terça-feira, 2 de setembro de 2014

O HOMEM QUE DEVE MORRER - CAPÍTULO 52 - TONI FIGUEIRA


Novela de Janete Clair

Adaptação de Toni Figueira

CAPÍTULO 52

Participam deste capítulo

Cyro  -  Tarcísio Meira
Tula  -  Lucia Alves
Cesário  -  Carlos Eduardo Dolabela
Ricardo  -  Edney Giovenazzi
Dr. Avelar  - Álvaro Aguiar
Conceição  -  Zeni Pereira


CENA 1  -  FLORIANÓPOLIS  -  VILA DOS MINEIROS  -  PRAÇA  -  EXTERIOR  -  NOITE

A NOITE COBRIA DE SOMBRAS TODA A REGIÃO DE VALONGO. OS MINEIROS, EM SUAS CHOUPANAS OU NAS CASAS DE MADEIRA ERGUIDAS PELA COMPANHIA, PREPARAVAM-SE PARA O SONO REPARADOR.

DE REPENTE, A PORTA DO AMBULATÓRIO SE ABRIU E O JATO DE LUZ QUEBROU A ESCURIDÃO. TULA SAIU A PASSOS APRESSADOS DO AMBULATÓRIO E DIRIGIU-SE À BIROSCA DA PRACINHA. AVISTOU O HOMEM A QUEM PROCURAVA. CESÁRIO DESVIOU O OLHAR, INDIFERENTE, FINGINDO NÃO TER RECONHECIDO A MOÇA. A FILHA DO ENGENHEIRO DEFRONTOU-SE COM O CAPATAZ. HAVIA QUALQUER COISA DE AMEAÇADOR EM SEUS OLHOS NEGROS. ÓDIO OU DESESPERO TALVEZ.

TULA  -  (com as mãos nas cadeiras) É preciso pedir audiência para falar com o grande capataz?

CESÁRIO  -  Olha aqui, ilustre e grande é a sua avó (bebeu um gole de cerveja) Me deixa em paz!

TULA  -   (tocou-lhe o braço forte) Venha comigo de carro. Preciso muito falar com você.

CESÁRIO  -  (voltou-se para o carro-esporte parado na extremidade oposta da praça dos mineiros) Não quero entrar na geringonça do teu pai. Se tem alguma coisa a me dizer, diga aqui mesmo. (voltou-lhe as costas, enchendo o copo de cerveja) E rápido que eu estou com pressa.

ERA DEMAIS PARA A JOVEM AUDACIOSA E ALTIVA.

TULA  -  (falou com a voz embargada pelo ódio e pelo amor que a consumia) Olha, seu... convencido de uma figa! O que você está pensando? Que é alguma coisa na vida só porque conseguiu a porcaria de um posto de capataz? Pois fique sabendo que eu te detesto! Eu quero te ver no fundo de um poço! Quero que você morra!

CESÁRIO PERMANECIA INDIFERENTE, DISTANTE.

CESÁRIO  -  Terminou?

TULA  -  Não. Não terminei. Quero te dizer ainda que se eu quiser... eu te domino como um cachorrinho. Você está fingindo... e muito mal... que me odeia! No fundo... está louco pra se amarrar em mim! (mudou o tom e se aproximou ainda mais) Vem comigo! A gente vai falar com meu pai. Eu estou disposta a me casar com você.

CESÁRIO  -  (ironizou) Ah... você tá querendo casar comigo, não é?

TULA  -  Estou! (confessou, apaixonada, olhos semicerrados) Eu faço tudo o que você quiser... tudo! Me caso até amanhã, se você está disposto!

CESÁRIO  -  Acontece, Dona Gertrudes... que agora eu não te quero. Nem pintada. (recordava das atitudes hostis do pai da mulher que se oferecia) Nem coberta de ouro em pó. Nem... nem rastejando... nem se humilhando... Quero... é que você me esqueça, tá?

AFASTOU-SE PARA UM CANTO DISTANTE, ENQUANTO TULA FERVIA DE ÓDIO E DE DESESPERO. SAIU CORRENDO DO INTERIOR DA BIROSCA.

