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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

SESSÃO LEITURA - A ESCAVADEIRA - LEDO IVO

O texto abaixo é de autoria de Ledo Ivo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.academia.org.br/academicos/ledo-ivo.
Boa leitura!

A ESCAVADEIRA

Todo silêncio me incomoda.
Ele sempre omite alguma coisa:
uma traição tramada entre as glicínias
a explicação final sobre a existência ou a inexistência de Deus
o rumor dos ratos no entulho
o choque entre a hélice e o vento no aeroporto desativado.
Mas a manhã irrompe no canteiro de obras e ouço o barulho da escavadeira.
Os homens já acordaram e voltaram a construer e a destruir.
Vão fazer novas casas e novov túmulos.

Na manhã de sol o fusca pára no oitão do motel.
Mais uma vez pênis e vagina vão tenar entender-se
neste mundo de tantos descencontros.
A escavadeira escava e as esteiras avançam na cratera aberta como uma corola.
Visto pelo olhos sonolentos do trocador de ônibus que passa pela
avenida o mundo é uma representação.

Fonte: https://www.revistaprosaversoearte.com/ledo-ivo-poemas/

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

SESSÃO LEITURA - A CLANDESTINA - LEDO IVO

O texto abaixo é de autoria de Ledo Ivo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: enciclopedia.itaucultural.org.br › pessoa2861 › ledo-ivo.
Boa leitura!

A CLANDESTINA

— Quem é esta clandestina
que dentro de mim viaja

e de mim não se separa
mesmo quando estou dormindo

e aparece nos meus sonhos
breve e leve como a neve?

Quem é esta clandestina
doce e branca e feminina

que me segue quando saio
sombra em mim dissimulada

e torna a voltar comigo
colada ao cair da tarde?

Quem é esta clandestina
que de mim não desembarca?

Sou seu trem ou seu navio?
Seu barco ou seu avião?

E sua voz me responde:
— És meu berço e meu jazigo.

Antes mesmo de nasceres
eu já estava contigo.

E sempre estarei em ti
até o fim da viagem.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

SESSÃO LEITURA

O poema que publicamos abaixo, Recompensa, é da autoria de Ledo Ivo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://www.jornaldepoesia.jor.br/ledo10.html.

A RECOMPENSA

Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa