Mostrando postagens com marcador EÇA DE QUEIROZ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EÇA DE QUEIROZ. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de junho de 2025

SESSÃO LEITURA - ONFÁLIA BENOITON - EÇA DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Eça de Queiroz.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/eca_queiroz/.
Boa leitura!

ONFÁLIA BENOITON

Quem se lembra hoje da história de Onfália Benoiton, uma mulher nervosa, e de Estevão Basco, um homem vencido e esquecido, e que todavia foi um homem?
As canas que contam essa história de martírios reais e de falsas glorificações, tenho eu a alegria mefistofélica e bárbara de as copiar aqui.
A primeira carta assinada unicamente por uma letra — Z. — é o documento incisivo e lúcido da Sra. Onfália Benoiton. É assim:
“A Sra. Onfália Benoiton, meu caro, é descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correta e fria. Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo jônio, coroadas de mirtos; discutiam com os sábios e com os filósofos, celebravam com as túnicas soltas as Elêusis de Baco, edificavam cidades, eram os modelos da arte e a inspiração dos tiranos. E a Sra. Onfália Benoiton, com os seus vestuários onde há uma provocação especuladora, as suas atitudes masculinas, os penteados disformes que lhe dão uma aparência de animalidade audaz, com a sua pele colorida, acumulações da sua vida de fadiga trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas Vênus de corpos harmônicos, que depois de ter atravessado este exílio moderno, a velhice, a miséria, e o vício imbecil — se vestisse de roupas bárbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, à luz soluçante do gás, um ídolo material — aos idiotas!
A Sra. Onfália Benoiton é um pouco magra e nervosa. E um corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um crânio vazio. As suas formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, não conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos: só a retórica da futilidade. Tem uma graça oficial; compõe um olhar com o mesmo trabalho compassado e métrico com que um poeta arcádico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida: tem o segredo do rosado da face casta e transparente.
Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chinês. Põe em redor do olhar uma cor de sépia ligeira semelhando a fadiga, invejável para uma imagem de Impéria ou de Vinon.
A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga intenção das aves de rapina. Toma umas atitudes de tédio e de indolência, semelhantes às que têm os viciosos de absinto.
Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atrás de si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dança com os movimentos melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois séculos a frequentar os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um apetite vasto e um amor cálido das bebidas. As indústrias têm maculado aquele corpo: o gás amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe o modo feminino. Pelo materialismo idiota é muito inferior aos ídolos egípcios, pela originalidade risível do vestuário superior às caricaturas chinesas.
É toda a síntese do nosso tempo: é a entrevista grotesca dos erros modernos. O olhar metálico é o símbolo do dinheiro. A boca é nervosa e móbil, os dentes acerados e de um branco morto: é a difamação, a intriga, a palavra fútil que corrói as construções da alma.
A mão delgada, flexível, magra, adunca, significa a agiotagem, o materialismo avaro e covarde.
Onfália Benoiton é a tragicomédia da afetação e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necessário inventar uma lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as ideias oficiais, aristocracia, realeza, elegância, moda, com a mesma insistência violenta e vaidosa com o que o pó se prende ao veludo.
Tem uma maneira insultante e vã de fazer os seus vestuários — de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao céu, e as suas caudas beijos dados à lama. A sua existência é pintar-se, fazer- se, trocar friamente recepções e diálogos, transfigurar o vestuário numa celebração misteriosa, decorar a comédia das modas, passear ostentosamente, errar pelas óperas, pelos casinos, pelos saltimbancos, dançar, envolver-se no combate da beleza e da seda, dar-se à fadiga dissolvente do lucro. Eu pôr-lhe-ia por epitáfio: Aqui jaz o ruído de um bocejo.
Tem todos os prejuízos do seu tempo. Tem o espírito das pequenas maquinações femininas, das ironias dolorosas, dos escárnios inteligentes. Adora os romances dramáticos de sangue, pelo mesmo motivo por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias as suas belezas lhe dizem: “Oh Cesaréia, os que vão morrer saúdam-te!” Prefere Leotard a Shakespeare — isto contém um caráter.
Copia o modo de falar das atrizes. Há só uma coisa que a distrai de admirar os saltimbancos, é ter de pensar na libré dos lacaios.
Para ela a Natureza é uma decoração; a alma uma impertinência dos pobres; o cemitério uma infâmia de Deus.
Assim vive na comédia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando o corpo, pensando nos vestuários, criando enfeites, até que Deus, por entre as névoas do cemitério, lhe mostre o último figurino, o supremo adorno sinistro — a mortalha à Benoiton!
A segunda carta, escrita por A., o melhor de nós todos, espírito criador e lógico, fala largamente do escritor Estevão Basco:
“Estive ontem”, dizia a carta de A., “com Estevão Basco. É uma alma justa e sã, mas tímida e apaixonada, forte para o sacrifício, cheia de nobres morais latinas, mas idealista e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude estoica com muitos dos dolorosos erros modernos.
Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes de ser a voz alta e sensata para que correm todos os espíritos novos, como para a lição visível das almas, antes de ter o seu jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revelações — teve uma existência de miséria, numa trapeira, sem sol, sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores que a vida costuma cravar nas almas possuídas do ideal.
Criança, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, espécie de prólogo chorado sobre a tragicomédia humana: mais tarde, nos positivismos da família, tinha sentido aquela luta íntima do ideal e do real, que deixa no espírito eternas feridas, que sangram e que alumiam. Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difamação, o escárnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela fé.
Hoje entre esta geração sonolenta, noturna, inútil e fraca, homens entorpecidos pela retórica, pelos textos, pelas regras, que petrificam as livres palpitações do ser, que passam um traço negro sobre o ideal, que são os fechos da Bíblia humana…
Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. É o último resultado das civilizações violentas. Aqui está traçado arrebatadamente, à maneira das pinturas de Goya. No entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo, sacristães da arte e os glorificadores de toda a víscera morta — ele, Estevão Basco, é o único que, voltado contemplativamente para as augustas claridades da ciência da arte, concentrado como um solitário antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes, levando os entendimentos para o útil, para o justo, para o verdadeiro e para o racional.
Leu-me os seus estudos sobre a história e sobre a arte. E um livro poderoso e cheio de vida. Combate os petrificadores conservadores da história, cujo intento é imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes. Ele quer que a história seja a reconstrução da alma do passado, uma ressurreição humana. Não podem bastar à consciência crescente do homem as crônicas escassas e concisas de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingança. Estevão Basco pensa que, há muito, na história se tem afastado sempre para os últimos planos a grande figura do povo: e é ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpitações, as suas transfigurações e as suas misérias, que a história deve surpreender, através das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita na arte todas as escolas, ou manifestações de uma tendência espiritual, ou expressão de um estado de animalidade e de materialismo, ou resultado de uma doença idealista e nervosa (1830) — logo que eles representem fielmente a sua época e sejam os documentos das almas extintas. Lerás em breve este livro eloquente: provam-se as últimas folhas.
Mas o que fará a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito neste tempo de instintos animais e de consciências fluidas?
Felizmente, a sua alma tem ficado pura e isolada na torre de marfim do ideal, no meio desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambição. E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde há o vago rir descorado, a retórica da graça e a largura das saias e das consciências, para ir pensar, só, no silêncio da alma, na família, na maternidade, no sossego, e naquela união do homem e da mulher, limitada e divina — em que ambos estendem a alma sobre o mundo, para Deus passar por cima! Não te lembras daquelas estampas alemãs em que os pares silenciosos, que parecem ter a loucura elegíaca do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem no fundo indefinido da folhagem — para se irem sentar à sombra do cruzeiro? Assim é ele. Estevão Basco todavia, na sua serenidade superior não faz a sátira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente dos dormentes do luxo. Síbaris nunca conseguiu mais do que provocar o riso protetor de Esparta.
Para ele, não vale nada, como sintoma, este triunfo estéril e momentâneo do luxo.
Segundo ele, o luxo audacioso, violento, bárbaro, idiota, é apenas um pequeno desmentido grosseiro, dado à alma, tão risível como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da Bíblia.
