“Quando o vinho desce, as palavras sobem.” (provérbio cubano)
sábado, 3 de março de 2012
PARA MEDITAR
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SESSÃO FOTONOVELA - O GRANDE GOLPE
A fotonovela que reproduzimos abaixo foi publicada na revista Sétimo Céu, nr. 222, de julho de 1974.
Nossos agradecimentos à amiga Maria do Sul pela remessa do material.
Boa leitura!
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sexta-feira, 2 de março de 2012
ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - CAPÍTULO 14 - AUTOR: TONI FIGUEIRA
Novela de Antonio Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes
Inspirada na Obra de Dias Gomes
CAPÍTULO 14
Participam deste capítulo:
D. DIDI (Gracinda Freire)
LAURO LEMOS (Carlinhos de Oliveira)
DELEGADO FONTOURA (Urbano Lóes)
ZÉ GREGÓRIO (Adalberto Silva)
MARIO MALUCO (Osmar Prado)
SAMUCA (Paulo José)
RICARDINHO (Carlos Vereza)
MARIA LÚCIA (Aizita Nascimento)
JUREMA (Arlete Salles)
OLIVEIRA RAMOS) Mario Lago)
RENATÃO (Jardel Filho)
SUSI (Maria Claúdia)
HELÔ (Dina Sfat)
CENA 1 - APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS - SALA - INT. - NOITE
HELÔ CHEGARA DA CASA DOS PAIS DE NÍVEA AINDA TRANSTORNADA COM AS ACUSAÇÕES QUE LHE FIZERA D. MARIETA. CRUZOU A SALA COMO UM FURACÃO.
O BANQUEIRO ESTAVA NA SALA E TENTOU DETÊ-LA.
OLIVEIRA RAMOS - Helô! Helô, espere, minha filha!
A JOVEM FOI DIRETAMENTE PARA SEU QUARTO E TRANCOU A PORTA ATRÁS DE SI.
CENA 2 - APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS - CORREDOR - INT. - NOITE.
OLIVEIRA RAMOS FOI NO ENCALÇO DA FILHA E BATEU NA PORTA DO QUARTO.
OLIVEIRA RAMOS - Abra essa porta, pelo amor de Deus, minha filha!
TIROU UMA CHAVE DO BOLSO DO PIJAMA E ABRIU A PORTA DO QUARTO.
CORTA PARA:
CENA 3 - APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS - QUARTO DE HELÔ - INT. - NOITE
O ROSTO DO BANQUEIRO DESANUVIOU-SE. HELÔ SOLUÇAVA, DEITADA NA CAMA.
OLIVEIRA RAMOS - Que aconteceu?
A RAIVA DA MOÇA AINDA NÃO SE DISSIPARA.
HELÔ - Maldita estúpida! Você acha que eu sou culpada da morte de Nívea?
Houve uma pausa. Depois, a moça continuou, apàticamente.
HELÔ - Foi o que ela disse... a mãe de Nívea!
OLIVEIRA FECHOU BEM OS OLHOS, RESISTINDO A UMA ONDA DE INDIGNAÇÃO.
OLIVEIRA RAMOS - Não diga isso! Você não tem culpa de nada! Não pode ter! Vou lhe dar um calmante... Miss July!
HELÔ - (repetia baixinho) Eu sou culpada! Eu sou culpada!
OLIVEIRA RAMOS - Não fique dizendo isso, que alguém pode ouvir... depois acabamos envolvidos nessa encrenca! (e voltando o rosto na direção da porta entreaberta) Miss July, o calmante de Helô! Telefone também para o Dr. Oto vir aqui, depressa!
COM A MÃO DIREITA, O BANQUEIRO ESTALOU UMA BOFETADA NO ROSTO DA FILHA, PARA FAZÊ-LA VOLTAR A SI. A MOÇA PRORROMPEU NUM PRANTO NERVOSO.
CORTA PARA:
CENA 4 - APARTAMENTO DE RENATÃO - SALA - INT. - DIA
QUANDO O PLAYBOY CHEGOU EM CASA, SUSI O AGUARDAVA E ATIROU-SE EM SEUS BRAÇOS COM UM LEVE SUSPIRO.
SUSI - Já sabe o que aconteceu?
RENATÃO - (com uma estranha dureza e cinismo na voz) Puxa, tanta coisa aconteceu! O dólar subiu, os egípcios derrubaram um avião judeu, Otan bombardeia a Síria, Kadafi continua foragido...
