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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

SESSÃO LEITURA - COMO O DIABO AS ARMA - ARTUR AZEVEDO

O texto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

COMO O DIABO AS ARMA

O Sr. Paulino era o marido mais irrepreensível desta cidade em que são raríssimos os maridos irrepreensíveis; entretanto (vejam como o diabo as arma!), um dia foi morar mesmo defronte da casa onde ele morava, na Rua Frei Caneca, uma linda mulher, que lhe deu volta ao miolo.
Apesar de casado com uma senhora ainda bonita e frescalhona, mais nova dez anos que ele, que orçava pelos quarenta e tantos, o Sr. Paulino resolveu chegar à fala com a sua encantadora vizinha, que, pelos modos, era livre como os pássaros. Pelo menos morava sozinha, e recebia de vez em quando visitas misteriosas de três ou quatro sujeitos discretos que, antes de entrar, olhavam para trás, para adiante e para cima, o que era um meio mais seguro de serem observados.
Essas visitas encorajaram necessariamente o Sr. Paulino; mas… como chegar à fala?… Da sua janela, onde ele raras vezes aparecia, limitando-se a espiar a vizinha por trás das venezianas, o pobre namorado jamais se animaria a fazer o menor gesto suspeito. Resolveu, pois, esperar que alguma circunstância fortuita o favorecesse, ou por outra, que o diabo as armasse.
Não tardou a aparecer a circunstância fortuita, que o diabo armou: uma tarde em que o Sr. Paulino voltava do emprego de guarda-livros de uma importante casa comercial, viu passar na Avenida a linda mulher que tanto o impressionara, e acompanhou-a até a estação do Jardim Botânico, onde ela tomou um bonde 1!para o Leme.
O Sr. Paulino, já se sabe, tomou o mesmo bonde e sentou-se ao lado dela, que lhe cedeu gentilmente a ponta. A sujeita, que era matreira, percebeu que tinha sido acompanhada e aplanava o terreno para uma explicação.
O guarda-livros cobriu o rosto com A Notícia e, fingindo que estava lendo, murmurou:
– Preciso muito falar-lhe.
– Pois fale – respondeu ela fazendo com o leque o mesmo que o outro fazia com a rósea folha vespertina.
– Aqui não; em sua casa. Quando há de ser?
– Quando quiser.
– Amanhã?
– Amanhã, seja! Sabe onde é?
– Sei; mas só poderei lá ir depois das dez horas da noite, quando a rua estiver completamente deserta.
– Por quê?
– Depois lhe direi.
– Bom. Esperá-lo~ei às dez e meia.
– Adeus!
– Até amanhã!
E o Sr. Paulino saltou no Largo da Lapa.
No dia seguinte à hora indicada, o guarda-livros entrava em casa da vizinha, cuja porta achou entreaberta.
– Mas por que todo este mistério? – perguntou a tipa, que o recebeu como se o conhecesse de longos anos.
– É porque moram ali defronte uns conhecidos meus.
– Quem? O tal Paulino?
– Conhece-o?
– De nome apenas; nunca o vi. Querem ver que também você gosta da mulher dele?
– Da mulher de quem?… do Paulino?…
– Sim, faça-se de novas! Aquela é pior do que eu!
– Mas de que Paulino fala a senhora? – perguntou o pobre homem, já trêmulo e agitado.
– Do Paulino que mora ali defronte. A ele nunca o vi, mas tenho visto os amantes da mulher!
– Os amantes da mulher?!…
– Sim, coitado. É ele a sair de casa, e os outros a entrar!…
– Os outros?… Então são muitos?!…
– Mais de um é, com certeza… Já vi dois: um rapaz alto, louro, rosado, elegante.
– Deve ser o Gouveia!
– E o outro baixinho, cheio de corpo, de bigode e pêra, pince-nez azul…
– Deve ser o Magalhães! Dois amigos!…
E o Sr. Paulino caiu desalentado numa cadeira. Tudo lhe andava à roda. Sentia as faces em fogo. Receou uma congestão cerebral.
A mulher notou que ele estava incomodado, e foi buscar água-da-colônia, que o reanimou.
– Fui, talvez, indiscreta, disse ela; o tal Paulino é seu amigo, e você não sabia…
– O tal Paulino sou eu, minha senhora; sou eu em carne e osso, e agradeço-lhe a informação. Se não viesse à sua casa, jamais saberia o que se passa na minha, e continuaria a ser um marido ridículo sem o saber! Para alguma coisa me serviu essa aventura amorosa!
E o Sr. Paulino saiu sem exigir da vizinha, atônita, outra coisa além de um copo d’água.
No dia seguinte pôs a mulher fora de casa, e cortou a chicote a cara do Gouveia. O Magalhães escondeu-se e não foi encontrado, mas não perde por esperar.
Ora, ai têm como o diabo as arma!