Dizia-me ele que as saias das mulheres não podem, como receiam os juvenais da caricatura, ser o prólogo de uma decadência. Os sintomas das transformações espirituais não podem partir dos jornais de modas. Graças a Deus, um figurino ainda não é o cartaz de uma revolução. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento calculado de tudo o que é Justiça e Beleza — mas isto é apenas uma doença da forma. A serenidade justa da alma nada tem com as pequenas borbulhas que vêm à pele. São furúnculos que se curam pela supuração. A bela saúde vital permanece na sua pureza e na sua força. E segundo Estevão Basco nada pode haver mais risível e mais inofensivo do que as tiranias que se vestem à militar, ou as decadências que se vestem à Benoiton.
E todavia Estevão Basco odeia aquelas mulheres, sem eletricidade e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato, que foram anuladas pelo luxo, cobertas da cabeça aos pés por um vestuário — epitáfio da graça.
Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes tábuas do esquife. Porque enfim, morrer é dissolver, é transformar-se: e transformar-se é ainda viver, ter seiva, força, sol e consciência. Mas prender-se a uma daquelas mulheres é assistir em roda de si à queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambições espirituais, das nossas ideias, das nossas criações. O seu amor é como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a forma existe, e manifesta que a alma se dissipou. Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do coração se me vem colocar um pedaço de cérebro. Evito-as. Não quero dar aos meus olhos o hábito da nódoa. Não quero que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas às suas consciências. Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza não fazem falta os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, não fazem falta os figurinos.”
A terceira cana que eu abro para copiar, já triste, é de Jacques, um pobre artista, escultor medíocre, imitador dos gregos, que diz descaradamente os fatos desta história miserável:
“Estamos ainda surpreendidos, meu amigo, pelo desenlace desta farsa humana.
Estevão Basco tinha conhecido numa igreja Onfália Benoiton. Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um ofício clerical em dia de mortos. Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu que as camélias, flores do tédio, olham idiotamente, sem alma, para as inquietações soluçantes do gás. Estevão Basco numa sala distante da multidão magnética das mulheres, fazia a sátira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas onde pendem argolas. Estava com o escritor Sérgio, com o antiquário Salinas, com Sarça o cinzelador. Onfália Benoiton, que tinha escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.
Estevão escreveu:
Oh, Satã tenebroso, trágico fulminado, Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom, Não com as armas bíblicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!
Onfália levou-o pelo braço para as iluminações feéricas, para a ação elétrica dos espelhos, para a claridade magnética dos ombros nus, transformou-o com as suas exalações lânguidas, com as irradiações doentias do olhar, com aquela essência nervosa dos seus cabelos falsos, que deviam ser mais macios ao contato que a pura plumagem da cabeça das rolas. Onfália Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela tem às vezes, que parece que lhe estão dando beijos no coração, disse a Estevão Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas ruas do jardim. Estevão limpou o pó, a umidade e a lama!
Desde então, Estevão Basco tirou lentamente da alma, uma a uma, as santas ideias castas, a Justiça, a Beleza, a Razão, a Honra, para dar lugar à imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onfália Benoiton.
Estevão, com o seu trabalho severo e robusto, dava o pão a três irmãs puríssimas e a sua mãe, velha, doente, triste, meia desvanecida em Deus.
As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro fino. Este tipo infelizmente não existe em Portugal. Devemos lamentar esta inferioridade absoluta.
Existe em Paris, em Berlim, na Itália, na Irlanda. É a última salvação das decadências. Aqui está traçado transparentemente à maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime e criador — sobretudo criador, que se pintavam nos livros de legendas, tinham vestidos de cassa, e todo o dia trabalhavam nos seus castos paraísos, cheias das vozes dos canários. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas silenciosas, como os antigos sábios das gravuras flamengas. Desde então Estevão Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa, a família e a alcova cheia da celebração do estudo. Perdido entre as despesas do luxo deixou ao abandono a mãe e as três irmãs. Não havia dinheiro em casa.
Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.
No Inverno não havia lume. Nem sempre havia pão. Roxas de frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida do vento e da chuva. Ali morreu a mãe, aquela doce alma dolorosa, numa tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano, como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ninguém tão amante, tão triste e tão casta. Foi enterrada no cemitério, entre a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxinóis.
As raparigas tinham cabelos magníficos, indomáveis e compridos: venderam os seus cabelos. Estevão, com Onfália Benoiton, errava pelas óperas, pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou as fortes e sãs amizades do estudo e da ciência. O seu jornal acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terríveis com os editores para livros futuros de crítica e de moral. Mas não escrevia, não pensava, não vivia pelo espírito.
Enfim casou com Onfália Benoiton. Tiveram dois anos carnais e contentes. Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mobílias. Voltou ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difamação. Insultava a tanto por linha. Veio-lhe à alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe os cabelos. Onfália Benoiton andava de noite com um vestido de chita. Estevão, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma a um jogador terrível — Mincoso. Roubou. Voltaram os magnetismos do luxo. Onfália namorou-se do cinzelador Sarça, espírito frio e retórico. Depois deu- se ao tenor Vidalleti.
Estevão soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou- lhe a fidelidade com vestidos. Estevão dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a miséria. A casa de jogo foi dispersa pela polícia. Veio a fome. Estevão escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames. Um dia encontrou Onfália com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe dinheiro. Estevão contou-o e saiu assobiando.
Um dia encontrou a irmã que era florista e tinha casado com um homem trigueiro do trabalho, alma sã e vivificadora como o Sol. Estevão pediu-lhe para pão. “Tu não me desprezas ao menos, não é verdade?”, disse ele. A irmã olhou-o tristemente. “Não é verdade que me não desprezas?” — “Muitíssimo”, disse ela. Onfália Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Estevão foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palhaço. Adoeceu. Durante a febre o coveiro cosia os seus botões, cantando o ofício dos mortos: o palhaço para estudar os saltos pulava por cima da enxerga de Estevão. Ele tinha então uma amante, corista de um casino. Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco às vezes não vinham à trapeira durante dias. Uma dessas vezes a corista não veio. Estevão tinha sede. Chamou. A água estava em cima de um vão do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre, de sede e de tristeza. Anoiteceu.
No pátio da casa havia uma laranjeira. De noite, no silêncio, ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a visão da sua vida de estudo e de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro degrau da escada do vão, caiu. O sangue caía-lhe da testa e entrava-lhe na boca, com as lágrimas. Ao outro dia estava quase a expirar.
Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos, que lhe dessem o pão do trabalho. Ninguém lhe deu nada.
Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros. O camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chapéu ao chão, com a ponta do chicote: “Estás calvo, pobre homem”, disse, rindo. “Tens tu fome?” — “És bem curioso”, disse Estevão voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.
A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o pão, fazendo de urso numa mágica.
Caíram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, lívido, e um casaco preto, diáfano, lustroso, colado à magreza do corpo.
Conheceu então uma linda rapariga de treze anos, clara e loura, que pedia na rua.
Estevão deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro e todo paterno. Para se embrutecer começou a beber aguardente. Tinha a vista debilitada, trazia uns óculos escuros; tinha feridas nos ouvidos e trazia-os cheios de algodão. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a miséria e a febre. Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.
À rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquecê-la com o hálito: a pobre miserável, que tinha ainda a sensibilidade e o olfato, fugia com o rosto, porque o hálito era mau. A rapariga morreu.
Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu à trapeira e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do pé no corpo inanimado, gritando: “Pouch! coisa morta!” Passado pouco tempo voltou-lhe a consciência da vida. Caiu numa tristeza dolorosa. Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia vê-la ao cemitério, à vala dos pobres onde ela estava. Como ela não gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das lágrimas dela, não voltou às tavernas de noite.
Ia levar rosas e rainúnculos ao cemitério, ao lugar onde ela apodrecia debaixo da erva. Era necessário tirá-lo com violência. Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.
Ficava junto do muro do cemitério, de noite, ajoelhado, perdido numa saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.
Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um cão, com quem se embrulhava na mesma manta. O cão morreu. Ele adoeceu e foi recolhido ao hospital.
Ali não era o escritor Estevão Basco, era o nº 27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu. Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres numa tumba da Misericórdia.”

