Mostrando postagens com marcador IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

SESSÃO LEITURA - O HOMEM CUJA ORELHA CRESCEU - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O texto abaixo é de autoria de Ignácio de Loyola Brandão.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.releituras.com/ilbrandao_bio.asp.
Boa leitura!

O HOMEM CUJA ORELHA CRESCEU

Estava escrevendo, sentiu a orelha pesada. Pensou que fosse cansaço, eram 11 da noite, estava fazendo hora-extra. Escriturário de uma firma de tecidos, solteiro, 35 anos, ganhava pouco, reforçava com extras. Mas o peso foi aumentando e ele percebeu que as orelhas cresciam. Apavorado, passou a mão. Deviam ter uns dez centímetros. Eram moles, como de cachorro. Correu ao banheiro. As orelhas estavam na altura do ombro e continuavam crescendo. Ficou só olhando. Elas cresciam, chegavam a cintura. Finas, compridas, como fitas de carne, enrugadas. Procurou uma tesoura, ia cortar a orelha, não importava que doesse. Mas não encontrou, as gavetas das moças estavam fechadas. O armário de material também. O melhor era correr para a pensão, se fechar, antes que não pudesse mais andar na rua. Se tivesse um amigo, ou namorada, iria mostrar o que estava acontecendo. Mas o escriturário não conhecia ninguém a não ser os colegas de escritório. Colegas, não amigos. Ele abriu a camisa, enfiou as orelhas para dentro. Enrolou uma toalha na cabeça, como se estivesse machucado.
Quando chegou na pensão, a orelha saia pela perna da calça. O escriturário tirou a roupa. Deitou-se, louco para dormir e esquecer. E se fosse ao médico? Um otorrinolaringologista. A esta hora da noite? Olhava o forro branco. Incapaz de pensar, dormiu de desespero.
Ao acordar, viu aos pés da cama o monte de uns trinta centímetros de altura. A orelha crescera e se enrolara como cobra. Tentou se levantar. Difícil. Precisava segurar as orelhas enroladas. Pesavam. Ficou na cama. E sentia a orelha crescendo, com uma cosquinha. O sangue correndo para lá, os nervos, músculos, a pele se formando, rápido. Às quatro da tarde, toda a cama tinha sido tomada pela orelha. O escriturário sentia fome, sede. Às dez da noite, sua barriga roncava. A orelha tinha caído para fora da cama. Dormiu.
Acordou no meio da noite com o barulhinho da orelha crescendo. Dormiu de novo e quando acordou na manhã seguinte, o quarto se enchera com a orelha. Ela estava em cima do guarda-roupa, embaixo da cama, na pia. E forçava a porta. Ao meio-dia, a orelha derrubou a porta, saiu pelo corredor. Duas horas mais tarde, encheu o corredor. Inundou a casa. Os hospedes fugiram para a rua. Chamaram a polícia, o corpo de bombeiros. A orelha saiu para o quintal. Para a rua.
Vieram os açougueiros com facas, machados, serrotes. Os açougueiros trabalharam o dia inteiro cortando e amontoando. O prefeito mandou dar a carne aos pobres. Vieram os favelados, as organizações de assistência social, irmandades religiosas, donos de restaurantes, vendedores de churrasquinho na porta do estádio, donas-de-casa. Vinham com cestas, carrinhos, carroças, camionetas. Toda a população apanhou carne de orelha. Apareceu um administrador, trouxe sacos de plástico, higiênicos, organizou filas, fez uma distribuição racional.
E quando todos tinham levado carne para aquele dia e para os outros, começaram a estocar. Encheram silos, frigoríficos, geladeiras. Quando não havia mais onde estocar a carne de orelha, chamaram outras cidades. Vieram novos açougueiros. E a orelha crescia, era cortada e crescia, e os açougueiros trabalhavam. E vinham outros açougueiros. E os outros se cansavam. E a cidade não suportava mais carne de orelha. O povo pediu uma providência ao prefeito. E o prefeito ao governador. E o governador ao presidente.
E quando não havia solução, um menino, diante da rua cheia de carne de orelha, disse a um policial: "Por que o senhor não mata o dono da orelha?"

quinta-feira, 26 de abril de 2018

SESSÃO LEITURA - UMA COALHADA COM DALTON TREVISAN - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O texto abaixo é de Ignácio de Loyola Brandão.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: www.releituras.com/ilbrandao_bio.asp.
Boa leitura!

