CAPÍTULO
XXIII
INSEGURANÇA
No
domingo, Claude tenta convencer Rosa a visitar os pais.
C:
Rosa, mon amour, acaba logo com essa situaçon... você sofre de um lado, eles do
outro... non é bom pra ninguém, hã?
R:
Amor, entenda, eu não quero, não estou preparada pra voltar lá. Ainda não...
C:
Tudo bem, non insisto mais. Seu coraçon vai dizer quando for a hora... E o que
faremos hoje?
R:
Bem já que não temos a Dadi hoje e eu não quero estragar outra panela... que
tal a gente almoçar lá no Parque do Sol, curtir aquele lugar, só nós dois... depois
um cineminha com muita pipoca???
C:
Boa ideia! Aliás você sempre tem boas ideias...
E
assim eles passam o domingo aproveitando ao máximo as horas, sem pensar em nada
que os incomode ou atrapalhe, alheios aos acontecimentos do mundo real.
Depois
do cinema, por volta das vinte e duas horas eles retornam pra casa. Eles tomam
banho e se preparam pra deitar. A campainha toca.
C:
Eu atendo, chérie! Quem será a essa hora?! - Claude abre a porta e se depara
com Paulo.
P:
Desculpe pela hora, Dr. Claude, mas eu precisava falar pessoalmente com vocês
sobre o que aconteceu hoje... posso entrar?
C:
Claro! Perdon por atendê-lo assim, eu já ia me recolher, hã? Mas o que
aconteceu hoje?
Rosa
resolve descer. Mas antes ela coloca o roupão de Claude.
R:
Claude, quem é? Ah! É você, Paulo? O que houve?
P:
Vocês não viram na TV? Todos os canais noticiaram em boletins
extraordinários...
C:
Nós passamos o dia fora, acabamos de chegar... mas pelo seu tom...
R:
Pelo amor de Deus, fala logo sem rodeios, Paulo...
P:
O Júlio foi resgatado do presídio. Provavelmente a mando de um chefe do tráfico
conhecido por Coronel. O Júlio foi visto várias vezes na favela que ele
domina... entrando nos domínios dele.
C:
Mas como foi isso? E os guardas?
P:
Foi uma ação cinematográfica: eles invadiram o presídio na hora da visita,
renderam várias mulheres e crianças, e negociaram a troca pelo Júlio. Não havia
como não fazer isso. Eles estavam fortemente armados.
R:
E agora... ele vai vir atrás de mim... – Ela procura as mãos de Claude, gesto
que Paulo não deixa de notar, baixando os olhos rapidamente.
C:
Mas a policia, non tá procurando ele non?
P:
Tem uma equipe varrendo todos os locais que servem de abrigo, de esconderijo
pra esses criminosos... Eu vim
pessoalmente, porque liguei várias vezes aqui e ninguém atendia. Cheguei até a
pensar que ele poderia ter voltado aqui...
R:
Eu fico agradecida, mais uma vez, Paulo...
P:
Por favor, fiquem alertas. Ele não está brincando. Eu vou voltar pra delegacia
agora, e qualquer novidade eu informo vocês! E vocês, qualquer suspeita de que
ele está por perto me liguem.. Boa noite!
C&R:
Boa noite! – E obrigado, hã? – Emenda Claude. – Levando Paulo até a porta.
R:
Como vai ser agora, Claude? Que faremos?
C:
Vamos contratar seguranças, chérie! E você non sai mais sozinha, nem pra ir ao
elevador, hã? E non abre a porta pra ninguém também... Vamos voltar pro
quarto...
R:
Quando isso vai acabar, meu amor? – Fala Rosa, desanimada, a caminho do quarto.
Claude
a abraça e diz:
C:
Logo, mon amour, logo... – Mas por dentro teme as próprias palavras...
