Mostrando postagens com marcador MÁRIO QUINTANA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MÁRIO QUINTANA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

SESSÃO LEITURA - DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é de autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!

DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR

Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como
evocar-se um fantasma... Deixa-me ser
o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...

toda a tristeza dos rios é não poderem parar!

Fonte: https://www.culturagenial.com/poemas-mario-quintana/

quinta-feira, 19 de maio de 2022

SESSÃO LEITURA - O ÁLBUM - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é de autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!

O ÁLBUM

Todos os anos, a 31 de dezembro, a família se reunia para contar os sobreviventes e fazer o cômputo dos recém-nascidos. Pois bem, naquele ano morrera o Tio Hipólito, meio gira, mas divertido, e que tinha o apelido de “Que barulho é esse na escada?”, frase que a toda hora berrava do alto do sótão onde morava e onde recortava meticulosamente, a tesoura, de revistas e jornais velhos, figurinhas, estampas e textos, num álbum que não mostrava a ninguém neste mundo, nem no outro, se para lá o pudesse levar. Afinal, para que possuirmos álbuns ou colecionarmos coisas, se depois hão de cair nas mãos de herdeiros ignaros e irreverentes, que as venderão por atacado ou as relegarão para a ignomínia dos porões escuros, onde ficarão mofando como trastes… essas queridas coisas para sempre impregnadas da nossa alma e do nosso carinho?
Pois foi a alma de Tio Hipólito que seus sobrinhos dilaceraram literalmente naquele ano, ao deparar entre guinchos irreprimíveis, logo à primeira página do livro secreto, com o belo retrato do Vovô Humphreys, o da homeopatia, seguindo-se-lhe a curiosa radiografia de uma mão atravessada por uma agulha e mais um recorte com a seguinte trova portuguesa:
“Quando eu era rapariga,
Minha mãe recomendou:
Minha filha, não te cases,
Que tua mãe nunca casou.”
Embora não fosse eu da família, mas simplesmente acompadrado nela, deram-me o álbum para folhear, o que fiz com a maior seriedade e respeito. Aliás, não podia deixar de admirar o senso artístico com que estavam distribuídos os textos e figuras em cada página. Só estranhei um pouco é que os sonetos do festejado poeta Hermes Fontes aparecessem apenas pela metade e além disso cortados em diagonal — compreendem? — formando um triângulo retângulo no canto inferior direito da página, como que a deter a hábil desordem com que nela se derramavam, digamos, as estampas do “Minas Gerais”, do busto de Alexandre Herculano, das quatro mulheres vocalizantes anunciando, sílaba a sílaba, a Lu-go-li-na, e assim por diante.
Outra coisa que me causou espécie foi que, da “minha” Vênus de Botticelli, apareceu-me unicamente a cabeça decapitada, com aquela cabeleira espantosamente viva e oval angélico de seu rosto inclinado.
Fiquei triste, porque o Nascimento de Vênus é dessas coisas que sempre me fizeram bem aos olhos e portanto à alma. Em compensação, mais adiante, encontrei-lhe o busto e os seios, embaixo da gravura da Primeira Locomotiva. Não pude mais: pus-me a folhear aflitamente o álbum, como quem procura desesperadamente os restos da bem-amada estraçalhada no mais pavoroso desastre do século.
Encontrei-lhe os pés brotando, muito alvos, da larga concha marinha, a qual se equilibrava milagrosamente em cima da calva de um tal de sr. João P. de Souza Filho, natural de Cataguases, antes de usar Tricomicina. Na página 27 encontrei a suave curva dos quadris, o ventre… Estava enquadrada entre duas colunas com os sucessivos instantâneos da queda de um gato, animal que, como se sabe, sempre cai de pé. Eu é que quase caí sentado quando, depois de percorrido todo o álbum, achados os braços, as mãos, os “joelhos sem joelheiras”, o resto, só não pude encontrar o baixo-ventre…
Fiquei horrorizado como quando Jack, o Estripador, andava às soltas em Londres; indaguei, pálido:
— Esse Tio Hipólito era mesmo um homem muito solitário, não?
— Sim — cacarejou, com um súbito rancor na voz esganiçada, uma das três sobrinhas solteironas —, comia no quarto e não gostava de barulho, especialmente de cacarejo de galinhas. Por sinal que uma madrugada quase que o mano Juca matou ele. Ouviu barulho no fundo do quintal, pensou que fosse ladrão, pegou do revólver e se tocou de mansinho pro galinheiro, mas graças a Deus a noite estava clara e ele viu a tempo que era o Tio Hipólito segurando uma galinha (já tinha pegado três) e enrolando esparadrapo no bico do animal, para que não cantasse mais. O mano Juca se retirou como chegara, sem ser suspeitado, e ficou acordado até o clarear do dia, pensando no que devia fazer. E nós também, escutando os protestos dos pobres animais que pouco a pouco se foram calando um a um e que amanheceram todos mortos por sufocação. E só o que pudemos fazer no outro dia foi uma canja de uma das galinhas e mandar as outras onze e o galo preto para a festa de Natal do Asilo Padre Cacique… O senhor não leu no jornal? “Generoso gesto das irmãs Fagundes. Um nobre exemplo a imitar.” Até recortamos. Aqui está.
E tirou da bolsa o recorte.
Tive vontade de dizer que o colasse no álbum do Tio Hipólito, o qual fora parar não sei como nas mãos de um guri da nova safra, que o estava folheando. Sim, folheando atentamente, e sem rasgar, como seria de esperar de um pimpolho de onze meses e pico!
— Como se chama o garoto? — perguntei, para mudar de assunto.
— Ah! este é o Filho do Livro! — respondeu a mãe da criança, que aliás era uma linda mãezinha dos seus vinte anos.
— O Filho do Livro! — disse eu, atônito, para maior divertimento da gozada mãezinha e do paizinho da criança, um sujeitinho seco e de fala fina.
— O senhor sabe… — explicou ele. — A crise… a incertidão da vida… A gente não queria ter filho já… Compramos o Método racional da limitação de filhos… Imagine, um método recomendado até pelo Papa! Seguimos tudo à risca… e nasceu este guri.
Tive vontade de dizer-lhes que eles com certeza é que não tinham tomado direito certas anotações, como o livro mandava. Mas não disse nada e fiquei olhando o guri, que por sua vez continuava olhando o livro… Hururum! O que sairia dali? Um grande escritor, pelo visto? Ou um novo Tio Hipólito? Tive vontade de dizer muitas coisas que o assunto comportava. Mas não disse nada. Há muito que a vida me ensinou a não dizer nada. Agachei-me no chão e fiquei olhando o álbum junto com o Filho do Livro, ambos muito atentos, muito calados, muito impressionados, cada qual à sua maneira.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/o-album-mario-quintana/.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

