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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

SESSÃO LEITURA - DELÍRIOS DE HONESTIDADE - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/walcyr_carrasco/.
Boa leitura!

DELÍRIOS DE HONESTIDADE

Outro dia eu estava pensando em como seria o mundo se as pessoas fossem realmente honestas. Inclusive no mais prosaico cotidiano. Eu me imagino entrando em uma dessas churrascarias de luxo. Sento-me à mesa e peço um filé bem passado ao garçom. Ele me alerta:
— Não aconselho. O filé hoje está uma sola de sapato.
— Peço o quê?
— Peça licença e vá para outro lugar. Olhe bem o cardápio. Pelo preço de um bife o senhor compra mais de um quilo no açougue. Quer jogar seu dinheiro fora?
Vou para outro e escolho: salmão. O garçom:
— Se o senhor quiser, eu trago. Mas salmão, salmão, não é. É surubim, alimentado de forma a ficar com a carne rosada. Ainda quer?
— Nesse caso fico com escargots.
— Lesmas, quer dizer? Por que não vai catar no jardim?
Ou então entro numa butique de griffe. Experimento um jeans, que está apertadinho na barriga. O vendedor aproxima-se:
— Ficou bom? Ah, não ficou, não, está apertado e não tenho um número maior.
— Acho que dá... ando pensando em fazer regime.
— Pois compre depois de obter algum resultado. Se bem que não sei, não... essa barriga parece coisa consolidada.
— Eu quero o jeans. Quero e pronto!
 Não vou deixar que cometa essa loucura. Aliás, falando francamente, o que o senhor viu nesse jeans, que nem cai bem nas suas adiposidades? Só pode ser a etiqueta. Meu amigo, ainda acredita em griffe?
Corro à casa de chocolates e peço um dietético. A mocinha no balcão:
— Confia nessa história de dietético? Ou só quer calar a sua consciência?
— E se eu quiser confiar, estou proibido?
— Pois saiba que engorda. Menos que o chocolate comum, mas engorda. E o senhor não me parece em condição de fazer concessões a doces. Não vou contribuir para o seu auto-engano, jamais poria esse chocolate nas suas mãos. Vá à feira e peça um jiló.
Resolvo trocar de carro. Passeio pela concessionária, escolho:
— Este vermelho, que tal?
— O motor funde mais dia, menos dia — alerta o vendedor.
— Parece tão bonitinho...
— Desculpe, mas você acha que a lataria anda sozinha? Já alertei o dono da loja, este carro está péssimo. Fique com aquele.
— Mas é velho e horroroso!
— Pode ser, mas anda. Está decidido, leve aquele. E não discuta!
O embate com a honestidade absoluta também poderia ser uma galeria de arte.
— Gostei daquele — aponto o quadro à marchande.
— Está precisando de pano de chão?
— Não... é que... bem, posso não entender de arte, mas achei bonito.
— Sinceramente, o senhor não entende mesmo. Isso aqui é um horror. Não vale a tinta que gastou. Está exposto porque o dono da galeria insistiu. Leve aquele, é valorização na certa.
— Aquele? É muito sombrio... eu queria alguma coisa alegre e ...
— Não insista. Sombrio ou não, vou embrulhar. Faça o cheque, é melhor pra você.
E numa loja de móveis? Mostro as cadeiras que me interessam. O decorador:
— É amigo de algum ortopedista?
— Está precisando de um? Posso indicar...
— Você é quem vai precisar. Essas cadeiras vão desmontar na terceira vez em que alguém se sentar. Fratura na certa.
— Caras assim e desmontam? Eu devia chamar o Procon.
— Se quiser, eu chamo para o senhor!
Pior seria alguma vaidosa querendo fazer plástica. O cirurgião examina:
— Hum... hum...
— Meu nariz vai ficar bom, doutor?
— Se a senhora se contenta em trocar uma picareta por um parafuso, fica! Agora, se ambiciona uma melhora significativa, o melhor é morrer e reencarnar de novo. Pode ser tenha mais sorte.
A paciente sai chorando. Eu, que vivo me irritando com vendedores, chego a uma conclusão: quero comprar o jeans que me oprime a barriga, o chocolate que não emagrece e o quadro colorido. Deliciar-me com as pequenas fantasias. Feitas as contas, delírios de honestidade podem transformar-se em pesadelos cruéis. Os pequenos enganos abrem as comportas dos pequenos sonhos e adoçam o dia-a-dia.

Fonte: https://armazemdetexto.blogspot.com/2018/11/cronica-delirios-de-honestidade-walcyr.html.

quinta-feira, 16 de junho de 2022

SESSÃO LEITURA - MINHA DOCE VOVÓ - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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Boa leitura!

