O texto abaixo é de autoria de Clarice Lispector.
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Boa leitura!
TEMAS QUE MORREM
Sinto
em mim que há tantas coisas sobre o que escrever. Por que não? O que me impede?
A
exiguidade do tema, talvez, que faria com que este se esgotasse em uma palavra,
em uma linha. Às vezes é o horror de tocar numa palavra que desencadeia
milhares de outras, não desejadas, estas. No entanto, o impulso de escrever. O
impulso puro – mesmo sem tema. Como se eu tivesse a tela, os pincéis e as cores
– e me faltasse o grito de libertação, ou a mudez essencial que é necessária
para que se digam essas coisas. Às vezes a minha mudez faz com que eu procure
pessoas que, sem elas saberem, me darão a palavra-chave. Mas quem? quem me
obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me
impelindo.
Eu
já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a
experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização
que me toma como a de uma antiga formiga. É como se o meu inconsciente coletivo
fosse o de uma formiga.
Eu
também queria escrever, e seriam duas ou três linhas, sobre quando uma dor
física passa. De como o corpo agradecido, ainda arfando, vê a que ponto a alma
é também o corpo.
E é
como se eu fosse escrever um livro sobre a sensação que tive uma vez que passei
vários dias em casa muito gripada – e quando saí fraca pela primeira vez à rua,
havia sol cálido e gente na rua. E de como me veio uma exclamação entre
infantil e adulta: ah, como os outros são bonitos! É que eu vinha do escuro meu
para o claro que também descobria que era meu, é que eu vinha de uma solidão de
pessoas para o ser humano que movia pernas e braços e tinha expressões de
rosto.
Também
seria inesgotável escrever sobre beber mal. Bebo depressa demais, e não há alternativas:
ou praticamente adormeço dentro de mim e fico morosa, pensativa sem que um
pensamento se esclareça como descoberta, ou fico excitada dizendo tolices de
maior brilho instantâneo. Mas – mas há um instante mínimo nesse estado em que simplesmente
sei como é a vida, como eu sou, como os outros são, como a arte deveria ser,
como o abstracionismo por mais abstrato não é abstrato. Esse instante só não
vale a pena
porque esqueço tudo depois, quase na hora. É como se o pacto com Deus fosse
este: ver e esquecer, para não ser fulminada pelo saber.
E às
vezes, por mais absurdo, acho lícito escrever assim: nunca se inventou nada
além de morrer. E me acrescento: deve ser um gozo natural, o de morrer, pois
faz parte essencial da natureza humana, animal e vegetal, e também as coisas
morrem. E, como se houvesse ligação com essa descoberta, vem a outra óbvia e
espantosa: nunca se inventou um modo diferente de amor de corpo que é estranho
e cego. Cada um vai naturalmente em direção à reinvenção da cópia, que é
absolutamente original quando realmente se ama. E de novo volta o assunto
morrer. E vem a ideia de que, depois de morrer, não se vai ao paraíso, morrer é
que é o paraíso.
A
verdade é que simplesmente me faltou o dom para a minha verdadeira vocação: a
de desenhar. Porque eu poderia, sem finalidade nenhuma, desenhar e pintar um
grupo de formigas andando ou paradas – e sentir-me inteiramente realizada nesse
trabalho. Ou desenharia linhas e linhas, uma cruzando a outra, e me sentiria
toda concreta nessas linhas que os outros talvez chamassem de abstratas.
Eu
também poderia escrever um verdadeiro tratado sobre comer, eu que gosto de
comer e no entanto não como tanto. Terminaria sendo um tratado sobre
sensualidade, não especificamente a de sexo, mas a sensualidade de “entrar em
contato” íntimo com o que existe, pois comer é uma de suas modalidades – e é
uma modalidade que engage de algum modo o ser inteiro.
Também
escreveria sobre rir do absurdo de minha condição. E ao mesmo tempo mostrar como
ela é digna, e usar a palavra digna me faz rir de novo.
Eu
falaria sobre frutas e frutos. Mas como quem pintasse com palavras. Aliás, verdadeiramente,
escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Ah, estou cheia de
temas que jamais abordarei. Vivo deles, no entanto.Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12340/temas-que-morrem.