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/como-o-diabo-as-arma-artur-azevedo/.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

SESSÃO LEITURA - A MARCELINA - ARTUR AZEVEDO

O texto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

A MARCELINA

I

Naquele tempo (não há necessidade de precisar a época) era o doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigatórias da rua do Ouvidor. Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, – mas como janota- força é confessá-lo – não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro.
Rapaz? Rapaz, sim: o doutor Pires de Aguiar pertencia a essa privilegiada classe de solteirões que se conservam rapazes durante trinta anos.
Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente: – Orço pelos quarenta, – e durante muito tempo não deu outra resposta. Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinqüenta, bem puxados. As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco.
Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro. Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz. Não fazia questão de espírito nem de beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público. Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Cythera dos bastidores.
Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela; desde que esta começava a ofuscar-se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra. Como era inteligente e generoso – muito mais generoso que inteligente, – nunca ficava mal com o astro caído.
Algumas vezes o rompimento era provocado por elas – pelas de mais espírito, – que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidosa e suas roupas.

II

No tempo em que se passou ação deste ligeiro conto, a nova conquista do doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas da réclame, e cuja estréia, num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente.
Uma hora antes de começar o espetáculo de estréia, entrou o advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba capa de pelúcia. Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores.
Ela ficou encantadíssima, e agradeceu com beijos quentes e sonoros a dedicada solicitude do amante.
Que belo tapete felpudo! que bonitos quadros! que papel bem escolhido! que delicioso divã! que magnífico espelho de três faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro! e que profusão de perfumarias! e que preciosos serviço de toilette…
Nada faltava também sobre a mesinha da maquillage, intensamente iluminada por dois bicos de gás.
O doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos; não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários ao camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.
Dali a nada ouviu-se um – Dá licença?, – e o diretor de cena entrou no camarim acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada.
– Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.
A estrela não conteve um gesto de despeito. O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações.
– É doente? perguntou Clorinda à costureira.
– Não, senhora. Tive uma doença grave, mas agora estou boa. Sai há dois dias da Santa Casa. Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, refestelando-se no divã:
– Ma chère, il faut se contenter de cette habilleuse; nous ne sommes pas en Europe.
Ele impingiu esta frase em francês, para que não a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: – Oui.
Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia, Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se, dizendo: – Vamos a isto!
E dirigindo-se à costureira:
– Sente-se. Por que está de pé?
A pobre mulher sentou-se a medo, como receosa de macular a palhinha dourada da cadeira com o seu miserável vestido de chita.
– Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito? perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho.
– Deveras?
– Ao que me parece, você tem sido um gajo!
O doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível. Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade a dentro com uma gran-cruz.
– Com que então, a sua especialidade são as atrizes?
– Sou doido pelo teatro.
– E há quanto tempo dura essa doidice?
– Há muito tempo. Estou velho, bem vê. Orço pelos quarenta.
– Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco.
– São os seus olhos.
– Qual foi a sua primeira paixão no teatro?
– Ah! isso…
O advogado levantou o braço e estalou os dedos.
– … isso é pré histórico, perde-se na noite dos tempos.
– Como se chamava esta colega?
– Chamava-se Marcelina.
– Que fim levou?
– Sei lá! provavelmente morreu. Nunca mais ouvi falar dela. Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados: ninguém lhes vê o cadáver.
– Gostou dela?
– Foi talvez a paixão mais séria da minha vida.
– Nunca mais a procurou?
– Para que?
– Tinha talento?
– Talento? Não. Tinha habilidade. E depois de uma pausa:
– Tinha habilidade e era muito boa rapariga.
– Brasileira?
– Sim, Representava ingênuas em dramalhões de capa e espada, ali, no São Pedro de Alcântara. Um dia – eu já a tinha deixado – um dia patearam-na por motivos que nada tinham que ver com a arte dramática; ela desgostou-se; andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu. Requiescat in pace!
Entrou o cabeleireiro. Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos de Marcelina; depois falou de outras atrizes, desfiando o interminável rosário das suas mancebias.
Clorinda, a costureira e o cabeleireiro ouviam sem dizer palavra.
Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se:
– Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim? Vou vestir-me.
– Até logo, disse o advogado. O seu penteado ficou esplêndido! Vou aplaudi-la. Bonne chance!
Deu-lhe um beijo – na testa para não desmanchar a pintura, – e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.

III

Minutos depois, Clorinda estava completamente nua.
– A senhora é muito bem feita de corpo, disse-lhe, num tom adulatório, a costureira, enfiando-lhe pela cabeça a camisa de seda.
– Acha? perguntou desdenhosamente a atriz.
– Ah! eu também já fui bem feita de corpo, mas… não tive juízo: fiei-me demais nos homens. Se quer aceitar um conselho, filha, preste mais atenção à sua arte do que a todos esses… gajos, que fazem das mulheres um objeto de luxo e nada mais. Só assim a senhora evitará o hospital e a miséria.
– Ora esta! exclamou Clorinda. Quem é você, mulher, para me falar assim?
– Eu sou a Marcelina.