MINHA DOCE VOVÓ

Minha avó paterna, Rosa, era uma grande cozinheira. Espanhola, baixinha, sempre vestida de cores escuras, usava fogão a lenha – que ela mesma rachava com um machado no quintal. Hoje, quando entro nos nos supermercados com tudo tão bem embalado, lembro de seu quintal cheio de vida, na cidade do interior onde morava. Muitas crianças talvez nunca tenham visto uma galinha de perto, um pintinho quebrando a casca do ovo ou escavado rabanetes e cenouras como eu fazia na horta de vovó. Lembro das rosquinhas de anis, do bolo de limão com glacê azedinho. Ou dos grandes almoços comemorativos, com pernil, cabrito, frangos assados, tortas de tipos diversos, sobremesas incríveis.
Meu doce predileto era o pudim de queijo parmesão. Uma receita das antigas, com a massa de ovos, leite, farinha e queijo parmesão assada em banho-maria. Quando vinha nos visitar, mal entrava pela porta, eu pedia:
– Vovó, faz pudim? 
Ela sorria, sentindo-se querida e prestigiada. Botava o avental, tomava posse da cozinha. E depois me deixava lamber a tigela da massa, que delícia! 
Eu cresci, entrei na faculdade, comecei a trabalhar. Vovó envelhecia. Para mim, parecia a mesma em seu vestido escuro, cabelos trançados e enrolados em um coque. Talvez, a seus olhos, eu também continuasse igual: um garoto, seu neto, a quem ela sempre chamava carinhosamente, sem perder o sotaque:
– Formigón!
Viúva, passou a morar um tempo na casa de cada filho. Quando chegava, eu pedia:
– Que vontade do pudim, do jeito que só a senhora sabe fazer!
Ela sorria, orgulhosa. Finalmente, certa vez ouviu meu pedido e foi para o fogão. No fim da tarde, entrei na cozinha. Vi uma massa informe dentro de uma tigela. A empregada sussurrou:
– Desandou.
Mas de noite, após o jantar, mamãe ofereceu:
– Vamos comer o pudim?
Vovó a encarou surpresa.
– Não deu errado? – perguntou.
– Eu pus para esfriar e ficou bom – explicou mamãe, colocando um bom pudim de queijo no centro da mesa.
Comemos. Vovó continuou em silêncio. Ainda sem entender.
Mais tarde, enquanto mamãe lavava os pratos, me explicou:
– Ela se atrapalhou, perdeu a mão. Fiz um pudim escondido e disse que era o dela.
Entendi com um nó na garganta. Mamãe fizera um esforço para vovó não perder a dignidade.
Voltei para a sala, onde vovó assistia televisão com meu pai e meu irmão menor. Sorri, alegre.
– Fui comer mais um pouquinho. O pudim estava uma delícia, vovó!
Ela me olhou intensamente. Percebi a incerteza, a desconfiança. Não se deixara enganar, acredito ainda. Mas seria tão difícil reconhecer que alguma coisa estava acontecendo em seu íntimo, que já não sabia fazer o pudim de tantos anos! Senti uma dor no peito. Lágrimas nos olhos.
Tive consciência de que não poderia pedir mais o pudim. O símbolo de suas qualidades culinárias se transformara em fonte de humilhação. Nos olhamos uns instantes, com emoção. Por mais que os anos se passassem, continuaríamos unidos por nossa história repleta de aromas da cozinha: sopas nos caldeirões, carnes assadas, saladas de cebola e tomate, bolos saídos do forno. E, é claro, os inúmeros pudins de queijo que ela fez especialmente para mim ao longo de toda a vida.
Então, naquele momento, quando tudo estava sendo dito sem palavras, eu amei minha avó mais que nunca, como amo ainda hoje, mesmo depois de ela ter partido há tanto tempo. Nunca, nunca vou esquecer minha avó amorosa, que, com seus doces, tocou para sempre meu coração. 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

SESSÃO LEITURA - TRUQUE NO ASSALTANTE - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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Boa leitura!

TRUQUE NO ASSALTANTE

JURO QUE É VERDADE. Tenho uma amiga especializada em se livrar
de assaltantes. Sua arma: a imaginação. Maria Adelaide é escritora. Madura, de aparência frágil, é o tipo de vítima ideal. Foi assaltada várias vezes. Acabou desenvolvendo uma estratégia. Certa vez andava pela rua do Curtume, vindo de um encontro profissional. Notou que um rapaz vinha em sua direção, a mão enfiada dentro do casaco. Prestes a sacar a arma. Olhou em torno. Ninguém! Não teve dúvidas. Saltitou em direção a ele, com um sorriso de orelha a orelha!
— Você! Finalmente nos encontramos! Como vai sua mãe?
Faz tanto tempo que não nos vemos!
O rapaz hesitou, em dúvida. Maria Adelaide continuou, rápida.
— E a Cidinha, tem visto a Cidinha? Como é que ela está?
— Bem…
Abraçou o rapaz.
— Agora eu preciso ir. Mas vê se não some, hein?! Telefona! Fugiu em direção ao carro, deixando o ladrão parado, com ar de dúvida. Na vez seguinte, saía com uma amiga da Pinacoteca do Estado, na avenida Tiradentes. Lá adiante viu um trombadinha se aproximando. Não teve dúvidas. Virou-se para a amiga e começou a brigar, aos gritos!
— Você nunca podia ter feito isso comigo! Ah, mas você não presta. O que você fez não tem perdão. Você vai me pagar!
A amiga arregalou os olhos, chocada com a gritaria, cada vez maior.
O trombadinha aproximou-se, já enfiando a mão no bolso. Adelaide gritou ainda mais. Parecia prestes a partir para as vias de fato.
— Não me responda! Fica quieta, você não tem o direito de falar!
O ladrão ainda tentou estabelecer contato:
— Dona… dona…
— Fica quieto você também! — gritou para o assaltante.
— Você não sabe o que ela me fez.
— Mas o que foi que ela aprontou? .
— Ela acabou com a minha vida!
O possível assaltante pensou um segundo e aconselhou:
— Mata ela.
— É o que eu devia fazer! Acabar com você, ouviu? — vociferou Adelaide para a amiga.
O rapaz foi embora — possivelmente para não ser envolvido em crimes maiores. Quando estava longe, a amiga recuperou a fala.
— Que eu fiz?
— Nada. Eu vi que o ladrão vinha em nossa direção. A rua estava vazia e aprontei um escândalo. Assim, ele desistiu. Vamos embora?
Partiu sorridente, com a amiga cambaleante.
A última vez foi em uma floricultura da avenida dos Bandeirantes. Acabava de comprar um buquê. O rapaz entrou de arma em punho.
— Passa a carteira!- E você, dá o dinheiro! — gritou para a vendedora.
A caixa ficou paralisada. Adelaide respondeu, fria.
— Estou só com cartões de crédito, sem dinheiro. Não adianta você levar minha carteira, não vai ter lucro nenhum.
— Não quero nem saber! Passa a grana.
Adelaide voltou-se furiosa e interpelou a caixa.
— Não ouviu o que ele disse? Se ele está roubando, é por que tem necessidade e precisa do dinheiro. Passa a grana!
O assaltante fez que sim, feliz pela compreensão.
— É isso mesmo! Se eu assalto é porque preciso!
Levou todo o dinheiro da floricultura. Adelaide continuou incólume, com a bolsa fechada. Seu segredo:
— Preciso de um segundo para pensar. Se sou pega de surpresa, entrego tudo. Mas quando tenho chance… invento uma história.
A imaginação ainda é a melhor arma para enfrentar as dificuldades da vida moderna!