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/onfalia-benoiton-conto-de-eca-de-queiroz/.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

SESSÃO LEITURA - UM POETA LÍRICO - EÇA DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Eça de Queiroz.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/eca_queiroz/.
Boa leitura!

UM POETA LÍRICO

Aqui está, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a história triste do poeta Korriscosso. De todos os poetas líricos de que tenho notícia, é êste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar! E era só uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontrões— parecia-me um tufão dos mares da China...
Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogão do perístilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa escarlate... E foi então que vi aquela figura esguia e longa, já de casaca e gravata branca, que do outro lado da chaminé, de pé, com a taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambêm os carvões ardentes, com um guardanapo no braço. Mas o porteiro tinha rolado a minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao bureau. A guarda-livros, tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu crochet ao lado da sua chávena de chá, acariciou com um gesto doce os dois bandós louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar, fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,— quando a figura magra e fatal se dobrou num ângulo, e murmurou-me num inglês silabado:
— Já está servido o almôço das sete...
Mas eu não queria o almôço das sete. Fui dormir.
Mais tarde, já repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante para o lunch, avistei logo, plantado melancólicamente ao pé da larga janela, o indivíduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz parda; os fogões flamejavam; e fóra, no silêncio do domingo, nas ruas mudas, a neve caía sem cessar dum ceu amarelento e baço. Eu via apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco dobrada uma expressão tam evidente de desalento, que me interessei por aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, caído sôbre a gola da casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na sensação daquele silêncio lívido... Chamei-o. Quando êle se voltou, a sua fisionomia, que apenas entrevira na véspera, impressionou-me: era um carão longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e frisada, uma barba de Cristo em estampa romântica; a testa era destas que, em boa literatura, se chama, creio eu, fronte; era larga e era lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indecisão de sonho nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a calça curta torcia-se em tôrno da canela como pregas de bandeira em tôrno dum mastro: a casaca tinha dobras de túnica ampla; as duas abas compridas e agudas eram desgraçadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almôço, sem me olhar, num tédio resignado: arrastou-se para o comptoir onde o maître de hotel lia a Bíblia, passou a mão pela testa com um gesto errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:
— Nùmero 307. Duas costeletas. Chá...
O maître de hotel afastou a Bíblia, inscreveu o menu— e eu acomodei-me à mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para almoçar comigo— porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem jornais e sem pão fresco. Fóra continuava a nevar sôbre a cidade muda. A uma mesa distante, um vélho côr de tijolo e todo branco de cabelo e de suíças, que acabara de almoçar, dormitava de mãos no ventre, bôca aberta, e luneta na ponta do nariz. E o único som vinha da rua, uma voz gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que à esquina defronte garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.
Foi o magro que me trouxe o almôço— e apenas êle se aproximou, com o serviço do chá, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas mãos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rápido, gulosamente fixado na página aberta, um estremecimento quási imperceptível,— emoção fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado o serviço, rodou sôbre os calcanhares e foi plantar-se, melancólicamente, à janela, de ôlho triste e posto na neve triste. Eu atribuí aquele movimento curioso ao esplendor da encadernação do volume, que eram os Idílios de El-Rei, em marroquim negro, com o escudo de armas de Lançarote do Lago— o pelicano de oiro sôbre um mar de sinopla.
Nessa noite parti no expresso para a Escócia, e ainda não tinha passado York, adormecida na sua gravidade episcopal, já me esquecera o criado romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi só daí a um mês, ao voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura lenta e fatal atravessar com um prato de roast-beef numa das mãos e na outra um puding de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de entrever um fragmento do seu passado. Era já tarde e eu voltava do Covent-Garden, quando no perístilo do hotel encontrei, majestoso e próspero, o meu amigo Bracolletti.
Não conhecem Bracolletti? A sua presença é formidável; tem a amplidão pançuda, o negro cerrado da barba, a lentidão, o cerimonial dum pachá gordo; mas esta ponderosa gravidade turca é temperada, em Bracolletti, pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar o dos animais da Síria: é o mesmo enternecimento. Parece errar no seu fluido macio a religiosidade meiga das raças que dão os Messias... Mas o sorriso! O sorriso de Bracolletti é a mais complexa, a mais perfeita, a mais rica das expressões humanas; há finura, inocência, bonomia, abandono, ironia doce, persuasão, naqueles dois lábios que se descerram e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem... Ah! mas tambêm êste sorriso é a fortuna de Bracolletti.
Moralmente, Bracolletti é um hábil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; é tudo o que êle revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu passado, o bom grego rola um momento a cabeça de ombro a ombro, esconde sob as palpebras cerradas com bonomia o seu ôlho maometano, desabrocha o sorriso duma doçura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em bondade e em enternecimento:
— Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!...
Nada mais. Parece, porêm, que viajou,— porque conhece o PerU, a Crimeia, o Cabo da Boa-Esperança, os países exóticos— tam bem como Regent-Street: mas é evidente para todos que a sua existência não foi tecida, como a dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estôpa, de esplendores e pelintrices: é um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnífico solitário nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jàmais o surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de ganhar, todas as semanas, no Fraternal Club, de que é um membro querido, dez libras ao whist. É um forte.