FIM

quinta-feira, 17 de março de 2022

SESSÃO LEITURA - A CONSELHO DO MARIDO - ARTUR AZEVEDO

O texto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

A CONSELHO DO MARIDO

Estamos a bordo de um grande paquete da Messagéries Maritimes, em pleno Atlântico, entre os dois hemisférios. Dois passageiros, que embarcaram no Rio de Janeiro, um de quarenta e outro de vinte e cinco anos, conversam animadamente, sentados ambos nas suas cadeiras de bordo.
– Pois é como lhe digo, meu amiguinho! – dizia o passageiro de quarenta anos – o homem, todas as vezes que é provocado pela mulher, seja a mulher quem for, deve mostrar que é homem! Do contrário, arrisca-se a uma vingança! O caso da mulher de Putifar reproduz-se todos os dias!
– E se o marido for nosso amigo?
– Se o marido for nosso amigo, maior perigo corremos fazendo como José do Egito.
– O que você está dizendo é simplesmente horrível!
– Talvez, mas o que é preferível: ser amante da mulher de um amigo sem que este o saiba, ou passar aos olhos dele por amante dela sem o ser, em risco de pagar com a vida um crime que não praticou?
– Acha então que temos o direito sobre a mulher do próximo…?
– Desde que a mulher do próximo nos provoque. Se o próximo é nosso amigo, paciência! Não se casasse com uma mulher assim! Olhe, eu estou perfeitamente tranqüilo a respeito da Mariquinhas! Trouxe-a comigo nesta viagem porque ela quis vir; se quisesse ficar no Rio de Janeiro teria ficado e eu estaria da mesma forma tranqüilo.
– Mas o grande caso é que se um dia algum dos seus amigos…
– Desse susto não bebo água. Já um deles pretendeu conquistá-la… chegou a persegui-la… Ela foi obrigada a dizer-mo para se ver livre dele… Dei um escândalo! Meti-lhe a bengala em plena Rua do Ouvidor!
Dizendo isto, o passageiro de quarenta anos fechou os olhos, e pouco depois deixava cair o livro que tinha na mão: dormia. Dormia, e aqueles sonos de bordo, antes do jantar, duravam pelo menos duas horas.
O passageiro de vinte e cinco anos ergueu-se e desceu ao compartimento do paquete onde ficava o seu camarote.
Bateu levemente à porta. Abriu-lhe uma linda mulher que se lançou nos seus braços. Era a Mariquinhas.
– Então? – perguntou ela – consultaste meu marido?
– Consultei…
– Que te disse ele?
– Aconselhou-me a que não fizesse como José do Egito. Amigos, amigos, mulheres à parte.
E o passageiro de vinte e cinco anos correu cautelosamente o ferrolho do camarote.

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/a-conselho-do-marido-conto-de-artur-de-azevedo/.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

