sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

IRMÃOS CORAGEM - CAPÍTULO 95


Roteirizado por Toni Figueira
do original de Janete Clair 

CAPÍTULO 95

PARTICIPAM DESTE CAPÍTULO:

LÁZARO
RODRIGO
PEDRO BARROS
INDAIÁ
LÍDIA
JERÔNIMO
PADRE BENTO

CENA 1  -  COROADO  -  CASA DE RODRIGO  -  EXT.  -  DIA.

Lázaro aguardou horas. Chegou ao centro da cidade ainda resguardado pelas sombras da madrugada. Agora o sol já banhava rios, montanhas e matas. O assassino postou-se diante da casa do promotor. Eram 8,15 quando Rodrigo abriu a porta. Pronto para o trabalho.


LÁZARO  -  (aproximou-se com cinismo)  Dia, Dr. Rodrigo!

RODRIGO  -  (voltou-se sobressaltado)  Bom dia! O que é?

LÁZARO  -  Correspondencia pro senhor!  (incontinenti entregou-lhe o envelope pardo).

RODRIGO  -  Da parte de quem?

LÁZARO  -  Do dono de Coroado!

RODRIGO  -  Não sabia que esta cidade tinha dono!

LÁZARO  -  É bão sabê, agora!

RODRIGO  -  E quem é esse dono?

LÁZARO  -  Pedro Barros. Ele faz questão que se fale assim, antes de pronunciá o nome dele.

RODRIGO  -  É, eu vejo que as coisas aqui não estão correndo bem...

LÁZARO  -  (retrucou, com ironia)  E vão ficá muito pió, daqui a pouco!

RODRIGO  -  Ele quer resposta?

LÁZARO  -  Depende. Pode ser que o doutô queira respondê. Se quisé pode encontrá ele no garimpo ou na casa dele.

RODRIGO  -  Está certo. Obrigado!

CORTA PARA:

CENA 2  -  COROADO  -  CASA DE RODRIGO  -  SALA  -  INT.  -  DIA.

À medida que lia a carta, Rodrigo empalidecia. Estava lívido e parecia ouvir perfeitamente a voz hedionda do coronel, por entre as linhas do papel:


PEDRO BARROS  -  (off)  “... e esse retrato, tirado pelo Falcão, no dia do casamento de Jerônimo, prova tudo que eu acabei de dizer. Agora, você, seu idiota, sabe por que Jerônimo me aguentou e não podia reagir contra mim. Eu dominei ele até quando pude. De repente, ele cismou de se livrar de mim. Sinal de que a honra da tua mulher não vale mais grande coisa para ele. Agora, você faça o que bem entender. Tudo o que eu disse é a mais pura verdade.”

Rodrigo amassou a carta. Estava perdido dentro de si mesmo. O mundo fugira-lhe dos pés. Apenas uma imensa, uma incontrolável angústia comprimia-lhe o peito e a garganta.

RODRIGO  -  (conseguiu berrar para o interior da casa)  Potira! Potira!

Indaiá apareceu, amedrontada.

RODRIGO  -  (mostrou a carta. Estava tenso como a corda de um violino)  Você... sabia disso?

INDAIÁ  -  Tudo pode ser infâmia. Havia uma ameaça...

RODRIGO  -  Sabia? E me escondeu? Ajudou ela?

INDAIÁ  -  Potira é inocente e pura de alma. Se existe alguma culpa, eu não sei. E não é dela. É da tentação do demônio, em forma de homem.

RODRIGO  -  Onde está ela? (berrou, alucinado)  Onde está ela?

Saiu desesperado, com as mãos crispadas e profundos sulcos na testa. Indaiá ficou a rezar, febrilmente.

CORTA PARA:

CENA 3  -  FAZENDA DE PEDRO BARROS  -  CASA-GRANDE  -  ESCRITÓRIO  -  INT.  - DIA.


Pedro Barros levantou-se com agilidade, já com a mão no gatilho. Deixou ficar a arma dissimulada entre os papéis da gaveta. Rodrigo parecia desvairado. Olhos em fogo. Lábios contraídos.


PEDRO BARROS  -  Já te esperava...

RODRIGO  -  Esta... esta... carta... que o senhor... escreveu (gaguejava)  é... uma... uma... infâmia.