Mas tem uma debilidade. É singularmente guloso de rapariguinhas de dôze a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hábito de praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com método. Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola, metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso, animando-as a que lhe roubem os shillings da algibeira, gozando o desenvolvimento dos vícios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as garrafas de gin para que os anjinhos se embebedem;— e quando alguma, excitada de álcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injuría, o arrepela, baba obscenidades,— o bom Bracolletti, encruzado no sofá, de mãos beatamente cruzadas na pança, o olhar afogado em êxtase, murmura no seu italiano da costa síria.
— Piccolina! Gentilleta!
Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa noite, em Charing-Cross: e como nos não víamos há muito, fomos cear juntos ao restaurante. O criado triste lá estava no seu comptoir, curvado sôbre o Journal des Debats. E apenas Bracolletti apareceu, na sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mão; foi um shake-hands solene, enternecido e sincero.
Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguidão. Quis primeiro o nome do homem.
— Chama-se Korriscosso— disse-me Bracolletti, grave.
Quis depois a sua história. Mas Bracolletti, como os deuses da Ática que, nos seus embaraços no mundo, se recolhiam à sua nuvem, Bracolletti refugiou-se na sua vaga reticência.
— Eh! mon Dieu!... Eh! mon Dieu!...
— Não, não, Bracolletti. Vejâmos. Quero-lhe a história... Aquela face fatal e baironeana deve ter uma história...
Bracolletti então tomou todo o ar cândido que lhe permitem a sua pança e as suas barbas— e confessou-me, deixando cair as frases às gotas, que tinham viajado ambos na Bulgária e no Montenegro... Korriscosso foi seu secretário... Boa letra... Tempos difíceis... Eh! mon Dieu!...
— De onde é êle?
Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado de desconsideração:
— É um grego de Atenas.
O meu interesse sumiu-se como a água que a areia absorve. Quando se tem viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fácilmente o hábito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se vêem, sobretudo tendo uma educação universitária e clássica, o entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibíades e em Platão, nas glórias duma raça estética e livre, e perfilam-se na imaginação as linhas augustas do Pártenon. Mas, depois de os ter freqùentado, às mesas redondas e nos tombadilhos das Messageries, e principalmente depois de ter escutado a lenda de velhacaria que êles tem deixado desde Esmirna até Túnis, os outros que se vêem provocam, apenas, êstes movimentos: abotoar rápidamente o casaco, cruzar fortemente os braços sôbre a cadeia do relógio, e aguçar o intelecto para rechassar a escroquerie. A causa desta reputação funesta é que a gente grega, que emigra para as escalas do Levante, é uma plebe torpe, parte pirata e parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade é que apenas soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de Tennyson, na minha última estada em Charing-Cross, me desaparecera do quarto, e recordei o olhar de gula e de prêsa que cravara nele Korriscosso... Era um bandido!
E durante a ceia não falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro criado, rubro, honesto e são. O lúgubre Korriscosso não se afastou do comptoir abismado no Journal des Debats.
Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de Charing-Cross, numa complicação de corredores, escadas, recantos, ângulos, onde é quási necessário roteiro e bússola.
De castiçal na mão, penetrei num passadiço onde corria um bafo morno de viela mal arejada. As portas aí não tinham números, mas pequenos cartões colados onde estavam inscritos nomes: John Smith, Charlie, Willie... Emfim, eram evidentemente as habitações dos criados. De uma porta aberta saía a claridade de um bico de gás; adiantei-me, e vi logo Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de testa pendida sôbre a mão, escrevendo.
— Pode-me indicar o caminho para o número 508?— balbuciei.
Êle ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir de muito longe, de um outro universo; batia as pálpebras, repetindo:
— 508? 508?...
Foi então que eu avistei, sôbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e um rosário— o meu volume de Tennyson! Êle viu o meu olhar, o bandido! e acusou-se todo numa vermelhidão que lhe inundou a face chupada. O meu primeiro movimento foi não reconhecer o livro: como era um movimento bom, e obedecendo logo à moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o; apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providência irritada, disse-lhe:
— É o meu Tennyson...
Não sei que resposta êle tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado tambêm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego sentimental, acrescentei num tom repassado de perdão e de justificação:
— Grande poeta, não é verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se entusiasmou...
Korriscosso corou mais: mas não era o despeito humilhado do salteador surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligência, o seu gôsto poético adivinhados— e de ter no corpo a casaca coçada de criado de restaurante. Não respondeu. Mas as páginas do volume, que eu abri, responderam por êle; a brancura das margens largas desaparecia sob uma rêde de comentários a lápis: Sublime! Grandioso! Divino!— palavras lançadas numa letra convulsiva, num tremor de mão, agitada por uma sensibilidade vibrante...
No entanto, Korriscosso permanecia de pé, respeitoso, culpado, de cabeça baixa, com o laço da gravata branca fugindo para o cachaço. Pobre Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem sorte, tantas tristezas de dependência... Lembrei-me que nada impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco; estendi-lhe ambas as mãos num movimento à Talma, e disse-lhe:
— Eu também sou poeta!...
Esta frase extraordinária pareceria grotesca e impudente a um homem do Norte; o levantino viu logo nela a expansão de uma alma irmã. Porque, não lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel, eram estrofes: era uma ode.
Daí a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua história— ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. É tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narração lacunas de anos;— e eu não posso reconstituir com lógica e seqùência a história dêste sentimental. Tudo é vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas; seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso servia de criado a um médico, e nos intervalos do serviço freqùentava a Universidade de Atenas; estas coisas são freqùentes là-bas, como êle dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos difíceis, a ser um intérprete de hotel. Dêsse tempo datam as suas primeiras elégias num semanário lírico intitulado Ecos da Ática. A literatura levou-o directamente à política e às ambições parlamentares. Uma paixão, uma crise patética, um marido brutal, ameaças de morte, forçaram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgária, foi em Salónica empregado numa sucursal do Banco Otomano, remeteu endechas dolorosas a um jornal da província— a Trombeta da Argólida. Aqui há uma dessas lacunas, um buraco negro na sua história. Reaparece em Atenas, com fato novo, liberal e deputado.