SESSÃO LEITURA - CANÇÃO DO DIA DE SEMPRE - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é de autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!

Canção do dia de sempre

Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...

Fonte: https://www.culturagenial.com/poemas-mario-quintana/

quinta-feira, 11 de junho de 2020

SESSÃO LEITURA - BILHETE - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é de autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!

BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

SESSÃO LEITURA - A RUA DOS CATAVENTOS - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é da autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o poeta, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!

A RUA DOS CATAVENTOS

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Fonte: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/modernismosegunda-fase-literariapoesia.htm

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

SESSÃO LEITURA - DO AMOROSO ESQUECIMENTO - MÁRIO QUINTANA

A poesia abaixo é de autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_quintana/.
Boa leitura!


DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu agora, – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

SESSÃO LEITURA - DAS UTOPIAS - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo é da autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o poeta, favor acessar: http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp.
Boa leitura!

DAS UTOPIAS

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Fonte: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/mario-quintana-poemas/

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SESSÃO LEITURA - SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS - MÁRIO QUINTANA

O texto abaixo pertence ao grande poeta gaúcho Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp.
Boa leitura!

SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Fonte: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/seiscentos-e-sessenta-e-seis-mario-quintana/#.Vh1QV-xViko

quinta-feira, 7 de maio de 2015

SESSÃO LEITURA - AMAR, NUNCA ME COUBE - MÁRIO QUINTANA

A poesia abaixo é da autoria do poeta gaúcho Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp.
Boa leitura!

AMAR, NUNCA ME COUBE

Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou

E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,
Não possa me salvar

Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento

E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

SESSÃO LEITURA - MÃE - MÁRIO QUINTANA

O poema que apresentamos abaixo é da autoria de Mário Quintana.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana/.
Boa leitura!

MÃE

Mãe... São três letras apenas
As desse nome bendito:
Também o Céu tem três letras...
E nelas cabe o infinito.
Para louvar nossa mãe,
Todo o bem que se disse
Nunca há de ser tão grande
Como o bem que ela nos quer...
Palavra tão pequenina,
Bem sabem os lábios meus
Que és do tamanho do Céu
E apenas menor que Deus!

Fonte: http://poesiasfamosas.blogspot.com.br/2010/11/poesias-famosas-de-mario-quintana.html