O AUTOMÓVEL DERRAPOU AO FAZER A CURVA PARA ENTRAR NA ESTRADA DE ACESSO À CIDADE. AS LÁGRIMAS CAÍAM-LHE INCONTIDAS.

APENAS OS RAIOS LUMINOSOS DOS FARÓIS ROMPIAM O NEGRUME DA ESTRADA. O CARRO DESENVOLVIA UMA VELOCIDADE ALUCINANTE E TULA MAL PÔDE PRESSENTIR QUE O VULTO NEGRO NÃO TERIA TEMPO DE SE AFASTAR DA PISTA. O CARRO PEGOU-O, LEVANTANDO-O COMO UM SACO DE PAPEL. E O CORPO, PASSANDO SOBRE A CAPOTA ESCORREGADIA, ESPARRAMOU-SE NA ESTRADA ASFALTADA. ERA UM MONTE DE OSSOS PARTIDOS E CARNES ENSANGUENTADAS, MAS RESPIRAVA AINDA NOS ESTERTORES DA MORTE.

CORTA PARA:

CENA 2  -  VILA DOS MINEIROS  -  ESTRADA  -  EXTERIOR  -  NOITE

O GRUPO OLHAVA CURIOSO O HOMEM ATROPELADO. UM DOS MINEIROS RECONHECEU-O.

MINEIRO  -  Virge mãe! É o Vicentão! Ele é detonador na Panorama, essa mina que tão abrindo, agora, perto daqui. Um negro e tanto. Amigo, trabalhador!

CESÁRIO  -  (ordenou, percebendo que o acidentado ainda respirava) Corre, vai avisar à família dele! Eu vou correndo buscar socorro!

CORTA PARA:

CENA 3  -  FLORIANÓPOLIS  -  HOSPITAL  -  SALA DE CIRURGIA  -  INTERIOR  -  DIA

DR. CYRO VALDEZ OLHAVA O TRAÇADO DO ELETROCARDIOGRAMA. AO LADO DA EQUIPE DE CIRURGIÕES QUE CHEFIAVA. ESTENDIDO SOBRE A MESA O CORPO DO NEGRO ERA UMA MASSA DISFORME. O MÉDICO EMITIU O PARECER DEFINITIVO.

CYRO  -  Ausência de qualquer onde de estímulo cerebral.

DR. AVELAR  -  E a imunologia diz que o coração é de tipo semelhante ao de Otto Muller.

OS CIRURGIÕES ENTREOLHARAM-SE.

CYRO  -  A mãe dele foi chamada?

CORTA PARA:
Tula e Cesário

CENA 4  -  HOSPITAL  -  SALA DE ESPERA  -  INTERIOR  -  DIA

EM POUCOS MINUTOS, A VELHA CONCEIÇÃO, NEGRA JÁ IDOSA, COM O ANDAR CANSADO E CORPO BALOFO, ENTRAVA NO HOSPITAL. NA SALA DE ESPERA, CYRO FOI AO SEU ENCONTRO.

CONCEIÇÃO  -  Qué dizê, douto... que ele tá morto? Meu filho tá morto?

CYRO  -  Eu quero que a senhora entenda bem, o coração dele ainda bate, ele era um homem forte... mas o cérebro não possui mais nenhum estímulo... isto é... está morto. Clinicamente morto, minha senhora (segurava carinhosamente as mãos da pobre negra) Ele está cerebralmente morto. A senhora entende?

CONCEIÇÃO  -  (entre soluços) E isso num tem jeito?

CYRO  -  Infelizmente, não. Se houvesse a mais remota possibilidade de salvação, eu não lhe pediria o que estou pedindo.

CONCEIÇÃO  -  Eu não tou entendendo o que o sinhô qué de mim... o sinhô podia me dizê mais claro, doutô?

CYRO  -  É o seguinte, Dona Conceição. Há um homem, cuja vida pode ser salva, graças ao coração de seu filho. Se a senhora der permissão, neste momento, nós faremos um transplante do coração dele para o peito daquele homem (apontou para Otto Muller deitado na cama de ferro) e a senhora terá salvo uma vida.

CONCEIÇÃO  -  o sinhô qué tirá o coração do meu filho?

CYRO  -  Isso mesmo.