Êste período de glória foi breve, mas suficiente para o pôr em evidência; a sua palavra colorida, poética, recamada de imagens engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como êle dizia, os terrenos mais áridos; duma discussão de imposto ou de viação fazia saltar éclogas de Teócrito. Em Atenas êste talento leva ao poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administração do Estado: o ministério, porêm, e com êle a maioria de que Korriscosso era o tenor querido, caíram, sumiram-se sem lógica constitucional, num dêstes súbitos desabamentos políticos tam comuns na Grécia, em que os governos se aluem, como as casas em Atenas— sem motivo. Falta de base, decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o pó num solo de ruinas...
Nova lacuna, novo mergulho obscuro na história de Korriscosso...
Volta à superfície, membro de um club rèpublicano de Atenas, pede num jornal a emancipação da Polónia, e a Grécia governada por um concílio de génios. Publíca então os seus Suspiros da Trácia. Tem outro romance de coração... E emfim— e isto disse-mo sem explicações— é obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres várias posições, coloca-se no restaurant de Charing-Cross.
— É um pôrto de abrigo— disse-lhe eu, apertando-lhe a mão.
Êle sorriu com amargura. Era de-certo um pôrto de abrigo, e vantajoso. É bem alimentado; as gorgetas são razoáveis; tem um vélho colxão de molas,— mas as delicadezas da sua alma são, a todo o momento, dolorosamente feridas...
Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lírico, forçado a distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutões, costeletas e copos de cerveja! Não é a dependência que o aflige; a sua alma de grego não é particularmente ávida de liberdade, basta-lhe que o patrão seja cortês. E, como êle me disse, é-lhe grato reconhecer que os fregueses de Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer if you please; e quando saem, ao passar por êle, levam dois dedos à aba do chapéu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.
Mas o que o tortura é o contacto constante com o alimento. Se êle fôsse um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazêm de sêdas... Nisso há uma sombra de poesia— os milhões que se revolvem, as frotas mercantes, a brutal fôrça do oiro, ou então dispôr ricamente os estofos, os cortes de sêda, fazer correr a luz nas ondulações dos moirés, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num restaurante como se pode exercer o gôsto, a originalidade artística, o instinto da côr, do efeito, do drama— a partir nacos de roast-beef ou de presunto de York?!... Depois, como êle disse, dar a comer, fornecer alimento, é servir exclusivamente a pança, a tripa, a baixa necessidade material: no restaurante, o ventre é Deus: a alma fica fóra, com o chapéu que se pendura no cabide ou com o rôlo de jornais que se deixou no bôlso do paletot.
E as convivências, e a falta de conversação! Nunca se voltarem para êle senão para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os seus lábios, de onde pendia o parlamento de Atenas, senão para perguntar:— Mais pão? mais bife?— Esta privação de eloqùência é-lhe dolorosa.
Alêm disso o serviço impede-lhe o trabalho. Korriscosso compõe de memória; quatro passeios pelo quarto, um repelão ao cabelo, e a ode sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupção glutona da voz do freguês, pedindo nutrição, é fatal a esta maneira de trabalhar. Às vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no braço, Korriscosso está fazendo uma elégia; são tudo luares, roupagens alvas de virgens pálidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida... É feliz; está remontado aos céus poéticos, nas planícies azuladas onde os sonhos acampam, galopando de estrêla em estrêla... De repente, uma grossa voz faminta berra dum canto:
— Bife e batatas!
Ai! as aladas fantasias batem o vôo como pombas espavoridas! E aí vem o infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e as abas da casaca balouçando, perguntar com o sorriso lívido:
— Passado ou meio crú?
Ah! é um amargo destino!
— Mas— perguntei-lhe eu— porque não deixa êste covil, êste templo do ventre?
Ele deixou pender a sua bela cabeça de poeta. E disse-me a razão que o prende: disse-ma, quási chorando nos meus braços, com o nó da gravata branca no cachaço: Korriscosso ama.
Ama uma Fanny, criada de todo o serviço em Charing-Cross. Ama-a desde o primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu lavando as escadas de pedra, com os braços roliços nus, e os cabelos louros, os fatais cabelos louros, dêste louro que entontece os meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate, torcendo-se numa trança de deusa. E depois a carnação, uma carnação de inglesa do Yorkshire— leite e rosas...
E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes— que passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu vi quanto a paixão pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do céu frio! É que Korriscosso tem ciumes. A desgraçada Fanny ignora aquele poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um policeman. Ama um policeman, um colosso, um alcides, uma montanha de carne erriçada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um couraçado, com pernas como fortalezas normandas. Êste Polifemo, como diz Korriscosso, tem, ordináriamente, serviço no Strand; e a pobre Fanny passa o seu dia a espreitá-lo de um postigo, dos altos do hotel.
Todas as suas economias as gasta em quartilhos de gin, de brandy, de genebra, que à noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no fiel pelo álcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe em silêncio o copo, atira-o de um golpe às fauces tenebrosas, arrota cavamente, passa a mão cabeluda pela barba de hércules, e segue taciturnamente, sem um obrigado, sem um amo-te, batendo o lagedo com a vastidão das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa... E talvez nesse momento, à outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no nevoeiro um esguio relêvo de poste telegráfico, soluce com a face magra entre as mãos transparentes.
Pobre Korriscosso! Se êle ao menos a pudesse comover... Mas quê! Ela despreza-lhe o corpo de tísico triste: e a alma não lha compreende... Não que Fanny seja inacessível a sentimentos ardentes, expressos em linguagem melodiosa. Mas Korriscosso só pode escrever as suas elégias na sua língua materna... E Fanny não compreende grego... E Korriscosso é só um grande homem— em grego...
Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluçando sôbre o catre. Tenho-o visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Está mais magro, mais fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo restaurante com a travessa do roast-beef, mais exaltado no seu lirismo... Sempre que êle me serve dou-lhe um shilling de gorgeta: e depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mão.