SESSÃO LEITURA - CAIPORISMO - ARTUR AZEVEDO

O conto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

CAIPORISMO

– Oh! Secundino!
– Oh! Borges!
– Tu no Rio de Janeiro!
– Há oito dias.
– Vieste a passeio?
– Não, meu amigo; vim tocado pela desgraça.
– Pela desgraça?
– “Desgraça” é talvez forte demais. Pelo caiporismo, se quiseres.
– E és tão caipora assim?
– Pertenço ao número dos tais que caem de costas e quebram o nariz!
– Oh, diabo! entremos neste café, e, enquanto tomamos alguma coisa, conta-me qual tem sido a tua vida nestes doze anos de ausência.
Passava-se isto na rua do Ouvidor, em frente ao Pascoal. Os dois amigos e comprovincianos entraram no Café do Rio, e sentaram-se a uma das mesas.
– A minha vida, principiou Secundino, resume-se numa palavra: miséria. Quando vieste da Vitória e lá me deixaste, eu era ainda, por bem dizer, uma criança. Vivia em casa de minha família, onde nada me faltava. Morreu meu pai, morreu minha mãe, minhas irmãs casaram-se, e eu fiz-me sócio de uma loja de fazendas. Ao fim de seis meses, abriram-me falência. Saí com uma mão atrás e outra adiante, e fui ser caixeiro de um bruto, um ingrato, que, ao fim de oito anos, em vez de me dar sociedade, passou a casa a um sujeito meu desafeto. Desgostoso, abandonei o comércio e quis ser empregado público. Apresentei-me em quatro concursos, e, apesar de bem classificado, não consegui que me nomeassem. Fundei uma folha, que acabou logo por falta de assinantes. Contratei casamento com a filha de um fazendeiro rico de S. Mateus, e a minha querida noiva, que me estimava muito, morreu um mês antes do dia marcado para o casamento. Afinal, desesperado, baldo inteiramente de recursos, aceitei um lugar de contínuo na Tesouraria da Fazenda…
– Tu?! Com as tuas habilitações?!
– É para que vejas, respondeu Secundino com lágrimas na voz. Mas isso mesmo foi considerado muito para mim. Demitiram-me acintosamente por não ter votado no candidato oficial nas últimas eleições. Resolvi então vir para o Rio de Janeiro, ao Deus dará... Arranjei duzentos e tantos mil réis, vendendo tudo o quanto possuía, e aqui estou sem emprego, sem esperanças, sem promessa, sem relações, e com sessenta mil réis no bolso. É tudo quanto me resta da minha fortuna.
– Pois bem, ofereço-te um emprego.
– Deveras.
– Oh! não é coisa para arregalares desse modo os olhos. É um biscate, que te pode servir enquanto não arranjar coisa melhor.
– Tudo me serve, meu amigo: a minha situação é desesperadora.
– Pois bem. Conheces a viúva Salgado?
– Não conheço aqui ninguém.
– Tens razão. A viúva Salgado é uma senhora riquíssima. Tem duas filhas. Quer que elas saibam francês, inglês, e me incumbiu de contratar um professor que lhe dê lições em casa, duas vezes por semana, ganhando cento e vinte mil réis mensais.
– Mas é uma pechincha.
– Não tens que perder tempo. Aqui está um cartão meu para te apresentares hoje mesmo, agora mesmo, se quiseres, em casa da viúva Salgado.
– Onde é?
– Rua do Catete.
– Número?
– Não sei o número, mas o condutor te indicará a casa. Não há quem não conheça a viúva Salgado. Olha, toma-se o bonde ali defronte e para-se mesmo na porta. Sabes onde é o Ministério dos Estrangeiros?
– Não.
– Conheces o Palácio de Nova Friburgo? Deves conhecer, que diabo! Já tens oito dias de Rio de Janeiro!
– Conheço.
– Pois é nessas imediações; quase defronte.
– Já sei pouco mais ou menos onde deve ser.
– Pois vais tomar o bonde, e sê feliz.
Daí a dois minutos, Secundino partia para a rua do Catete.
O bonde parou no largo da Carioca.
Uma senhora de meia idade, muito gorda, muito feia, mas luxuosamente vestida, aproximou-se para entrar no carro. Havia um único lugar desocupado ao pé de Secundino. Este encolheu-se todo para deixar entrar a senhora, que só a muito custo conseguiu abrir caminho entre os joelhos do provinciano e o banco da frente.
Depois de sentada, a senhora gorda encarou o seu vizinho com um olhar cheio de ódio, e disse bem alto, para que todos ouvissem:
– Com efeito! Sempre há sujeitinhos muito malcriados! E repetiu, depois de alguns segundos:
– Sujeitinhos muito malcriados!
– Isso é comigo, minha senhora? perguntou Secundino timidamente.
– Pois com quem há de ser? Se fazia tanto empenho em ficar na ponta do banco, devia levantar-se um instantinho para deixar-me passar sem me magoar as pernas nem amarrotar o vestido! Ora vejam como ficou esta saia!
– Minha senhora, quem não quer se sujeitar a estas contrariedades não anda de bonde: aluga um carro.
– Cale-se! Não seja insolente! Você responde assim por ver que não tenho um homem a meu lado.
E a senhora gorda percorreu com os olhos todos os passageiros do bonde, na esperança de que algum tomasse as dores por ela.
– O meu caiporismo! refletiu Secundino. E, enfiado, apeou-se no largo da Mãe do Bispo.
Veio outro bonde. O provinciano entrou nele, e um quarto e hora depois, subia a escada da viúva Salgado. Calcou o botão de uma campainha elétrica, Veio um copeiro encasacado. Secundino entregou o cartão do seu amigo Borges, e esperou.
Daí a cinco minutos abriram-lhe a porta da sala, uma sala opulenta, atapetada com luxo, mobiliada suntuosamente, cheia de quadros e quinquilharias.
Esperou meia hora. Rasgou-se afinal, um reposteiro de seda, e apareceu a dona da casa. A viúva, mal encarou Secundino, gritou, cheia de surpresa e de cólera:
– Pois é você, seu malcriado?! E eu que supunha ser o senhor Borges! Ponha-se já, já no olho da rua! Já!… Secundino reconheceu na viúva Salgado a senhora gorda do bonde. Saiu da sala precipitadamente e desceu a escada aos pulos. Só respirou na rua.
Foi realmente, muito caiporismo!

Fonte: https://contobrasileiro.com.br/caiporismo-conto-de-artur-azevedo/.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

