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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

SESSÃO LEITURA - A PERUCA - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/mario_prata/.
Boa leitura!

A PERUCA

Você há de concordar comigo: peruca de homem é um negócio que não deu certo. Nada grave, nada pessoal. Tem coisa que dá certo, outras não dão. É normal. Peruca, definitivamente, não deu. Ou você já viu algum homem de peruca sem perceber que era um homem com peruca?
Acho que os calvos chegados a uma peruca, são todos exibicionistas. Sim, porque assim que entram no restaurante, todos olham. E comentam. É um delírio para as crianças. Olha a peruca daquele cara! São as primeiras a notar. Criança adora ficar olhando para homem com peruca. Pode notar.
Eu, pessoalmente, nutro um velho sonho de arrancar a peruca de um carequinha. Mesmo que leve uma porrada em seguida. Quero ver como o sujeito fica ao natural e, mais ainda, com que cara ele vai ficar diante da multidão que, claro, irá me aplaudir.
Fui olhar no dicionário agora e quem usa peruca nem nome tem. Peruqueiro é quem fabrica aqueles medievais ornatos.
Será que eles – os que usam – acham que enganam alguém? Sei não, eles estão sempre com cara de quem está abafando (a calvície, é claro). Nada com os calvos ou semi-calvos, meu senhor. Estou falando de peruca.
Conheço muitas histórias envolvendo perucas. Mas a mais interessante delas, foi com uma velha tia. Teve aquela doença em que caem todos os pelos e tinha uma (como será o coletivo de peruca? perucateca?) porrada de perucas. O fato se deu no dia do enterro do meu tio, marido dela.
O caixão descendo, ela chorando copiosamente (adoro a palavra copiosamente) ali, à beira do túmulo. Eis que, de repente não mais que de repente, cai uma chuva. O cavalheiro ao lado abre seu guarda-chuva para proteger a jovem (apesar de seus setentinha) viúva. No que abre, a vareta engancha na peruca e a eleva. Do outro lado, sobrinhos e netos vêem a mulher sem a peruca, careca. Começam a rir. Aquilo vira uma balbúrdia. O caixão descendo.
Alguém, de bom coração, foi lá, desenroscou a peruca e ajeitou na cabeça da velha senhora que chorava com ou sem o artefato. Só que a pessoa colocou meio torta. E aí vinham todos para cumprimentar, para desejar os meus sentimentos e levava a mão à cabeça da perucada, dando uns tapinhas, ajeitando os lados. Para quem não acreditou, foi filmado. Ninguém nunca viu o filme, mas que foi, foi.
Mas voltemos às perucas masculinas. Acho que elas são tão diferentes do resto de cabelos que o cidadão tem, porque não são lavadas diariamente. Você acha que o sujeito lava aquilo todo dia? Que dá para a empregada lavar? E depois, pendura no varal? Que leva no cabeleireiro? Ela está sempre encorpada, empapada, ensebada mesmo. Um horror! E os que preferem a peruca repartida do lado, tentando mostrar naturalidade? Dá até para ver que tem uma redinha entre ela e o couro cabeludo. Perdão, couro ex-cabeludo.
Só tem uma pessoa no Brasil que usa peruca e ninguém nunca desconfiou: o Itamar Franco, que sempre gostou de se camuflar. Aquela é bem feita. Tão bem confeccionada que as pessoas nunca olharam para base dela, mas sempre para o topo da pirâmide. E não percebem.
É mesmo preciso ter topete para usar um troço deste.

Fonte: https://marioprata.net/cronicas/a-peruca/.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

SESSÃO LEITURA - ESPIRRANDO A CRÔNICA - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
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Boa leitura!

