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quinta-feira, 14 de agosto de 2025

SESSÃO LEITURA - HOMEM COMUM - FERREIRA GULLAR

O texto abaixo é de autoria de Ferreira Gullar.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/ferreira_gullar/.
Boa leitura!

HOMEM COMUM

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o guarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons,
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei

Fonte: https://www.culturagenial.com/poemas-ferreira-gullar/

quinta-feira, 2 de julho de 2020

SESSÃO LEITURA - CANTIGA PARA NÃO MORRER - FERREIRA GULLAR


O texto abaixo é de autoria de Ferreira Gullar.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/ferreira_gullar/.
Boa leitura!

CANTIGA PARA NÃO MORRER

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Fonte: https://www.revistabula.com/6674-10-poemas-de-amor-para-recitar-e-rolar-sem-moderacao/

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

SESSÃO SAUDADE - FERREIRA GULLAR

O cidadão Ferreira Gullar acaba de deixar o nosso convívio.



Essa ausência será triste como todas as outras que nos vitimam, as de amigos, parentes, colegas de trabalho e até daqueles que embora não conheçamos, parecem estar perto de nós, caso do nosso homenageado.
Resta-nos o consolo da permanência de suas obras literárias em que aflora o homem preocupado com o próximo e com o mundo que o cerca.
Cidadão sóbrio que, em sua sabedoria, reconheceu o fracasso político do socialismo.
Obrigado, Ferreira Gullar, por nos deixar páginas tão humanas em nossa literatura!
Descanse em paz!
Com o objetivo de homenageá-lo, reproduzimos abaixo um dos poemas famosos do autor: Não Há Vagas.

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

SESSÃO LEITURA - UMA VIAGEM INESQUECÍVEL - FERREIRA GULLAR

O texto abaixo é da autoria de Ferreira Gullar.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=16718&sid=1042.
Boa leitura!

