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quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

SESSÃO LEITURA - A ARTE DE ANDAR - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

A ARTE DE ANDAR

Há duas formas de andar: com o espírito claro e com o espírito enfermo. Já andei neurótico; marchava quilômetros e quilômetros como a fugir dos sentimentos e pensamentos que então me perturbavam, mas eles me seguiam, me arranhavam, escureciam meus olhos. Agora, não; agora ando claro, é um exercício, uma medida de higiene. Primeiro sob as amendoeiras, no Posto 6, onde os banhistas jogam vôlei e os pescadores arrumam suas redes. Depois, ao longo da avenida Nossa Senhora de Copacabana, principalmente num sábado pela manhã, quando centenas de mulheres de todas as idades percorrem as lojas, os mercados, as feiras, em grupos ou sozinhas. Entro numa sapataria onde há uma botina que me agrada, mas o estabelecimento anuncia uma liquidação. Impossível fazer o meu pequeno negócio naquela confusão de comerciários que abrem as caixas, e de crianças que experimentam sandálias, e mocinhas que entregam o pé ao rapaz agachado... Mais parece uma festa, e todos estão felizes – os vendedores porque estão vendendo mais do que habitualmente, as compradoras porque imaginam estar comprando abaixo do preço, o gerente porque os lucros serão mais que razoáveis: Há nas liquidações uma lei segundo a qual as mulheres é que se sentirão estimuladas a comprar; as mulheres se sentem bem em multidões femininas, interesseiras, enquanto os homens, creio eu, só se amontoam em estádios ou bares, lugares em que não há problemas de oferta e procura.
Reconheço que as feiras-livres criam uma série de problemas desnecessários e provocam um desgaste nervoso nos cidadãos já mais do que estraçalhados pelas distâncias engarrafadas, os ônibus superlotados, os buracos que se multiplicam, a falta de dinheiro, a guerra do Vietnã... Mas é bastante agradável andar pelo interior de uma feira-livre, apreciando os gêneros expostos nas barracas, ouvindo os mais diversos comentários, discernindo pequeninos dramas familiares e sociais no comportamento da madame com relação à pretinha encarregada de puxar o carro do bebê, flagrando um pivete no ato de contemplação amorosa de uma bolsa esquecida aberta no braço da mocinha generosamente delineada por uma calça Lee... As mulheres são belas ao meio-dia de sábado, antes que os cabeleireiros transformem suas jovens cabeças em esculturas grotescas. Saem sem pintura, com roupas modestas, sandálias abertas, e em cada rosto se desenha aquela curiosidade intensa, ardente, quase sexual, que empolga as mulheres em face de um artigo a ser comprado. Elas estão mais perto da realidade do que nós, machos abstratos e longínquos; elas olham o tomate de igual para igual, mantendo-se ao nível da percepção verdadeira, de que nós homens temos nostalgia.
Quilômetros e quilômetros de andança alegre e atenta. Volto para casa cansado e enriquecido de sensações.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/20855/a-arte-de-andar.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - CONVERSA DE GENTE RICA - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