SUSI - (cortou, bastante agitada) - Falo de Nívea!...
RENATÃO - Li nos jornais. Coitada... impressionante.
SUSI - Fiquei preocupada...
RENATÃO - (curiosamente interessado) Por quê?
SUSI - Por causa daquela história que você me contou... das fotos... e da ameaça que ela fez...
RENATÃO - É. O prazo que ela me deu para devolver as fotos terminava ontem á meia-noite. Que coincidência, não? Foi uma morte horrível...
CORTA PARA:
CENA 5 - APARTAMENTO DE JUREMA - SALA - INT. - DIA.
JUREMA ESTAVA BASTANTE NERVOSA QUANDO RICARDINHO E MARIO MALUCO CHEGARAM.
JUREMA - Você já soube, Ricardinho?
RICARDINHO FITOU-A E DEU UM SORRISO, COMO SE DESCONFIASSE DELA.
RICARDINHO - Claro!
JUREMA - (na defensiva) Não entendi o sorrisinho de ironia...
RICARDINHO - (provocou) Não mesmo?
JUREMA - Não. Se quer saber, eu também desconfio de você. E essa suspeita aumentou ainda mais depois que eu soube que Nívea ia se casar com o padre e te deu um fora! Por isso você andava naquele baixo astral! E eu que pensava que era por ter de escolher entre mim e ela...
RICARDINHO DEU UMA GARGALHADA NERVOSA. BATEU NO OMBRO DE JUREMA E CONCLUIU:
RICARDINHO - Você acha que eu ia hesitar? Eu tava gamado por ela! Gamado mesmo! E ela ia casar com aquele padre! Não ia não! Eu disse isso a ela!
JUREMA OLHOU PARA RICARDINHO COM CERTA CONSTERNAÇÃO. O SILENCIO, POR ALGUNS INSTANTES, FOI PERTURBADOR. SEUS OLHOS TREMERAM BREVE E DIVERTIDAMENTE.
JUREMA - Você disse? E alguém sabe disso?
RICARDINHO - Não. Somente você sabe agora!
JUREMA - Mas por quê?
RICARDINHO COÇOU A NUCA NO GESTO DE QUEM REFLETE.
RICARDINHO - Porque, se souberem, vão suspeitar é de você!
CORTA PARA:
CENA 6 - DELEGACIA DE POLÍCIA - SALA DO DELEGADO FONTOURA - INT. - DIA.
O DELEGADO FONTOURA OUVIA COM TODA ATENÇÃO O DEPOIMENTO DO COLUNISTA LAURO LEMOS.
LAURO LEMOS - (chocado) Ainda não dá para acreditar, delegado, que uma moça tão bela e meiga tenha sido brutalmente assassinada. Só não entendo por que fui chamado pra depor...
DELEGADO FONTOURA - Sou o delegado encarregado desse caso e estou intimando todas as pessoas que estavam no Castelinho à hora do assassinato.
LAURO LEMOS - (embaraçado) O pior é que eu estava sim, doutor, com alguns amigos... e nós ouvimos uns gritos de socorro vindos da praia... Infelizmente, pensamos que se tratava de mais um escândalo entre casais...
DELEGADO FONTOURA - (com frieza) E então?
LAURO LEMOS - Por isso ninguém se importou...
CORTA PARA:
CENA 7 - PENSÃO PRIMAVERA - RECEPÇÃO - INT. - DIA.
ZÉ GREGÓRIO, A ESPOSA D. DIDI, A FILHA, MARIA LÚCIA E SAMUCA, QUE TAMBÉM ERA HÓSPEDE DA PENSÃO, DISPUTAVAM UM ESPAÇO Á FRENTE DO JORNAL, PARA LER A NOTÍCIA QUE CAUSOU GRANDE IMPACTO JUNTO AOS HÓSPEDES.
D. DIDI - Coitada...
SAMUCA - Ainda não tou acreditando...
ZÉ GREGÓRIO - (balançou a cabeça, com pesar) Mas é verdade, Seu Samuca. Fui eu que encontrei o corpo nas pedras...
NESSE INSTANTE O DELEGADO FONTOURA ADENTROU NO RECINTO, ACOMPANHADO POR DOIS DETETIVES.
DELEGADO FONTOURA - Seu Zé Gregório?