Fonte: https://www.refletirpararefletir.com.br/4-cronicas-do-walcyr-carrasco.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

SESSÃO LEITURA - COMO É DURO CANCELAR! - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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COMO É DURO CANCELAR!

Recentemente, mudei de banco. Recebi novo cartão de crédito, vinculado à minha nova conta. Resolvi me desligar do anterior, da mesma empresa. Telefonei. Uma simpática voz cibernética me pediu para digitar o número do cartão. Apertei os olhos. A luz, fraca. A custo consegui distinguir os números. Teclei. A mesma voz me cumprimentou, como se a melhor coisa do mundo fosse receber minha ligação. Em seguida, começou.
- Para x, digite 2, para y digite 4…
Depois de oito opções minha cabeça fervia. A custo consegui distinguir a correta: falar com um dos atendentes. A voz retornou.
- No momento todos os nossos ramais estão ocupados…
Iniciou-se uma música. Terminou. Foi repetida uma, duas, três vezes. Já ouvi dizer, mas não posso confirmar, que se trata de uma técnica.
Muita gente desiste enquanto espera. Facilita a vida de quem está do outro lado. Mas eu precisava cancelar o cartão. Finalmente, uma voz humana vibrando de felicidade me atendeu.
- Fulana, às suas ordens.
Expliquei. Queria cancelar o cartão. Perguntou-se o motivo.
- Já tenho outro igual.
A voz discorreu a respeito de vantagens acumuladas etc. etc. Superdidática, como se falasse com um asno. Seus argumentos fizeram com que eu me sentisse realmente um asno por não aproveitar todas aquelas vantagens. Mas sou teimoso como um deles. Empaquei.
- Quero cancelar, sim!
Fui interrogado: nome do pai, data de nascimento, alguns dados pessoais. Normas de segurança. Terminou. Suspirei.
- Então, está cancelado?
- Aguarde na linha, o senhor vai ser transferido para o departamento técnico.
- O que estou fazendo até agora? Já dei o nome da minha família inteira. Só faltou dar o número do meu sapato.
Nova musiquinha. Nova voz simpática, desta vez de um rapaz.
- Eu gostaria de lembrar que o senhor já tem vantagens nesse cartão e não vale a pena…
Socorro! Foi preciso quase uma hora de telefone e muita, muita teimosia para me safar. É surpreendente como é difícil cancelar certos serviços! Não é só com cartão de crédito. Eu tinha o celular de uma companhia. Não pegava na minha chácara. Troquei por outro, que tinha uma torre enorme ao lado. Para cancelar foram dois meses.
- Todos os nossos ramais estão ocupados. Por favor…
Finalmente um amigo cheio de paciência pendurou-se ao telefone. Ficou com calo no indicador de tanto teclar, mas conseguiu. Agarrei o aparelho.
- Quero cancelar…
- Data de nascimento, por favor. Nome do pai. Número do CPF. Local de nascimento.
Depois de um bom tempo, ergo o dedo para desligar.
- Está cancelada a assinatura?
- Aguarde, o senhor vai falar com o departamento de engenharia.
Aiiiiiii! Lá fui eu outra vez: data, número… Explicação: por que não queria mais?
Vontade de gritar.
- Não quero e pronto! Acabou!
Outro dia, ganhei uma caixa postal da Telefonica. Só que eu não queria o mimo. O serviço foi disponibilizado automaticamente no meu número. Liguei. Depois da sucessão de dígitos, fui atendido.
- Eu não desejo…
- Mas é um serviço oferecido sem ônus adicional.
- Mesmo assim eu não quero. Prefiro a secretária convencional, que acende luzinha quando tem mensagem.
- O senhor não está entendendo. Essa caixa postal pode ser acionada…
Deu vontade de morder o telefone. Exaurido, consegui. Vinte minutos.
Cada vez é maior o número de empresas que dificultam o cancelamento de serviços. Na hora de fechar negócio é facílimo. Para se livrar, é preciso ter nervos! Falando francamente, às vezes nem é pelo dinheiro. Mas é duro sentir que alguém está me fazendo de idiota.

