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sexta-feira, 19 de junho de 2026

SESSÃO LEITURA - TEMAS QUE MORREM - CLARICE LISPECTOR

O texto abaixo é de autoria de Clarice Lispector.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/clarice_lispector/.
Boa leitura!

TEMAS QUE MORREM

Sinto em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede?
A exiguidade do tema, talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra, em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadeia milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores – e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária para que se digam essas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.
Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo fosse o de uma formiga.
Eu também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma é também o corpo.
E é como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua, havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos! É que eu vinha do escuro meu para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de rosto.
Também seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas: ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser, como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não vale a pena porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse este: ver e esquecer, para não ser fulminada pelo saber.
E às vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é que é o paraíso.
A verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12340/temas-que-morrem.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

SESSÃO LEITURA - MANEQUIM, OSSO E PELE - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

MANEQUIM, OSSO E PELE

Os manequins profissionais não têm cara, são capa; não passeiam, passarelam; não veem, são vistos (e revistos). Vivem um pouco (nem tanto) ‒ uma vida magra de curvas e cheia de ângulos; sérios em sua ambição de confirmar a teoria de que um vestido é feito mais para o osso que para a pele, pulando de uma expressão para outra como se conformados, o dia inteiro, com um metteur-en-scène invisível; possuídos pelos seus próprios corpos, as almas neles envolvidas são donas de alguns ossos e pouco mais.
São uma classe finíssima (no pisar e na translucidez) e unida (como na aderência do osso à pele) de dimensões longilíneas e diapasão esgalgo. Osso e pele, escudo em opostos, são vagos e no entanto determinados, impessoais e mesmo assim únicos; dão a impressão de que, quando despem o Dior ou o Balenciaga, não ficam nus, mas expostos. Não desarrumam, não despenteiam, não perturbam a atmosfera quando cruzam passarelas.
Se você olhar fixo por mais de 30 segundos para o manequim, verá através: a transparência é sua principal dádiva aos homens.
Todos nós existimos em séries. Somos uma porção de meias-horas, duas horas, 24 horas.
Um manequim é feito de segundinhos espaçados, aquela fração que a luz leva para atravessar a objetiva, interromper-se no diafragma e calcar-se no filme do interior da câmera fotográfica. Nesse ventre em negativo celuloide e papel, o manequim sofre o processo químico de sua genealogia (os manequins se reproduzem em todos os climas e condições, bastando haver por perto uma câmera fotográfica). Está preso para sempre no clichê, no off-set, na rotogravura, dentro de um amarelo, entre uma pulseira e um coqueiro, suspenso pelo fio de Helanca, a anunciar, da revista, que a nova moda é esta:
esguiar.
O manequim leva uma bolsa como quem leva uma vida. Na bolsa pode-se encontrar quase tudo de que é feita sua alma: espelho, pó de arroz, endereços antigos, nomes ilegíveis e abreviados, sobrenomes esquecidos.
O manequim, num canto do salão, encontra o outro manequim. Os dois param e, encarando-se, ajeitam o cabelo, dão um retoque nos lábios: exatamente como se diante de um espelho. Têm razão, pois estão.
Mas há mais surpresas no manequim: lá, onde a pele não interessa, descobrimos os ossos mais inesperados, deixados à maneira dos piratas a fim de indicar tesouros escondidos em praias das caraíbas (trecho da prece de um manequim: “... e depois deste osso, e desse e daquele outro, prestai atenção, Senhor, pois ainda há mais ...”).
Mas a cada foto o manequim perde um pouco: um órgão interno utilíssimo, um jeito só seu de reclamar. E leva cada vez menos de si ao amante. Este o recebe com cuidados adiposos e o medo de que ele (além de quebrar) continue com o delírio diáfano de todo
manequim: emagrecer, emagrecer, cada vez mais até que a gravidade perca seu sentido e, na vertical vertiginosa, ascender a todos os céus e ir posar ao lado de todos os anjos.
Soa-me desarmoniosa esta elegância de manequim. Mulher nenhuma tem o direito de sorrir assim, como se tivesse colado grau em sexo. É preciso tropeçar para acertar o passo, despir para vestir. Falta, em alguma parte do manequim, um elemento de colesterol, um salto quebrado, erro, imprecisão, excesso de proteína, para que eu possa me reconciliar com a noção de que nem sempre toda boniteza quer dizer delicadeza.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12769/manequim-osso-e-pele.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

SESSÃO LEITURA - [SEU LAURO] - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/paulo_mendes_campos/.
Boa leitura!

[SEU LAURO]

Morreu Seu Lauro. Modesto funcionário de um ministério, tinha a mania de ser grande, rico e influente. Referindo-se às coisas que lhe pertenciam, começava por depreciá-las:
“Este terno, que, aliás, não custou muito caro...” E dava um preço de casimira inglesa para o brim ordinário.
Tinha imaginação, espírito e ilimitada capacidade para a mentira. A voz era fanhosa e estridente. Sua linguagem, essa era uma deliciosa mistura de deformações prosódicas, pedantismos e gíria. Não falava ato, mas acto, e não ficava nisso, era Nicterói, perfeicto, completo... “Outro dia, indo a Nicterói inspecionar uma glebas de minha propriedade, quando se deu que, evacuando o transporte por barca, resvalou-se por mim a boiada; uma velhota, que se fazia acompanhar por outra não menos idosa, estendeu o indicador, vociferando: Alá o bonde! Com o gesto papalvo, lá se me foram ao chão os preciosos óculos. Interpelei as anciãs na bochecha: Suas velhas bruacas! Pois retrucaram: Seu velho ignorante! Trepliquei: Ignorante uns tomates! Ignorantes são os óculos, que se caíram e se partiram. Na verdade, aliás, não custaram muito caro – novecentos mangos batidos – mas também, suas decrépitas, não foram feitos para serem quebrados assim: alá o bonde!”
Muitas mentiras de seu Lauro o levaram a um tempo heroico e longínquo, quando pertenceu à Marinha de Guerra. Grumete, estava trabalhando no mastro do antigo
Minas Gerais, quando, sentindo fome, puxou o fabuloso Patek; o relógio, escapando, caiu no mar. “Não me hesitei. Nessa quadra de minha vida, ainda desconhecia a natação. Dei um salto, aliás magnífico, e mergulhei no Atlântico. Lá no fundo, entre meros imensos, cachalotes e enormes árvores marinhas, vagava o meu Patek. Agarrei-o de um gesto decidido e, enquanto galgava-me para a tona, matutava cá comigo: lá em cima é que vão ser elas. Na superfície do oceano, pus-me a esbravejar com os braços, pra cá, pra lá, e não é, meu velho, que, quando dei por mim, estava a deslizar num crau perfeicto!”
Uma vez foi convidado a retirar-se do cassino da Urca, depois de ter ganho mais de oitenta contos. Na roda, um rapaz que entendia de jogo demonstrou que ele deveria ter
ganho mais de cem, de acordo com as paradas descritas. O mentiroso entrava em ira se alguém desconfiasse de sua palavra.
A situação era difícil. Seu Lauro coçou o queixo, mandou o rapaz explicar tudo de novo.
Não havia dúvida, ele deveria ter ganho cento e tantos contos. Seu Lauro proferiu um palavrão e resolveu o impasse: “Não é que me roubaram!”

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7298/seu-lauro.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

SESSÃO LEITURA - O CALOR E O TRABALHO - RACHEL DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Rachel de Queiroz.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rachel_queiroz/.
Boa leitura!