UMA VIAGEM INESQUECÍVEL

O avião é o mais seguro dos meios de transportes, dizem, e eu admito, embora prefira viajar de automóvel.
É um problema psicológico, sem dúvida, mas que posso fazer? Quando o carro balança ou estremece, não me aflijo, pois sei que, estando no chão, não vai cair; mas, no avião, a 10 mil metros de altura, entro em pânico. Sei que não cai, mas não adianta sabê-lo - entro em pânico assim mesmo.
Fazia quase três anos que não viajava de avião, negando-me a aceitar qualquer convite que me obrigasse a isso. E tudo por causa de dois sustos seguidos, na ponte-aérea Rio-São Paulo. O primeiro deles, vinha para o Rio de noite e, pouco antes de chegarmos, o avião deu uma balançada tão brusca que fez gente gritar assustada; a impressão era de que íamos nos precipitar no chão, mas não aconteceu nada; quando o avião pousou, os passageiros bateram palmas, não sei se ao comandante ou à providência divina. Mas, recuperado do susto, desci as escadas do avião e senti pena do pessoal que, em fila, esperava para embarcar. Aliviava-me pensar que, só dali a um mês, teria que repetir aquela viagem.
Sucede que, para os assustados, um mês passa rápido, e assim foi que, quando dei por mim, estava de novo voando para São Paulo. Com 15 minutos de vôo, o comandante informou que o aeroporto de Congonhas estava fechado e assim me vi rodando sob a tempestade durante 20 minutos antes de conseguir pousar. Salvo do desastre, prometi a mim mesmo que nunca mais poria o pé dentro de um avião. Desde aquele dia, todas as vezes que viajei para São Paulo fui de carro e me dei bem. O chofer apanhava-me à porta de casa e me deixava à porta do hotel. Além de viajar com a alma em paz, não tinha que enfrentar as filas e atrasos nos aeroportos. Cinco horas e meia de carro permitiam-me ler e escrever. Até um livro de poemas para crianças escrevi numa dessas viagens.
Anos se passaram, esqueci aqueles sustos e, talvez por isso, aceitei o convite para ir à Espanha fazer conferências e leituras de poemas. Isso foi bem antes da tragédia de Congonhas. Cláudia, que gosta de viajar e não tem medo de avião, achou ótimo e, assim, irresponsavelmente, deixei-me encantar pela possibilidade de rever Madri e, finalmente, conhecer Sevilha e Santiago de Compostela. Além do mais, ficaríamos na Residencia de los Estudiantes, onde residiram García Lorca, Juan Ramón Jiménez e Rafael Alberti. Embalado em sonhos, vi aproximar-se a data em que voaria para terras da Espanha. É certo que, em alguns momentos, acudia-me a pergunta: "E você vai estar dentro de um avião durante dez horas ininterruptas?". Estremecia de medo, mas desviava o pensamento, já que, àquela altura, não poderia voltar atrás.
E foi assim que, certa tarde de maio, Cláudia e eu, arrastando maletas, chegamos ao Aeroporto Internacional Tom Jobim: embarcaríamos às 21h30. Logo nos deparamos com uma fila enorme de passageiros que tomariam o mesmo avião. Sem muita demora, o alto-falante anunciou que o nosso vôo para Madri atrasaria cerca de uma hora.
Começou a encrenca, disse a mim mesmo, e seguimos para o restaurante a fim de gastarmos o tempo. Estava lotado mas, por sorte, logo conseguimos sentar. E ali ficamos, à espera da chamada para o embarque, cujo atraso já se aproximava das duas horas. "Para que me meti nisto?", me perguntava eu, já dentro do avião, que não se movia. Finalmente, uma voz informou, em espanhol, que deveríamos esperar mais uma hora, aguardando autorização das autoridades brasileiras.
Afinal, decolamos. Meu relógio marcava meia-noite e meia, três horas de atraso. Agora, devíamos subir pela costa brasileira, cruzar o Atlântico, passar pelo norte da África, transpor o Mediterrâneo e chegar a Madri. Após o jantar, as luzes do avião se apagaram e iniciou-se a mais longa noite de minha vida, dentro de uma espécie de torpedo voador que estremecia a cada instante. Das dez horas de viagem, seis foram de turbulências. Afinal, o avião pousou e eu, zonzo de sono, fui esperar pelas bagagens.
Os dias que se seguiram foram confortadores e inesquecíveis. Ganhamos novos amigos, tanto espanhóis como brasileiros, que nos fizeram olhar a Espanha de uma nova maneira. Só que, de vez em quando, num relance, dizia a mim mesmo: "O diabo é ter que entrar naquele avião rumo aos caos aéreo brasileiro". E eu ainda não conhecia a opinião do presidente da Infraero: "Avião que não cai é o que está no chão". Pois é, no chão ficarei.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

SESSÃO LEITURA - TRADUZIR-SE - FERREIRA GULLAR

O poema abaixo é da autoria de Ferreira Gullar.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.e-biografias.net/ferreira_gullar/‎.
Boa leitura!

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Fonte: http://pensador.uol.com.br/autor/ferreira_gullar/

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

SESSÃO LEITURA - CASAL MODERNO - FERREIRA GULLAR

a crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de Ferreira Gullar.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: www.releituras.com/fgullar_bio.asp.
Boa leitura!