PEDRO BARROS  -  Sustento tudo o que disse, rapaz! Larga mão de ser bobo... Você viu o retrato...

RODRIGO  -  Eu devia matá-lo! (ameaçou, dando alguns passos à frente, na tentativa de agressão. O cano do revólver deteve-o instantâneamente).

PEDRO BARROS  -  Cuidado comigo, moço! Te fiz um favor contando as coisas que estão acontecendo com tua mulher e teu melhor amigo! E é a mim que você quer matar? Ele é que merece sua revolta, não eu, estúpido! Não eu!

RODRIGO  -  O senhor se aproveitou da fraqueza dele e explorou. Aceitou a infâmia! Por vingança! É um porco miserável, imundo!

Esbravejando o promotor deixou a casa-grande, enquanto Pedro Barros, frio, o olhava irônico.

CORTA PARA:


CENA  3  -  COROADO  -  PRAÇA  -  EXT.  -  DIA.

O homem do realejo parou de tocar e a garotada recolheu a bola de borracha para dar passagem aos dois. De um lado Rodrigo. Do outro Jerônimo. Entre eles um destino. Lídia ainda procurou deter o marido.


LÌDIA  -  Jerônimo... vamos indo... você tem um compromisso.

JERÔNIMO  -  Não, Lídia, preciso falar com Rodrigo.

O promotor ouvira as derradeiras palavras do homem a quem dedicava sincera amizade.

RODRIGO  -  Precisa falar... precisa falar... seu... seu miserável!

Alguns curiosos se acercavam do local. Rodrigo não esperou resposta. Levantou o braço direito à altura do ombro e seu punho chocou-se violentamente contra o rosto do prefeito. Apanhado de surpresa, Jerônimo foi projetado a alguns metros de distancia, sobre a grama empoeirada. Levantou-se, tenso, massageando a face, arroxeada pelo impacto do murro. Um pequeno filête de sangue surgiu do canto de seus lábios.


JERÔNIMO  -  Rodrigo... esse não é o procedimento de um homem... a gente pode conversar... como gente! Eu tenho que defender Potira!

O promotor tornou a avançar enfurecido, fora de si. Jerônimo escorou-o estreitando a distancia entre os dois. A potência do sôco ficou contida pela proximidade dos corpos. E a robustez do garimpeiro forçou o recuo do homem da lei. Rodrigo tentou esquivar-se, mas mãos poderosas sustentaram-lhe as ações. Estava manietado.

RODRIGO  -  (esbravejou, colérico)  Não fale o nome dela! Não fale!

Dois garimpeiros da Pedra Alta seguraram o promotor pelas costas, enquanto Padre Bento agarrava o prefeito.


PADRE BENTO  -  Parem, pelo amor de Deus! Vão para suas casas! Esfriem suas cabeças, depois conversem! Rua não é lugar para estas coisas!

JERÔNIMO  -  Eu queria explicar a ele, padre! A gente tá sendo vítima de uma infâmia. Tamo dando chance e alegria pros nossos inimigos!

RODRIGO  -  Eu te ensino... eu te ensino, Jerônimo! Você sujou o meu nome e isso não fica assim! Não há explicação possível!

JERÔNIMO  -  Você tem que aceitar minha defesa!

RODRIGO  -   (com ódio)  Só se você morrer, agora! É a única coisa que eu aceito!

Os dois garimpeiros lutavam para conter os movimentos desordenados do promotor. Rodrigo lembrava uma fera acuada. Padre Bento interveio, procurando serenar os desafetos.


PADRE BENTO  -  Vamos embora! Pensem nos seus nomes, no escândalo. Um é prefeito, outro, promotor!

RODRIGO  -  Ele não pensou, padre! Ele não pensou!

Rodrigo afastou-se, mais controlado, ante as palavras sensatas do vigário. As janelas fechavam-se à medida que os grupos de curiosos se afastavam, seguindo os contendores. A praça fervilhava e os botecos assemelhavam-se a ninhos de marimbondos. A briga matutina era o grande tema para o resto do dia.

FIM DO CAPÍTULO  95
Rodrigo tira satisfações com Jerônimo em plena praça de Coroado!
    
 e no próximo capítulo...