ESPIRRANDO A CRÔNICA

Daquelas danadas, sabe como é? Das que derrubam. Te deixam na cama. Pois é onde deveria estar agora se tivesse uma outra profissão qualquer. Ligava para o serviço e, se precisasse, até arrumava um atestado médico. Dependendo da situação, faturava dois ou três dias.
Mas estou aqui, com o nariz escorrendo, depois de algumas pílulas e uns chás que uma boa samaritana me fez.
Estou dizendo isto porque sei que tem muita gente com gripe nestes dias frios. E esta gripe já deve ter nome. Sim, gripe que se preza logo tem um nome, já notou? Se não, é resfriado mesmo.
Me lembro quando era garoto, 13 anos, interno num colégio de padres, quando apareceu a Gripe Asiática. Acho que foi a mais famosa do século passado. Era tão danada que antes de chegar já era famosa. Claro, como o nome diz, começou lá na Ásia. E veio vindo. Os jornais anunciavam que ela já estava na Europa.
Aqui, no terceiro mundo, a gente se preparava para enfrentar a gripe que vinha de longe, a gripe famosa no mundo todo. E quando ela chegou, derrubou todo mundo. Foi um orgulho para todos nós. Estou revendo agora o dormitório do internato cheio de garotos deitados. Febre alta, aulas suspensas, um horror. Ninguém morreu, mas todo mundo deitou.
Me recordo de uma outra gripe famosa, a Calabar. Chamava assim porque era traiçoeira. Começo dos anos 70, auge da ditadura militar. Eu trabalhava na Última Hora quando ela chegou em São Paulo, vindo do norte. Os militares mandaram um telex para todas as redações do país proibindo terminantemente que se escrevesse no jornal o nome da gripe que derrubava todos nós, inclusive – acho – os milicos. Não podia escrever Calabar nos jornais, nem dizer nas rádios, nem nada.
Explico: Chico Buarque e Ruy Guerra haviam escrito uma peça chamada Calabar e a Censura Federal a proibiu. Não podia nem ser lida. Aí os militares começaram a achar que falar na gripe Calabar era provocação para todo mundo lembrar do Chico e do Ruy. Talvez você não acredite nesta história, mas quem trabalhava nas redações naquela época pode confirmar.
Já teve várias gripes com nomes de mulheres famosas, que vinham acompanhadas da devida explicação: é porque leva direto pra cama. Uma maldade. Peguei a Xuxa, entre outras.
Dei uma geral agora na Internet para ver se esta minha gripe já tem nome, pois, já disse, gripe sem nome, pra mim, é resfriado. E, apesar de todo mundo estar com ela, ainda não tem, não.
Pouco sei sobre gripes, apesar de ser filho de médico. Sei que a palavra tem origem francesa. Donde se conclui que foi lá que surgiu o vírus? Tem cara de francesa mesmo esta doença. Passou por Portugal e chegou nos nossos índios matando boa parte deles. Entradas e Bandeiras, se chamava a gripe naquela época.
Hoje em dia até o Bin Laden já virou nome de gripe: quando você pensa que acabou, ela volta mais surpreendente ainda.

Fonte: https://marioprata.net/cronicas/espirrando-a-cronica/.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

SESSÃO LEITURA - AMOR SÓ DE LETRAS - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org › wiki › Mário_Prata.
Boa leitura!

AMOR SÓ DE LETRAS

Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva.
Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro – consta – que ele fez uma cara emocionada. Pela feitura da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.
Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:
– Essa tá muito novinha. Leva aquela.
E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.
Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram. Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima.
De um tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.
Só que agora surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto – finalmente, digo eu, escritor – virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via Internet. Via cabo, literalmente.
Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.
Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no Chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.
Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.
Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor de texto, amor de perdição.
A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela.
E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha. E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.
Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da Venezuela. Ou do Arroio Chuí. Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia – que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente. Uma pessoa com um texto desses…
A tudo isso o bom texto supera.
Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo meu filho fica horas na Internet, todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita suja.
E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais: conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.
Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.
No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.
Quando comecei a escrever um livro pela Internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.
Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso:
– Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?
Como diria Shakespeare, palavras, palavras, palavras.
Como diria Pelé, love, love, love.

Fonte: https://marioprata.net/cronicas/amor-so-de-letras/.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

SESSÃO LEITURA - COENTRO - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
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COENTRO