UMA COALHADA COM DALTON TREVISAN

Não vou falar da obra, deve estar assim de gente falando, interpretando, analisando, jogando luzes. Tenho em casa, em Araraquara, um pequeno tesouro. São aqueles livrinhos que Dalton Trevisan publicava por conta própria com seus contos. Pareciam cordéis. Não sei como chegavam às minhas mãos. Mas chegavam aqui em São Paulo. Lia e guardava, em matéria de papel sou colecionador compulsivo. Guardo tudo, sem saber o que vou fazer depois. Hoje sei o valor daqueles livrinhos. Teve época em que até quis produzir alguns.
Mas quero contar uma dívida que terei para sempre com Fernando Sabino. Certa vez, íamos os dois falar em Ponta Grossa. Ele veio do Rio para Curitiba, eu de São Paulo. Sabino chegou na frente e ficou no hotel. Alguém me apanhou no aeroporto e disse: “Vamos ao hotel, Sabino está lá, ele entra e seguimos”. Porém, Fernando mandou dizer que era para eu descer e ir tomar uma coisa no bar, havia um amigo dele que queria muito me conhecer. Desci.
Então, ele me apresentou aquele homem magro e de óculos, que me estendeu a mão: “Prazer, Dalton Trevisan!” Puxa, aquele era o Dalton, mítico! Simples, tranquilo, nunca imaginei conhecê-lo assim. Dalton ficou um pouco mais, levantou-se, se foi. Acho que conversamos cinco minutos.
Fernando Sabino: “Ele estava louco para te conhecer, fiquei segurando, e você não chegava”. Fiquei feliz. Puxa, o Dalton queria me conhecer? Sabia que eu existia? Trouxe aquela memória por anos. Recentemente, em Sete Lagoas (MG), quando contei esta história, Humberto Werneck, jornalista, biógrafo, cronista, deu um sorrisinho: “Pois soube que o Sabino segurou o Dalton dizendo que você daria a vida para apertar a mão dele.”
Não importa, conheci o Dalton. Depois disso, às vezes, quando no começo dos anos 1990 vinha a Curitiba pesquisar para a biografia de Avelino Vieira, que a Maria Cristina Andrade Vieira me encomendou sobre o pai dela (e quanta falta sinto da Cristina), várias vezes entrei na confeitaria Schaffer (é assim que se escreve?) e dei com Trevisan à mesa. Uma vez tomamos uma coalhada com mel juntos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SESSÃO LEITURA - O RISCO DA MEIA DA MOÇA - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O texto abaixo é da autoria de Ignácio de Loyola Brandão.
Para saber mais sobre esse autor, favor acessar: http://www.releituras.com/ilbrandao_bio.asp.
Boa leitura!