CONVERSA DE GENTE RICA

1. Tom Jobim esteve na alfândega e, após demoradas negociações, conseguiu liberar a mercadoria que lhe mandavam dos Estados Unidos. Era uma caixa em cuja tampa estava escrito: “Presente de Frank Sinatra”. Dentro havia duas dúzias do novo (e provavelmente derradeiro) long play do famoso cantor, intitulado Sinatra & Company.
O maestro já ia embora, feliz da vida, quando uma funcionária fez este comentário:
— O senhor diga ao Sinatra para não lhe mandar mais presentes feito esse. Isso só serve para lhe dar trabalho…
Sem saber, ela estava fazendo a declaração mais esnobe de 1971.
2. Alécio Andrade, vocês sabem, é uma espécie de filho adotivo meu e do Paulinho Mendes Campos. Garoto rico de Ipanema, extremamente tímido e sensível, foi por nós introduzido na roda boêmia do antigo Zepelim. Era poeta e pianista (grande intérprete de Bach). Paulinho lhe ensinou os rituais da boêmia e eu lhe mostrei o caminho que leva às mulheres. Fizemos grandes farras juntos.
Um belo dia, Alécio tomou horror ao piano, rasgou seus poemas e começou a tirar fotografias. E logo se revelaria um craque nesse novo ofício. Acabou indo passar uns meses em Paris, de onde nunca mais voltou. Sofreu a fome e o frio, ele que fora criado no padrão de vida da avenida Delfim Moreira. Quando estive na França, foi fácil perceber que Alécio, agora cidadão do mundo, nascera ali, no Boulevard Montparnasse. Aquela era a sua pátria.
Sua situação melhorou depois que começou a trabalhar como repórter fotográfico da Manchete na Europa. E finalmente aconteceu o grande prêmio, a recompensa que fizera por merecer nos duros tempos de exilado sem dinheiro. Alécio agora faz parte também da Magnum, que é a maior cooperativa de fotógrafos do mundo. Seu padrinho: Henri Cartier-Bresson, o Olho.
Alécio venceu.
3. As pessoas lerdas, feito eu, estão-se sentindo rapidamente ultrapassadas pelos fatos da prosperidade. É uma solidão estranha, solidão de gente pobre. Você vai almoçar entre amigos e a conversa gira toda em torno da Bolsa. Tais ações vão dar filhote, tais outras oferecem garantias seguras. A jovem recém desquitada revela:
— Saí da fossa entrando no mercado de ações. É quase como se tivesse descoberto um sentido para a minha vida. Vendi tudo o que tinha, estou morando com mamãe, e todo o meu dinheiro vai para a Bolsa. Nas duas últimas semanas ganhei cinco milhões…
É só no que se fala: ganhar dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não se pode conceber algo mais diabolicamente excitante que a experiência capitalista. Os novos-ricos já estão gastando dinheiro na Europa, que descobre um turista generoso e alegre: o brasileiro. Se as coisas continuarem como estão indo, brevemente perderemos o complexo de inferioridade que temos em relação aos Estados Unidos.
Enquanto isso, Dona Sebastiana (a segunda) e Dona Joana ganham, cada uma, cinco bilhões dos antigos. É dinheiro demais; não dá nem para imaginar. Mas dá para influenciar o sono dos pobres. Eu, por exemplo, sonhei que Dona Joana, querendo mostrar ao mundo a imensidão de sua fortuna, desembarcou de um avião em Pequim e avisou:
— Estou disposta a dar um cruzeiro antigo a cada habitante da China de Mao.
Formou-se uma fila gigantesca. O primeiro a receber a grana foi Mao, depois Chu En-lai e Lin Piao; seguindo-se os 700 milhões de chineses restantes. Nenhum chinês ficou sem a sua moeda.
Pois bem, depois disso Dona Joana fez as contas e, sorridente, verificou que ainda lhe restavam quatro bilhões dos antigos... Quatro milhões de cruzeiros novos!
Quanto a mim, acordei mais pobre do que na véspera.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/21460/conversa-de-gente-rica.

quinta-feira, 6 de março de 2025

SESSÃO LEITURA - UMA BOLHA DE SABÃO - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