Fonte: https://vejasp.abril.com.br/cidades/como-duro-cancelar/.

quinta-feira, 18 de março de 2021

SESSÃO LEITURA - MEU CACHORRO - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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MEU CACHORRO

Meu cachorro está doente. É um husky e tem 14 anos. Dizem os conhecedores da raça que 12 anos é o tempo normal de vida. Mas sempre tive esperança de que fosse muito além. A mãe viveu até os 17. Seu nome é Uno. Não é muito comum, mas tem um motivo. Meu irmão e minha cunhada, há muitos anos, resolveram montar um canil em Campinas. Só de huskies. Compraram macho e fêmea de uma linhagem gloriosa. O avô, importado do Canadá, foi até capa de revista especializada. Registraram o canil. Alimentaram o casal, deram vacinas e prepararam-se para fazer fortuna. Logo uma ninhada estaria a caminho. Meu irmão fez as contas. Na época, o husky era muito valorizado. Com um certo número de cãezinhos, teria um bom lucro!
Nasceu um. Sim, um somente! Ganhou o nome de Uno, e me foi dado de presente. A grana ficou na imaginação.
Uno me acompanha desde então, em várias fases da minha vida. Até no desemprego! Cheguei a escrever crônicas para uma revista canina usando seu nome e sua foto. Também um livro infanto-juvenil, Mordidas que Podem Ser Beijos, em que é o protagonista. Muita coisa inventei. Mas não sua mania de fugir de casa. Quando morei numa chácara na Granja Viana, Uno escalava o alambrado com a agilidade de um gato. Assim são os huskies, um tanto felinos. Disparava até o lago e fugia com um pato entre os dentes. Eu que me visse às voltas com a direção do condomínio – donos são para quebrar o galho, devem pensar os cachorros. Escondia-se na reserva florestal e só voltava ao entardecer, com o estômago cheio!
Um terror, o meu cachorro! Duas vezes, bravamente, capturou ouriços. Dezenas de espinhos penetraram seu pelo. Entraram em sua boca. Eu nunca vira um espinho de ouriço. É duro, pontudo! Impressionante. Fiquei a seu lado enquanto o veterinário arrancava um por um.
Mudei para a cidade. Meu cachorro envelheceu e passa longas horas deitado a meu lado vendo televisão. Deve achar um absurdo tantos tiros, beijos, lágrimas e juras de amor. Gosta de, simplesmente, ficar do meu lado. Ao olhá-lo, tenho uma sensação de conforto. Às vezes se levanta, bota a cabeça nas minhas pernas e eu coço suas orelhas. Sua boca se estica. Tenho a impressão de que é um sorriso.
Há algum tempo começou a ficar doente. Ainda parece saudável. Seu pelo castanho brilha. Mas surge uma coisa aqui, outra ali. Toma remédio para o coração. Laxantes. Chega a uivar baixinho – huskies não latem.
É a terceira vez que o envio ao veterinário em duas semanas. Agora, nem conseguia ficar em pé, de tão frágil. Sinto angústia só de pensar em sua imensa solidão, longe do tapete onde costuma dormir, sendo picado, mal comendo e, principalmente, sem alguém que lhe acaricie o pelo. A doença deve ser um mistério para ele mesmo.
O amor de um cão é incondicional. Vejo mendigos na rua acompanhados de cachorros esquálidos que não os abandonam e até os protegem nas noites escuras. Vejo crianças a quem o cão ajuda a conhecer o afeto. Eu sei que meu cachorro está partindo. Se não for agora será daqui a semanas ou meses, pois uma coisa vira outra, e outra. Ou ele não conseguirá resistir ou chegará a um ponto em que terei de dar um nó no coração e abreviar seu sofrimento. Eu tenho de resistir e fazer o melhor. Coçar sua barriga e falar palavras docemente. E, se puder, quando chegar a hora, colocá-lo em meu colo e dizer quanto o amo.
Quando me sentei diante do computador, queria escrever linhas engraçadas, repletas de bom humor. Foi impossível. Meu sentimento falou mais alto. Quem já amou um cão entende minha dor.
 
Fonte: https://cronicascariocas.com/colunas/literatura-canina/meu-cachorro/.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SESSÃO LEITURA - UMA NOVA PROFISSÃO - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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Boa leitura!