*** Duda e Ritinha reencontram-se na prefeitura de Coroado.
*** Alberto lê no jornal a notícia de que seus pais, Lourenço e Branca, sofreram um acidente de carro e decide ir a Belo Horizonte para saber se seu pai está vivo!

NÃO PERCA O CAPÍTULO 96 DE

SESSÃO CAPAS E PÔSTERES

A capa que apresentamos abaixo é da revista Romântica, nr. 255, publicada no ano de 1978.
Nosso agradecimento ao amigo Césio Vital Gaudereto pela cessão do material.
Boa diversão!



SESSÃO FOTO QUIZ

A foto da semana passada é da cantora Simone.
Agora, tentem descobrir quem é o garoto da foto.
Eis algumas pistas:
1) É um humorista muito famoso.
2) Sua estréia nacional ocorreu na TV Tupi, em 1964, mas antes disso já havia trabalhado em sua terra natal.
3) Trabalhou na Tupi, Record, Excelsior e na Globo, onde se encontra atualmente.
Boa diversão!



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

HOMENAGEM AO ANIVERSÁRIO DA KELY - COLABORAÇÃO: FERNANDA SOUZA



FIC - EMERGÊNCIA DE AMOR - CAPÍTULO 11 - AUTORA: GÊ GUEDES

R: Claude isso é uma loucura mesmo, a gente não pode se envolver.

C: Porque non Rosa, é por causa daquele dotorzin é?

R: Eu já disse não tenho nada com o Marcelo. Ah quer saber, eu vou embora não vou ficar aqui ouvindo suas tolices. – diz pegando a bolsa e saindo.

C: Rosa, espera. – diz ele indo atrás dela.

R: A Janete tá na sala dela Sílvia?

S: Não doutora, ela já foi com o Dr. Frazão.

Rosa se despede e sai com Claude ao seu lado.

Ela entra no carro, travando as portas.

C: Eu tô sem carro, eu vim com o Frazão.

R: Liga pra o Rodrigo ou então pega um táxi.

C: Rosa, pára com isso hã, me deixa ir com você.


D: Boa noite, dona Rosa, boa noite, doutor Cloudes.

Eles não respondem e sobem para o quarto.

D: Eu hein, o que deu neles?


Um tempo depois Rosa desce e vai direto pra a cozinha.

R: Oi, Dadi, desculpa não ter cumprimentado, é que esse seu patrão me deixa nos nervos.

D: Se preocupa não dona Rosa, logo a senhora se acostuma. O doutor é assim mesmo.

R: Espero não dar tempo de acostumar Dadi, e ainda ele é muito mal humorado.

D: Então por que não tira esse mal humor dele, dona Rosa?
R: Isso não é possível não, Dadi, é da natureza dele.

D: É possível sim, o doutor Cloudes, precisa de carinho, de alguém que ame ele de verdade.

C: Dadi. To com fome. – grita Claude descendo as escadas.

C: já vou servirc doutor Cloudes, um instantinho só.

Claude se senta no sofá com um livro na mão e Rosa se aproxima.

R: Fiquei conversando com a Dadi e ela se atrasou no jantar. – diz ela carinhosa.

C: Pensei ainda que tava brava comigo,
R: Eu ainda tô um pouco.

C: Ainda bem que é só um pouco.

R: Claude, eu tô preocupada com  o jantar de amanhã.

C: Preocupada por quê? – diz colocando o livro de lado e sentando ao lado dela.

R: Não sei, tô nervosa.

C: Não precisa ficar nervosa, a Roberta é como se fosse da família e eu vou estar ao seu lado.

R: E é isso que me preocupa, a gente só briga.

C: A gente briga porque você me provoca hã.

R: Eu que provoco, você só me ofende.

C: Você que é um furacão e eu acabo falando o que non devia.

R: A culpa é minha.

C: Sim senhora, é sua.

D: meu senhor do Bomfim, esses dois só briga. – fala Dadi baixinho até chegar próximo a eles.

D: Desculpa interromper a briga de vocês, é que o jantar tá pronto.


Eles jantam em silencio e assim que acabam continuam em silencio e sentam no sofá novamente, agora cada um com um livro na mão.  O silencio é interrompido pelo barulho do telefone.