Você já percebeu que existem umas palavras que parecem siglas de alguma repartição pública ou autarquia? Exemplo? COENTRO! Tenho a impressão que você só vai conseguir o protocolo definitivo daquele documento depois de passar pelo COENTRO.
Outra palavra é ACEPIPE. Me parece algum órgão ligado à arquitetura. Sem a aprovação do ACEPIPE não podemos dar o habite-se. Passe primeiro no ACEPIPE que tudo vai ficar mais fácil no COENTRO.
Deve ser lá no DETRAN que fica o CLOACA. O CLOACA é o departamento responsável pela colocação de novas placas. Pelo menos foi o que me informaram. Quer uma placa bonitinha, com as suas iniciais? Deixa comigo que eu tenho um cara lá dentro do CLOACA.
Agora, se o seu processo não estiver andando lá no jurídico, você vai ter que conhecer alguém do ABAJUR. Fale com o criado-mudo no ABAJUR que ele quebra o seu galho.
E FUSÍVEL, o que parece? Algum órgão ligado à marinha, aos portos. Não, meu amigo, sem a autorização do FUSÍVEL não dá para liberar a carga.
Mas há um departamento que agiliza tudo. Para isso você precisa passar no VESPA. É o órgão mais moderno e ágil que conheço. Se não conseguir resolver o problema com o VESPA, desista, meu chapa.
O lugar aonde você só vai em última instância é o ECLODIR. Lá ficam os advogados, os homens do direito. Não tente subornar ninguém no ECLODIR, pois pode ser fatal.
E se tem um lugar onde nada funciona é o CAOS. Para evitar o CAOS, passe antes pelo COENTRO e pelo ABAJUR. Facilita muito.
E ai de quem precise de algum papel lá no JILÓ.
Mas para tudo no Brasil tem um jeitinho. Basta você conhecer alguém do PODER. Com o carimbo do PODER você vai longe.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

SESSÃO LEITURA - BIDU - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
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Boa leitura!

BIDU

Tem palavras que somem. Expressões desaparecem. Para onde foram?
Cartear marra é uma delas. Usadíssima nos anos 60, não vejo ninguém mais carteando marra. Quantas vezes nós, adolescentes, nos bailinhos, ao vermos alguém de outra cidade querendo dançar com as nossas meninas, chegávamos perto: não vem cartear marra aqui, não. Cartear marra era querer ser metido a gostoso.
Hoje, décadas depois, vou ao dicionário. Cartear significa também chutar. E marra, coragem. Portanto a expressão estava correta: fingir coragem. E, cá entre nós, naquele tempo todo mundo carteava marra.
Outra genial: par de besta. Tipo assim: o cara veio com par de besta pra cima de mim e eu sai na porrada. E eu nunca entendia porque o sujeito com um par de besta (o animal, claro), significava que era todo valentão. O que é que a besta tinha a ver com valentia?
Mas hoje, descobri. O primeiro significado da palavra besta é uma arma, uma espécie de arco para atirar setas. Portanto, o cara que vinha com par de besta, vinha armado, vinha para agredir, para ofender.
Por outro lado, e ainda mais bestial, o interessante é que o sujeito metido a besta era o metido a gostoso, a bonitão, a conquistador. Aqui, no caso, nunca entendi o porque da besta. Se você for metido a besta, me explique.
E tinha uns mais valentões que vinham com par de besta cartear marra. Geralmente eram mais fortes que nós e a gente se danava (a palavra não é bem esta) em verde e amarelo. E eles tiravam as nossas minas para dançar. Justamente a que estava de tomara-que-cai e havia nos prometido dar-tábua nele. Depois ela me explicaria: queria o quê? Que eu tomasse chá de cadeira? Você já imaginou o que significa levar-tábua e tomar chá-de-cadeira? Nem que a vaca tussa você sabe. E o gostosão com a nossa menina nos achando bola-murcha.
Mas uma que eu nunca entendi mesmo – até hoje – é mixar o carbureto. Passei a manhã de hoje olhando dicionários, dando uns telefonemas e nada. Se alguém aí souber a origem, me diga. A expressão era usada – e muito mesmo – quando a coisa – qualquer coisa – não dava certo. Se dizia: mixou o carbureto. Será que a origem seria acabar o gás? Pode ser?
E o cara que era café-com-leite, lembra? Também não tem o menor sentido. Café-com-leite era aquele sujeito quer não contava, que não sabia fazer nada. Podia estar a mais num time de futebol, podia dançar com as minas. Café com leite era quase um bobo.
Naquela época não tinha pêr-répis, a não ser se você fosse gilete. A gente saía para encher o picuá dos outros e qualquer problema, novesfora-zero.
Mas o que mais me irritava, na adolescência, era a minha irmã mais velha achar que eu era inocente. Já tinha uns doze anos e ela dizia que eu era inocente. E olha que eu já era culpadíssimo!
Me desculpe cartear tanta marra…

quinta-feira, 28 de julho de 2016

SESSÃO LEITURA - CULPA - MÁRIO PRATA

O texto abaixo é de autoria de Mário Prata.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://marioprata.net/sabe-o-mario/.
Boa leitura!

