos e escutemos. Cantor tem mais a dizer que a gente. E
mais a fazer também, principalmente agora que descobriram que têm braços. Os braços,
já dissemos uma vez, foram introduzidos na moderna música popular brasileira pelo
ítalo-americano Lennie Dale. Lennie chegou ao Brasil em 1963. Não veio de avião: veio a
braçadas. Hoje estão todos de frente para o microfone, nadando nos mais variados
estilos: crawl paulistano, butterfly do Beco, etc. Eu sou antiquado: prefiro cantor com voz.
Em nado livre mímico-vocal aceito os estilos de Elis Regina e Jair Rodrigues. Wilson
Simonal não vale, é norte-americano, conforme descobriu o pesquisador aí de cima, o Mr.
Eco. E além do mais, ainda não se naturalizou.
*
E Billie Holiday? Daí eu falo em Billie Holiday e não há mais conversa em matéria de
cantor e cantora. E Billie Holiday? Boa pergunta. Uma voz que é uma escada tentando se
galgar a si mesma, li em algum lugar, ou escrevi noutro. Billie Holiday: polpa e cerne;
carne e fruto; nervo e sangue; aquele longo fio negro; numa ponta gardênia; na outra
seringa de injeção.
*
A diferença entre palavra escrita e palavra cantada é esta: há mais gente envolta na
tarefa de escrever; cantar é feito a sós, por um só, em geral de pé.
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12753/cantor-e-cantar.
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