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sexta-feira, 16 de maio de 2025

SESSÃO LEITURA - MANJEDOURA CARIOCA - OTTO LARA RESENDE

O texto abaixo é de autoria de Otto Lara Resende.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/otto_lara_resende/.
Boa leitura!

MANJEDOURA CARIOCA

A praça se chama Sagrada Família. Se está pensando que eu inventei, pode passar lá e ler a placa. Hélio Pellegrino e eu nos sentávamos num banco de manhã e tome conversa fiada. Ele gostava muito de distinguir os vários verdes das folhas. Um dia, mal nos levantamos, veio um carro enlouquecido, entrou pela pracinha adentro e se espatifou no banco aos nossos olhos. Fomos salvos por alguns segundos. Práçassa Grada Família, brincou Hélio. E se persignou.
De manhãzinha, há tempos, eu ia passando quando ouvi um grito: ô gente boa! Era uma menina enfezadinha, seus 13 anos. Vai um café na padaria? Eu não podia negar, podia? Paguei o café para uns quatro ou cinco do bando. Trazia comigo jornais e revistas. Era domingo. Você vai ler isso tudo? ― me perguntou um, mais taludo. Outro quis saber quanto custou. Sim, esbanjo dinheiro com bobagem.
Outro dia, vou indo distraído. Agora, pelo Natal. Na praça ouço um alarido festivo. O mesmo bando que já vi dormindo, o sol de fora. Também com chuva. Neste caso, se abrigam debaixo da marquise da agência bancária. O grupo está mais numeroso. E sumiu a criançada de família com as babás. São meninos de rua, sim. Uns já adolescentes e até nutridos. Barulhentos, falantes, em movimento, como uma revoada de pombos disputando milho. Milho? Um baita bolo de chocolate. Apetitosíssimo, servido em prato de cristal.
Palavra de honra. Fui ver de perto. Uma linda moça de seus vinte e poucos anos. Vi depois o jovem marido à distância. Aprovava sorrindo a extravagância. Puxei conversa. Como é que é a resposta? São simpáticos, brincalhões. Agora acabou, disse ela alto, com autoridade. Alguns ainda comiam escondido, se lambuzavam de chocolate. Uma garotinha tentava esconder o seu pedaço na sainha rasgada. À noite, me disse a moça, tenho medo. Nunca se sabe, né?
A narrativa está em Lucas 2, 7.12. Não havia lugar para eles na estalagem. Maria enfaixou o seu filho e o reclinou em uma manjedoura. Manjedoura é um tabuleiro em que se dá comida aos animais. Por sinal, lá estavam o burro e o boi. Era de noite. Noite feliz, noite ditosa. Agora é de manhã e faz calor. Me lembrei do auto da Cecília Meirelles: “Levamos cocadas, / levamos cuscuz / e bolo de milho / pra dar a Jesus”. Na esquina, antes de dar o braço ao marido, a moça acenou para o bando. E sorria, feliz.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/6496/manjedoura-carioca.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

SESSÃO LEITURA - SIM, NÃO, TALVEZ - OTTO LARA RESENDE

O texto abaixo é de autoria de Otto Lara Resende.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/otto_lara_resende/.
Boa leitura!