Enquanto
isso num bar próximo ao flat/hotel:
Cou:
Nara, você tem que pegar suas coisas e sair agora mesmo deste flat. Esse resgate do Júlio, não foi à toa! Ele fez
uma outra proposta para o chefão da favela: A nossa cabeça por três milhões de
dólares!
N:
E como é que você sabe?
Cou:
Contatos, Nara! Contatos certos e uma boa grana compram informações até de quem
já morreu...
N:
Maldito! E nós vamos deixar ele ficar com a grana toda assim de graça?
Cou:
Nara, eu adoro dinheiro... mas tenho mais
amor à minha vida. Mesmo porque, morto ou preso eu não posso desfrutar
dos luxos que conquistei até agora.
N:
Eu não acredito! Não estou acostumada a sair derrotada, Otávio!
Cou:
Não pense assim querida, não é uma derrota, é apenas um recuo estratégico...
Segunda-feira.
Na construtora. Apesar da sombra de Júlio, eles tentam seguir o mesmo ritmo.
R:
Claude, eu creio que poderemos dar uma folga coletiva para o pessoal da obra...
Pelo que nós vimos por lá estamos com folga no cronograma. As trinta primeiras casas já estão quase
prontas faltando apenas a parte elétrica e a pintura final. Isso em dez dias
eles fazem. A equipe é ótima!
C:
Você é a supervisora, quem decide, Rosa. Você e Janete, que comanda o financeiro,
hã?
R:
Mas eu preciso da sua autorização. Esqueceu dos termos do contrato? Tudo tem
que ser autorizado por nós dois, incondicionalmente. Regras de Ms. Smith.
C:
Essa americana, vou te contar, hem?! Non sei pra que tudo isso... mas enfim,
você resolve que está autorizado!
R:
Então vou pedir à Silvia que faça os papéis. Quero tudo registrado e assinado,
pra não ter dor de cabeça “trabalhista” depois! Vejamos... – Ela vai falando e
escrevendo o rascunho para Silvia: “Tendo em vista uma reserva de tempo (...)
ficam assim dispensados no período de vinte e três de dezembro de dois mil e
onze à dois de janeiro de dois mil e doze, sem prejuízo financeiro, para a
parte dispensada; devendo se reapresentar sem falta, no primeiro dia útil do
ano vindouro (03/01/2012). São Paulo.... etc, etc.”. Pronto!
Ela
leva o documento para Silvia digitar e tirar as cópias necessárias.
S:
D. Rosa, o Colibri está esperando a senhora na sala do Gurgel.
R:
Ah! Ele já chegou. Que bom! E Silvia, duas vias para cada um, por favor, quero
tudo arquivado na folha de pagamento.
S:
Sem problemas, D. Rosa.
R:
Rosa, Sílvia. Só Rosa, ok? O elevador se abre e Frazão chega.
F:
Bom dia, meus queridos companheiros! Bom dia, minha flor! Diz se dirigindo
diretamente à Rosa.
R:
Bom dia, Frazão. Deixa o francês ouvir isso e você vai ver o que esses aqui são
treinados para fazer! Rsrsrs – Ela tenta brincar com a situação.
Então
ele percebe os seguranças que, com o olhar atento, não deixam de seguir Rosa.
Ele
se dirigem à sala de Claude. Rosa vai falar com Colibri sobre a casa de Claude.
F:
Mas o que é tudo isso aí fora?
C:
Segurança, Frazon, segurança. Você non viu que o pseudo-psicopata do Júlio, foi
resgatado da prison?
F:
É verdade, mon ami! Acordei tão feliz que até esqueci essa notícia! Aliás, te
liguei ontem pra falar sobre isso e nada!
C:
Ontem foi dia de Rosa, Frazon... Rosa e Claude ! – E abre um sorriso.
O
interfone toca.
S:
Dr. Claude, telefone, linha dois.
C:
Oui, Silvia.
C:
Alô?
Ju:
Eu tô na área, francês! E tenho cobertura. Dessa vez eu vou até o fim!
C:
Escuta aqui ohhh seu projeto de psicopata, non tenho medo de suas ameaças non!