O CALOR E O TRABALHO

E 38º a 40º à sombra tem sido a temperatura do Rio em muitos dias deste verão de 49. O ar dá para ser apanhado às colheradas, de tão espesso e morno. Brisas são meros sonhos, as folhas das árvores imóveis parecem feitas de papel e arame, para um cenário de filme.
O mar, no fundo da baía, é uma lâmina de estanho lisa e espelhando fogo. Até os pássaros têm medo do ar e é raro avistar-se um risco de asa cortando o céu.
E nessa fornalha viva assim mesmo os homens labutam. Erguem paredes, misturam massa, soldam aço, derretem asfalto, britam pedra, varrem ruas, descarregam navios, capinam o chão e cavam a terra. Homens mal alimentados, mal agasalhados, que sofrem de doenças mal curadas, que não se sentem em segurança em relação a si próprios nem em relação aos seus. São esses os mestiços indolentes das anedotas e dos livros de viagens, esses os caboclos mulatos do “prantando dá”. Quando o corpo pede apenas sombra, refresco e sesta, enquanto os chamados brancos se não sobem para Petrópolis, se refugiam nos cinemas refrigerados, se amontoam nas confeitarias tomando toneladas de sorvete, eles mourejam ao sol. A patroa num deux-pièces de piquê branco deita-se na rede da varanda e pede uma cajuada geladíssima: enquanto isso, ao mormaço escaldante, abrigada do sol apenas por um pedaço de folha de zinco, a sua lavadeira esfrega roupa numa tina e tira água aos baldes do poço de quatro metros.
O ilustre escritor Richard Katz, no seu belo livro Viagem pelo Amazonas faz comentários muito justos a respeito da lenda que é essa nossa famosa indolência e do tremendo esforço que representa qualquer trabalho físico debaixo dessas temperaturas de forno. É um dos poucos europeus que nos fazem justiça nesse terreno, e em vez de nos acusar pelo pouco que temos feito, antes louva o muito que já fizemos dentro de tais condições.
Chega mesmo à ousadia de traçar paralelos e imaginar o que seria dum branco nórdico derrubando madeira no Amazonas num calor de mais de 37° à sombra...
Na pedreira atrás de minha casa, os empregados da Prefeitura quebram pedra para os calçamentos da rua. Pegam oito horas por dia no sol escaldante, lidam com dinamite, com ponteiro e marreta, ou metem calhaus nos britadores que na hora do sol forte tiram fogo, literalmente. Não sei quanto ganham. Mas não devem ganhar nenhum despropósito. Sei onde moram, é por esses morros sem água e sem luz elétrica, em barracos de taipa; sei o que vestem — vejo-os todo dia na rua, e posso afirmar que não usam seda nem linho; sei o que comem — mais de uma vez tenho visto a marmita modestíssima onde conduzem o almoço; o dinheiro deles não é pois tanto assim como se diz. Contudo, de verão e inverno, lá estão eles no pesado; de noite ainda dançam e vão ao cinema, ou namoram por essas beiras de praia, e aos domingos tomam banho de mar e jogam futebol. São uns fracos, realmente... Forte é o alemão da esquina, que trabalha de camisa de cambraia de linho no escritório refrigerado, come dieta de verão, anda de automóvel particular, e assim mesmo, outro dia foi parar na Assistência, com insolação, porque se meteu a dar um passeio a pé ao meio dia em ponto.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/8917/o-calor-e-o-trabalho.

quinta-feira, 26 de março de 2026

SESSÃO LEITURA - UM CHUTE - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
Boa leitura!

UM CHUTE

13, sexta-feira. E pela manhã um jornal me dá uma notícia que me deixa amargurado, morreu, nesse terrível desastre de aviação de Aracaju, um amigo meu, Evaldo Coutinho. Revejo sua figura de adolescente tímido, no Recife de 1935, escrevendo sobre King Vidor. E penso em nossa esquiva, silenciosa amizade através desses anos todos.
Talvez eu nunca o tenha procurado para uma conversa, nem ele a mim; mas sempre tive prazer em ver esse homem profundamente inteligente e delicado, quieto, organizado, eficiente que sempre foi uma de minhas admirações de homem desatento, estabanado e desigual.
Sabendo de sua morte fiquei com remorso de não tê-lo conhecido melhor, de não ter sido mais seu amigo.
Vou para a cidade, encontro Pompeu de Souza, falamos de Evaldo com tristeza. Mas logo depois encontro Lêdo Ivo e ele me dá a notícia de que houve um engano do Jornal: quem morreu deve ter sido um primo de Evaldo. Evaldo está vivo, tranquilo, silencioso e cordial atrás de seus óculos. Um abraço para Evaldo, e viva Evaldo!

*

14 de julho, o povo dançará nas ruas de Paris, através das noites quentes e iluminadas. Penso em Beatrix Reynal, que revi outro dia, e está organizando a exposição de desenhos infantis — dos desenhos que sobraram daquele imenso concurso que ela, com um esforço monstruoso e gastando uma pequena fortuna, fez durante a guerra, entre as crianças brasileiras. E que algum sabotador criminoso deixou apodrecer, aos milhares, em um porão da embaixada francesa. Nenhum francês fez tanto pela sua terra, na hora da desgraça, como essa mulherzinha nascida no Uruguai. E poucos brasileiros terão feito tanto pela nossa gente doente e miserável, pelas nossas crianças pobres e tristes. 14 de julho, eu mando um aperto de mão a Beatrix Reynal.

*

Circulo um pouco pela cidade, de manhã, resolvo umas coisas mais ou menos cacetes. E de repente, na Esplanada do Castelo, reparo nesta coisa simples: estou feliz. Não me acontece nada de especial; minha felicidade é gratuita, deriva destas coisas simples: o céu está azul, o sol está louro, eu estou andando na rua. Meu sapato é confortável, minha roupa é limpa, meu corpo está bem. Passa uma menina com uma fita nos cabelos; em um terreno livre há um grupo de mecânicos que aproveitam a hora do almoço para um bate-bola. A bola vem para o meu lado; devolvo-a com um chute, e meu chute é certo, e é saudado com um “oba!” por um dos homens de macacão, que pega a bola com a cabeça. Estou definitivamente feliz. Meus problemas de dinheiro, minhas tristezas, minhas aflições, nada tem importância. Posso amar a quem não me liga, fazer o que me desgosta, não fazer o que queria — mas neste momento sou apenas um animal feliz: o dia está lindo e eu estou andando com prazer de andar. Sou um animal feliz. E meu chute foi bonito.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/9865/um-chute.

quinta-feira, 5 de março de 2026

SESSÃO LEITURA - UMA HISTÓRIA A MAIS - ANTÔNIO MARIA

A crônica abaixo foi escrita por Antônio Maria.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp.
Boa leitura!