UMA NOVA PROFISSÃO

Desde que trabalho em televisão, ouço falar em coach. É o profissional que prepara os atores. No Rio de Janeiro, por exemplo, há uma fonoaudióloga, Rose, que acompanhou amigos meus durante novelas inteiras. Leram as cenas antes das gravações, buscaram inflexões. Isso vale até para atores famosos! Coachs cobram por hora, ganham bem. Para meu pavor, alguns candidatos a testes também procuram um. Bem orientados pelo coach, fazem um teste perfeito. Depois, na hora de gravar, é um precipício! Pode ser surpreendente para quem não é de TV ou cinema. Ator não deve saber interpretar? Sabe sim. Mas, ao contrário do teatro, na televisão e no cinema não há um tempo grande de ensaio para a construção do personagem. Às vezes, em uma novela, o personagem dá uma virada total de repente. O ator conta com as armas que já tem. E com o coach. Bem... há uma famosa coach de cinema que até chama os atores de vermes. Faz com que rastejem no chão. São técnicas que funcionam. Na alegria ou sofrimento.
Coach nos Estados Unidos é, por exemplo, técnico esportivo. Agora, transformou-se em novo campo, que se expande até mesmo com a crise. Há coachs em áreas que eu nem imaginava. Alguns têm sólida formação empresarial. Orientam profissionais que ambicionam estruturar carreiras. Uma psicóloga jovem entrou em crise. Queria partir para outro campo. O coach estudou atentamente seu currículo. Fez várias entrevistas. Ao final, concluiu:
– Sua vida foi voltada para a psicologia. Toda a sua formação é nessa área. Só vai perder querendo mudar de campo. Deixe disso.
Ela continua psicóloga e feliz.
Outro passou muitas sessões preparando um rapaz para pedir aumento. Ele simplesmente não tinha coragem. Finalmente, foi até o chefe, munido de todos os argumentos  estruturados com o coach. Bastou introduzir o assunto. O chefe topou.
– Sim, já está na hora do aumento.
O problema era seu medo!
Há também coachs que orientam a pessoa a buscar caminhos da vida. Psicanalistas tradicionais têm horror disso. Para eles, o processo de autoconhecimento levará a pessoa a ganhar autoestima e se redescobrir. Mas muitos terapeutas menos convencionais respeitam os profissionais da área. Principalmente quando têm formação em psicologia.
– Eles desatam o nó do momento, para a pessoa seguir em frente – contou-me uma amiga com mais de 30 anos como terapeuta.
Não é uma terapia, mas uma orientação. Conheço um rapaz que sempre trabalhou com comunicação. É jornalista, escritor. Um comunicador. Procurou uma profissional, que se define como self hunter (à caça de si mesmo?). Conversaram. Finalmente, ele soltou:
– Gosto de xadrez. Na internet, já derrotei vários campeões.
– Então, por que não usa sua capacidade de comunicação para divulgar seu xadrez?
Propôs que ele começasse a dar aulas. Desde então, o xadrez desabrochou na vida dele.
– Ela simplesmente tirou uma pedra do meu caminho.
Gosto muito da ideia, pois muitas vezes já convivi com problemas imediatos. Não queria anos de terapia. Se conhecesse um coach na época, teria ganhado muito. Por outro lado, já tive um amigo coach que tinha feito um curso de três meses, sem nenhuma formação em psicologia. Cobrava R$ 250 a hora e tinha muitos clientes. O problema é que ele não tinha a menor ideia do que fazer a respeito da própria vida. Eu gelava pensando nos clientes! Ou seja, há muita picaretagem.
Meu medo é que, como no Brasil existe uma paixão pela burocracia, daqui a pouco surja faculdade para coach. Ou associação com mil regulamentos. Um rol de loucuras para inviabilizar a profissão. Eu, confesso, tenho uma paixão por ser coach algum dia. Sempre adorei me intrometer na vida alheia. Hoje estou em franca atividade como autor. A médio prazo, quando escrever menos, seria uma boa opção profissional discutir roteiros e livros com escritores. Existe esse tipo de profissional, em Los Angeles. É o que trabalha bloqueios de criatividade. Quem sabe?
De qualquer forma, vejo tantas pessoas dando cabeçadas na vida! Um amigo advogado, estabelecido e bom profissional, quer ir embora do país. Para ser talvez faxineiro em Miami! Tento ser o coach dele, falo da besteira que vai fazer. Adianta? Não, porque amigo não adianta nessas crises. Um coach, que ele respeitasse, botaria os pingos nos is.
Acredito, sim, que, até antes de uma terapia mais longa, muitas pessoas se dariam bem tendo uma orientação. O coaching é a profissão do momento.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

SESSÃO LEITURA - FILHO PAI - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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FILHO PAI

Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, morava com minha família em um pequeno sobrado de vila. Meu pai era ferroviário. Minha mãe se dedicava a bicos, como vender roupas feitas ou blusas de lã que ela mesma tricotava. Eu estudava e contribuía para parte das despesas trabalhando aqui e ali. Não havia luxos, mas o dia-a-dia era relativamente confortável. Na época eu não seria capaz de avaliar a contribuição que meu pai dera à minha vida. Minha carreira de jornalista e escritor ainda engatinhava. O estímulo para que eu estudasse, os livros que ganhara ao longo dos anos, o curso de inglês, a máquina de escrever, tudo isso me parecia obrigação. Pelo contrário. Eu me ressentia dos modos autoritários de papai. De sua braveza. E também de suas parcas condições financeiras. Observava meus amigos bem de vida, alguns ricos. Achava que ele, pai, poderia ter ganho mais dinheiro. Eu também sentia dificuldade em conversar abertamente. Havia uma espécie de muro entre nós dois.
Sua mãe, minha avó, vendeu a casinha no interior. O dinheiro acabou rapidamente. Ela veio morar conosco. Logo teve um pequeno derrame. Fosse por isso ou por alguma outra doença, perdeu o juízo. De repente, a vovó que adorava fazer doces tornou-se uma pessoa furiosa. Dizia coisas horrendas. Pior. Parecia ter desenvolvido uma sensibilidade especial para atingir o ponto fraco de cada um. Um psicanalista teria feito uma tese com suas frases, tal a súbita argúcia para alardear velhos ressentimentos, mágoas escondidas, tensões ocultas. Não me poupou: acusava-me de não me dar bem com meu pai. Eu me sentia culpado ao ouvi-la, pois acreditava que ele me devia mais carinho, mais cuidados, mais confortos.
Pior era com mamãe. Nunca se deram bem. Fora uma torturada relação entre nora e sogra. Agora vovó levava minha mãe às lagrimas algumas vezes por dia. A situação era ruim. Tornou-se insustentável quando ela passou a ameaçar mamãe fisicamente. Descobrimos uma espécie de estilete escondido entre seus objetos pessoais.
Hoje teria sido possível a contratação de uma enfermeira. Na época, nem podíamos oferecer-lhe um quarto. Eu dormia na sala. Ela dividia um aposento com meu irmão menor. Só havia uma solução. Interná-la em uma casa de saúde.
Meu irmão mais velho, já casado, escolheu uma que parecia adequada, embora modesta. (Ao longo dos anos seguintes, trocamos de lugar várias vezes, quando constatávamos deficiências.) Todos os netos se cotizaram para pagar a mensalidade. Em um sábado, meu irmão veio com o carro. Vovó pareceu ter percebido alguma coisa, apesar de nada ter sido explicado. Gritou:
— Não quero ir!
Foi preciso alguma firmeza para convencê-la a entrar no automóvel. Meu pai assistiu a toda a cena da sala. Fiquei com ele, enquanto levavam vovó. Fechei a porta. Ouvimos o motor, a partida. Houve um silêncio.
Papai subiu as escadas lentamente. Senti um nó na garganta. Fui atrás. Ele atirou-se na cama de casal. Chorou. Pela primeira vez em toda a minha vida, eu via meu pai chorar. Um choro convulsivo, com soluços, o peito estremecendo. Debrucei-me sobre ele. Abracei-o.
— Não chora, pai. Não chora!
Permaneci com meu pai nos braços. O muro se rompeu. Percebi que há um momento na vida em que o pai se torna filho e o filho, pai. Agora era minha vez de cuidar dele. Abracei-o mais fortemente, oferecendo reservas de sentimento guardadas. Descobri, então, como era profundo meu amor por papai, e como eu estava disposto a fazer o impossível para que ele não sofresse tanto.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

SESSÃO LEITURA - E A BOLSA MASCULINA? - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
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Boa leitura!

E A BOLSA MASCULINA?

Vou a um encontro formal. Boto paletó e gravata. E começo a encher os bolsos: chaves, celular, caneta, cartões de crédito e de visita, carteira, documentos pessoais e do carro, talão, óculos de sol, lenço, iPod — ninguém é de ferro. Em minutos meu terno estufa. O botão do paletó não fecha por causa do celular. Meu traseiro fica quadrado devido aos documentos acomodados nos bolsos de trás. A calça, por causa do peso, escorrega pela barriga, que salta sobre o cinto! E minha elegância desaparece! Pior: dali a pouco tudo se confunde. Para achar algum desses itens, vasculho o interior de minhas roupas com os dedos. Vou pegar a caneta e retiro as chaves.
O vestuário masculino tornou-se obsoleto, essa é a verdade. As sortudas das mulheres têm as bolsas. A bolsa feminina equivale à caixa-preta do avião. Só se sabe o que há lá dentro após uma investigação minuciosa. São itens variados, que vão de maquiagem a tíquetes de passagens antigas e fotos de entes queridos amassadas. Mas é confortável. A proprietária de uma bolsa enfia o que quiser lá dentro. Resgata quando houver necessidade. Mesmo se for preciso espalhar o conteúdo no sofá. E, em casos extremos, chamar o Corpo de Bombeiros!
A bolsa masculina já esteve em moda. Não me refiro à época dos hippies barbudões com horrendos artefatos de couro cru e sandálias nos pés. Houve um tempo em que homens usavam bolsas elegantes. Recheadas de inutilidades, mas, apesar dessa contradição, úteis. Grandes grifes ainda produzem bolsas masculinas. Poucos as usam.
As pochetes são práticas, mas ganharam fama de cafonas. Confesso: tenho horror! Existe imagem mais brega do que a de um barrigudo com o botão aberto no umbigo e uma pochete estufada no cinto?
Os executivos preferem as pastas. Elas costumam oferecer compartimentos para laptop, documentos variados, bloco de notas, remédios, três ou quatro celulares, enfim... tudo! Tais quais as bolsas femininas, abrigam mistérios. Só são esvaziadas de tempos em tempos, diante de uma ameaça de divórcio, por exemplo. Com frequência, moscas, vespas e até aranhas secas são encontradas entre a papelada.
Pastas são sérias demais. Não combinam com um jeans informal, uma camiseta leve e tênis. E o pior: é muito fácil esquecê-las. Ou vê-las arrebatadas pelas mãos de um larápio. Hoje em dia, perder um laptop ou celular pode se transformar em prejuízo irremediável. Vão embora os contatos comerciais, endereços, enfim... a vida toda!
Alguns preferem mochilas. Executivo de terno e gravata com mochilinha de lona nas costas é uó. Livros, laptop, documentos, perfumes, desodorantes, cuecas limpas e até sujas no caso de viagens rápidas lutam para se acomodar dentro da lona. Eu já imagino: o executivo marca uma reunião com o presidente de um banco para pedir um empréstimo. Vai pegar o laptop para mostrar o projeto. E retira uma cueca, a escova e a pasta de dentes!
Os papas da moda masculina vivem discutindo o número de botões de paletós, a largura das lapelas, se as barras são para dentro ou fora. Redesenham relógios que se tornam cada vez mais inúteis em um mundo onde se veem as horas no celular. Mas ninguém propõe uma solução radical para a roupa do homem.
A volta da bolsa é apenas um item. Enquanto a moda feminina evolui e se transforma a cada ano, a masculina marca passo. Olho as vitrines dos shoppings e tudo é semelhante ao ano passado. Fico pensando: quando algum estilista oferecerá uma mudança radical, capaz de fazer a cabeça de todos nós e tornar o traje masculino realmente prático e confortável?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