UMA BOLHA DE SABÃO

Nove horas da manhã. Sento-me para o café. Nem todo mundo começaria assim o dia, quebrando o jejum, pela ordem, com duas colheres de mel de abelha, uma fruta-do-conde, uma laranja, dois ovos quentes, torradas macias que escapolem da torradeira elétrica, posta sobre a mesa, e logo generosamente amanteigadas, e café preto quente. “Nem todo mundo”, repito contente — ainda a chupar a laranja que aliás está levemente azeda — quando algo sucede à minha esquerda, na janela: um ruído de lata batendo em madeira, um pigarro, uma voz masculina que diz qualquer coisa a não sei quem. Olho: há uma escada e nela um homem, ambos enquadrados na janela. Um homem com um balde de tinta na mão esquerda esticada ao longo do corpo, o braço direito erguido cuja mão não vejo e que sem dúvida empunha uma brocha. Também não lhe vejo a cabeça, nem as pernas, só o resto do corpo, do pescoço aos joelhos. Calças e camisa de tecido barato, nem brancas nem de qualquer outra cor (um desbotado sem se ter desbotado, eis a cor). Calça e camisa amassadas, com manchas de tinta amarela.
Estou acostumado. Há uns trabalhadores pintando a fachada do prédio, isso já tem semanas, tenho visto três ou quatro deles pendurados em andaimes, outro dia ofereci cafezinho ao que estava praticamente ajoelhado no peitoril do meu escritório, mas logo mudei de aposento. Achei desagradável a presença daquele desconhecido; intolerável que estivesse devassando a minha intimidade. Agora temos este outro, na sala de jantar, e me sinto apanhado na armadilha urbana. A mesa está posta, tenho meia laranja na boca, depois virão as torradas, não posso fugir. Uma reflexão na vertigem: tal como o animal selvagem se torna agressivo no instante em que outro bicho invade o seu território (Konrad Lorenz), não posso fugir de minha própria casa, não devo e não quero fazê-lo... Seria anular-me; seria fazer de mim coisa nenhuma; límpidos às vezes, outras vezes sombrios são os meus instintos, mas na situação presente estamos em plena claridade. Reprimido por todos os lados (ou melhor, por dentro e por fora), só me restaria declarar-me escravo, caso admitisse estrangular o animal que persevera em mim, contra tudo e contra todos, e que é a minha própria identidade, minha natureza... Um belo animal orgulhoso, cioso de seu orgulho, inquebrável por definição, se bem que exposto a todas as mutilações que o homem costuma infligir ao homem... Por sorte, tenho um pequeno território, sou um inquilino, não me perseguem, cumpro os meus deveres de cidadão, tenho o direito de mastigar em paz a minha torrada... Em Moscou, num delírio, escapei da prisão, da tortura e do exílio, por omissão e ceticismo, e também não cometi nenhum crime contra o meu semelhante... Todos os dias, a esta hora, há milhares de pessoas tomando o café da manhã, e nunca me senti compelido a privá-las desse pequeno prazer que nasce da necessidade elementar... Meus impulsos assassinos dirigem-se todos às constelações, contra as quais ergo o punho furioso sempre que me defronto com a humilhação... Há uma raça condenada aos infernos: aquela das almas que entrarão com desdém no anfiteatro do Juízo Final... Ah Cristo, quão longe estamos de tua mansuetude....
“Os fenômenos da vida podem ser comparados a um sonho, um fantasma, uma bolha de sabão, uma sombra, o resplendor do orvalho, o lampejo do relâmpago, e assim devem ser contemplados” — (O Buda, no Sutra imutável).
Entretanto, a rósea torrada, chamuscada nas bordas, escalope da torradeira. Há que amanteigá-la antes que esfrie, e o café também deve ser bebido quente. Voltemos à realidade; sim, ao nível do trabalho duro, humilde, sem metafísica outra que não a esperança em dias melhores. Pois esta é uma reflexão sobre a fome, e cá estamos nós: o intelectual comendo, o proletário pintando paredes. Só por coincidência isto se passa nas proximidades do Dia do Trabalho.

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/18427/uma-bolha-de-sabao.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

SESSÃO LEITURA - CADÊ MEU BISTRÔ? - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

CADÊ MEU BISTRÔ?

Tarde ensolarada, temperatura agradável. Ando pelos bulevares, descanso nos bancos de praça, espio as vitrinas das lojas. Esta é a maneira tradicional, dir-se-ia mediúnica, de receber o espírito de Paris. Não é uma cidade para o turista apressado. Os cafés estão cheios; a multidão nas ruas é colorida, e há em cada rosto uma expressão satisfeita, muito embora se diga que a crise se aproxima (o desemprego em primeiro lugar).
Vou ao La Coupole, só pelo velho hábito, peço cerveja de Munique, um sanduíche de presunto, abro Le Monde, o mundo me cansa, fecho o jornal e me ponho a observar os passantes através da vidraça. Estou ― feliz? tranquilo? ― não sei. Estou. Meia hora atrás, procurando a nova sede da Varig, encontro em frente ao Plaza-Athenée uma gentil senhora muito poderosa no Brasil e bastante estimada em numerosos outros lugares. Dou um doce a quem adivinhar de quem se trata. Ela me apresenta ao mordomo do Plaza e me oferece um uísque. Estou em situação embaraçosa. Minhas roupas de Ipanema, estilo marginal de luxo, agravadas pelo meu boné de veludo azul e pelas minhas botinas de couro de búfalo (sem falar na sacola de couro de vaca onde carrego toda a minha parafernália de vagabundo) ― minhas roupas estão amassadas e, tantos dias jogadas na mala, não cheiram muito bem. Mas o meu status de boêmio, combinado com o de escritor, me dá direito à extravagância comedida. Entro, sento, peço o uísque pela marca e me ponho a conversar com a ilustre senhora ― uma das pessoas mais simpáticas, e sem dúvida a mais modesta que conheço. Quem sabe ela seja a minha patroa e esteja querendo que eu me sinta em Paris como em casa? Quem sabe uma certa organização chamada JB nos deixe à vontade, como em nossa própria casa, em qualquer parte do mundo? Pois é. Se Marx estivesse vivo, o Brasil seria a sua caixinha de surpresas. Despeço-me dela: vou à vida.
Quer dizer, não vou a parte nenhuma, estou sentado em Coupole e constatando que o Coupole não é mais o mesmo bar. Alguma coisa mudou aqui, ou fui eu que mudei, não há nenhuma razão objetiva a justificar tal suposição ― mas quem conhece Paris sabe que é assim. O Coupole não é mais o meu bar, e está acabado.
Preciso comprar umas roupas adequadas à elegância europeia (ou, no meu caso, à deselegância, que varia conforme as estações do ano e também conforme os povos). Visitar os museus, ir ao teatro, ao cinema. Passear ao longo do Sena, de “Bateau-Mouche”.
Pouco adiante do Coupole dou com um pub ― assim mesmo chamado, mas não de todo inglês por causa da varanda, ou terraço. Já que é um pub, peço um uísque. Leio um pouco de Samuel Beckett. Peço um segundo uísque. São sete horas da noite (ainda há claridade no céu) e a partir de agora o estabelecimento começa a trabalhar com refeições. Nunca jantei às sete horas, portanto não é esse o meu bar, que no entanto deve estar em alguma parte, à minha espera, como acontece aqui ― e só aqui.
Escrevo em cartões-postais, termino de ler o Monde, pego um táxi e vou para casa. Fazer o quê? Dormir. Paris é cidade para você entrar nela na maciota. Desde que ainda não encontrei o meu bistrô, só me resta recolher-me aos meus aposentos. Assim faço. Bonne nuit!