C: Quem é, Dadi?
D: Sua vó a dona Emillie.

C: Dá aqui o telefone. – diz ele estendendo a mão.

D: Ela quer falar com a dona Rosa. – diz entregando o aparelho a Rosa.

R: Obrigada, Dadi. – diz pegando o telefone. – Dona Emillie, como vai?

E: Vou bem, Rosa, desculpe não ter ligado antes e não tá aí pra te recepcionar.

R: Não tem problema.

E: Espero que também não esteja zangada comigo de pedir pra ir morar aí.

R: Não se preocupe mesmo, Dadi é muito atenciosa e tem me tratado muito bem.

E: Que bom e o Claude?

R: Ah o Claude, ele tá bem tá ótimo. – diz num tom de ironia. – Tá me tratando muito bem também. E o seu outro neto como está?

E: Ele ainda tá no hospital.

Elas ficam um tempo conversando e Claude já impaciente. Rosa se despede e ele senta ao lado dela à espera do telefone.

R: Até mais dona Emillie. – despede e desliga.

C: Por que você desligou hã?

R: Porque já acabei de falar com ela.

C: Ela non quis falar comigo?

R: Não. Eu vou subir, boa noite.


Na manhã seguinte.

F: Bom dia dona Raquel, o Claude já chegou?

Rq: Já sim e parece que o humor dele tá pior hoje.

F: Vou lá enfrentar a fera.

Rq: boa sorte.

F: Bom dia, Claude.

C: Só se for pra você, hoje é o jantar na Roberta esqueceu.

F: Não esqueci, por isso é um motivo de ser um bom dia e uma bela noite.

C: Você fala isso porque non mora com aquela médica furacon.


No Hospital.

R: Com licença, doutora Erci?

E: Entra Dra., em que posso ajudá-la?

R: Hoje tenho um jantar pra ir.

E: Com o Marcelo?

R: Não, claro que não. É um jantar na casa da Roberta Vermont.

E: Uau! Você tá podendo hein? Ela é a elegância em pessoa.

R: Por isso mesmo, não sei que tipo de roupa usar.

E: Entendi, então o que acha de irmos às compras na hora do almoço.

R: Uma ótima idéia.

E: Não sabia que conhecia Roberta Vermont.

R: Não conheço, vou conhecê-la.


Na hora do almoço Rosa vai com Erci e Janete ao shopping.

Elas entram em várias lojas de roupas, calçados, bolsas, sapatos e até lingerie, e saem cheias de sacolas.

SESSÃO LEITURA - A MÁQUINA EXTRAVIADA - JOSÉ J.VEIGA

O conto que apresentamos abaixo intitula-se “A máquina extraviada” e é de autoria do escritor brasileiro José J.Veiga.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: www.releituras.com/jjveiga_menu.asp.
Boa leitura!