UMA HISTÓRIA A MAIS

Como cheguei ali, até hoje não sei. Lembro-me de que desci de um táxi e comecei a andar. À minha frente, os Andes, envoltos em nuvens espessas, eram tão irreais que pareciam cenário de fotógrafo. Fazia frio e a maioria das casas estava de janelas fechadas. Hoje, não sei dizer se era praça ou avenida, mas havia árvores em fileiras certas e um passarinho ou outro piava, sem alegria, uma vez mais perto, outras vezes mais longe de mim. Por muito tempo, fui a única pessoa existindo naquele bairro de Santiago do Chile, caminhando sem rumo ou pressa e, em seguida, sentada num banco de pedra. Depois, passou um ônibus com alguns poucos passageiros e um deles, que havia feito sinal para descer, arrependeu-se e mandou o chofer continuar.
O mugido da máquina em primeira marcha quebrou, de certo modo, a integração a que eu me dera no silêncio e no abandono da rua. De repente, apontou uma mulher na esquina, vestindo calças e suéter negros, com as mãos nos bolsos, andando com um jeito largado. Não ia para canto nenhum. Vinha andando, somente. Mais de perto, pude ver que tinha cabelos castanhos, olhos claros e era bonita. Dava-se-lhe mais de 30 anos ou, se tivesse menos, a melancolia do olhar e os vincos da face deviam ser marcas de algum desencanto. Passou e disse "olá", olhando-me com desinteresse. Atravessou a rua devagar, voltou da metade e, parando à minha frente, quis saber se tinha cigarros, se eram negros ou rubros. Os meus eram negros, feitos com um fumo ardoso e molhado. Recusou e sentou-se ao meu lado. Seu nome era Silvia, Maria Silvia. Viera menina de Buenos Aires e seu pai tinha negócios em Sur de Chile. Depois ficou pobre, depois Silvia foi trabalhar numa vindima, depois casou e, quando fez dois anos, o marido adoeceu e morreu de tísica. Achava que a vida era lenta e sem grandes alegrias. De bom grado, cortaria os pulsos ou beberia um veneno forte, se não tivesse uma filha. A filha começou a descrever, rindo de leve à flor dos lábios – “tem os meus olhos e o meu nariz; no resto, é igual ao pai”. Baixou a cabeça e começou a riscar o chão com um galho seco que não escrevia nada. De repente, jogando os cabelos para trás, encarou-me e perguntou se eu queria ver a menina. A casa ficava a duas quadras do banco de pedra onde estávamos. Era mais um apelo que um convite. Fui.
No caminho, dissemos poucas coisas e certamente não rimos de nada. Paramos em frente a um portão de ferro gasto e, num gesto suave, pediu-me que entrasse. Atravessamos um pequenino e maltratado jardim, subimos quatro degraus e esperei, no terraço, que ela abrisse a porta. Experimentou uma primeira chave – não era. A segunda, também não, e a terceira não havia (era). Desculpou-se, confessando distração eterna, calcou uma campainha e uma mucama morena nos abriu a porta. Dessa vez entrou primeiro e apontou a cadeira onde eu devia esperar. Foi para um quarto ao lado e, instantes depois, chamava dizendo: “Senhor, por favor”. Silvia estava em pé à beira de uma caminha de criança. Pareceu-me mais pálida e os vincos do seu rosto mais acentuados. Apontou a cama e disse, baixando os olhos: “Es esta”. Olhei, os lençóis estavam desarrumados e não havia nenhuma criança naquela cama. Num instante, compreendi que não devia perguntar nada, nem estranhar coisa alguma. E ficamos os dois, de olhos baixos, até que ela andou em direção à sala, pedindo, com um gesto de cabeça que eu também fosse.
Não havia mais nada a dizer. Era urgente sair dali, sozinho, ganhar a rua, livrar-me depressa de tudo aquilo que era realmente ruim para a minha sensibilidade. Eu não queria saber de nada, como foi, por que tinha sido. Mas era importante e necessário sair sem transparecer o que eu estava sentindo ou pensando, em respeito ao drama que aquela mulher me entregava, fazendo certa questão que eu compartilhasse dele.
Era importante que eu saísse com a serenidade que trouxera e não tentar consolar, nem fazer apelos de resignação. E saí, deixando um olhar de calma sobre o rosto de Silvia, que ainda era belo. Vira antes, sobre a mesa num quadrinho, o retrato de uma menina rindo.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17818/uma-historia-a-mais.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SESSÃO LEITURA - O FUNCIONÁRIO PÚBLICO - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/paulo_mendes_campos/.
Boa leitura!

O FUNCIONÁRIO PÚBLICO

Sempre impliquei com a denominação de barnabé — dada talvez com uma intenção complacente ao funcionário público. Acho também impertinente quando dizem: “Ela é uma professorinha”! Quem trabalha com palavras sabe que barnabé tende a esvaziar a dignidade do funcionário civil, significando apenas pobre coitado; do mesmo modo, o professorinha tende a reduzir o problema de uma classe em um suspiro de pena. Ora, não interessa a ninguém e nada resolve sentir compaixão pelo funcionário ou pela professora pública: se essas duas classes padecem hoje no Brasil de aflições específicas, o jeito é encará-las de frente e com dignidade.
Mas que aflições são essas? Em tese, acontece o seguinte: o funcionário público, antes demais nada, qualquer que seja a sua categoria funcional, qualquer que seja o seu ordenado é a pessoa que vive acima de suas posses. Ou abaixo de suas necessidades. Ele não é a criatura que tomou um bonde errado, mas a criatura que tomou um bonde cujo itinerário foi alterado. Sem poder apear do veículo, ele vai seguindo em direção ao imprevisível cada vez mais aflito. Porque não reclama do motorneiro ou do condutor? Porque, no caso do funcionalismo público, o motorneiro e o condutor, isto é, as autoridades imediatas sobre os passageiros, estão apenas cumprindo ordens e nada podem fazer. Um funcionário de empresa particular pode a qualquer instante pedir reajustamento de salário: se o funcionário público fosse à mesa do chefe e fizesse o mesmo, a sua sanidade mental seria posta em dúvida. Um funcionário de empresa particular muitas vezes anda tão magro ou tão malvestido que o seu drama pode saltar até aos olhos do patrão. Já o funcionário público, além de não lhe ser permitido andar malvestido, pode ir emagrecendo até sumir, que nenhuma providência poderá ser encaminhada a seu favor.
Tudo isso é miúdo e triste — que se há de fazer? O funcionalismo é uma classe acuada, uma classe que naufragou na travessia e se recolheu em frangalhos a uma ilha deserta. O funcionalismo deixou de ser o grande quadro do poder executivo: passou a ser uma cifra na balança orçamentária. Ontem, o funcionário público era a vítima da inflação; hoje, ele paga para a deflação. Não é mais um ser humano: é um número. Não há planos para resolver seu problema: ele passou a ser considerado o problema. Virou até mesmo bode expiatório, e isso chega a ser engraçado; pois, embora não caiba ao funcionalismo aumentar a produção, a exportação, a renda, enfim, é sobre ele que se tem lançado a culpa de ter o país uma despesa muito grande e uma receita muito curta. Como se pudéssemos culpar a nossa cozinheira pelo fato de não termos os recursos suficientes para pagar-lhe o ordenado.
Essa desagregação do funcionalismo público é coisa que vem se processando lentamente nas últimas décadas. Minha geração ainda se lembra do tempo em que havia uma carreira de funcionário. Hoje o funcionário é exatamente aquilo que uma instituição de beneficência chama de pobreza envergonhada. É a criatura que dorme mal, acorda mal, come mal, diverte-se mal, sem poder educar os filhos como gostaria, sem ter ao menos onde poder passar férias calmas e tranquilas. A continuar assim, o funcionário acaba mesmo virando barnabé — coitado.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/16733/o-funcionario-publico.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - HAMLET EM MÍMICA - IVAN LESSA

O texto abaixo é de autoria de Ivan Lessa.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ivan_Lessa.
Boa leitura!