SESSÃO LEITURA - O VIÚVO - ARTUR AZEVEDO

O conto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

O VIÚVO

Na véspera de partir para a Europa, o doutor Claudino, sem prever o fúnebre espetáculo de que ia ser testemunha, foi despedir-se do seu velho camarada Tertuliano.
Ao aproximar-se da casa, ouviu berreiro de crianças e mulheres, e a voz de Tertuliano, que dominava de vez em quando o alarido geral, soltando, num tom estrídulo e angustioso, esta palavra: “Xandoca”.
O doutor Claudino apressou o passo, e entrou muito aflito em casa do amigo.
Havia, efetivamente, motivo para toda aquela manifestação de desespero. Tertuliano acabava de enviuvar. Havia meia hora que dona Xandoca, vítima de uma febre puerperal, fechara os olhos para nunca mais abri-los.
O corpo, vestido de seda preta, as mãos cruzadas sobre o peito, estava colocado num canapé, na sala de visitas. À cabeceira, sobre uma pequena mesa coberta por uma toalha de rendas, duas velas de cera substituíam, aos dous lados de um crucifixo, o bom e o mau ladrão.
Tertuliano, abraçado ao cadáver, soluçava convulsamente, e todo o seu corpo tremia como tocado por uma pilha elétrica. Os filhos, quatro crianças, a mais velha das quais teria oito anos, rodeavam-no aos gritos.
Na sala havia um contínuo fluxo e refluxo de gente que entrava e saía, pessoas da vizinhança, chorando muito, e indivíduos que, passando na rua, ouviam gritar e entravam por mera curiosidade.
O doutor Claudino estava impressionadíssimo. Caíra de supetão no meio daquele espetáculo comovedor, e contemplava atônito o cadáver da pobre senhora que, havia quatro dias, encontrara na rua da Carioca, muito alegre, levando um filho pela mão e outro no ventre, arrastando vaidosa a sua maternidade feliz.
Tertuliano, mal que o viu, atirou-se-lhe nos braços, inundando-lhe de lágrimas a gola do casaco; o doutor Claudino estava atordoado, cego, com os vidros do pince-nez embaciados pelo pranto, que tardou, mas veio discreta, reservadamente, como um pranto que não era da família.
– Isto foi uma surpresa… uma dolorosa surpresa para mim – conseguiu dizer com a voz embargada pela comoção. – Parto amanhã para a Europa, no Níger… vinha despedir-me de ti… e dela… de dona Xandoca e… vejo que… que… que…
E o doutor Claudino fez uma careta medonha para não soluçar.
– Dispõe de mim, meu velho; estou às tuas ordens, bem sabes.
– Obrigado – disse Tertuliano numa dessas intermitências que se notam nos maiores desabafos – o Rodrigo, aquele meu primo empregado no foro, já foi tratar do enterro, que é amanhã às dez horas.
Fazendo grandes esforços para reprimir a explosão das lágrimas, o viúvo contou ao doutor Claudino todos os incidentes da rápida moléstia e da morte de dona Xandoca.
– Uma coisa inexplicável! Nunca a pobre criatura teve um parto tão feliz… A parteira não esperou cinco minutos:.. Uma criança gorda, bonita… Está lá em cima, no sótão… hás de vê-la. De repente, uma pontinha de febre que foi aumentando, aumentando… até vir o delírio… Mandei chamar o médico… Quando o médico chegou, já ela agoniza… a… va!…
E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou-se de novo ao doutor Claudino.
No dia seguinte, a cena foi dolorosíssima. Antes de se fechar o caixão, Tertuliano quis que os filhos beijassem o cadáver, medonhamente intumescido e decomposto. Ninguém reconhecia dona Xandoca, tão simpática, tão graciosa, naquele montão informe de carne pútrida.
Fecharam o caixão, mas Tertuliano agarrou-se a ele e não o queria deixar sair, gritando: – Não consinto! não quero que a levem, daqui! – Foi preciso arrancá-lo à força e empurrá-lo para longe.
Ele caiu e começou a escabujar no chão, soltando grandes gritos nervosos. Três senhoras caíram também com espectaculosos ataques. As crianças berravam. Choravam todos.
De volta do enterro, o doutor Claudino, conquanto muito atarefado com a viagem, não quis deixar de fazer uma última visita a Tertuliano.
Encontrou-o num estado lastimoso, sentado numa cadeira da sala de jantar, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mísero recém-nascido, que a um canto da casa mamava sofregamente numa preta gorda.
– Tertuliano, adeus. Daqui a meia hora devo estar embarcando. Crê que, se pudesse, adiava a viagem para fazer-te companhia… Adeus!
O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:
– Adeus!
Às sete horas da noite o doutor Claudino, sentado na coberta do Níger, contemplando as ondas, esplendidamente iluminadas pelo luar, pensava naquela olhar vago de Tertuliano, naquele adeus terrível, e pedia aos céus que o seu velho camarada não houvesse enlouquecido.
Meses depois, a exposição de Paris atordoava-o; mas de vez em quando, lá mesmo, na Galeria das Máquinas, no Palácio das Artes, ou na Torre Eiffel, voltava-lhe ao espírito a lembrança daquela cena desoladora do viúvo rodeado pelos orfãozinhos, e repercutia-lhe dentro d’alma o som daquele adeus pungente e indefinível.
Interessava-se muito por Tertuliano. Escreveu-lhe um dia, mas não obteve resposta. Pobre rapaz! viveria ainda? a sua razão teria resistido àquele embate violento?
Depois de um ano e quatro meses de ausência, o doutor Claudino voltou da Europa, e a sua primeira visita foi para Tertuliano, que morava ainda na mesma casa.
Mandaram-no entrar para a sala de jantar. Tertuliano estava sentado numa cadeira, sem dar acordo de si, rodeado pelos filhos, o olhar fixo no mais pequenito, que estava muito esperto, brincando no colo da preta gorda.
– Tertuliano? – balbuciou o doutor Claudino.
O viúvo lançou-lhe um olhar vago, um olhar que nada exprimia; sacudiu molemente a mão, e murmurou:
– Adeus.
Depois, dir-se-ia que se fizera subitamente a luz no seu espírito embrutecido. Ele ergueu-se de um salto, gritando:
– Claudino! – e atirou-se nos braços do velho camarada, exclamando entre lágrimas: – Ah! meu amigo! perdi minha mulher!…
– Sim, eu sei, mas já tinhas tempo de estar mais consolado… Que diabo! Sê homem! Já lá se vão quatorze meses!…
– Como quatorze meses? seis dias…
– Ora essa! pois não se lembras que acompanhei o enterro de dona Xandoca?
– Ah! tu falas da Xandoca… mas há três meses casei-me com outra… a filha do major Seabra, e há seis dias estou viu…ú…vo! E Tertuliano, prorrompendo em soluços, abraçou-se de novo ao doutor Claudino.