CONCEIÇÃO  -  Mas isso é maldade, doutô!

CYRO  -  Pelo contrário, Dona Conceição. Será um gesto magnífico de sua parte. A senhora vai salvar a vida de um homem e o coração de seu filho vai continuar pulsando no peito de Otto Muller.

CONCEIÇÃO  -  E se eu não consenti?

CYRO  -  Bem... se a senhora se opuser... este homem vai morrer. E o seu filho também. Então, Dona Conceição, que é que a senhora resolve?

ALGUM TEMPO DEPOIS, FINALMENTE, CYRO VALDEZ CONSEGUIRA CONVENCER A MULHER. DONA CONCEIÇÃO COMPREENDERA A INUTULIDADE DE SE MANTER NUMA NEGATIVA IRREVOGÁVEL. SEU FILHO ESTAVA MESMO MORTO E NADA MAIS RESTAVA DELE A NÃO SER A SAUDADE DE SUA PRESENÇA NA TERRA.

NO CONSULTÓRIO, CYRO COLOCOU O DOCUMENTO EM PAPEL TIMBRADO SOBRE A MESA DE AÇO.

CYRO  -  (apontou com o dedo) Basta que a senhora assine aqui embaixo.

CORTA PARA:

CENA 5  -  HOSPITAL  -  SALA DE CIRURGIA  -  INTERIOR  -  DIA

A SALA DE CIRURGIA, ILUMINADA, AINDA SE ACHAVA VAZIA. AGORA, OS ENFERMEIROS CHEGAVAM E COMEÇAVAM OS PREPARATIVOS PARA A GRANDE INTERVENÇÃO. OS INSTRUMENTOS ESTERILIZADOS, PANOS, ALGODÃO, AMPOLAS DE INJEÇÃO. TUDO EM ORDEM. AO LADO, O APARELHAMENTO DE CONTROLE.

O CORPO DE OTTO MULLER ENTROU NUM CARRINHO, ENVOLTO NUMA BATA BRANCA, ENQUANTO O DO NEGRO APARECIA SEGUNDOS DEPOIS. FICARAM LADO A LADO. DE UMA MACA PENDENDO A MÃO BRANCA DE OTTO MULLER. DA OUTRA, A MÃO NEGRA COM FUNDOS TALHOS SUTURADOS.

CYRO VALDEZ OLHOU PARA O ANESTESISTA E AGUARDOU A ORDEM. OTTO DORMIA PROFUNDAMENTE. MAS PODERIA ACORDAR PARA A VIDA. VICENTÃO DEIXARA DE EXISTIR HÁ VÁRIAS HORAS. E NÃO ACORDARIA PARA NADA.

CORTA PARA:

CENA 6  -  FLORIANÓPOLIS  -  CASA DE RICARDO  -  SALA  -  INTERIOR  -  DIA 

RICARDO ATIROU A CHAVE DO CARRO SOBRE A MESA E DEPAROU COM O OLHAR AFLITO DA FILHA.

TULA  -  Viu o seu carro?

O ENGENHEIRO FRANZIU A TESTA, PREOCUPADO. SABIA QUE TULA NÃO TINHA DORMIDO DURANTE A NOITE PASSADA. OUVIRA SEUS PASSOS INCESSANTES, DENTRO DO QUARTO, DESDE AS PRIMEIRAS HORAS DA MADRUGADA.

RICARDO  -  Que foi que houve?

TULA  -  (falou baixo, com a voz arrancada sofridamente do fundo do peito) Eu matei um homem! Apenas isso. Eu matei um homem! Está me ouvindo, pai? Eu matei um homem!

A JOVEM CRISPAVA AS MÃOS, ARRANHANDO COM AS UNHAS A FACE MACIA. RICARDO CORREU ATÉ ELA, ABRAÇANDO-A, COMOVIDO.

RICARDO  -  Calma, Tula! Não fique assim, escute!

TULA  -  Matei! Matei! (gritou, desesperada) Ficou lá, estendido na estrada e eu fugi!

RICARDO  -  Ele ficou lá... onde?

TULA  -  Na estrada que leva à vila dos mineiros.