TODOS SE VOLTARAM, ASSUSTADOS.
ZÉ GREGÓRIO - (adiantou-se, tranquilo) Pois não, sou eu!
DELEGADO FONTOURA - O senhor está preso como suspeito do assassinato de Nívea Louzada!
CORTA PARA:
CENA 8 - DELEGACIA - SALA DO DELEGADO FONTOURA - INT. DIA.
NA DELEGACIA, HÁBILMENTE INTERROGADO, ZÉ GREGÓRIO DEU O SERVIÇO.
ZÉ GREGÓRIO - A moça tinha um namorado, um tal de Ricardinho, o mesmo que, quando ela ia se afogando, nada fez para salvá-la. Estou lhe dizendo, doutor, ele queria que ela morresse!
CORTA PARA:
CENA 9 - DELEGACIA - SALA DO DELEGADO FONTOURA - INT. - DIA.
D. DIDI E MARIA LÚCIA ENTRARAM NA SALA E SE DIRIGIRAM AO DELEGADO FONTOURA.
DIDI - Boa tarde, seu delegado. Queremos saber os motivos da detenção do meu marido!
DELEGADO FONTOURA - (seco) Não há nenhum motivo! Apenas a lei faculta ao delegado deter por vinte e quatro horas qualquer pessoa para interrogatório.
D. DIDI - Ah! Mas garanto que os amiguinhos grã-finos que ela tinha, o senhor não prendeu. Para esses o doutor não usou a lei! É sempre assim, a corda só estoura pro lado mais fraco!
A SURPRESA ENCOBRIU O ROSTO DE FONTOURA.
DELEGADO FONTOURA - (voz baixa e contida) Como é que a senhora sabe que a vítima tinha amiguinhos grã-finos? A senhora a conhecia?
D. DIDI - Não, mas minha filha era amiga dela.
MARIA LÚCIA - (completou) Amiga da praia... Ela vivia numa roda de grã-finos, embora fosse filha de um bancário.
DELEGADO FONTOURA - (desconfiado) Está certo... Estou sentindo que há algo de suspeito nisso... mas não consigo imaginar o que é. Bem, é provável que eu queira ouvi-la qualquer dia desses. Mandarei chamar.
D. DIDI - Olha, seu Delegado, viemos aqui pra buscar meu marido, um homem de bem, honesto e trabalhador! Se ele ficar preso, o senhor vai ter que prender eu e minha filha, porque não arredamos o pé daqui sem ele!
MARIA LÚCIA - (encarou o delegado, desafiadora) É isso mesmo! Ou o senhor solta meu pai... ou prende a gente com ele!
FIM DO CAPÍTULO 14
e no próximo capítulo...
*** Sob forte comoção dos pais, amigos e repórteres, Nivea é enterrada.
*** Sem saber da tragédia, Vítor retorna de São Paulo.
NÃO PERCA O CAPÍTULO 15 DE
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TONI FIGUEIRA
SESSÃO CAPAS E PÔSTERES
A capa que reproduzimos abaixo foi publicada na revista Romântica, nr. 285, no ano de 1979.
Nossos agradecimentos ao amigo Césio Vital Gaudereto pela remessa do material.
Já pôster de Stênio Garcia na pele da personagem Lorde da novela O Semideus foi publicado no Álbum de O Semideus, edição especial da revista Amiga, datada de 07 de maio de 1974.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/semideus.asp.
Nas próximas semanas, teremos mais pôsteres dessa telenovela e, em breve, na Sessão Retrô – Novelas, nós publicaremos as reportagens dessa edição especial de Amiga. Aguardem e não percam!
Boa diversão!
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SESSÃO FOTO QUIZ
A foto da semana passada é de Guto, atualmente, diretor da Turma do Didi e filho de Moacir Franco.
Agora, tentem descobrir quem é a bela jovem.
Eis algumas pistas:
1) É uma atriz gaúcha que estreou profissionalmente no teatro, no ano de 1955, na companhia Dulcina de Moraes.
2) Na televisão, participou de novelas como Pigmaleão 70, na Rede Globo; Venha Ver o Sol na Estrada, na Tv Record e Ídolos de Pano, na Rede Tupi.
3) Já falecida, sua última participação em novelas foi em Mulheres Apaixonadas, da Rede Globo.
Boa diversão!