A MÁQUINA EXTRAVIADA

Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou - não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas - quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos.
A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho.
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada.
A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. E claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro.
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima - até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.
Contrariando a opinião de certas pessoas que não quiseram se entusiasmar, e garantiram que em poucos dias a novidade passaria e a ferrugem tomaria conta do metal, o interesse do povo ainda não diminuiu. Ninguém passa pelo largo sem ainda parar diante da máquina, e de cada vez há um detalhe novo a notar. Até as velhinhas de igreja, que passam de madrugada e de noitinha, tossindo e rezando, viram o rosto para o lado da máquina e fazem uma curvatura discreta, só faltam se benzer. Homens abrutalhados, como aquele Clodoaldo seu conhecido, que se exibe derrubando boi pelos chifres no pátio do mercado, tratam a máquina com respeito; se um ou outro agarra uma alavanca e sacode com força, ou larga um pontapé numa das colunas, vê-se logo que são bravatas feitas por honra da firma, para manter fama de corajoso.
Ninguém sabe mesmo quem encomendou a máquina. O prefeito jura que não foi ele, e diz que consultou o arquivo e nele não encontrou nenhum documento autorizando a transação. Mesmo assim não quis lavar as mãos, e de certa forma encampou a compra quando designou um funcionário para zelar pela máquina.
Devemos reconhecer - aliás todos reconhecem - que esse funcionário tem dado boa conta do recado. A qualquer hora do dia, e às vezes também de noite, podemos vê-lo trepado lá por cima espanando cada vão, cada engrenagem, desaparecendo aqui para reaparecer ali, assoviando ou cantando, ativo e incansável. Duas vezes por semana ele aplica kaol nas partes de metal dourado, esfrega, sua, descansa, esfrega de novo - e a máquina fica faiscando como jóia.
Estamos tão habituados com a presença da máquina ali no largo, que se um dia ela desabasse, ou se alguém de outra cidade viesse buscá-la, provando com documentos que tinha direito, eu nem sei o que aconteceria, nem quero pensar. Ela é o nosso orgulho, e não pense que exagero. Ainda não sabemos para que ela serve, mas isso já não tem maior importância. Fique sabendo que temos recebido delegações de outras cidades, do estado e de fora, que vêm aqui para ver se conseguem comprá-la. Chegam como quem não quer nada, visitam o prefeito, elogiam a cidade, rodeiam, negaceiam, abrem o jogo: por quanto cederíamos a máquina. Felizmente o prefeito é de confiança e é esperto, não cai na conversa macia.
Em todas as datas cívicas a máquina é agora uma parte importante das festividades. Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina. Em tempo de eleição todos os candidatos querem fazer seus comícios à sombra dela, e como isso não é possível, alguém tem de sobrar, nem todos se conformam e sempre surgem conflitos. Felizmente a máquina ainda não foi danificada nesses esparramos, e espero que não seja.
A única pessoa que ainda não rendeu homenagem à máquina é o vigário, mas você sabe como ele é ranzinza, e hoje mais ainda, com a idade. Em todo caso, ainda não tentou nada contra ela, e ai dele. Enquanto ficar nas censuras veladas, vamos tolerando; é um direito que ele tem. Sei que ele andou falando em castigo, mas ninguém se impressionou.
Até agora o único acidente de certa gravidade que tivemos foi quando um caixeiro da loja do velho Adudes (aquele velhinho espigado que passa brilhantina no bigode, se lembra?) prendeu a perna numa engrenagem da máquina, isso por culpa dele mesmo. O rapaz andou bebendo em uma serenata, e em vez de ir para casa achou de dormir em cima da máquina. Não se sabe como, ele subiu à plataforma mais alta, de madrugada rolou de lá, caiu em cima de uma engrenagem e com o peso acionou as rodas. Os gritos acordaram a cidade, correu gente para verificar a causa, foi preciso arranjar uns barrotes e labancas para desandar as rodas que estavam mordendo a perna do rapaz. Também dessa vez a máquina nada sofreu, felizmente. Sem a perna e sem o emprego, o imprudente rapaz ajuda na conservação da máquina, cuidando das partes mais baixas.
Já existe aqui um movimento para declarar a máquina monumento municipal - por enquanto. O vigário, como sempre, está contra; quer sabe a que seria dedicado o monumento. Você já viu que homem mais azedo?
Dizem que a máquina já tem feito até milagre, mas isso - aqui para nós - eu acho que é exagero de gente supersticiosa, e prefiro não ficar falando no assunto. Eu - e creio que também a grande maioria dos munícipes - não espero dela nada em particular; para mim basta que ela fique onde está, nos alegrando, nos inspirando, nos consolando.
O meu receio é que, quando menos esperarmos, desembarque aqui um moço de fora, desses despachados, que entendem de tudo, olhe a máquina por fora, por dentro, pense um pouco e comece a explicar a finalidade dela, e para mostrar que é habilidoso (eles são sempre muito habilidosos), peça na garagem um jogo de ferramentas, e sem ligar a nossos protestos se meta por baixo da máquina e desande a apertar, martelar, engatar, e a máquina comece a trabalhar. Se isso acontecer, estará quebrado o encanto e não existirá mais máquina.

SESSÃO ABERTURA DE NOVELA - CARINHOSO

A novela Carinhoso foi apresentada pela Rede Globo, no horário das 19 h, entre 04 de julho de 1973 e 22 de janeiro de 1974.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/carinhoso.asp.
O tema musical da abertura era uma interpretação instrumental de Carinhoso, executada por Márcio Montarroyos.
Boa diversão!