O RISCO DA MEIA DA MOÇA

Cedo ainda, pai e filha entraram na lanchonete deserta. O homem escolheu a mesa no canto, junto à janela. Magro, óculos de lentes espessas, parecia cansado. Indagou da menina:
— O que você quer?
— Chocolate.
— E para comer?
— Pão de queijo. E o senhor?
— Acho que nada.
Enquanto ela comia com lentidão, o pai olhava atento, como que preocupado. Havia um breve brilho de alegria nos olhos dele, talvez contentamento por estar com ela. No entanto, não parecia muito à vontade. A manhã de maio era límpida, fresca.
— O que é vaidoso, pai?
— Onde você ouviu isso?
— A professora disse para um menino que ele fazia muita pose na classe, que era vaidoso. É coisa ruim?
— Depende.
— O que é depende?
O homem não respondeu. Seu olhar se tornou pensativo. Como explicar, em poucas palavras, ou em palavras simples, o significado de depende?
— É coisa boa, pai?
— Pode ser.
— Ou é ruim?
— Pode ser. Às vezes, uma pessoa quer brincar com a outra, carinhosamente, e diz: você é vaidoso. Ou então, faz ironia, para cutucar o outro, mexer. Se a pessoa é muito cheia de si, é vaidosa, não vai gostar.
— Pai, o que é ironia? E uma pessoa cheia de si?
O homem novamente não respondeu. No entanto, parecia contente com a curiosidade da filha. Ela tomou mais um pouco do chocolate, fazendo barulho com a boca.
— Não faça isso, é feio. Coisa de gente mal-educada.
— Sou bem-educada?
— Ao menos, tenho tentado.
Ele viu que o pão de queijo tinha sido devorado. Talvez a menina quisesse outro. Virou-se um pouco, tirou umas moedas do bolso, contou.
— Quer outro pão de queijo?
— Posso?
— Por que não?
— Outro dia, na padaria, comi um pão na chapa e você não comeu nada, estava sem dinheiro. Você tem dinheiro, pai?
— Pode comer outro. Sossegada.
Desta vez, ele pediu um pão de queijo com recheio, ela mordeu, o requeijão escorreu. Ela riu, os dois riram.
— Surpresa, pai! Que delícia! Quer provar?
Os olhos dele indicavam que sim, ele disse não.
— Quando chove, a água não leva a cor das flores?
— O quê?
— Quem pinta o céu de azul?
— É o azul do ar.
— Por que o vidro é transparente?
— Vamos fazer uma lista das coisas que você quer saber e no sábado nos sentamos no Ibirapuera e resolvemos tudo.
A menina não prestou atenção, estava olhando uma mulher que tinha entrado, morena, muito bonita.
— Viu a meia dela, pai?
— Não. O que tem?
— É moderna, tem um risco no meio, atrás. Você me compra uma?
— No seu aniversário.
— Vou ficar maravilhosa como aquela mulher?
— Vai.
— Por que não olha para ela, pai?
— Já olhei. Uma mulher dessas é um sonho, filha.
— Sonhos não acontecem?
— Depende da gente.
— Depende... o que é depende?
O pão de queijo se acabava, ela queria desfrutar ao máximo. Ao terminar, ficou olhando pela janela. O salão de festas da lanchonete estava bem à frente, todo colorido.
— O que é aquilo?
— Para festas de aniversário.
— Vamos fazer a minha ali?
— O seu aniversário demora.
— Mas vamos fazer?
Ele pareceu indeciso entre dizer não e desiludir e dizer sim, ela esperar e ele não poder cumprir.
— Depende...
— Depende, quer dizer coisa ruim, não é?
— Vou tentar tudo. Agora, vamos embora.
Eles se levantaram, o homem começou a apanhar a bandeja.
— O que está fazendo pai?
— Limpando a mesa, é costume.
— Eles não têm empregados?
O homem não soube responder. Apanhou tudo e levou ao lixo, em cuja tampa estava escrito obrigado. A menina deu a mão ao homem, caminharam para a saída. Na calçada, ela se voltou para ele:
— Não sabemos muita coisa, não é pai? Ou o senhor não gosta de responder perguntas?
— Um dia saberemos.
— Saberemos? E se a mulher olhasse para você, pai?
O homem não respondeu, mas sabia que carregaria dentro dele, quem sabe para sempre, o belo rosto da mulher, já que não tinha visto o risco da meia.

Fonte: http://paginas-cronicas.blogspot.com.br/2011/09/o-risco-da-meia-da-moca-ignacio-de.html.