SIM, NÃO, TALVEZ

Só na aparência a pergunta é simples. Que é que move um deputado? No fundo, é como indagar o que move qualquer um de nós. Justifica-se a curiosidade, nesta hora em que se joga o destino do país. Se me detiver na análise do que colheu a pesquisa, vou ficar numa resposta simples. Ou pior, insatisfatória. O que vem logo à mente e aos lábios é o interesse. O interesse move, sim, um deputado. Mas também move quem não é deputado.
Radicalizando, vamos encontrar interesse na amizade. Você é amigo de quem lhe parece agradável. Quem tem afinidade com as suas ideias. Em suma, quem lhe dá prazer, lhe faz boa companhia. Nem o amor escapa, nessa linha de raciocínio. O amor é troca. No parceiro ou na parceira, você busca o que lhe agrada. Quem se junta se parece, lá diz o ditado. Em francês soa mais verdadeiro: “Qui s’assemble se ressemble”. Ou vice-versa. Quem se parece se junta.
O interesse, no caso do deputado, pode ser legítimo. Ou nem tanto. A parte visível é, mas uma parte submersa não é. Mergulha nos biocos da alma. Nem o próprio deputado às vezes saberá descer a esse porão, que deita raiz no inconsciente. Também pode ser escuso, o interesse. Oculto, não ousa encarar a luz do dia. Como tudo que se processa nesse laboratório íntimo, não é fácil entender como se elabora uma decisão. Ao lado do interesse, há a dimensão moral. A intelectual. A religiosa.
É natural que o deputado queira ficar bem com a opinião pública, em particular com os seus eleitores. E pode se dar o caso que se instale aí um conflito. Ficar bem com os seus mandantes nem sempre coincide com a tônica da opinião pública. Um representante das grotas mal distingue o murmúrio que vem, se vem, lá dos cafundós, onde Judas perdeu as botas. E a fala. Mas o rugido da grande cidade o ensurdece. Pode lhe tirar o sono, dependendo de sua formação.
Ou não. Pois há quem se motive na contenda. O aberto confronto revigora. Afugenta medos. Desassombra. Satisfeito o desejo de aparecer, a luz da publicidade conforta. Lógica, bom senso, raciocínio, tudo pesa. Os compromissos de um e outro lado, com o governo e com a oposição. Um olho no próximo mandato, outro na manutenção de vantagens. Cargos, encargos. Afastada a hipótese do automatismo ideológico, ainda restam mil fatores. Animal compósito, o homem! Mesmo deputado.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/6902/sim-nao-talvez.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

SESSÃO LEITURA - O BEBÊ INFRATOR - OTTO LARA RESENDE

O texto abaixo é de autoria de Otto Lara Resende.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/otto_lara_resende/.
Boa leitura!

O BEBÊ INFRATOR

Não quero fazer julgamento precipitado, nem falar de cadeira, isto é, sentado com todo o conforto e longe da tragédia. Mas me pergunto em que é que mudou esse problema que já nem sei como chamar. Sei que foi massificado com a legião dos meninos de rua. Botar uma etiqueta num problema ajuda a esquecê-lo. Menor, inicialmente, era menor de idade. Daí apareceu a palavra “demenor”, pronunciada “dimenor” pelos próprios meninos. “Sou dimenor” é um prévio perdão.
São cada vez mais precoces, os meninos. Aos 14 anos, um garoto dirige carro como gente grande. O videogame não tem segredo para uma criança de sete anos. A idade da razão é hoje a idade do computador. Se é assim para os que têm videogame e carro, não é diferente para os que não têm. Ou têm caco de vidro e estilete, faca e pedaço de pau. São também precoces os chamados “despossuídos”. Um antigo relatório dos anos 50 falava em “desvalidos”. Da sorte, acrescentava.
Era o tempo do SAM, uma abjeção. Uma denúncia dramática liquidou a sigla e o respectivo Serviço de Assistência ao Menor. No seu lugar, veio a Funabem. Outra sigla, outra torpeza. Agora é a Febem. Duas sílabas. “Fe” de felicidade e “bem” de bem-estar. Ou de bem-aventurança. Era isto, presumo, o que estava na cabeça dos que bolaram o Estatuto da Criança e do Adolescente. Absoluta prioridade para a criança, garante a Constituição.
Aí a gente vê o que vê na televisão. Tatuapé é um filme de horror. Ao vivo e real. O drinque desce redondo, como se diz. E o jantar está na mesa. Ainda bem que é fácil apagar das nossas retinas fatigadas aquele trecho do inferno. Tatuapé, mancha, nódoa social, se desmancha. Não será um tatu a pé que vai atrapalhar a nossa digestão. Viva o trocadilho. Mais um pouco e um grupo de extermínio é apenas um esportivo grupo de caça. Ao tatu, por exemplo.
Quando a república foi proclamada, há 102 anos, já estava no ar o discurso. Podem checar. Uma bela retórica. A república ia alfabetizar e pôr na linha todos os brasileirinhos, livres enfim do atraso. E começou o enxurro de exposições de motivos, discursos, leis e códigos. Hoje é difícil saber o que é maior. Se o papelório, ou se o problema. Aí vem a ideia luminosa: por que não baixar a idade? Aos 16 anos, o menor pode, sim, ser responsável. Criminalmente responsável. Deixa de ser menor. Por que não aos 14 anos? Ou aos sete? Por que não ao nascer? É isto mesmo: todo bebê é um criminoso. E nato!