O ENGENHEIRO LEMBROU-SE DA CONVERSA OUVIDA DURANTE O EXPEDIENTE MATINAL SOBRE O ATROPELAMENTO E MORTE DE UM DOS MINEIROS. UM NEGRO.

RICARDO  -  (nervoso) Alguém a viu?

TULA  -  Não. A estrada estava deserta. Mas, o homem morreu, eu vi! A cabeça dele... daquele jeito... horrível... espatifada! Não podia ter escapado! Ele morreu!

PROCURANDO CONTROLAR OS PRÓPRIOS NERVOS ABALADOS, O ENGENHEIRO SENTOU-SE COM A FILHA NO SOFÁ.

RICARDO  -  Calma, Tula! Calma! Você não devia ter fugido... mas pra tudo há um jeito. Eu assumo a responsabilidade. Não diga nada a ninguém... não fale sobre o acidente com pessoa alguma, a não ser comigo e com sua mãe. (levantou-se, com as mãos trêmulas; sentia as pernas dançarem dentro das calças) Eu vou até a cidade verificar como andam as coisas. Eu não vou deixar que nada lhe aconteça.

FIM DO CAPÍTULO 52

... E NA PRÓXIMA QUINTA, CAPÍTULO INÉDITO!

SESSÃO REMAKE MUSICAL - PLANOS DE PAPEL - RAUL SEIXAS

A canção Planos de Papel, que teve como um dos intérpretes Alcione, é apresentada no vídeo abaixo por seu autor, Raul Seixas.
Para ouvir a versão de Alcione, favor acessar: http://biscoitocafeenovela.blogspot.com.br/2014/08/sessao-tunel-do-tempo-musical-planos-de.html.
Boa diversão!



LETRA

PLANOS DE PAPEL

Deus, eu passo os sete dias úteis
Traçando nove dias fúteis
Fazendo planos de papel
Em quartos cinzas de aluguel
E vou dormir
Entre as paredes do hotel do sossego
Meu amor

Sim no contracanto do meu leito
Guardo um punhal cravado ao peito
Tingindo a cama e o lençol
Por uma fresta me invade o sol
E eu vou deitar
Entre as palmeiras desenhadas nos jornais
Meu amor

Ah, mas que você espera de mim?
Que o consumado eu vá repetir, não
Não, o que me importa nesse instante
É esse não importar constante
É esse sorriso que eu guardei
Nessa gaveta a qual fechei
Pra mim dormir
Com a cabeça no lugar que eu deixei
Meu amor...

SESSÃO TÚNEL DO TEMPO MUSICAL - PLANOS DE PAPEL - ALCIONE

A canção Planos de Papel, interpretada por Alcione, fez parte da trilha sonora da primeira versão da novela O Rebu, apresentada pela Rede Globo no horário das 22h de 4 de novembro de 1974 a 11 de abril de 1975.
Para maiores informações sobre a novela, favor acessar: www.teledramaturgia.com.br/tele/rebu.asp.
Boa diversão!



LETRA

PLANOS DE PAPEL

Deus eu passo os sete dias úteis
traçando nove dias fúteis
fazendo planos de papel
em quartos cinzas de aluguel
e eu vou dormir
entre as paredes do Hotel do Sossego
meu amor

Sim, no contracanto do meu leito
guardo um punhal cravado ao peito
tingindo a cama e o lençol
por uma fresta me invade o sol
e eu vou deitar
entre as palmeiras desenhadas nos jornais
meu amor

Ah, mas que você espera de mim ?
Que o consumado eu vá repetir, não
Sim, o que me importa nesse instante
é esse não m'importar constante
esse sorriso que eu guardei
nessa gaveta, a qual fechei
prá mim dormir
com a cabeça no lugar que eu deixei
meu amor