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/cade-meu-bistro-cronica-de-jose-carlos-de-oliveira/.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

SESSÃO LEITURA - NÓS OS CAPIXABAS - JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

NÓS OS CAPIXABAS

O capixaba é, antes de tudo, um fraco. No bom sentido: sentimental, modesto, deslumbrado por tudo o que vem de fora.
O cantor Roberto Carlos é um típico rapaz do Espírito Santo. Tímido, romântico, eternamente criança, desperta nas crianças um sentimento maternal.
As irmãs Nara e Danusa Leão representam com fidelidade a mulher capixaba. Nara é modesta, tímida e sossegada como Roberto Carlos; tem o ar de primeira aluna da classe, aquela bonitinha pela qual todos os meninos se apaixonam perdidamente. Já Danusa é a capixaba cosmopolita, sofisticada, para a qual o mundo inteiro é uma província do Espírito Santo.
A modéstia dos capixabas se encontra até no hino oficial do Estado. O autor da letra, em dado instante, lança uma longa mirada sobre a história espírito-santense, à procura de heróis, sábios e mártires. Não encontrando nenhum, confessa singelamente no seu hino:
Se as glórias do presente forem poucas,
Apelai para nós, posteridade!
Até agora a posteridade não deu resposta.
Todo capixaba é generoso, guloso e hospitaleiro. Reparte o que tem com seus vizinhos. Abusa da moqueca de papa-terra. E, com uma velocidade espantosa, se torna íntimo dos forasteiros.
No Espírito Santo, os homens têm um grave defeito: gostam de falar mal da vida alheia. Para isso se reúnem, ao entardecer, na Praça Oito, em Vitória. Mas só falam da boca para fora. No fundo do coração, gostam de todo mundo.
Já as mulheres são meigas, dóceis, extremamente femininas — qualidades muito mais raras do que se pode imaginar. Com sangue índio, italiano, negro e árabe, a mulher capixaba é geralmente morena de olhos castanhos; pálida é a sua cútis, fina a sua cintura e bem desenhadas as suas pernas.
A grande meta da mulher capixaba é se casar com um rapaz honesto e trabalhador.
A grande meta do homem capixaba é tentar a vida no Rio de Janeiro.
Os capixabas levam tudo na galhofa. Para eles, a vida é um espetáculo engraçadíssimo. O bairrismo capixaba se assemelha à saudade de um Espírito Santo imaginário. No fundo nós temos inveja de Minas Gerais e ciúme dos cariocas. Só nos sentimos irmãos dos fluminenses, nosso vizinhos que são pobres, pequeninos e anônimos como nós mesmos.
O modo de falar dos capixabas é civilizado, límpido, nada regional. Somos um povo que dá a cada coisa o seu verdadeiro nome. Ao Penedo que se ergue ao pé de Vitória nós demos o nome de Penedo. Outros povos dizem de suas serras que são a serra do Mar, a serra da Mantiqueira e assim por diante. Pois bem, nossa serra é Serra mesmo. Em outras terras há praias de Copacabana, de Ipanema e assim por diante. As nossas, porém, recebem o nome que merecem: praia da Costa, praia do Canto, praia Comprida. E até o rio Doce é rio Doce por suas águas não serem salgadas.
A mulher capixaba merece um capítulo especial. Podemos vê-la cafusa, taciturna e com cabelos muito lisos e negros, em São Mateus, Linhares e Colatina. Em Santa Teresa nós a surpreendemos loura de olhos azuis. Em Cachoeiro a capixaba é clarinha, suspirosa, humilde. E em Vitória ei-la que surge com suas pernas solidamente plantadas — essas pernas que com incomparável elegância descem a correr, ou sobem vagarosamente as escadarias.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

SESSÃO LEITURA - ADÃO E EVA - AUTOR: JOSÉ CARLOS OLIVEIRA

A crônica que reproduzimos abaixo é da autoria de José Carlos Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: pt.wikipedia.org/wiki/José_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!