(Contos fora de moda, 1894.)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

SESSÃO LEITURA - O JAÓ - ARTUR AZEVEDO

O texto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: www.academia.org.br › academicos › artur-azevedo › biografia.
Boa leitura!

O JAÓ

Numa noite em que estávamos quatro ou cinco amigos reunidos em casa do Novais, vieram à baila os meus contos e não houve na assistência quem se não gabasse de saber casos que forneceriam magníficos assuntos para este gênero de literatura amena.
— Pode ser — disse eu -, mas devo confessar-lhes que até hoje não pude aproveitar para os meus trabalhos um único assunto oferecido nessas condições. Os contos inventam-se, o que não quer dizer que não sejam também o produto do que se vê e observa na vida real, ou o renovamento de qualquer anedota que corra mundo desde tempos imemoriais.
— Ora! Eu sei a história de um jaó, que te poderia servir, disse-me o Novais, e vou contá-la enquanto minha mulher apronta o chá!
— Conta, que ele há de gostar — disse D. Emília, desaparecendo da sala.
— Vamos à história do jaó! — exclamei, fingindo-me entusiasmado, para dar ânimo ao dono da casa.
A cena passa-se em Cataguases, no Estado de Minas, ainda nos ominosos tempos da monarquia, começou o Novais, acomodando-se numa poltrona.
Houve um movimento geral de atenção, e todos nós aproximamos as nossas cadeiras.
— A um quarto de légua da localidade, havia “um situante”, como lá dizem, homem já maduro, honrado e trabalhador, que, tendo perdido a mulher, morava sozinho com a filha.
Esta chamava-se Mimi, e era um encanto, uma perfeição; morena, esbelta, cabelos negros, e ondeados, olhos de fogo, lábios rubros e magníficos dentes. De mais não era estúpida nem de todo ignorante: fazia as quatro operações; cosia admiravelmente e no governo da casa mostrava-se expedita e asseada.
Era agente da estação da estrada de ferro um bonito rapaz de 25 anos, que tinha a paixão da caça, e, nos lazeres do seu emprego, não fazia outra coisa senão caçar.
Um dia em que as suas diligências cinegéticas o levaram lá para as bandas do sitio do velho Serrano, que assim se chamava o pai da moça, ele encontrou Mimi numa volta de estrada, e ficou impressionadíssimo por aquela surpreendente formosura do campo.
Pelos modos, o efeito foi recíproco: eles cumprimentaram-se, o que era muito natural, porque na roça não se encontram duas pessoas que não se cumprimentem, embora não se conheçam; mas sorriam um para o outro, e isso já não estava nos usos e costumes indígenas.
Durante três dias a fio houve novos encontros e novos sorrisos. O moço nunca mais caçou noutro lugar.
Afinal, chegaram à fala, e ele, que talvez levasse más intenções, foi desarmado pela candura e pela ingenuidade de Mimi.
Amaram-se, amaram-se deveras; entretanto, aquelas entrevistas na estrada eram perigosas; podia passar alguém…
— Ficaremos à vontade — disse ela com uma adorável confiança no seu amado — à sombra de uma caneleira que há nos fundos lá de casa. Entra-se por aquele atalho e vai-se dar mesmo lá.
— E teu pai?
— Meu pai está da outra banda, fazendo o roçado; só vai pros lados da caneleira uma vez na vida e outra na morte. Estou sozinha em casa. Você dá um sinal, e eu vou ter com você.
— Qual há de ser o sinal?