SESSÃO LEITURA - CRÔNICA DO DESEMPREGO - WALCYR CARRASCO

O texto abaixo é de autoria de Walcyr Carrasco.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/walcyr_carrasco/.
Boa leitura!

CRÔNICA DO DESEMPREGO

Ele trabalhou a vida inteira em uma empresa. Subiu. Tornou-se diretor. Mas há sempre uma crise pronta para detonar uma bomba. À medida que os anos passam, surge um processo de “modernização” na empresa. Na prática, substituir os velhos pelos novos. Ainda mais nos tempos de internet, em que o mais velho nem sempre é tão bom no uso de tecnologia e redes sociais quanto o mais novo. Tem mais: a crise de desemprego que assola o país. As empresas estão num processo de enxugamento. Quem ficar, fica, mas trabalha três vezes mais. O diretor todo-poderoso é o desempregado de amanhã. Só que ele sai, recebe uma grana e, calmamente, tira férias com a família em algum lugar no exterior. Vai procurar alguma coisa depois. Mantém o padrão de vida, alto. Acredita que, com sua experiência, não tardarão a surgir ofertas.
Só que não surgem.
Mesmo os amigos, bem empregados ou donos de empresas, não têm notícia de vaga a sua altura. Se aparece, com salário mais baixo e função menor, a partir de certo momento de desespero ele está disposto a aceitar. Os possíveis empregadores resolvem que não. Argumentam.
– Você não vai se sentir confortável nesse cargo, muito abaixo de sua capacidade.
Os meses passam, o dinheiro escoa. Há promessas feitas, tem de cumprir: o intercâmbio da filha, em dólares; o jantar de aniversário num restaurante caro, que ele paga. Enfim, o ex-poderoso resolve montar sua própria empresa. Em geral, opta por algo que tenha a ver com seu estilo de vida e gosto pessoal. Importação de vinhos, por exemplo. Há algo que sempre digo quando vejo alguém nessa situação:
– Agora a empresa é sua. Economize nos clipes!
Executivos com longa carreira em empresa grande estão acostumados com estruturas macro. Alugam um bom conjunto comercial. Decoram. Botam secretária. Criam uma estrutura confortável, mas cara. Resultado: a empresa custa mais que fatura. O executivo vai pondo dinheiro. As reservas se esgotam. Ah, bom. Tem aquele quadro comprado na abundância. Leiloa-se. Dispensa-se o motorista. As idas a restaurante de luxo diminuem ou acabam. Aí a empresa que montou vai por água abaixo. Fica sem renda. A família ajuda aqui e ali, quando pode. Muitos, porém, vêm da classe média, subiram por meio do estudo. E o pais têm menos que eles. Obviamente, há níveis e níveis. Conheci um executivo de menor porte que, depois de dois anos sem nada, montou com a mulher uma van de cachorro-quente. Também não deu certo. Foram morar com a sogra. Numa das brigas – falta de dinheiro sempre dá briga –, saiu de casa. Foi morar na rua. Depois, não soube mais dele. Outros têm mais sorte. A mulher herdou alguma coisa, por exemplo. Um apartamento. Botam à venda, perdem dinheiro no negócio. Enfim, conseguem um capitalzinho para recomeçar.
Justamente por isso, estão surgindo novos ramos de negócio. Já conheço dois casos em que a opção foi montar uma loja de churrasco. Vendem tudo o que é necessário: a carne, o sal grosso, o espeto. Hiperespecializada, mas funciona. As pessoas gostam de fazer churrasco – e, se assim fica mais fácil, melhor. Também têm se multiplicado as barbearias retrô. Já me convidaram para ser sócio de uma. São barbearias onde ainda se faz o corte à navalha. Mas têm bebidas, música. Quase uma festa. O cliente faz a barba, bebe e se diverte. Também surgiu uma onda de lojas de bolos caseiros. São os bolos simples e baratos, como se fossem feitos pela vovó (embora as vovós de hoje prefiram fazer plástica e não bolos). Há redes grandes e pequenas. Têm aspecto artesanal. Já apareceram também as de brigadeiros e pudins. Até em shopping há quiosque de pudim. Os desempregados menos apegados a seu estilo de vida partem para uma alternativa dessas ou algo na mesma linha.
Em geral, porém, quando alguém, como o ex-diretor de quem eu falava, cai na real é tarde demais para montar um negócio mais simples, mais prático. O dinheiro acabou. A saída é o Uber. Em grandes centros, como São Paulo, há até fila para ser motorista do Uber. As locadoras alugam veículos para isso. É uma atividade em franca expansão, por oferecer um serviço diferenciado, frequentemente mais barato que um táxi convencional. Confesso, já fiquei muito de mau humor em táxis cujos motoristas nunca têm troco ou pegam caminho ruim. No Uber, não. O valor é informado antes. Os motoristas são educados. Não se espante se amanhã tomar um e der de cara com seu ex-patrão. A trajetória de alto executivo a motorista de Uber tornou-se mais comum do que se pensa.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