Fonte: https://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=download&id=129187#UMPOETAL%C3%8DRICO.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

SESSÃO LEITURA - O MENINO SEM OLHOS - EÇA DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Eça de Queiroz.
Para saber mais sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/eca_queiroz/.
Boa leitura!

O MENINO SEM OLHOS

Uma mãe teve dois filhos.
Eles foram pedir esmola, que não tinham nada.
Ela deu-lhes um farnel e perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um o seu farnel.
O mais velho disse que era melhor cada um levar o seu farnel.
Assim foi.
No caminho o irmão mais novo perguntou ao irmão se era melhor comerem cada um do seu farnel ou comerem primeiro um e depois o outro.
O mais velho disse que era melhor assim.
Assim foi.
No primeiro dia comeram ambos a comida do mais novo.
No segundo dia, eram já horas de almoçar, disse o mais novo:
— Ó irmão, vamos agora comer?
O mais velho respondeu-lhe:
— Não, que ainda é cedo.
Depois ia comendo e o mais novo não comia nada.
Ao jantar, o mesmo; enfim, o irmão mais novo já levava tanta fome que lhe tornou a pedir ao menos um bocadinho de pão.
O mais velho disse-lhe:
— Se me deixares tirar um olho, dou-te.
O mais novo, como estava desesperado com fome, obrigou-se a deixar tirar um olho. Mas o irmão mais velho tirou-lhe o olho, mas não lhe deu o bocadinho de pão.
O mais novo tornou a pedir-lhe ao menos metade. O irmão disse-lhe:
— Pois só te dou metade se me deixares tirar o outro olho.
Depois o mais velho foi-se embora e deixou o irmão ali só e desamparado.
O menino, vendo-se cego, deixou-se por lá andar a ver se encontrava alguém que o guiasse no caminho.
Chegou abaixo de um monte e ouviu cantar a água de um rio, e ali parou dizendo consigo:
— Nada, daqui não passo eu, que, como não vejo nada, posso meter-me ao rio e morrer afogado.
Conheceu que era noite e foi indo às apalpadelas e encontrou uma árvore e abanou com ela, e ouviu cantar as folhas e depois trepou para cima e ali ficou naquela árvore.
Próximo à árvore estava uma ponte, onde costumava ir o demônio com as bruxas fazer audiência.
Daí a pouco vieram todas, conforme é costume, e estavam perguntando umas às outras o que tinham feito naquele dia.
Uma delas respondeu ao demônio que tinha cortado as águas à capital da França, onde que ao fim de três dias morreria tudo à sede.
O demônio perguntou-lhe o que tinha ela feito para cortar essas águas.
Diz ela:
— Eu, no espaço de quatro a cinco léguas, por onde passa a água, encantei uma cobra e meti-a no canal da água, onde a cobra está presa de cabeça e rabo dentro de um anel, e a água está presa no meio do rolo da cobra.
O demônio perguntou:
— Então não haverá outra vez remédio para soltar essa água para a cidade?
A bruxa disse:
— Há, mas eu não digo a ninguém.
O demônio disse:
— Então, nem a mim?
A bruxa respondeu:
— A ti sim, como mestre. O remédio é havendo quem se aventure a lá ir com uma lança de ouro e tirar o anel que está dentro da cobra sem a ferir; tanto corre a cobra para o monte, como a água que vem da fonte.
O menino, que estava em cima da árvore, aprendeu isto tudo.
Uma outra bruxa disse:
— Eu também enfeiticei o rei da Itália, que está encarangado (entrevado, perro dos nervos do corpo) de todos os membros do corpo que se não pode mover para lado algum. E toda a família real morre desta aflição.
O demônio perguntou:
— Então, que lhe fizeste tu para ele estar assim encarangado?
Respondeu a bruxa:
— Cosi os olhos a um sapo, com a mesma linha apertei o sapo de pés e mãos e tudo, e meti-o debaixo da cama de Sua Majestade.
O demônio perguntou:
— Então não haverá remédio para dar outra vez saúde a este rei?
A bruxa disse:
— Há, havendo quem vá daqui à Itália ao jardim do rei, que tem um marmeleiro em cima de um chafariz, e havendo quem lhe colha o primeiro ranco (arranco, ramo), que faz um S em cima do chafariz, e lhe aguçar a ponta do feitio de uma lança, e pescar com ela um peixe azul que anda dentro do tanque, e derretê-lo numa bilha que não tenha levado nada, e levantando o pé esquerdo do leito do rei e tirando o sapo que está metido debaixo, e descosendo-lhe os olhos e desamarrando-o de modo que não se fira o sapo, e deitando depois o sapo ao jardim. Estando o peixe derretido, dar depois uma untura ao rei, e daí a pouco logo o rei está com a sua saúde, mas decerto o rei morre porque eu não o conto a ninguém.
O menino, que estava em cima da árvore à escuta, aprendeu tudo.
Depois uma outra bruxa disse ao demônio:
— E tu, o que é que fizeste?
O demônio respondeu:
— Eu já fiz obra maravilhosa, já fiz com que tirasse os olhos um irmão ao outro; também já há três dias que tenho feito com que uns bem-casados se deem mal.
A bruxa perguntou-lhe:
— Então que fizeste tu para um irmão tirar os olhos ao outro?
O demônio respondeu:
— Atentei-o para o mais velho não dar um bocadinho de pão ao mais novo sem lhe tirar os olhos.
A bruxa perguntou:
— Então não haverá remédio para esse menino ficar outra vez com vista?
O demônio disse:
— Há, mas como o há-de ele saber se eu não conto a ninguém?
A bruxa disse:
— Mas deves contá-lo a nós, como nós te contámos tudo a ti.
O demônio então disse:
— Está aqui perto uma árvore, cortando-lhe três folhas e cuspindo-lhe três vezes, antes de amanhecer, e pisando estas folhas na mão, com o sumo da folha e com cuspo da boca, untando as capelas dos olhos (pálpebras), aí se fica com a vista natural.
— E para se darem outra vez os bem-casados como se davam?
O demônio respondeu:
— Indo a uma igreja matriz, colhendo uma bilha de água benta da pia do batismo, colhendo umas ervinhas que lhes chamam os cristãos alecrim.
A bruxa perguntou:
— Então, que fizeste tu para esses casados se darem mal?
O demônio respondeu:
— Aqui ao cimo deste monte moravam uns bem-casados, e eu fui-me meter debaixo da cama. O homem, quando entrava de fora para dentro, olhava paro debaixo da cama e via-me lá figurou-se-lhe que era um homem e começou logo a maltratar a mulher de más palavras. Assim se começou de dar mal, julgando que a mulher andava amigada. A mulher não fazia senão chorar e dizer que tal coisa não fazia.
A bruxa perguntou:
— Então, não haverá outra vez remédio para eles ficarem bem?
O demônio respondeu:
— Sim, então já te não disse que em ir buscar a bilha de água benta da casa em cruz, quando me lá vir, que eu fujo, e assim se tornam eles a darem-se bem?
Nisto, o menino, que estava em cima da árvore, aprendeu tudo; depois pegou nas folhas da árvore, que era a mesma onde ele estava, e fez o que disse o demônio. Depois ficou logo com vista.
Assim que foi dia, desceu pela árvore abaixo e tratou logo de procurar a cosa dos malcasados.
Fez tudo quanto o demônio disse e eles ficaram bem.
Dali passou à França e desencantou a cobra e deu água à cidade.
O rei de França deu-lhe logo uma porção de dinheiro.
Depois foi para a Itália e fez também o mesmo que a bruxa tinha dito ao demônio.
Quando o peixe estava derretido, o menino falou para o rei e disse:
— Real Senhor, tenha a bondade de mandar todos os médicos embora, que Vossa Real Majestade hoje ainda os há-de ir visitar a casa.
O rei assim fez.
Depois o menino esfregou-o com o óleo do peixe e ficou o rei logo curado.
Depois que o rei se achou bom, levou o menino para o palácio e depois casou com a filha do rei.
O rei morreu e ele ficou senhor do reinado.
Nisto, o irmão mais velho andava pedindo pelo mundo; foi andando de terra em terra, até que foi dar ao reino do irmão, mas sem saber.
Um dia estava o rei à janela mais a rainha e viu aquele homem e conheceu que era o irmão e disse para a sentinela que estava à porta do palácio:
— Ó sentinela, prenda-me aquele homem e traga-mo cá à minha presença.
Neste momento foi-se o rei fardar com as suas insígnias como rei e sentou-se no trono.
A sentinela levou o preso à presença do rei.
Depois o rei começou a perguntar ao homem de que terra era ele.
O preso estava sem saber o que havia de dizer. Afinal lá contou a sua vida. Depois o rei perguntou-lhe:
— Que é feito da tua mãe?
Ele disse:
— Eu não sei, porque desde que saí de casa não tornei lá a voltar.
— E que é feito de teu irmão?
— Então Vossa Majestade conhecia meu irmão?
O rei disse que sim e perguntou-lhe porque é que ele lhe tinha tirado os olhos.
O irmão começou a negar. O rei disse-lhe então que bem sabia que tinha sido por tentação do diabo e que ele era o seu irmão.
Depois ficou no palácio com o rei, que lhe perdoou.

Fonte: https://pt.wikisource.org/wiki/O_menino_sem_olhos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

SESSÃO LEITURA, MEMÓRIAS DE UMA FORCA - EÇA DE QUEIROZ

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Eça de Queiroz.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: www.e-biografias.net/eca_queiroz/‎.
Boa leitura!