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quinta-feira, 1 de março de 2012
SESSÃO LEITURA - AVENTURAS NO CALÇADÃO - JOÃO UBALDO RIBEIRO
A crônica que reproduzimos abaixo é de autoria de João Ubaldo Ribeiro.
Para maiores informações sobre o autor, favor consultar: http://www.releituras.com/joaoubaldo_bio.asp.
Boa leitura!
AVENTURAS NO CALÇADÃO
As voltas que o mundo dá, quem te viu, quem te vê, nada como um dia depois do outro, nunca diga "desta água não beberei" — tudo isso me ocorre, ao ver-me no calçadão da praia, fazendo em passo acelerado o percurso de ida e volta do Leblon ao Arpoador. Com exceção de futebol, quando eu era desses fominhas de bola que não queriam parar nem depois que escurecia, sempre tive horror visceral a qualquer tipo de exercício físico. Uma vez, na Bahia, por pressão de amigos e insegurança amorosa, matriculei-me numa academia de ginástica, para tirar a barriga — o famigerado e pouco atlético brama-peito. Disseram-me que, no começo, eu ia ficar cansado, os músculos iam doer, mas depois eu ia ver que magnífico bem-estar sentiria, depois da ducha pós-malhação. Freqüentei a academia uns cinco meses e, invariavelmente, me sentia um farrapo humano, antes, durante e depois (quanto à barriga, prefiro não fazer comentários).
Tendo abandonado o rude esporte bretão quando, na condição, como se dizia naquela época, de beque direito, qualquer ponta-esquerda passou a me parecer ter a velocidade de um fórmula 1, dei para, no máximo, disputar, com singular incompetência, torneios de futebol de mesa, palitinho, sinuca e xadrez. Fazer força, me agitar, pegar peso, nunca. Mas eis que a mão cruel do destino interferiu e, ao examinar-me, um médico concluiu que minha energia era equivalente à de um cágado cheio de Lexotan. "Você vai andar no calçadão", disse ele. "Ou então vai acabar tendo dificuldade em se levantar de uma poltrona”.
Como, embora não lhe tivesse contado, eu já andava mesmo com preguiça de me sentar, quanto mais de me levantar, resolvi heroicamente enfrentar o calçadão. Foi uma decisão dura, várias madrugadas de dúvida e relutância, mas, numa bela sexta-feira, surpreendo-me atravessando lepidamente a praça Antero de Quental, para demandar o calçadão. Não deixaram de ser emocionantes esses primeiros momentos, porque um diabinho baiano que não cessa de acompanhar-me garantia que eu cairia duro para trás, depois dos primeiros 300 metros.
O primeiro problema foi a adoção de um estilo. Observando pela primeira vez meus companheiros de luta, notei que faz parte do calçadismo ter um estilo. Não queria parecer um calouro ou talvez ser até alvo de comentários desairosos sobre meu porte. Fiquei parado no ponto de partida algum tempo, em busca de inspiração com alguém. Não, não, andar assoprando e batendo os braços feito um galo cocoricando, como aquele senhor de barba, não. Talvez o peito erguido e o semblante condoreiro do senhor de cabelos revoltos. Não, não, até porque me faltam cabelos e não quero insultar a memória de meu conterrâneo Castro Alves. Os pulinhos e assovios esvoaçantes do cavalheiro de camisa fluorescente, nem pensar. E já estava até disposto a adotar o estilo caminhar abrindo e fechando as mãos (não sei para quê, mas tanta gente faz isso que deve obrar maravilhas circulatórias em todo o organismo), quando lembrei minhas raízes nordestinas e resolvi adotar o estilo Lampião, marchando em frente sem frescuras, vencendo mais essa légua tirana, na esperança de que ninguém estivesse olhando.
Tenho aprendido muito. Aprendi, por exemplo, que não se deve tentar desafiar um capenga no calçadão, é derrota certa. Incomodado porque, apesar de achar que estava andando depressa, era sempre ultrapassado e não ultrapassava ninguém, a não ser os caquéticos e os que vão lá para bestar, achei que podia pelo menos restaurar parcialmente meu brio ferido, pegando o capenguinha que ia à minha frente. O capenguinha marchava firme, arrastando um bocadinho a perna esquerda, mas mantendo um ritmo respeitável. Contudo, era capenga. Não é possível que eu não ultrapasse um capenguinha — pensei, tomando fôlego e engatando uma terceira, para encaixar uma quarta nos momentos seguintes.