SESSÃO LEITURA - SUCO DE COUVE E RAÇÃO HUMANA - WALCYR CARRASCO

A crônica Suco de Couve e Ração Humana é da autoria de Walcyr Carrasco.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: www.walcyrcarrasco.com.br/biografia.asp.
Boa leitura!

SUCO DE COUVE E RAÇÃO HUMANA

Quando observo minhas imagens aos 20 anos, sinto ondas de fúria. Que tenebroso processo metabólico ocorreu para transformar aquele rapazinho magro em alguém com tanta vocação para engordar? Emagreci bastante há uns dois anos. Desde então, cometo loucuras para não engordar novamente. Alguns quilinhos ganhei, não nego. Se me distraio, os tais quilinhos se multiplicam espantosamente. Impossível perdê-los mesmo que eu percorra na esteira, diariamente, a distância do Oiapoque ao Chuí. Recentemente, um amigo inquiriu:
- Como faz para manter a forma?
- Simples, eu me transformei em uma experiência química!
A palavra química não se refere somente aos inúmeros complementos que absorvo diariamente, de comprimidos de clorofila a própolis em drágeas. Mas às combinações nas quais mergulho, que estabelecem uma química dentro do organismo. Ultimamente eu me dedico ao suco de couve e à ração humana. A receita do suco é simples: bato duas folhas de couve no liquidificador. Engulo aquela coisa verde. E penso, como se fosse um castigo: “Quem mandou engordar? Agora sofra!” Em seguida, tomo leite misturado com duas colheres de ração humana. Trata-se de uma mistura de cereais que, segundo se diz, oferece todos os compostos nutritivos necessários. Tem gosto de serragem. Está na moda. Todo dia conheço algum novo adepto da ração. Ou da couve. A mãe de um amigo garante ter perdido 20 quilos empanturrando-se com a dita cuja. Um primo resolveu todos os seus problemas intestinais com o suco. E por aí vai. Há quem diga que é delicioso. Sempre gosto de frisar:
- Se suco de couve fosse tão bom, seria oferecido em rodízio. E alguém troca uma picanha no espeto pela ração?
Faço também o regime do tipo sanguíneo. Segundo a teoria, cada tipo de sangue exige ou rejeita certos alimentos. Sou O positivo. Poderia emagrecer a cada garfada se conseguisse decorar a tabela do que devo ou não comer. Meus neurônios fervilham quando ergo um cardápio na mão. Só lembro que polvo é proibido. Ah, vida, justamente polvo, que eu adoro! Abro uma exceção.
Os gordos ou propensos a acumular banhas têm uma vantagem sobre os magros. Na árdua batalha dos regimes, ganham mais condição de conhecer a alma humana. Adquirem sabedoria. Meu melhor amigo, capaz de dar a vida por mim ou de no mínimo emprestar uma grana sem juros, não resiste a comentar quando me vê:
- O paletó está fechando?
O mesmo que condena meus 4 quilos extras como um juiz em um tribunal, insiste em me oferecer um doce quando vou visitá-lo. Ou um vinho. Algo que, enfim, engorde.
- Ah, desculpe, não devo, estou de regime.
- Imagine, só hoje!
Ai de mim! Não é preciso insistir muito!
Um outro amigo me trouxe ração humana feita no Pará por sua mãe, só com produtos da terra.
- É a melhor que existe, aqui em São Paulo você não encontra!
Para acompanhar o presente, uma caixinha de bombons.
- São de cupuaçu, você vai gostar...
Agradeço com uma careta. Se quer me ajudar a emagrecer, por que os bombons? Ah, traidor!
Vou jantar fora com uma amiga. Digo não à sobremesa. Ela sorri, elogia a minha força de vontade e escolhe meu doce predileto. Pisca, cúmplice:
- Garçom, traz duas colheres?
E lá vou eu!
Para quem vive em regime perpétuo, não basta evitar frituras, massa e açúcar. Mas sim enfrentar um complô que visa a engordá-lo. E o pior: na primeira chance, todo mundo comentará cada centímetro na barriga! Em relação a regime, a Solidariedade é Zero!

Fonte: http://renataexobesa.blogspot.com.br/2010/08/cronica-suco-de-couve-e-racao-humana.html