CULPA

Por que a culpa?
É o que eu tenho perguntado à minha psicanalista.
No princípio era o verbo e eu achava que só eu me sentia culpado. Com o passar do tempo (e da verba) fui descobrindo que todo criador tem culpa. Não no cartório. Mas na consciência.
Vou tentar explicar.
Todo mundo acha que a pessoa que vive de criar, ou seja, um criador, não faz nada o dia inteiro. Fica só pensando. É verdade. O problema é que ninguém considera o trabalho de pensar como ofício. Daí a culpa ensimesmada. Será que só pode ser considerado trabalhador o sujeito que fica o dia inteiro numa mesa de escritório, ouvindo pela janela olha a uva de Atibaia, melancia barata, melancia barata?
Você vê uma frase num out-door tipo refresca até pensamento. São três palavrinhas mágicas. O sujeito que inventou isso deve ganhar uma fortuna por mês. O que ninguém entende é que ele trabalha há vinte neste ofício. Pode ser que a frase tenha saído de um estalo. Mas um estalo vinte anos depois. Não precisa ser nenhuma brastemp para se ter uma ideia dessas. Ou precisa? Mas o povo pensa: ganhar essa fortuna para escrever uma bobagem dessas?
Cada vez que lanço um livro, estreio uma peça de teatro ou vou ao cinema ver um filme com roteiro meu, me dá pânico. Fico pensando: o pessoal vai pensar que eu escrevi isso na maior moleza. Que eu sou um vagabundo. E eu, realmente, fico achando que sou? Algumas mulheres trabalhadeiras já me jogaram isso na cara. E tome divã!
Para aliviar meu sofrimento, penso no Romário que trabalha umas dez horas por mês e ganha 100 mil dólares. Será que ele tem culpa? O Chico Buarque, que fica meses sem trabalhar, jogando futebol, será que ele acorda com culpa? E o Erasmo Carlos, tem uma culpa tremendona?
Vou almoçar fora e quase emendo com o fim do dia. Bebendo cerveja. Mas pensando. Pensando nessas besteiras que vocês estão a ler agora. Depois, no fim do mês, vou receber a grana de um simpático funcionário que deve – com certeza – ganhar menos do que eu para trabalhar ali, o mês inteiro. Fazendo o meu cheque. Não tem jeito de não bater a culpa.
Juro que eu trabalho, gente. Penso, invento, crio. E esses funcionários fantasmas, que trabalham em várias repartições e nunca comparecem? Será que eles não têm culpa? Será que só eu me sinto culpado neste país?
Uma vez perguntei para o Chico Buarque, que acabava de acordar às duas da tarde, se ele não tinha culpa. Já tive. Superei. E o Caetano Veloso que nunca acorda antes das quatro (da tarde)?
Conta uma lenda que quando Einstein esteve no Brasil foi recepcionado pelo Austregésilo de Athayde. O imortal andava com um caderninho para ir anotando as ideias para seus livros e ensaios. Perguntou se o genial Einstein não fazia o mesmo. No que ele respondeu: Não. Só tive uma ideia na vida. E o pior, é que essa ideia tinha só três letrinhas. Aquela famosa língua dele para fora denota um certo sinal de culpa. Deve ter morrido, relativamente, cheio de culpas.
Foram anos e anos de culpa para conseguir escrever esta crônica. Mas saiu. Mas não adiantou nada. Continuo com culpa. Acho que eu nunca deveria ter saído do Banco do Brasil. Não bater ponto desnorteia a minha vida.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

SESSÃO LEITURA - QUEM TEM MEDO DA MORTADELA? - MÁRIO PRATA

A crônica que reproduzimos abaixo é de autoria de Mário Prata.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/marioprata_bio.asp.
Boa leitura!

QUEM TEM MEDO DA MORTADELA?