MEMÓRIAS DE UMA FORCA

Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento deste papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da sua história. Esta forca intentava escrever as suas trágicas Memórias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. Árvore, ninguém sabia tão bem o mistério da natureza; forca, ninguém conhecia melhor o homem. Nenhum tão espontâneo e verdadeiro como o homem que se torce na ponta de uma corda — a não ser aquele que lhe carrega sobre os ombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu e morreu.
Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que copio — resumo das suas dores, vaga aparência de gritos instintivos. Pudesse ela ter escrito a sua vida complexa, cheia de sangue e de melancolia! É tempo de sabermos, enfim, qual é a opinião que a vasta natureza, montes, árvores e águas, fazem do homem imperceptível. Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papéis que guardo avaramente, e que são as Memórias de um Átomo e os Apontamentos de Viagem de Uma Raiz de Cipreste.
Diz assim o fragmento que eu copio — e que é simplesmente o prólogo das Memórias:
“Sou duma antiga família de carvalhos, raça austera e forte — que já na Antiguidade deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Platão. Era uma família hospitaleira e histórica: dela tinham saído navios para a derrota tenebrosa das índias, contos de lanças para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram Savonarola, Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradições sonoras e da sua heráldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana. Não respeitava as nobres morais antigas, nem a ideal tradição religiosa, nem os deveres da história. Era uma árvore materialista. Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegetação. Não tinha fé, nem alma, nem Deus! Tinha a religião do Sol, da seiva e da água. Era o grande libertino da floresta pensativa. No Verão, enquanto sentia a fermentação violenta das seivas, cantava movendo-se ao sol, acolhia os grandes concertos de pássaros boémios, cuspia a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite, enlaçado pelas heras lascivas, ressonava sob o silêncio sideral. Quando vinha o Inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para a impassível ironia do azul, os seus braços magros e suplicantes!
“Por isso nós os seus filhos, não fomos felizes na vida vegetal. Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado de palhaços: ramo contemplativo e romântico, ia, todas as noites, ser pisado pela chufa, pelo escárnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de vida, de sol, de poeira, áspero solitário da vida, lutador dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre nós, para ir ser tábua de esquife! — Eu, o mais lastimável, vim a ser forca!
“Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes intimidades na floresta. Eu só queria o bem, o riso, a dilatação salutar das fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o a umas pobres violetas, que viviam por debaixo de nós, doces raparigas lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da vegetação. Agasalhava todos os pássaros na véspera dos temporais. Era eu quem asilava a chuva. Ela vinha, com os cabelos esguedelhados, perseguida, mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens e as folhas, e escondia-a ali, ao calor da seiva. O vento passava, confundido e imbecil. Então a pobre chuva, que o via longe, assobiando lascivo, deixava-se escorregar silenciosamente pelo tronco, gota por gota, para o vento a não perceber; e ia, de rastos, por entre a erva, acolher-se à vasta mãe Água! Tive por esse tempo uma amizade com um rouxinol, que vinha conversar comigo durante as longas horas consteladas do silêncio. O pobre rouxinol tinha uma pena de amor! Tinha vivido num país distante, onde os noivados têm mais moles preguiças: lá se enamorara: comigo chorava em suspiros líricos. E tão mística pena era que me disseram que o triste, de dor e de desesperança, se deixara cair na água! Pobre rouxinol! Ninguém tão amante, tão viúvo e tão casto!
“Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do campo vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens, como dedos, para apontar à pobre alma aflita de lágrimas todos os caminhos do Céu!
”Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!
“Enfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um daqueles homens metálicos que fazem o tráfico da vegetação, veio arrancar-me à árvore. Não sabia eu o que me queriam. Deitaram-me sobre um carro e, ao cair da noite, os bois começaram a caminhar, enquanto ao lado um homem cantava no silêncio da noite. Eu ia ferido e desfalecido. Via as estrelas com os seus olhares lancinantes e frios. Sentia-me separar da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido e arrastado das árvores. Eram vozes amigas que me chamavam!
“Por cima de mim voavam aves imensas. Eu sentia-me desfalecer, num torpor vegetal, como se estivesse sendo dissipado na passividade das coisas. Adormeci. Ao amanhecer, íamos entrando numa cidade. As janelas olhavam-me com olhos ensanguentados e cheios dum sol irado. Eu só conhecia as cidades pelas histórias que delas contavam as andorinhas, nos serões sonoros da espessura. Mas como ia deitado e amarrado com cordas, apenas via os fumos e um ar opaco. Ouvia o rumor áspero e desafinado, onde havia soluços, risos, bocejos, e mais o surdo roçar da lama, e o tinido sombrio dos metais. Eu sentia enfim o cheiro mortal do homem! Fui arremessado para um pátio infecto, onde não havia o azul e o ar. Comecei então a compreender que uma grande imundície cobre a alma do homem, porque ele se esconde tanto das vistas do Sol!
“Uns homens vieram, que me deram desprezivelmente com os pés. Eu estava num estado de torpor e de materialidade, que nem sentia as saudades da pátria vegetal. Ao outro dia, um homem veio para mim e deu-me golpes de machado. Não senti mais nada. Quando voltei a mim, ia outra vez amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava os bois, cantando. Senti lentamente renascer a consciência e a vitalidade. Parecia-me que eu estava transformado numa outra vida orgânica. Não sentia a magnética fermentação da seiva, a energia vital dos filamentos e a superfície viva das cascas. Em redor do carro iam outros homens, a pé. Sob a brancura silenciosa e compassiva da Lua, tive uma saudade infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, de toda a grande alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu sentia que ia para uma vida real, de serviço e de trabalho. Mas qual? Tinha ouvido falar das árvores, que vão ser lenha, aquecem e criam, e, tomando entre a convivência do homem a nostalgia de Deus, lutam com os seus braços de chamas para se desprender da terra: essas dissipam-se na augusta transfiguração do fumo, vão ser nuvens, ter a intimidade das estrelas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos imortais, e sentir os passos de Deus!
“Eu tinha ouvido falar das que vão ser vigas da casa do homem: essas, felizes e privilegiadas, sentem na penumbra amorosa a doce força dos beijos e dos risos; são amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a elas os corpos dolorosos dos Cristos, são os pedestais da paixão humana, têm a alegria imensa e orgulhosa dos que protegem; e risos das crianças, ais namorados, confidências, suspiros, elegias da voz, tudo o que lhes faz lembrar as murmurações da água, o estremecimento das folhas, as cantigas dos ventos — toda essa graça escorre sobre elas, que já gozaram a luz da matéria, como uma imensa e bondosa luz da alma.
“Eu tinha ouvido falar também das árvores de bom destino, que vão ser mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as legendas do temporal, viajar, lutar, viver, levadas pelas águas, através do infinito, entre surpresas radiosas — como almas arrancadas do corpo que fazem pela primeira vez a viagem do Céu!
“Que iria eu ser?… — Chegámos. Tive então a visão real do meu destino. Eu ia ser forca!
“Fiquei inerte, dissolvida na aflição. Ergueram-me. Deixaram-me só, tenebrosa, num campo. Tinha, enfim, entrado na realidade pungente da vida. O meu destino era matar. Os homens, cujas mãos andam sempre cheias de cadeias, de cordas e de pregos, tinham vindo aos carvalhos austeros buscar um cúmplice! Eu ia ser a eterna companheira das agonias. Presos a mim, iam balouçar-se os cadáveres, como outrora as verdes ramagens orvalhadas!