HAMLET EM MÍMICA

Uma das coisas boas da vida é não ter que ir ao teatro. Mas a gente só descobre isso quando tem de ir ao teatro. Mesmo sem gravata, teatro é muito chato. E depois não descobriram ainda uma solução para os intervalos. Fica todo mundo pelos corredores fazendo cara de quem está achando alguma coisa da peça e dos atores. Tudo porque se julgam na obrigação de ter uma opinião séria a respeito do teatro: as críticas são tão compenetradas, os atores tão sensíveis, ou autores dizem coisas tão sérias... Todo mundo tem medo de dizer: “Mas isso é uma besteirada horrível e não quer dizer absolutamente nada e nunca encontrei na minha vida quem falasse feito esse personagem e se encontrar viro a cara imediatamente!”. Basta uma coisa ocupar um espaço razoável nos jornais, durante determinado período, para todo mundo ter medo de rir. Agora experimente dizer isso para alguém de teatro. Ele é capaz de bater em você. O ator, por exemplo, fala de sua profissão como o dr. Schweitzer falava de seus hospitais na selva, como se houvesse algo de sagrado em se pintar todo e aparecer debaixo de um facho de luz dizendo coisas que ele não entende de uma maneira que todos entendam.
Aqui no Rio ‒ deve ser em todo Brasil ‒ o espetáculo-festinha continua, sem enredo, mas com texto, sem drama, mas com “ão” (todos terminam em “ão”: Opinião, Reação, Perversão). Descobriram que tá dando um dinheirão, embora se recusem a admitir que façam teatro para ganhar a vida, e encarem o dinheiro como uma espécie de moléstia diabólica, altamente contagiosa a necessitar urgentemente de extirpação. Quem sabe para o ano descobrem que o negócio é show (com um pouquinho de bossa nova aqui e ali para dar gosto) em “inho” ou “íssimo”. Os shows em “inho”, naturalmente, ficariam todos a cargo de Vinicius de Moraes; em “íssimo” seriam todos na cidade, bem fora da mão, com o mínimo de conforto possível e na sala de pingue-pongue de grêmios recreativos obscuros. Mas seriam feitos com um sorriso esperto trocado entre participantes e espectadores que em miúdos significaria: Brecht é fogo, hein? A gente ‒ eu e você ‒mania Brecht, não é mesmo? E repare como ele tem coisas a dizer dentro da atualidade brasileira. Você vai se sentir lisonjeado com aquela intimidade, afinal os realizadores estão incluindo você ‒ dando parceria ‒ na sua sofisticada percepção dramático-sociológica. Você está mal sentado, é verdade, mas a rapadura do conhecimento humano está sendo dividida com você. A equipe é a mais profissional possível (os preços também) do contrário seria impossível montar esse espetáculo com grifos tão amadorísticos.
Ator é um camarada que fica em casa bolando algo inteiramente inútil feito montar Hamlet em mímica. Diretor é aquele outro que dirige esse espetáculo. Empresário é o que o financia. E o pato ‒ que vinha cantando alegremente coén, coén ‒ o pato, meu amigo, é você.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12743/hamlet-em-mimica.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - A ARTE DE ANDAR - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

A ARTE DE ANDAR

Há duas formas de andar: com o espírito claro e com o espírito enfermo. Já andei neurótico; marchava quilômetros e quilômetros como a fugir dos sentimentos e pensamentos que então me perturbavam, mas eles me seguiam, me arranhavam, escureciam meus olhos. Agora, não; agora ando claro, é um exercício, uma medida de higiene. Primeiro sob as amendoeiras, no Posto 6, onde os banhistas jogam vôlei e os pescadores arrumam suas redes. Depois, ao longo da avenida Nossa Senhora de Copacabana, principalmente num sábado pela manhã, quando centenas de mulheres de todas as idades percorrem as lojas, os mercados, as feiras, em grupos ou sozinhas. Entro numa sapataria onde há uma botina que me agrada, mas o estabelecimento anuncia uma liquidação. Impossível fazer o meu pequeno negócio naquela confusão de comerciários que abrem as caixas, e de crianças que experimentam sandálias, e mocinhas que entregam o pé ao rapaz agachado... Mais parece uma festa, e todos estão felizes – os vendedores porque estão vendendo mais do que habitualmente, as compradoras porque imaginam estar comprando abaixo do preço, o gerente porque os lucros serão mais que razoáveis: Há nas liquidações uma lei segundo a qual as mulheres é que se sentirão estimuladas a comprar; as mulheres se sentem bem em multidões femininas, interesseiras, enquanto os homens, creio eu, só se amontoam em estádios ou bares, lugares em que não há problemas de oferta e procura.
Reconheço que as feiras-livres criam uma série de problemas desnecessários e provocam um desgaste nervoso nos cidadãos já mais do que estraçalhados pelas distâncias engarrafadas, os ônibus superlotados, os buracos que se multiplicam, a falta de dinheiro, a guerra do Vietnã... Mas é bastante agradável andar pelo interior de uma feira-livre, apreciando os gêneros expostos nas barracas, ouvindo os mais diversos comentários, discernindo pequeninos dramas familiares e sociais no comportamento da madame com relação à pretinha encarregada de puxar o carro do bebê, flagrando um pivete no ato de contemplação amorosa de uma bolsa esquecida aberta no braço da mocinha generosamente delineada por uma calça Lee... As mulheres são belas ao meio-dia de sábado, antes que os cabeleireiros transformem suas jovens cabeças em esculturas grotescas. Saem sem pintura, com roupas modestas, sandálias abertas, e em cada rosto se desenha aquela curiosidade intensa, ardente, quase sexual, que empolga as mulheres em face de um artigo a ser comprado. Elas estão mais perto da realidade do que nós, machos abstratos e longínquos; elas olham o tomate de igual para igual, mantendo-se ao nível da percepção verdadeira, de que nós homens temos nostalgia.
Quilômetros e quilômetros de andança alegre e atenta. Volto para casa cansado e enriquecido de sensações.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/20855/a-arte-de-andar.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

SESSÃO LEITURA - VIZINHA II - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
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VIZINHA II

Eu falei de uma redação no vigésimo andar e de uma vizinha, rosada e loura, no terraço ao lado.
O jornal era um jornal muito vivo, e continuou assim até que um dia lhe aconteceu o que acontece com tudo o que é vivo: morreu.
Os rapazes foram-se embora: uns a resmungar, porque não haviam recebido o último ordenado; outros, mais polidos, apresentaram pêsames e lamentaram o fato. Um a um, juntaram coisas de suas gavetas e partiram para outras redações. Fiquei apenas eu na sala grande que a penumbra ia invadindo. Levantei-me da cadeira, comecei a fechar as janelas. Para os lados do poente ainda havia uma vaga luz sobre as montanhas, e contemplei um instante o morro com bananeiras e o grande relógio azul da Central, lá longe. Quando fui fechar as janelas do lado sul vi que a vizinha estava à porta de sua casa no terraço.
Cantarolava uma coisa qualquer; dei-lhe um adeus a que ela não respondeu; e parti.
E a grande sala ficou fechada, com inúteis papéis e fotografias nas gavetas de suas mesas; fechada, escura e fria. O jornal foi esquecido: mas enquanto se resolvia o destino das coisas a grande sala continuou desabitada.
Uma destas manhãs precisei ir lá. Quando entrei, achei o ar pesado e morno, e embora não devesse demorar muito, resolvi abrir todas as janelas. A vizinha estava de costas, junto ao muro do terraço defronte de uma janela, secando seus cabelos ao sol. Ouvindo o ruído da janela que se abria, voltou-se, e deu comigo. Cumprimentei-a gravemente com um aceno de cabeça; e ela, surpreendida, retribuiu a minha saudação. Depois foi para mais longe. Afastei-me da janela, mas fiquei um instante a observá-la. Ela passava os pentes nos cabelos molhados, esticando-os ao sol. Assim como tantas vezes a vimos, lá estava a “holandesa” ou a “madona”, loura, roliça, eterna, eternamente a enxugar seus cabelos ao sol de toda manhã. Agora estava de perfil, mas achei que espreitava com um canto de olho enquanto eu abria todas as janelas. Durante muito tempo ela vira aquelas cinco janelas fechadas: era natural que estranhasse a novidade.  
Quando fui fechar a janela para sair, fiquei tentado a dizer-lhe alguma coisa — perguntar se alguma vez sentira saudade de nós, ou se estava mais feliz sem os olhares importunos dos rapazes da redação. Tive vontade de dizer: “eles vão voltar”!, ou de perguntar-lhe porque lavava tanto os cabelos. Olhei-a um instante indeciso. Imagino que ela tinha a consciência de que eu a olhava, embora não se tivesse voltado. Hesitei um instante, a mão na correia que puxa a persiana. E então considerei que a imagem daquela mulher moça, com seus braços rosados e roliços e seus cabelos molhados brilhando ao sol talvez tivesse ficado também na lembrança de todos os rapazes da redação. Certamente nenhum se lembrou dela depois da morte do jornal, e quando eles se encontram nenhum terá a ideia de falar dessa imagem sem nome e sem história. Entretanto estivemos todos na sua vizinhança, meses e meses, sobre a cidade múrmure; nossos destinos se defrontaram assim em silêncio, e se afastaram. Rapazes, inquietos rapazes de Jornal; quem sabe se a felicidade de algum de vós não estaria naquela mulher sossegada, roliça e cantarolante, muito loura e rosada, no seu terraço modesto, a lavar e enxugar com preguiça os cabelos toda manhã de sol?
Tenho uma tendência a pensar tolices meigas; pensar na solidão da criatura humana, no acaso que dirige o encontro das pessoas, e seus desencontros no tempo e no espaço; no gesto que ninguém fez, na palavra que não se disse, no sentimento que não se suspeitou. Olhei ainda um instante a mulher: ela me parecia eterna como uma estátua ao sol, a estátua de todo o banal mistério humano, a estátua de toda a vida que não acontece, de todo o destino que poderia ter sido. Lentamente, em silêncio, baixei a janela sobre sua imagem, apanhei minhas coisas, e parti.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/10493/vizinha-ii. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