Modismo é conosco mesmo. O brasileiro adora inventar moda. E todo mundo vai atrás dela. A última do brasileiro é "primeiro mundo". Os publicitários nativos inventaram a expressão e agora tudo que nós queremos tem que ser coisa do "primeiro mundo".
O carro é do primeiro mundo, a bebida é do primeiro mundo, a mulher é do primeiro mundo. Cineastas querem fazer filme de primeiro mundo, diretores de teatro trazem a moda lá da Europa. E os preços, evidentemente, também são de primeiro mundo.
Será que não nos bastam os exemplos de Portugal, Espanha, Irlanda e Grécia, que se debruçaram na mamata da CEE e agora enfrentam uma séria recessão e desemprego?
Por que essa mania, de repente, de querer virar primeiro mundo? De terceiro para primeiro? Não seria o caso de fazer um estágio, antes, no segundo mundo?
Os do primeiro mundo adoram as coisas aqui do terceiro. Por exemplo, a caipirinha. Alemães, ingleses, americanos, suecos, caem trôpegos pelas calçadas de Copacabana. Quer coisa mais brasileira, mais terceiromundista, mais caipira e mais barata? Mas já estão avacalhando com ela. Agora já tem caipirinha de vodca e, pasmem, de rum. Caipirinha sempre foi e sempre será cachaça. Coisa de caipira mesmo. E é esta bebida que os europeus vêm procurar aqui. Mas já meteram a vodca e o rum nela para ficar com cara de primeiro mundo. Vamos deixar a caipirinha caipira, brasileiros!
Toda essa introdução para chegar à mortadela. Ou mortandela, como preferem garçons e padeiros. Quer coisa mais brasileira que a mortadela? Claro que ela veio lá da Itália. Mas tornou-se, talvez pelo baixo preço, o petisco do brasileiro. O nome vem de murta, uma plantinha italiana que lhe valeu o nome. Infelizmente o brasileiro acha que mortadela é coisa de pobre, de faminto. E o que somos nós, cara-pálidas?
A cachaça e a mortadela são produtos do Brasil, do nosso querido terceiro mundo. Mas acontece que há um preconceito dos patrícios contra a cachaça e a mortadela. Contra a mortadela o caso é mais grave. Se você oferecer mortadela numa festa, vão te olhar feio. Você deve estar perto da falência.
Neste Natal e no Reveillon freqüentei várias mesas, e em nenhuma havia mortadela. Queijos de primeiro mundo, vinho de primeiro mundo, perfumes de primeiro mundo, até um peru argentino eu comi. Mas mortadela que é bom, nada. Nem uma fatiazinha.
Quando o brasileiro irá assumir que a mortadela é a melhor entrada do mundo? Quando você for para a Europa, não adianta pedir dead her que não vai encontrar. Nem muerta dela.
Mas nem tudo está perdido. No dia 1º do ano almocei com o casal Annette e Tenório de Oliveira Lima, e lá estava a mortadela, fresquinha no prato rósea. Um limãozinho em cima, um pedacinho de pão e viva o terceiro mundo, visto lá de cima do apartamento do Morumbi.
No mesmo dia, de noite, fui ao peemedebista Bar Nabuco, debaixo de frondosas sibipirunas da Praça Vilaboim e estava lá, no cardápio, toda sem-vergonha, a mortadela brasileira. Achei que estava começando bem o ano. Vai ser um Ano Bom, como se dizia antigamente. Se os novos-ricos do PMDB estão comendo mortadela, nem tudo está perdido. No Gargalhada Bar mais para PT, há um excelente sanduíche de mortadela.
E, nas boas padarias do ramo você ainda encontra a verdadeira mortadela, aquela que chega no balcão, feita na chapa, sem queimar muito, servida em pãezinhos saídos do forno.
Vamos deixar o primeiro mundo para lá. Vamos, este ano, tomar cachaça e comer mortadela. É muito mais barato ser pobre. Deixemos que o primeiro mundo exploda entre eles, mesmo tomando uísque escocês e comendo queijo fedido.
Por favor senhores brasileiros primeiro-mundistas, vamos deixar de frescura. Mortadela é o que há. É um barato.
Feliz 94 para todos vocês. Muita cachaça e muita mortadela. Apesar de tudo, o primeiro mundo é triste e melancólico. Continuemos felizes e alegres com a nossa cachaça e o nossa gostosa mortadela.
E que os candidatos à presidência deste nosso país do terceiro mundo não se esqueçam que o Jânio sempre se elegeu comendo "mortadela" e não caviar do primeiro mundo.

Texto extraído do livro:
Filho é bom, mas dura muito. Mário Prata. Editora Maltese. São Paulo. 1995. p. 157-159.

Fonte: http://tvcultura.cmais.com.br/aloescola/literatura/cronicas/marioprata.htm.