— Você é caçador; deve saber piar.
— Naturalmente! Pio macuco, inhambu, jaó…
— Jaó, prefiro jaó, é triste, mas é bonito.
O namorado piou, para dar uma amostra da sua habilidade; o pio não podia ser mais perfeito.
No dia seguinte o velho Serrano sentiu-se um tanto indisposto e não quis sair de casa, o que bastante contrariou Mimi.
— Hoje nada de sol! — disse ele; — tenho a cabeça pesada, e nesta idade o sangue sobe com facilidade. Ontem se me não engano, ouvi cantar um jaó, e tomei a coisa como agouro, porque há muito tempo esse pássaro não aparecia por cá.
— Ora papai, isso agora é tolice!
— Será, mas não vou ao roçado. Nada, que teu avô não faz outro!
E dirigindo-se a um alpendrado, que ficava na parte superior da casa, o velho Serrano tirou da parede a sua espingarda, dizendo:
— Para não ficar com as mãos vadias, vou limpar esta sujeita, que está criando ferrugem.
E, depois de descarregar a espingarda para o ar, o velho sentou-se num banco e começou a limpá-la.
O tiro foi um alívio para Mimi — em primeiro lugar, porque ouvindo-o, o rapaz saberia que o velho estava em casa, e em segundo lugar, porque uma arma carregada na mão do pai era um perigo eminente para o namorado.
Mas — oh! contrariedade! — concluindo o trabalho, o velho foi buscar o polvarinho e carregou de novo a espingarda.
No momento de pendurá-la, ouviu-se o pio do jaó.
— Ouviste, Mimi? — perguntou Serrano empalidecendo de súbito, com a arma ainda na mão; ouviste?
— Não, senhor; que foi?
— O jaó!
— Não ouvi nada; vocem’cê enganou-se.
— Não! Estes ouvidos de velho caçador não se enganam… E aquilo é agouro!…
— Que agouro, que nada!
— Há dois anos piou um jaó no sítio do João Bernardo… lembras-te?… e três dias depois o João Bernardo esticou a canela…
— Coincidência.
— Eu nunca te quis dizer nada, mas quando tua mãe morreu, tinha piado um jaó na véspera, ali mesmo, do lado da caneleira. É um pássaro da morte, pior que a coruja!
Palavras não eram ditas, ouviu-se de novo o jaó. Serrano estremeceu dos pés à cabeça:
— Ouviste agora? Vê, minha filha, vê como tenho as mãos frias! Vou matar aquele diabo!
— Ora, papai, deixe o pobre jaó! Ele não é o que vocem’cê pensa!
— Pois sim! Aquele não há de cá voltar! Vá agourar lá pro inferno.
O velho ia sair, mas a filha, desesperada agarrou-o pelo braço:
— Não! Não faça isso, papai! Pelo bem que me quer!
E vendo que o velho forcejava para desvencilhar-se, Mimi pôs-se a gritar com toda a força dos seus pulmões:
— Jaó! Jaó! Vai te embora, que papai quer te matar!
— Espera que ele te entenda?
E, com um arremesso, o velho saltou para o terreiro e encaminhou-se para o lado da caneleira.
— Mimi continuou a gritar:
— Jaó! Meu Jaozinho! Foge, foge que papai lá vai à tua procura para matar-te!…
O velho voltou ao cabo de meia hora sem ter encontrado o pássaro.
— Que diabo, menina! Parece que ele te entendeu…
E pendurou tranquilamente a espingarda.
O Novais calou-se.
— Está terminado o conto? — perguntei depois de uma pausa.
— Está; não o achas interessante?
— Não é mau, mas falta-lhe a conclusão. Que fim levou o jaó?
— Aqui o tens na tua presença, meu amigo; o jaó era eu.
— E a Mimi, esta sua criada — acrescentou d. Emília, que voltava com a bandeja do chá.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