SESSÃO LEITURA - PREVISÃO À MANEIRA PRÉVERT - ANTÔNIO MARIA

A crônica abaixo foi escrita por Antônio Maria.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp.
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PREVISÃO À MANEIRA PRÉVERT

Sua casa deve ser pequena, não mais que um quarto e uma sala. Teria ainda uma cozinha, um banheiro e um terracinho ao fundo, com o lavador de roupa. Quanto aos móveis, os da sala seriam: um sofá, duas poltronas, uma mesinha baixa de centro e outra, desmontável, dessas que ficam pela metade e são encostadas na parede. Sobre esta mesa, um jarro de flores e um retrato de parente: uma mesa para almoçar e jantar, se fosse coisa que viesse gente de fora. Na mesinha baixa de centro, dois cinzeiros, como nome de uma boate. Sobre o assoalho, sem tomá-lo todo, um tapete branco de cordão grosso. Haveria ainda uma vitrola portátil e os discos estariam na cadeira ao lado. Nas paredes, duas ou três reproduções (uma de Gauguin) e mais um quadrinho pequeno, de pintor nacional. Agora, por exemplo, se são duas da tarde, a moça estaria tomando uma xícara de café, em cima de um guardanapo de matéria plástica, ocupando só uma ponta da mesa encostada, tendo apenas afastado o retrato do parente. Mexeria o café no fundo da xícara. As flores ficariam onde estavam. Bebe sem olhar para a xícara; ou estaria olhando uma pequenina mancha da parede e ficará olhando um tempo enorme para esse ponto sem importância, porque só se pode olhar demoradamente para o que não tem importância ou beleza ou poder. Estaria vestida como dormiu, porque mora sozinha e gosta de ficar nesse deus-dará, até que lhe chegue coragem de tomar banho, vestir-se etc. Ontem, mais um homem lhe disseque a amava e confessou que tinha mandado as tais rosas. Lembra-se deque sorriu, agradeceu, sorriu, agradeceu de novo, disse que as rosas estavam lindas mas não passou disso, durante o agradecimento. Os homens se acham formidáveis. Aliás, as rosas, três estavam no jarro da mesa, uma no banheiro (num copo) e as restantes (oito) dera à mulher do zelador. Numa casa de quarto e sala, não pode haver mais que quatro ou cinco rosas. Passou disso, já fica fúnebre, já lembra enterro. Minha infância (pensa) está cheia de enterros... e de flores. Quanto ao dia de hoje, tinha que ir à cidade, pagar o aluguel (aproveitaria para buscar o relógio no conserto) e voltaria com tempo de ir ao cabeleireiro. Mas já avançou duzentos no dinheiro do aluguel. Não é caro este apartamento (pensa),por 4.500 cruzeiros, com telefone e móveis. Não vale a pena vestir-se por causa do relógio. O homem da joalheria (pensa) vai outra vez pegar-me a mão (diz baixo) com a sua mão suada. Nisso, o telefone toca. O telefone é no quarto, na mesinha de cabeceira. E ela resiste aos três primeiros trinados. A quarta chamada já lhe dá nos nervos. Levanta, anda, senta na cama, tira o fone do gancho e diz o número automaticamente. Do outro pergunta se a pessoa não tem nada o que fazer e desliga. Seria, provavelmente, o homem das rosas. Mas, admitindo a possibilidade de ser o de quem ela gosta, ou gostou (pensa), gosta, vá lá, foi que disse os quatro "alôs", em tonalidades diferentes, sendo o primeiro brando e o quarto enervado. Ou, talvez, suplicante. Sobe os pés na cama e encosta a cabeça no espaldar. Depois, abraça-se aos joelhos e acha engraçado ter ficado, de repente, uma pessoa muito menor. Sente que emagreceu um pouco. Onde devia, não. Lamenta ser uma mulher que não fuma, porque um cigarro lhe daria um ar melhor. Defronte, na penteadeira, um aviso de banco e uma conta de luz e gás. O vidro de perfume, nas últimas. Existir é difícil. Matar-se ou prosperar. No chão, revistas, quase todas com fotografias de Teresinha Morango. Noutra, várias poses de Colette Marchand. A angústia e a inutilidade dos tímidos. Gostaria de ser beijada silenciosamente na fronte. Gostaria de entender o seu misticismo. Gostaria de ter um amigo íntimo. Gostaria de ter a vida menos minha (dize pensa), não sei intimidade nenhuma. Lembra-se de um certo cidadão que a ama, ou a amou. Se ele entrasse, ela fecharia os olhos. Se ele a beijasse na fronte, ela seria grata. Mas não lhe passaria o braço pela nuca. Que horas seriam no mundo? Cinco, seis, sete? Que notícias estariam fazendo sucesso? O certo é não fazer notícias. E pensa: um gesto materno me faria bem. Novamente, o telefone. Novamente, o silêncio do outro lado da linha. Agora o coitado respirou fundo, quase suspirando, sem causar a menor emoção. E pensa que devia ser casada, leviana, trivial, eficiente, fecunda, morna, solene e gorda. Todavia, agora, mais que tudo, queria ser beijada silenciosamente na fronte. O sal do sono arde em seus olhos. Matar-se ou prosperar: A mão do sono passa de leve sobre o seu ventre. Todas as pessoas se distanciam e agora nenhuma é mais amada ou mais desimportante. Todas são distantes e sem som. Nenhuma tem relevos fisionômicos especiais. Ninguém é feio e ninguém é bonito. Todos são perdoáveis. Ninguém precisa ser motivo de outra causa, que não seja o silêncio.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/5836/previsao-a-maneira-prevert.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - CONVERSA DE GENTE RICA - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
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CONVERSA DE GENTE RICA