“Eu ia dar esses negros frutos: os mortos!
“O meu orvalho seria de sangue. Ia escutar para sempre, eu a companheira dos pássaros, doces tenores errantes, as agonias soluçantes, os gemidos de sufocação! As almas ao partir, rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a árvore do silêncio e do mistério religioso, eu, cheia de augusta alegria orvalhada e dos salmos sonoros da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora, havia de mostrar-me às nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas puros e justos, eu, a árvore viva dos montes, de intimidade com a podridão, de camaradagem com o carrasco, sustentando alegremente um cadáver pelo pescoço, para os corvos o esfarraparem!
“E isto ia ser! Fiquei hirta e impassível como nas nossas florestas os lobos, quando se sentem morrer.
“Era a aflição. Eu via ao longe a cidade coberta de névoa.
“Veio o sol. Em roda de mim começou a juntar-se o povo. Depois, através dum desfalecimento, senti o ruído de músicas tristes, o rumor pesado dos batalhões, e os cantos dolentes dos padres. Entre dois círios, vinha um homem lívido. Então, confusamente, como nas aparências inconscientes do sonho, senti um estremecimento, uma grande vibração eléctrica, depois a melodia monstruosa e arrastada do canto católico dos mortos!
“Voltou-me a consciência.
“Estava só. O povo dispersava-se e descia para os povoados. Ninguém! A voz dos padres descia lentamente, como a última água duma maré. Era o fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de mim, hirto, esguio, com a cabeça caída e deslocada, estava o enforcado! Arrepiei-me!
“Eu sentia o frio e a lenta ascensão da podridão. Ia ficar ali, de noite, só, naquele descampado sinistro, tendo nos braços aquele cadáver! Ninguém!
“O sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma daquele cadáver? Tinha passado já? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibrações? Eu sentia os passos tristes da noite, que vinha. O vento empurrava o cadáver, a corda rangia.
“Eu tremia, numa febre vegetal, dilacerante e silenciosa. Não podia ficar ali só. O vento levar-me-ia, atirando-me, aos pedaços, para a antiga pátria das folhas. Não. O vento era brando: quase somente a respiração da sombra! Tinha vindo então o tempo em que a grande natureza, a natureza religiosa, era abandonada às feras humanas? Os carvalhos já não eram, pois, uma alma? Podiam, com justiça, vir o machado e as cordas buscar os ramos criados pela seiva, pela água e pelo sol, trabalho suado da natureza, forma resplandecente da intenção de Deus, e levá-los para as impiedades, para os tablados da forca onde apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem os corpos? E as ramagens puras, que foram testemunhas das religiões, já não serviam senão para executar as penalidades humanas? Serviam só para sustentar as cordas, onde os saltimbancos bailam, e os condenados se torcem? Não podia ser.
“Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos, que sabem o segredo e compreendem a vegetação, achariam grotesco que as árvores, depois de terem sido colocadas por Deus na floresta com os braços estendidos, para abençoar a terra e a água, fossem arrastadas para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o braço da forca para abençoar os carrascos!
“E depois de sustentarem os ramos de verdura que são os fios misteriosos, mergulhados no azul, por onde Deus prende a terra —fossem sustentar as cordas da forca, que são as fitas infames, por onde o homem se prende à podridão! Não! se as raízes dos ciprestes contassem isto em casa dos mortos — faziam estalar de riso a sepultura!
“Assim falava eu na solidão. A noite vinha lenta e fatal. O cadáver balouçava-se ao vento. Comecei a sentir palpitações de asas. Voavam sombras por cima de mim. Eram os corvos. Pousaram. Eu sentia o roçar das suas penas imundas; afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, ruidosos, cravando-me as garras.
“Um pousou no cadáver e pôs-se a roer-lhe a face! Solucei dentro de mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma árvore das florestas a quem os ventos falavam! Servia agora para afiar os bicos dos corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cadáveres, como vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus! — soluçava eu ainda — eu não quero ser relíquia de tortura: eu alimentava, não quero aniquilar: era a amiga do semeador, não quero ser a aliada do coveiro! Eu não posso e não sei ser a Justiça. A vegetação tem uma augusta ignorância: a ignorância do sol, do orvalho e dos astros. Os bons, os angélicos, os maus são os mesmos corpos invioláveis, para a grande natureza sublime e compassiva. Ó meu Deus, liberta-me deste mal humano tão aguçado e tão grande, que se traspassa a si, atravessa de lado a lado a natureza, e ainda te vai ferir, a ti, no Céu! Oh! Deus, o céu azul, todas as manhãs, me dava os orvalhos, o calor fecundo, a beleza imaterial e fluida da brancura, a transfiguração pela luz, toda a bondade, toda a graça, toda a saúde: — não queiras que, em compensação, eu lhe mostre, amanhã, ao seu primeiro olhar, este cadáver esfarrapado!
“Mas Deus dormia, entre os seus paraísos de luz. Vivi três anos nestas angústias.
“Enforquei um homem — um pensador, um político, filho do Bem e da Verdade, alma formosa cheia das formas do ideal, combatente da Luz. Foi vencido, foi enforcado.
“Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com ela. O seu crime era o amor, que Platão chama mistério, e Jesus chamou lei. O código puniu a fatalidade magnética da atracção das almas, e corrigiu Deus com a forca!
“Enforquei também um ladrão. Este homem era também operário. Tinha mulher, filhos, irmãos e mãe. No Inverno não teve trabalho, nem lume, nem pão. Tomado dum desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao Sol-posto. Os corvos não vieram. O corpo foi para a terra limpo, puro e são. Era um pobre corpo que tinha sucumbido por eu o apertar de mais, como a alma tinha sucumbido por Deus a alargar e a encher.
“Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dor íntima; não me desprezou; o Sol alumiava-me com glorificação, as nuvens vinham arrastar por mim a sua mole nudez, o vento falava-me e contava a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegetação saudava-me com meigas inclinações da folhagem: Deus mandava-me o orvalho, frescura que prometia o perdão natural.
“Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegetação, que me sentia esfriar, mandou-me os seus vestidos de hera. Os corvos não voltaram: não voltaram os carrascos. Sentia em mim a antiga serenidade da natureza divina. As eflorescências, que tinham fugido de mim, deixando-me só no solo áspero, começaram a voltar, a nascer, em roda de mim, como amigas verdes e esperançosas. A natureza parecia consolar-me. Eu sentia chegar a podridão. Um dia de névoas e de ventos, deixei-me cair tristemente no chão, entre a relva e a humidade, e pus-me silenciosamente a morrer.
“Os musgos e as relvas cobriam-me, e eu comecei a sentir-me dissolver na matéria enorme, com uma doçura inefável.
“O corpo esfria-me: eu tenho a consciência da minha transformação lenta de podridão em terra. Vou, vou. Ó terra, adeus! Eu derramo-me já pelas raízes. Os átomos fogem para toda a vasta natureza, para a luz, para a verdura. Mal ouço o rumor humano. Ó antiga Cíbele, eu vou escorrer na circulação material do teu corpo! Vejo ainda indistintamente a aparência humana, como uma confusão de ideias, de desejos, de desalentos, entre os quais passam, diafanamente, bailando, cadáveres! Mal te vejo, ó mal humano! No meio da vasta felicidade difusa do azul, tu és, apenas, como um fio de sangue! As eflorescências, como vidas esfomeadas, começam a pastar-me! Não é verdade que ainda lá em baixo, no poente, os abutres fazem o inventário do corpo humano? ó matéria, absorve-me! Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! Eu vejo já os astros correrem como lágrimas pela face do céu. Quem chora assim? Eu sinto-me desfeita na vida formidável da terra! ó mundo escuro, de lama e de ouro, que és um astro no infinito — adeus! adeus! — deixo-te herdeiro da minha corda podre!”

Fonte: http://contobrasileiro.com.br/?p=159#more-159.