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/6586/o-bebe-infrator.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

SESSÃO LEITURA - BOLA MURCHA 18/07/1991 - OTTO LARA RESENDE

O texto abaixo é de autoria de Otto Lara Resende.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/otto_lara_resende/.
Boa leitura!

BOLA MURCHA 18/07/1991

Em matéria de futebol, costumo dizer que sou Botafogo desativado. Suspeito que estou assim antes de se desativar o próprio Botafogo. Aliás, hoje ninguém me pergunta qual é o meu time. Me perguntam qual o meu signo. Touro. Sou de Touro e logo sabem que sou. Nos dias que correm, e agora correm que nem o Senna, brasileiro acredita mais em horóscopo do que em carteira de identidade.
Quando o Maurinho Branco assaltou minha casa e não roubou muito, mas roubou tudo, esquecemos de lhe perguntar qual era o seu signo. Se ele fosse de Touro, ia começar um diálogo assim: “Ô meu irmão, desculpe, também sou Touro”. E daí acabávamos descobrindo que temos um mesmo ascendente (astrológico, claro), ele tomava um cafezinho e se despedia como um cavalheiro. Iria assaltar alguém de Áries.
O Nelson Rodrigues, que sabia, mas não enxergava quem era a bola, dependurou as chuteiras no céu. As chuteiras já não são imortais. O João Saldanha foi cobrir a Copa na Itália e de lá tomou rumo ignorado. Gosta muito de viagem e de aventura, o João. Nem sequer almoçou comigo no Final do Leblon, como tinha prometido. O Sandro Moreyra entrou vivo num hospital e saiu morto. Estou sempre me perguntando por que diabo chamam hospital de casa de saúde. Há anos que o Armando Nogueira parou de escrever “Na grande área”. A coluna do Cláudio Mello e Souza sumiu.
Aí é que desanimei de vez. O meu futebol era muito mais lido do que assistido. Em 1958 eu morava em Bruxelas e vi o delírio que o Brasil despertava. Pelé e Garrincha eram a dupla de mais cartaz no mundo. Nem os Beatles, que eram quatro e tiveram o cuidado de aparecer depois, lhes chegavam aos pés. No polo Norte, em 1965, vendo o sol da meia-noite, um esquimó me pulou no pescoço na maior alegria e agitação.
Só depois vim a saber a razão. Porque eu era brasileiro. “Pelé! Pelé!” — gritava ele, eufórico. O esquimó fedia um pouco a peixe, mas tudo bem. Dava gosto ser brasileiro. O futebol unia todo mundo num só grito. Rico e pobre, branco e negro, analfabeto e intelectual. Até o Kissinger gostava. Agora, escreve o Villas-Bôas Corrêa: “Para mim, chega”. Despediu-se do futebol. Um alucinado que não perdia jogo. Com o Brasil ruim de bola como anda, precisamos providenciar uma alma nova para este paisão perdido no meio do campo.

Fonte: https://midias.gazetaonline.com.br/_midias/pdf/2011/12/12/bom_dia_para_nascer-558505-4ee5f0d27f5a1.pdf.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

SESSÃO LEITURA - VISTA CANSADA - OTTO LARA RESENDE

A crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de Otto Lara Resende.
Para saber mais sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/olresende_bio.asp.
Boa leitura!

VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

Fonte: http://www.releituras.com/olresende_vista.asp