1. Tom Jobim esteve na alfândega e, após demoradas negociações, conseguiu liberar a mercadoria que lhe mandavam dos Estados Unidos. Era uma caixa em cuja tampa estava escrito: “Presente de Frank Sinatra”. Dentro havia duas dúzias do novo (e provavelmente derradeiro) long play do famoso cantor, intitulado Sinatra & Company.
O maestro já ia embora, feliz da vida, quando uma funcionária fez este comentário:
— O senhor diga ao Sinatra para não lhe mandar mais presentes feito esse. Isso só serve para lhe dar trabalho…
Sem saber, ela estava fazendo a declaração mais esnobe de 1971.
2. Alécio Andrade, vocês sabem, é uma espécie de filho adotivo meu e do Paulinho Mendes Campos. Garoto rico de Ipanema, extremamente tímido e sensível, foi por nós introduzido na roda boêmia do antigo Zepelim. Era poeta e pianista (grande intérprete de Bach). Paulinho lhe ensinou os rituais da boêmia e eu lhe mostrei o caminho que leva às mulheres. Fizemos grandes farras juntos.
Um belo dia, Alécio tomou horror ao piano, rasgou seus poemas e começou a tirar fotografias. E logo se revelaria um craque nesse novo ofício. Acabou indo passar uns meses em Paris, de onde nunca mais voltou. Sofreu a fome e o frio, ele que fora criado no padrão de vida da avenida Delfim Moreira. Quando estive na França, foi fácil perceber que Alécio, agora cidadão do mundo, nascera ali, no Boulevard Montparnasse. Aquela era a sua pátria.
Sua situação melhorou depois que começou a trabalhar como repórter fotográfico da Manchete na Europa. E finalmente aconteceu o grande prêmio, a recompensa que fizera por merecer nos duros tempos de exilado sem dinheiro. Alécio agora faz parte também da Magnum, que é a maior cooperativa de fotógrafos do mundo. Seu padrinho: Henri Cartier-Bresson, o Olho.
Alécio venceu.
3. As pessoas lerdas, feito eu, estão-se sentindo rapidamente ultrapassadas pelos fatos da prosperidade. É uma solidão estranha, solidão de gente pobre. Você vai almoçar entre amigos e a conversa gira toda em torno da Bolsa. Tais ações vão dar filhote, tais outras oferecem garantias seguras. A jovem recém desquitada revela:
— Saí da fossa entrando no mercado de ações. É quase como se tivesse descoberto um sentido para a minha vida. Vendi tudo o que tinha, estou morando com mamãe, e todo o meu dinheiro vai para a Bolsa. Nas duas últimas semanas ganhei cinco milhões…
É só no que se fala: ganhar dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não se pode conceber algo mais diabolicamente excitante que a experiência capitalista. Os novos-ricos já estão gastando dinheiro na Europa, que descobre um turista generoso e alegre: o brasileiro. Se as coisas continuarem como estão indo, brevemente perderemos o complexo de inferioridade que temos em relação aos Estados Unidos.
Enquanto isso, Dona Sebastiana (a segunda) e Dona Joana ganham, cada uma, cinco bilhões dos antigos. É dinheiro demais; não dá nem para imaginar. Mas dá para influenciar o sono dos pobres. Eu, por exemplo, sonhei que Dona Joana, querendo mostrar ao mundo a imensidão de sua fortuna, desembarcou de um avião em Pequim e avisou:
— Estou disposta a dar um cruzeiro antigo a cada habitante da China de Mao.
Formou-se uma fila gigantesca. O primeiro a receber a grana foi Mao, depois Chu En-lai e Lin Piao; seguindo-se os 700 milhões de chineses restantes. Nenhum chinês ficou sem a sua moeda.
Pois bem, depois disso Dona Joana fez as contas e, sorridente, verificou que ainda lhe restavam quatro bilhões dos antigos... Quatro milhões de cruzeiros novos!
Quanto a mim, acordei mais pobre do que na véspera.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/21460/conversa-de-gente-rica.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - A TRISTE LÍNGUA DO RÁDIO - RUBEM BRAGA

O texto abaixo é da autoria de Rubem Braga.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rubem_braga/.
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A TRISTE LÍNGUA DO RÁDIO

Quando ouço alguém dizer que domina perfeitamente uma língua estrangeira, não acredito. O sentimento que temos de cada palavra é alguma coisa funda e fluida, que vem desde a infância, que faz parte de nossa própria vida, que tem gosto, som, temperatura, consistência, cheiro; cada palavra é uma longa experiência sensorial, emocional e intelectual que vivemos ao longo de toda a existência. Podemos aprender o seu sentido; mas como apreender sua substância, ouvir seu eco mais íntimo se antes não “vivemos” essa palavra?
Há palavra que nos levam à infância — “torresmo”, “tacho”, “jenipapo”, outras ao fim do curso primário, como “aliás” ou “adversário”.
A infância de hoje tem um vocabulário diferente do meu tempo de menino, porque aprendeu muita coisa na linguagem quase sempre pernóstica do rádio — que existe de mais alarmante que a falsa riqueza vocabular de alguns locutores de futebol? Já essa palavra “locutor” me arrepia um pouco, com seu ar douto e latinizante. Acho que está bem e não proponho nenhuma outra em seu lugar — mas é irresistivelmente antipática, lembra colégio, sala de operação, processo inquisitorial.
O rádio, com sua força tremenda, tende a unificar a linguagem nacional a um ponto impossível de imaginar antes; a língua oficial falada no Brasil em todos os círculos sociais e em todos os estados é, afinal de contas, a da Rádio Nacional. Se amanhã o pessoal dessa estação resolver inventar um adjetivo qualquer — suponhamos, “obvioso” —, esse adjetivo passará a ser falado e escrito por milhões de pessoas, do Acre ao Rio Grande do Sul, com a maior naturalidade.
De alguns anos pra cá a gíria carioca passou a ser fabricada pelo rádio; se em um programa muito ouvido uma pessoa com voz engraçada disser, de vez em quando, “porém talvez”, essa tolice será repetida por nós todos.
Antigamente uma expressão de gíria, para vencer, tinha que passar por um longo processo de seleção; devia ser transmitida de boca em boca até alcançar uma letra de samba ou uma revista de teatro.
Hoje, o Estado ou um grupo capitalista pode impor até um falso folclore, pré-fabricado, como impõe sentimentos e opiniões. O pior é que o rádio se popularizou sem nenhuma tradição intelectual ou cultural e até hoje é relativamente fraco nesse terreno. E grandes massas votam “de ouvido”, pensam “de ouvido”, sentem “de ouvido”…
No meio desses males, a influência pernóstica ou cafajeste do rádio sobre a língua é um mal menor. Mas sempre me dói ouvir uma criança dizer “ludibriar” ou “ultrapassar”… Isso me dá pena.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/a-triste-lingua-do-radio-cronica-de-rubem-braga/.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

SESSÃO LEITURA - NÓS E OS DOURADOS - ANTÔNIO MARIA

A crônica abaixo foi escrita por Antônio Maria.
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NÓS E OS DOURADOS