ADÃO E EVA

Relendo velhos textos, observo que a todo instante me preocupa uma única situação. A solidão do homem, a solidão da mulher. Não a solidão dos homens, do gênero humano: do homem com relação à mulher e vice-versa. Suspeito que o momento supremo da nossa aventura ocorreu quando o Senhor Deus exorbitou de suas funções, por assim dizer. Ele já havia feito tudo e só lhe restava descansar, pois era domingo, e, sábado, toda a Criação tinha passado a noite no Jirau, inclusive Ele. Mas parece que o Homem, Adão, achava aquela festa muito aborrecida, pois não dançou com ninguém, bebeu demais e é possível até que tenha dado um vexame. Suponho que no meio da noite ele tenha decidido apanhar de qualquer maneira a fêmea do Canguru, aliás exímia dançarina de twist, e senhora um tanto leviana, pois mal emergira da argila e já se punha a flertar com o Rei da Criação. Mas não fica bem, a um cavalheiro, estar a julgar a conduta da mulher alheia: esqueçamos isso e voltemos a Adão, ébrio e cafardento, lançado num Paraíso em que todos os bichos estavam acompanhados, menos ele. Todo o mundo reparou que ele não estava feliz. As senhoras, no toalete, não fizeram outro comentário — todas elas dispostas a fazer qualquer coisa para consolá-lo, porque os machos tristonhos sempre gozaram de grande prestígio junta às fêmeas de toda a escala zoológica, e o Senhor Deus, psicólogo de rara penetração, adivinhou que o Paraíso estava resvalando para o perigoso terreno da galhofa — como diria, muitos milhões de anos depois, um cronista particularmente femeeiro... Não apenas estávamos à beira do adultério, como diante de algo muito mais grave — uma degradação. Imaginem se Adão, no auge do pileque, fazendo um papel muito mais feio do que Noé, inaugurasse o cruzamento de homem com, digamos, sapo, ou percevejo, ou jacaré, ou cobra d'água! Felizmente — ou graças a Deus: parece que ele, em sua infinita sabedoria, foi servindo mais e mais uísque à medida que Adão esvaziava o copo, de modo que o velho Adão foi apagando, apagando e — zás! emborcou.
...Foi quando extraímos uma costela, com a qual esculpimos uma forma nova, cheia de graça, com cabelos habilmente manipulados pelo Reinaud e tendo sobre o alvo ventre uma folha de parreira confeccionada por José Ronaldo... Assim nasceu Dona Eva, na intimidade Vivi sem sobrenome, porque não tinha pai nem mãe. E ela chamou Adão para irem ao Bob's, digo, ao bosque, onde estava a afamada Árvore da Sabedoria. E a serpente disse a Eva: "Olha, Eva, a coisa mais bacaninha que há para fazer, hoje em dia é comer daquela maçã que você vê ali naquela árvore. É a coqueluche de Paris — todo mundo comendo maçã no New Jimmys, no Maxim's, no Plaza Athenée Rellays, no Bois de Bologne!" Eva achou a idéia fabulosa e perguntou a Adão que tal lhe parecia. Adão no momento não tinha dinheiro no bolso (estava nu, coitado), mas a Serpente emprestou, Adão comprou a maçã e Eva disse: "Morde aqui".Adão mordeu. Eva também.
Foi quando dos grandes Céus os exércitos de anjos desceram céleres sobre o Paraíso, e suas vozes faziam um clamor de tempestade, e eles clamavam: "Nós também queremos! Nós também queremos!".
Mas só Adão e Eva tiveram permissão. Na verdade, Eva é que acabou sendo a dona do negócio, tanto que certa ocasião, depois de folhear a revista Playboy, Adão lhe aplicou um beijo no cangote e disse: "Vamos comer maçã? Que dia lindo para comer maçã!" E Eva, bocejante, sob os cabelos enrolados em bob: "Hoje não, Adão. Hoje estou com muita dor de cabeça".

Fonte: http://www.releituras.com/jcoliveira_eva.asp