O capenguinha era mais difícil de alcançar do que eu pensara e, antes de eu chegar a ele, duas senhoras vigorosíssimas me ultrapassaram airosamente. Mas persisti, emparelhei com ele e o deixei para trás. Contudo, nesse instante, devo ter cometido meu erro fatal, porque o olhei, certamente denunciando uma certa presunção pela aparente vitória. O capenguinha não me deu ousadia. Levantando mais a perna esquerda do que antes e, paradoxalmente, capengando de maneira mais acentuada, acelerou tão bruscamente que quase senti um ventinho, quando ele me passou. Aquilo não ia ficar assim. Chamei o Carl Lewis em mim e fui ao combate com todas as forças. O capenguinha, nem aí. Toda vez que eu chegava perto, ele levantava mais a perna esquerda e me deixava comendo poeira. Além disso, como dizem os narradores de automobilismo, fui atrapalhado várias vezes pelo tráfego, que ele evitava como Romário evita zagueiros, mas que me bloqueava à exasperação, como o pessoal com camisetas de um tal Clube dos Safenadinhos, que resolveu flanar na minha frente. Desisti pela altura do Jardim de Alá, na hora em que ele já devia estar chegando ao posto 8. ("É isso mesmo", disse depois meu analista, que foi o inventor dessa minha nova atividade. "Ultrapassar capenga é dificílimo”.) Vivendo e aprendendo.
Sim, vivendo e aprendendo. Por exemplo, de modo geral, nós, calçadistas, estamos ali para a mens sana in corpore sano, no meu caso mais aquela do que este. Há, no entanto, notáveis exceções. Um cidadão atarracado, de chapéu de feltro e óculos escuros panorâmicos, passa sempre por mim de chinelo, arrastando os pés e pitando um charuto enorme. A dele não é propriamente andar no calçadão e muito menos entrar em forma, a dele é fumar charuto no calçadão e manda a democracia que defendamos seu direito de fazê-lo. Outro exemplo é o pessoal viradão, que está encerrando o expediente (ou começando o outro) entre chopes, caipirinhas e transes amorosos. Lembro o tempo em que já fui capaz de fazer essas coisas, tenho arrepios.
Finalmente, aprendi que calçadão também é cultura. Venho retornando do Arpoador, perguntando a mim mesmo se conseguiria voltar para casa ou se chamava logo uma ambulância, quando deparo a figura distraída de meu confrade acadêmico embaixador Sérgio Paulo Rouanet, vestido quase do jeito com que vai à Academia. Mas que surpresa! Pois é, estava vindo da Alemanha de férias, resolvera matar as saudades do Rio, dando uma andadinha no calçadão. Mas trazia um livro na mão, era algum manual do calçadistas? Não, não era, era um romance de nossa confreira Rachel de Queiroz que ele, lamentavelmente, ainda não tinha lido e aí, enquanto andava, tirava o atrasado. Gostei do estilo dele, que passarei a chamar de acadêmico e que estou pensando seriamente em adotar, só que com um objetivo talvez menos edificante. Meu plano é sair carregando a obra completa de Machado de Assis e jogá-la toda em cima do capenguinha.
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CRÔNICA,
JOÃO UBALDO RIBEIRO,
SESSÃO LEITURA
SESSÃO ABERTURA DE NOVELA - O ESPIGÃO
O Espigão foi apresentada pela Rede Globo no horário das 22 h, de 3 de abril a 1 de novembro de 1974.
Para maiores informações sobre a novela, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/espigao.asp.
O tema de abertura era O Espigão, interpretado por Zé Rodrix.
Boa recordação!
LETRA
O ESPIGÃO
Hoje eu não preciso mais coçar as costas
Inventaram o coça-costas eletrônico
Eu só fazia força
Quando ia abrir a porta da minha Mercedes
O único exercício que eu fazia
(era abrir a porta)
Hoje o meu motorista faz por mim
(ah, sim!)
Ah, sim, é isso sim!
(ah, sim!)
Me disseram que tudo que eu tenho é demais
(é demais!)
Me disseram que tudo que é demais está sobrando
Que é que eu posso fazer
Se inventaram o mundo pra me dar prazer
Minhas máquinas estão fazendo tudo
(que eu fazia)
Eu não preciso mais me mexer pra viver
Viver sem me mexer, viver...
(eu não!)
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