Tínhamos que atingir um ponto do mar de onde fosse possível ver a silhueta completa do Pão de Açúcar, à direita da Ilha Rasa. E à esquerda do barco, além da Ilha Redonda, as Tijucas, desanuviadas e distintas. Chegamos, depois de umas duas horas de motor Panther. Estamos acerca de quatro milhas ao sul do farol. No barco, além de quem vos conta a história, Chico Brito, Pescocinho (por não tê-lo), Noca, um senhor enjoando (por isso, dele, revelamos apenas as iniciais, O. B.) e o timoneiro Braga — este último de Cachoeiro de Itapemirim. Motivo: cardume de dourados. Viemos corricando desde a pedra do Forte e as iscas chegaram intatas. Lanço minha linha de estreante sem grandes esperanças e, de repente, alguma coisa me puxa para fora do barco. Resisto, dou linha, cobro a margem de passeio que lhe dei, o bicho pula um metro em cima da onda (é grande e verde!) e, finalmente, dá o seu último show de valentia, no fundo do barco, levando é o Braga às voltas com o segundo peixe. Repete-se a luta, a ferroada do bicheiro e o dourado número dois é apunhalado aos nossos pés. Chico Brito é senhor desses mares e desses peixes. Fez-se um grande íntimo dos ventos e das correntes marinhas. Salta, diz nomes feios, xinga a tripulação, embarca o peixe, muda as sardinhas do anzol, tudo com autoridade. O mar está azul e as águas, muito límpidas, mostram o fundo abismo de Janaína, onde o risco e a morte têm silêncio de flor e som de cantiga. O sol arde no rosto, nas costas e nas pernas aprazando uma noite de Picrato de Butesin. De repente, vindo por debaixo do barco, maior que o barco (uns três metros e meio), um bicho marrom com a cabeça de martelo, nadando em macio. Ninguém disse nada antes de olhar para Chico Brito. Depois, os seis, como uns loucos, começaram a xingar o tubarão de tudo o que era nome. O bicho volteou o barco e só de piada deu uma cabeçada no motor de popa. Nessa altura dois dourados comeram nossos anzóis e o tubarão resolve comê-los antes de nos comer em juventude. O seu nado é uma beleza. Uma negaceada do dourado fê-lo dar uma grande virada de piscina — sem botar as mãos. Sua nadadeira, fora d'água, assovia na tona e conduz minha linha. Em seguida, numa deitada de desprezo, corta o arame do meu anzol e passa roçando o barco a um palmo de mim. Cuspo nele. Depois circunda o barco num raio de três metros e vem, de cara, em grande velocidade, em nossa um cronista. O bicho leva a ferroada no lombo, dá outra virada de piscina e quer levar o Braga pra ele. No barco, todos são contra. A ponta do bicheiro abriu e o tubarão soltou-se. Chico Brito prepara a espingarda. Vai ser um tiro certo. Vamos chegar aos Marimbás rebocando três metros e meio de tubarão. Mas, nessa altura dos acontecimentos, o grande seláquio resolve cuidar de outros interesses e some a boreste, cortando água, singrando onda com o leque das costas. Voltamos aos dourados. O sol esfria. Parece que saímos do pesqueiro porque a posição das três Tijucas, em relação à Ilha Redonda, já não é a mesma. O vento está ficando úmido. O nosso companheiro O. B. enjoa, coitado, e ressona agarrado no caniço. Voltamos à praia, com oito dourados e uma história de tubarão para contar.

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

SESSÃO LEITURA - AS IRMÃS BRONTË - PAULO MENDES CAMPOS

O texto abaixo é de autoria de Paulo Mendes Campos.
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AS IRMÃS BRONTË

Pouco se sabe sobre as irmãs Brontë. Ignoramos muito dos 39 anos que viveu Charlotte e quase tudo dos 30 dezembros selvagens que viveu Emily.
O mistério atiçou um sem número de escritores, sendo relativamente das mais ricas na literatura inglesa a bibliografia delas. Objetivamente, porém, nenhuma das pesquisas apresenta resultados definitivos, as interpretações são múltiplas e desencontradas. Assim como Hamlet se enriquece de mistério à medida que se procura defini-lo, da mesma forma as sucessivas interpretações que vêm sendo feitas sobre esta ou aquela Brontë, ampliam a perspectiva de Yorkshire, mas não espanejam a névoa que a envolve. E não há nenhum exemplar desta espécie literária que é o poeta incapaz de exprimir-se que não tenha sofrido a sedução das Brontë, deixando-se levar pelo desejo de resgatar-lhes o segredo. O resultado não podia ser outro: há centenas de retratos de Emily e de Charlotte... à imagem e semelhança das pessoas que os fizeram.
Charlotte, acredita-se que tenha amado Heger, embora uma inglesa. May Sinclair afirma, numa defesa bastante acrimoniosa, que a criadora de Jane Eyre, isenta de todas as ilusões, manhas e corrupções do sentimentalismo, era incapaz de sentir em si mesma a possibilidade da paixão.
Quanto a Emily, é ainda muito mais improvável determinar a espécie de amor que a possuía.
Embora pouco esclarecido o seu sentimento para com Branwell, é mais acertado supor que a intensidade de sua paixão transcendeu as pessoas, seja qual for o motivo, não importa. Quem quiser que a contemple como uma jovem mística, “in love with the absolute”. Quem não se afeiçoar a esta terminologia pode achar simplesmente, com Virginia Woolf, que o amor de Emily Brontë foi inspirado em uma concepção mais ampla, mais poética, diríamos, se significássemos com a palavra uma complexa afetividade para com as coisas do mundo.
O fato, porém, é que o véu em torno desta família, pela liberdade que concede, constituía um excelente material para um filme. Hollywood, que já nos dera boas versões de Wuthering Heights e Jane Eyre, duas novelas que os inúmeros defeitos se apagam na potencialidade emocional da narrativa, apresenta-nos hoje uma história sobre as autoras destes livros e a estranha família de que faziam parte. Se sob o ponto de vista da autenticidade anedótica e dos temperamentos, esse filme não chega a ser ridículo, como foi aquele sobre Edgard Poe, cabe-lhe infelizmente a qualificação de bisonho. Com esse mesmo script tão apropriada para o cinema como a passagem dos Brontë sobre a Terra. Poucas histórias exigem espontaneamente uma linguagem fotográfica, uma linguagem ao mesmo tempo tão expressiva e tão muda como a própria vida de Emily, Charlotte, Ann Branwell, o pastor, a tia e o cachorrinho. Mais do que a literatura, está o cinema credenciado para apresentar esta gente e o mito que se vai tecendo em torno dela. Entretanto, mesmo sem medir a “chance” com a realização, o celuloide americano não satisfaz o menos exigente dos curiosos admiradores daquelas moças. E não creio que satisfaça igualmente ao crítico de cinema.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/8194/as-irmas-bronte.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

SESSÃO LEITURA - BURRO SEM RABO - FERNANDO SABINO

O texto abaixo é de autoria de Fernando Sabino.
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BURRO SEM RABO

São dez horas da manhã. O carreto que contratei para transportar minhas coisas acaba de chegar. Vejo sair a mesa, a cadeira, o arquivo, uma estante, meia dúzia de livros, a máquina de escrever. Quatro retratos de criança emoldurados. Um desenho de Portinari, outro de Pancetti. Levo também este cinzeiro. E este tapete, aqui em casa ele não tem serventia. E esta outra fotografia, ela pode fazer falta lá.
A mesa é velha, me acompanha desde menino: destas antigas, com uma gradinha de madeira em volta, como as de tabelião do interior. Gosto dela: curti na sua superfície muita hora de estudo para fazer prova no ginásio; finquei cotovelos em cima dela noites seguidas, à procura de uma ideia. Foi de meu pai. É austera, simpática, discreta, acolhedora e digna: lembra meu pai.
Esta cadeira foi presente de Hélio Pellegrino, que também me acompanha desde a infância: é giratória e de palhinha. Velha também, mas confortável como as amizades duradouras. Mandei reformá-la, e tem prestado serviços, inspirando-me sempre a sábia definição de Sinclair Lewis sobre o ato de escrever: é a arte de sentar-se numa cadeira.
— Mais alguma coisa? — pergunta o homem que faz o carreto.
— Mais nada — respondo, um pouco humilhado.
E lá vai ele, puxando a sua carroça, no cumprimento da humilde profissão que lhe vale o injusto designativo de burro-sem-rabo. Não tendo mais nada a fazer, vou atrás.
Vou atrás, cioso das coisas que ele carrega, as minhas coisas; parte de minha vida, pelo menos parte material, no que sobrou de tanta atividade dispersa: o meu cabedal.
Pouca coisa, convenhamos. Mas ali dentro daquele arquivo, por exemplo, vão documentos, originais, cartas recebidas ao longo dos anos, testemunhas do convívio. Vem-me a ideia de que, pobres coisas que sejam, com este mesmo carreto é que subirei um dia para dar conta do que fiz e deixei de fazer cá na Terra. E me esbofarei como um propagandista ambulante, tentando fazer entrar pela porta estreita esta carga que me sobrou da aflição do espírito e que, burro-sem-rabo, teimosamente transporto comigo ao longo da vida até o seu termo.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15843/burro-sem-rabo.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

SESSÃO LEITURA - A NOITE É UMA LEMBRANÇA - ANTÔNIO MARIA

A crônica abaixo foi escrita por Antônio Maria.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp.
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A NOITE É UMA LEMBRANÇA