Casal moderno

OS DOIS namoram faz tempo, gostam-se, curtem-se, mas estão sempre atritados. Sempre, não digo, mas com freqüência. Não moram juntos, e talvez esteja aí a causa dos atritos. Não morar junto tem vantagens e desvantagens; uma das vantagens é parecer que continuam namorados, em vez de casados, não ter que aturar os achaques do outro a toda hora nem desgastar o mistério da relação que a vida em comum quase sempre extingue.
Isso sem falar na relativa autonomia de que ambos gozam para sair, fazer amizades novas, enfim, manter vida própria, como na época de solteiros. A principal desvantagem, para cada um deles, é exatamente o excesso de autonomia do parceiro, que anda não se sabe por onde nem com quem. Isso sem falar na tristeza -que bate em certas noites- de estar cada um sozinho em sua cama e na solidão do fim de semana, se, por algum motivo, um dos dois não está disponível.
Acresce o fato de que as pessoas não são iguais, ainda que tenham muitas afinidades, como é o caso deste nosso casal de namorados. São afins, mas ele resiste menos à solidão, enquanto ela adora ficar sozinha, dias inteiros, imaginando histórias e situações. Se espia o pátio interno do edifício e vê uma menina à janela, começa a imaginar como será a vida dela, que sonhos alimenta... Ou sai à toa pela rua, entra num shopping e fica perambulando de loja em loja, sem nada comprar.
Enquanto isso, ele, terminado o trabalho do dia, não sabe o que fazer. Liga a televisão, mas nada de novelas, que ele odeia; futebol, só se for jogo de seu time ou da seleção; tênis ainda suporta, mas não é uma coisa que lhe encha a vida; às vezes, enche-lhe a paciência.
E ela, sua namorada, que andará fazendo àquela hora? Pensa em telefonar-lhe, mas hesita, não vale a pena, ela não atenderá. Pois é, essa é uma característica dela: quase nunca atender os telefonemas, para fugir dos parentes.
Ele é cordato e paciente, procura aceitar as idiossincrasias da namorada, mas, é claro, paciência tem limites. E foi no último fim de semana que sua paciência atingiu o limite, depois de quase 15 dias sem se encontrarem, devido a uma sucessão de empecilhos.
Na quarta-feira, ele conseguiu falar com ela, que prometeu encontrar-se com ele na quinta. Mas, na quinta, ligou de manhã para cancelar o encontro porque estava indisposta. Ele ouviu aquilo mortificado. "Será que a gente não se vê mais?", perguntou. Ela prometeu que, no fim de semana, iriam ao cinema. "Sim, mas em que dia?" "A gente acerta", disse ela, "fica frio, não me pressiona, certo?"
Certo, mas nem tanto. No dia seguinte, sexta-feira, ela não telefonou. Depois de muito esperar, ele ligou, e ninguém atendeu. À noite, ligou de novo, nada. Bem, ela disse que seria no fim de semana, pode ser amanhã, sábado, mas não custava nada ter ligado. Foi se deitar, inquieto e ressabiado. Quase dormindo, ouviu soar o telefone, foi correndo atender, era engano. Amanhã, ela liga, na certa...
Mal acordou, disse a si mesmo: espero que ela ligue hoje, sábado, se não for para irmos hoje ao cinema, ao menos para acertar a ida amanhã. Ocupou-se como pôde pela manhã, evitando a expectativa. À hora do almoço é que ela costuma ligar, mas não ligou. Ele começou a se afligir: duas horas, duas e meia, e nada. Decidiu ligar: ninguém atendeu. Mal acreditava naquilo: por que ela não atende ao telefone? Ao ver que já passava das três, perdeu as esperanças. Não telefonaria mais.
Abatido e desapontado, decidiu fazer alguma coisa, sair, andar pela rua, mas mudou de idéia: levou o carro para pôr gasolina e, depois, resolveu ir até o centro ver uma exposição de arte. Às seis horas, estava em casa de novo, mas com uma decisão tomada: não telefonaria para ela nem atenderia seus telefonemas aquela noite, pois certamente telefonaria. Sentou-se no divã, ligou a televisão e ficou vendo um filme de Woody Allen que já vira outras vezes. "Se ela telefonar, não atendo de jeito nenhum", garantiu ele.
E, de fato, uma hora depois, o telefone tocou, e ele não se moveu. Eram nove horas quando o telefone soou de novo e ele não se moveu. "Ela está sabendo agora como é bom ligar e ninguém atender!" O telefone tocou ainda umas três vezes e ele, impassível, não atendeu. Foi dormir tarde da noite, triste, mas vingado.
No dia seguinte, às dez da manhã, ela ligou: "Benzinho, vamos ao cinema hoje, não? Estou louca pra ver aquele filme inglês e mais ainda pra te ver!" Ele, meio sem jeito, perguntou: "Você ligou para mim ontem à noite?" E ela : "Não liguei, não; cheguei tarde em casa e caí na cama".

Fonte: http://cronicasbrasil.blogspot.com.br/search?updated-max=2011-05-30T15:58:00-07:00&max-results=7&start=20&by-date=false.