– Diz Claude já em pé, nervoso.
Ju:
Pois deveria ter!
C:
Mas você é um ordinário mesmo... Desligou! – Ele devolve o telefone com força,
sobre a base, soltando um palavrão. – Era ele, nos intimidando.
Rosa
entra na sala, procurando alguns papéis que esquecera.
R:
Algum problema na obra? Ouvi você “bravo”?
C:
Non, chérie... era uma dessas ligações de oferta de serviços, só isso, hã?
R:
Hummm, então tá! Qualquer coisa eu estou
ali na sala do Gurgel com o Colibri.
C:
D`accord, mon amour.
Rosa
volta para sua reunião. Frazão olha para Claude e diz preocupado:
F:
Claude, Claude... você não pode omitir isso pra ela... A Rosa “É” o principal objetivo do Júlio. Ela tem que
ficar sabendo, pra poder se proteger melhor!
C:
Eu sei, Frazon, eu sei... mas primeiro eu vou acionar o seu amiguinho
investigador...
F:
Ainda com ciúmes do Paulo, Claude?
C:
Você fala isso, porque non é com Janete que ele flerta descaradamente! Mas ele
que non ouse nem sonhar com Rosa, hã?
F:
Vai lá francês, liga pro cara.
Na
sala de Gurgel.
R:
Então, Colibri, eu pedi que você viesse hoje, porque temos que fazer um balanço
da restauração agora que acabaram as filmagens. Sempre tem algo pra se refazer.
Col:
Pode deixar que amanhã mesmo eu vou pra lá
e recomeço. Já estava sentindo
falta desse serviço.
R:
Outra coisa que eu queria te falar é que o Gurgel vai ficar mais com vocês
nessa fase da restauração. O Claude quer fazer uma piscina, um outro jardim com
árvores frutíferas, enfim é serviço pra
um bom tempo. Tudo bem?
Col:
Por mim, sem problemas.
R:
Satisfeito, Gurgel? Eu falei que o Colibri é do bem!
G:
Amiga, o que é combinado não sai caro pra ninguém. Melhor assim.
R:
Que bom, assim eu fico só com a supervisão das casas. Esse projeto não pode ter
falhas...
Col:
Rosa, antes de ir eu queria falar com você, é um assunto particular...
G:
Saindo.com. Vou lá fofocar com a Silvia! E admirar aqueles seguranças, que eu
também mereço!
R:
Fala, Colibri. Algum problema sério?
Col:
Rosa, você sabe que eu sempre gostei da Terezinha, sempre quis um compromisso
sério com ela. Pois é, ela finalmente me aceitou! E eu resolvi voltar a
estudar. Terminar meu curso de engenharia também!
R:
Que bom! Eu sempre soube que ela gostava de você, mas tinha medo da reação do
nosso pa..., quero dizer do S. Giovanni. Enfim ela resolveu enfrentar esse
medo!
Col:
Rosa, a gente sempre se deu bem, desde criança, mesmo você sendo mais velha. A
Terezinha desabafou comigo, eu to sabendo que você não é filha biológica
deles... eu queria dizer que eu nunca vi o seu pai tão deprimido assim. Ele nem
tá indo vender as balas mais...
R:
Sei, e aTerezinha pediu pra você me falar isso, pra eu ir lá...
Col:
Não! Pelo contrário! Ela me implorou pra não tocar nesse assunto. Vocês sempre
me socorreram, eu não gosto de ver sua família assim, não combina com vocês,
sabe?
R:
Eu preciso de mais tempo, meu amigo. Ainda não consigo perdoar essa mentira
toda!
Col:
Sabe, Rosa, pai e mãe é quem cria. Por no mundo é muito fácil. Dar amor,
educar, é que são elas! E eu sei o que falo! Orfanato tem suas vantagens, mas
não é um lar! Se cuida, cunhada! – Dá um beijo nela e sai, deixando Rosa
pensativa...