BOA VIAGEM, FEVEREIRO. É de principiante isto de o cronista escrever que está numa janela de hotel, vendo a noite e fumando um cigarro. Mesmo havendo mar e sendo Boa Viagem um encontro muito desejado, não gosto da sem-cerimônia com que me faço personagem de mais uma crônica, como se eu, a noite e o cigarro ainda fôssemos novidade.
Entretanto, alguns acontecimentos espirituais do homem podem ser contados e explicados, desde que esse homem seja capaz de transmitir a alguém a beleza de sua solidão. Que ninguém se queixe de falta de ocorrências para escrever melhor. E sim de incapacidade para gritar o seu grande mundo interior.
Eu vim à janela porque conheci uma moça e estou preocupado em como a venho pensando, há um enorme tempo. O cabelo, os olhos, a boca, as mãos e o silêncio. Também a palavra vagarosa, que perguntava de vez em quando sobre uma verdade já velha ou sobre uma mentira mais em moda. Se confiasse em cada um de nós, explicaria à sua maneira o Homem, o Amor, o rio Capibaribe e o compositor João Sebastião Bach. Mas para isso, além de ser preciso confiar, teria que pedir a palavra e se imponentizar de tal maneira que nos assustaria à sua volta, após assustar-se consigo mesma. O que dizia eram curtas perguntas. O que fazia era pouco e casual. Mesmo assim eu a adivinhava sábia e corajosa.
Mais das vezes se escreve assim de uma mulher quando por ela se sente uma dessas súbitas emoções, muito parecidas com o chamado amor à primeira vista. Mas, em meu caso, essas impressões já não me confundem. Uma mulher me empolga assim que a sinto gente; e nela me perco, de descoberta em descoberta, sem me consentir a mínima desconfiança de estar amando-a, em qualquer das maneiras antigas ou atuais de amar alguém. Uma mulher-gente nos atrai aos seus mistérios e, no tempo em que procuramos desvendá-los, só acrescentamos dúvidas à nossa ignorância inicial.
Apesar disso, é dever do homem-gente deixar que o seu pensamento se demore nas lembranças de sua conhecida recente. Amor é outra coisa. Amor a gente espera, como o pescador espera o seu peixe, ou o devoto espera o seu milagre: em silêncio, sem se impacientar com a demora. E o amor a gente não conta pelo jornal a não ser quando quando o sentimento trai a frase, juntando palavras que deviam estar sempre separadas.
Cá estou, porém, nesta janela que não me deixa mentir, em frente à noite de que sou uma espécie de filho de criação, a repassar lembranças de uma moça que, de mim, se muito recordar, recordará meu nome. Eu também a esquecerei, mas daqui a duas ou três mulheres importantes. Agora, faz-me bem, inclusive, sofrê-la um pouco. É tarde. Deveria ir para a cama. Todavia, não seria  direito. Numa moça, a gente pensa na janela.

Fonte: https://panorama-direitoliteratura.blogspot.com/2016/03/cronica-antonio-maria-noite-e-uma.html.

quinta-feira, 26 de junho de 2025

SESSÃO LEITURA - VIVA O VASCO! - RACHEL DE QUEIROZ

O texto abaixo é de autoria de Rachel de Queiroz.
Para maiores informações sobre a autora, favor acessar: https://www.ebiografia.com/rachel_queiroz/.
Boa leitura!

VIVA O VASCO!

Quando o Vasco se oculta na penumbra, a gente também entra em recesso, não por covardia ou desamor, é evidente - mas para não topar provocações de flamenguistas, botafoguenses ou pós-de-arroz fanáticos. Pois o que caracteriza os vascaínos é o seu amor consciente ao grane clube, não aquela paixão cega e desarrazoada dos outros. Quando escolhemos o Vasco foi porque, depois de lúcida deliberação, nos convencemos de que ele é o grande, o máximo, superior a todos, transcendendo de disputas e competições; não somos levados pelo fanatismo cego, como os demais.Ser vascaíno é ser discreto, é ser convicto de nossa superioridade, tranquilamente, sem alardes. A gente não precisa sair gritando por cima dos telhados que é Vasco - afinal, não se quer humilhar ninguém. Mas quando as vitórias se acumulam, os adversários mordem o pó e as outras bandeiras se curvam ante o pendão da cruz de malta - aí não há modéstia que aguente; por mais pena que se tenha dos vencidos, a verdade precisa ser clamada, e temos que lançar nos ares o nosso grito de guerra.

VAAAAASSSSSCO!

Foi no fia 21 de agosto de 1898 - acaba de fazer 72 anos - que, às duas e meia da tarde, um grupo de brasileiros e portugueses, reunidos num prédio da rua da Saúde, nº 293, fundaram o CLUBE DE REGATAS VASCO DA GAMA. E só a escolha do nome - Vasco da Gama - demonstrava a superior inspiração que animava os fundadores do novo grêmio esportivo. Ninguém ia atrás de reivindicações de bairro ou de rua, não se procurava a glorificação regionalista de personalidades importantes de Portugal ou do Brasil. Escolheu-se como nosso padrinho aquele que, transcendendo da sua qualidade de lusitano, é reconhecido como herói de toda a humanidade. O navegador que descobriu para a Europa - confinada entre o temor do Oceano a oeste, e o temor do Mongol a leste -, o grande caminho verde e marinho que leva ao Oriente através do Ocidente. E assim, só com proclamar o nome de seu patrono, os fundadores do Vasco já lhe estavam traçando o destino. Porque a grandeza vem de berço; pode a estrela que marca o nascimento ficar momentaneamente escondida, mas lá está brilhando por trás das nuvens. E a nossa estrela vascaína já brilhava naquela tarde de agosto, há setenta e dois anos atrás. Tomamos como armas a caravela do Navegador, a ostentar a cruz de Cristo portuguesa, enquanto corta o mar oceano; e nessa bela divisa está simbolizado inteiramente o Vasco: Portugal está todo na cruz dos navegantes, e o mar é este mar do Brasil, mar tenebroso de dantes, que os marujos portugueses souberam transformar num simples estreito, a unir, não mais a separar a ponta extrema da Europa, que são eles, à ponta extrema da América, que somos nós.
Nessa vida já longa temos tido muitas horas de grandeza, a par de momentos de penumbra. Lembro o bicampeonato de 1923-24. O campeão de Terra e Mar em 1945. Em 48 vencemos na Argentina o Campeonato Sul-Americano dos Campeões, que representou a primeira grande vitória do futebol brasileiro no exterior. Em 57, outro trunfo internacional, a Taça Herrera, em Bilbao. De 50 a 60 passamos por um período mais discreto, quanto ao quadro titular, porém ganhamos inúmeros títulos no esporte juvenil, a que então nos dedicávamos com maior afinco. Mas em 65 já voltávamos às vitórias espetaculares, como Campeões do Torneio do IV Centenário. Em 69, já antevendo a campanha deste ano, saímos vice-campeões no Robertão - e continuávamos sem descuidar os juvenis, sendo o seu campeão carioca.
Agora, em 1970, marchamos tranquilamente para o campeonato. No momento em que escrevo, temos apenas dois jogos pela frente, Botafogo e Fluminense. A vitória parece certa. Mas se a fortuna do esporte, tão semelhante à fortuna da guerra, por um acaso injusto nos arrebatar o triunfo (e, nestas alturas ninguém acha possível tão cruel desastre), não nos falhará a fibra: quem nasce campeão, sempre se comporta como campeão, mesmo nas horas amargas em que a sorte cega entre os louros a outros menos merecedores.

E VIVA O VASCO!

Fonte: https://www.reddit.com/r/futebol/comments/xcmugb/viva_o_vasco_texto_de_rachel_de_queiroz_para_o/.