SESSÃO LEITURA - UMA APOSTA - ARTUR AZEVEDO

O texto abaixo é de autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: www.academia.org.br/academicos/artur-azevedo/biografia.
Boa leitura!

UMA APOSTA

Se o Simplício Gomes não fosse um rapaz do nosso tempo, se não usasse calças brancas, paletó de alpaca, chapéu de palha e guarda-chuva, daria idéia de um desses quebra-lanças que só se encontram nos romances de cavalaria. De outro qualquer diríamos: “Ele gostava da Dudu”; tratando-se, porém, do Simplício Gomes, empregaremos esta expressão menos familiar: “Ele amava Edviges.”
O seu amor tinha, realmente, alguma coisa de puro e de ideal, que não se compadecia com os costumes de hoje.
Começava por ser discreto; Dudu adivinhou, ou antes, percebeu que era amada, mas ele nunca lho disse, nunca se atreveu a dizer-lhe, não por timidez ou respeito, mas simplesmente porque não tinha confiança no seu merecimento.
Estava bem empregado, poderia casar-se e viver modestamente em família, mas era tão feio, tão pequenino, tão insignificante e ela tão linda e tão esbelta, que o casamento lhe parecia desproporcionado.
Ele não se sentia digno dela, não acreditava que a pudesse fazer feliz, e isso o desgostava profundamente. Ela, por seu lado, não concorria para que a situação se modificasse: fingia ignorar que ele a amava, e atribuía toda aquela solicitude a um afeto desinteressado.
Dudu vivia com a mãe, uma pobre viúva sem outro recurso que não fosse o do meio soldo e montepio deixados pelo marido, brioso oficial do Exército que viveu sempre desprotegido, porque não sabia lisonjear nem pedir; mas o Simplício Gomes, sem fumaças de protetor, e dando a esmola com ares de quem a recebia, achava meios e modos de fazer com que naquela casa faltasse apenas o supérfluo.
Como era parente, embora afastado, das duas senhoras, estas consideravam os seus favores simples atenções de família.
O caso é que o Simplício Gomes parecia adivinhar os menores desejos de Dudu e nessas ocasiões recorria ao ardil de uma aposta:
– Aposto que hoje chove!
– Que idéia! o dia está bonito!
– Pois sim, mas o calor é excessivo: temos água com toda certeza!
– Não temos!
– Façamos uma aposta!
– Valeu! se chover eu perco uma caixa de charutos.
– E eu aquela blusa que você viu na vitrina da Notre Dame e cobiçou tanto.
– Quem lhe disse que cobicei?
– Ora, esses olhos não me enganam…
No dia seguinte Dudu recebia a blusa.
A velha costumava dizer com muita ingenuidade:
– Você faz mal em apostar, Simplício! E muito caipora, perde sempre, e então, em se tratando de mudança de tempo, é uma lástima!
Conquanto não se atrevesse a falar em casamento, o pobre rapaz sofria, oprimido pela idéia de que quando menos se pensasse, Dudu teria um namorado… um noivo… um marido e efetivamente, não se passou muito tempo que os seus receios não se realizassem.
Dudu impressionou-se por um cavalheiro muito bem trajado, que começou a rondar-lhe a porta quase todos os dias, cumprimentando-a, depois sorrindo-lhe, e finalmente escrevendo-lhe graças à cumplicidade de um molecote da casa.
Depois de receber três cartas, Dudu contestou, convenceu-se de que as intenções do namorado eram as melhores e mostrou a correspondência à mãe, que imediatamente consultou o Simplício Gomes sem saber o desgosto que lhe causava. Este, que já havia notado as idas e vindas do transeunte suspeito, disfarçou o mais que pôde, os seus sentimentos, limitando-se a dizer que Dudu não deveria casar-se com aquele homem sem ter primeiramente certeza de que ele a amava deveras.
A velha, com toda a sua simplicidade, pediu-lhe que se informasse da idoneidade do pretendente, e o mísero logo se transformou de quebra-lanças em quebra-esquinas.
Foram desanimadoras (para ele) as informações que obteve: o rival chamava-se Bandeira, era de boa família, de bons costumes, funcionário público de certa categoria, estimado, e tinha alguma coisa. O seu único defeito era ser um pouco genioso.
O Simplício, que não tinha o altruísmo heróico de Cirano de Bergerac, não avolumou as qualidades do outro, mas foi leal: não as diminuiu. Em suma: o Bandeira pediu a mão de Dudu; e começou a freqüentar a casa.
O coitado não articulou uma queixa, mas começou desde logo a emagrecer a olhos vistos; perdeu o apetite, ficou macambúzio, fúnebre… Dudu, que tudo compreendeu, teve muita pena, teve quase remorsos; mas a velha nem mesmo assim desconfiou que a filha fosse adorada pelo infeliz parente.
Entretanto, o Simplício Gomes começou a ser assíduo em casa de Dudu; o seu desejo oculto era não deixá-la sozinha com o tal Bandeira enquanto não se casassem.
O noivo tinha, efetivamente, boas qualidades, mas era não só genioso, mas de uma arrogância, de uma empáfia, de um autoritarismo que começaram a inquietar Dudu.
Uma bela tarde em que se achavam ambos sentados no canapé, e o Simplício Gomes, afastado, num canto da sala, folheava um álbum de retratos, o Bandeira levantou-se dizendo:
– Vou-me embora; tenho ainda que dar umas voltas antes da noite.
– Ora, ainda é cedo; fique mais um instantinho, replicou Dudu, sem se levantar do canapé.
– Já lhe disse que tenho que fazer! Peço-lhe que vá desde já se habituando a não contrariar as minhas vontades! Olhe que depois de casado, hei de sair quantas vezes quiser sem dar satisfações a ninguém!
– Bom; não precisa zangar-se…
– Não me zango, mas contrario-me! Não me escravizei; quero casar-me com a senhora, mas não perder a liberdade!
– Faz bem. Adeus. Até quando?
– Até amanhã ou depois.
O Bandeira apertou a mão de Dudu, despediu-se com um gesto do Simplício Gomes, e saiu batendo passos enérgicos, de dono de casa.
Dudu ficou sentada no canapé, olhando para o chão.
O Simplício Gomes aproximou-se de mansinho, e sentou-se ao seu lado.
Ficaram dez minutos sem dizer nada um ao outro.
Afinal Dudu rompeu o silêncio. Olhou para o céu iluminado por um crepúsculo esplêndido, e murmurou:
– Vamos ter chuva.
– Não diga isso, Dudu: o tempo está seguro!
– Apostemos!
– Pois apostemos! Eu perco uma coisa bonita para o seu enxoval de noiva. E você?
– Eu… perco-me a mim mesma, porque quero ser tua mulher!
E Dudu caiu, chorando, nos braços de Simplício Gomes.

(O Século, 9 de julho de 1907. In Histórias brejeiras, 1962.)