O texto abaixo é de autoria de João do Rio.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/jo_o_do_rio/.
Boa leitura!
BOM HUMOR
Sempre que conversamos, ouço-a dizer:
— Mas que bom humor o seu!
Parece que definitivamente o meu bom humor a espanta. Numa terra do spleen solar, da
neurastenia generalizada e daquela fúria estática fixada na tela do Latour com nome de
inveja, será o bom humor espantoso?
Devo dizer-lhe que o bom humor é uma atitude defensiva muito agradável. Se
considerarmos a sério a vida, veremos que ela é uma continua série de amargores,
desilusões, contrariedades. Os Goncourt uma vez tomaram o tipo do homem feliz: com
renda para não ter preocupações de dinheiro; com um anonimato capaz de lhe dar a
ausência de ataques; com o suficiente egoísmo para não amar. E depois disso, mostram
como cada hora dessa vida feliz era uma hora cheia de pequenos aborrecimentos e de
contrariedades atrozes na sua insignificância: — uma dor no pé, o botão do colarinho
que rebenta quando se tem pressa, o chá que está frio quando o queremos quente.
Por essa felicidade medíocre podemos pensar no tormento da vida das pessoas
grandemente felizes! O próprio Goncourt que sobreviveu ao irmão, rico com coleções
maravilhosas de arte, a glória universal, vivia na saudade do irmão, com uma grave
moléstia, e até dias antes de morrer, dois dias antes, recebia cartas anônimas insultandoo! Quem o conta é outro grande infeliz notável, Alphonse Daudet nas Notes sur la vie.
Eu nunca pude pensar numa figura de destaque sem um profundo sentimento de
piedade. Dá-me vontade de abraçá-la chorando. E por isso rio e faço frases de bom
humor.
Se a mulher é linda e tem recursos, diz-se dela o que não se diz nem de um literato em
evidência no Brasil. Ela sofre pela calúnia, pela inveja, pelo que os seus sentimentos
possam ter de incompreendidos, pelo receio da beleza das outras. Se a mulher é
inteligente, haverá tormento maior?
Com os homens é a mesma coisa. Mais. Há todas as pequenas contrariedades, o amargor
de se ver incompreendido, a calúnia, o insulto, o ódio gratuito, e mesmo com muito
dinheiro ou muita glória — a imaginação. Pensou algum dia no que seja a imaginação?
Adão sabia tanto quanto Deus e os anjos discutiam a sua personalidade com manifesta
má vontade. Ele era feliz. E a imaginação fê-lo tocar na árvore proibida. Perdeu-se. Todos
nós somos perdidos pela imaginação, isto é, temos a sensação do inatingido, de que
falhamos ao nosso ideal, àquilo de que nos julgávamos capazes. Quanto mais inteligente
mais sofredor. E nada mais lancinante do que um artista cheio de glória e dinheiro,
cumprimentado por uma obra e tendo a certeza que poderia fazê-la muito melhor.
Daí o bom humor como derivativo. Os apólogos e os paradoxos de Oscar Wilde não foram
senão uma atitude. As pilhérias elegantes de Eça de Queirós, nunca tiveram outra causa,
causa que se pode resumir do seguinte modo: compreensão do próprio sofrimento com
pena do gênero humano.
Estou certo de que Rabelais, quando escreveu: le rire est propre de l'homme antecipava
apenas o Figaro de Beaumarchais...
Mas decididamente a melancolia é um ar dos livros. Fechemos os livros, para conservar a
grande defesa do bom humor que é a aparência da saúde da alma — que ninguém pode
ter. Minha cara amiga, riamos. Pelo menos o bom humor permite fazer justiça...
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15739/bom-humor.





























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