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

WEBNOVELA - LAÇOS - CAPÍTULO 34 - SEGUNDA PARTE - AUTORA: JULIANA SOUSA

Capítulo 34 –Verdades que não podem ser ditas

Mariana foi para o hospital, precisava explicar e pedir desculpas por não ter atendido as ligações do Dr. Rafael. Se sentia até envergonhada, mas precisava explicar para evitar qualquer tipo de mal-entendido. Enquanto entrava no hospital, percebeu que o Dr. Rafael se encontrava um pouco distante, conversando com alguém que já conhecia, apesar de não ter um relacionamento muito próximo: Érica.
Enquanto observava, Mariana se sentia um pouco incomodada. Era evidente que o Dr. Rafael também era gentil com ela e isso a inquietou. Apesar de não saber exatamente por quê. Afinal, ela conhecia a personalidade de Rafael, que era bastante parecida com seu tio Fabiano. Assim que percebeu que ela ia embora, resolveu se aproximar. Ao vê-la, ele sorriu, vendo aquilo, Mariana sentiu seu coração disparar.
“O que está acontecendo comigo?” – pensou.
— Então, você veio. – disse ele.
— Sim, depois de não atender várias ligações,vim pedir desculpas.
— Eu devo ter incomodado, não? Mas, então, percebi que poderia estar ocupada com estudos ou algo assim.
— Sim e não. Bem, vou explicar para você. Digo, se tiver tempo. Posso voltar outra hora.
— Não tem problema, tenho um pouco de tempo livre.
Mariana ficou em silêncio por alguns instantes.
— Então... A Érica era a pessoa de quem gosta?
— Érica? – perguntou ele um pouco confuso. – Ah... Não, não é. Érica é só uma amiga. Então, vamos?
Ela assentiu.
***
A semana havia passado rápido. Tanto para as gêmeas quanto para Viviane. Emanuela acordou e desceu. Mariana e Viviane já haviam descido e estava tomando café da manhã.
— Por que não me acordou, Mari? – perguntou Emanuela ao chegar.
— ‘Por quê’? – perguntou Mariana, parando no meio do caminho o pedaço de bolo que colocaria na boca. – Por que eu deveria?
Emanuela suspirou.
— Não importa.
Viviane olhou para as duas e riu.
— Vocês, com certeza, são muito diferentes, não?
Mariana olhou surpresa para Vivi.
— Agora que você veio a perceber? Somos gêmeas, não quer dizer que somos a mesma pessoa.
Viviane semicerrou os olhos, olhando para Mariana.
— Qual é, garota? Pensa que só porque não é mais minha inimiga que vou te dar a liberdade de falar assim comigo, é? Me respeite.
— Os mais novos que tem que respeitar os mais velhos. E nesse caso, você que deveria me respeitar.
— Temos a mesma idade, ok?
Emanuela apenas se limitava a se divertir com a conversa das duas. De repente, a governanta Sônia entrou na sala.
— Meninas, a Verônica está aí. Ela disse que precisa falar urgente com as três.
Viviane, Emanuela e Mariana se entreolharam.
— Pode dizer que estamos indo, por favor? – disse Viviane.
As três terminaram o mais rápido que puderam e foram em direção à sala, onde Verônica se encontrava. Ao ver as três, Verônica se levantou de onde estava sentada.
— Oi, pessoal. – disse.
— O que foi Verônica? – perguntou Viviane, ficando preocupada com a expressão da amiga. – Aconteceu alguma coisa?
Verônica parecia um pouco nervosa.
— É o Fabrício. Ele desapareceu.
— O quê? – Emanuela não acreditou no que estava ouvindo. – Do que está falando?
— Eu percebi que algo estava estranho desde domingo passado, quando ele me mandou uma mensagem, dizendo que era para eu não ligar, que ia estar ocupado e essas coisas...
— No domingo, ele me falou o mesmo, mas disse que é porque ia trabalhar.
Verônica olhou para Emanuela.
— Você não sentiu nada estranho? Ele entrou em contato durante a semana?
— Poucas vezes, mas só para dizer que estava com saudades ou algo assim.
— Comigo, só para dizer que estava bem. Mas eu achei estranho e resolvi ir para o apartamento dele ontem à noite fazer uma visita. O apartamento estava fechado.
Viviane olhou para Verônica confusa.
— E daí? Não é como ele tivesse desaparecido apenas porque não está no apartamento. Ele pode estar mesmo trabalhando.
— Mas não é só isso. – disse Verônica apreensiva. – Como eu achava estranho esse comportamento assim de repente, fiz pergunta ao porteiro. Ele me disse que faz exatamente uma semana que não vê Fabrício.
— Sim, amiga. – replicou Viviane - Mas os porteiros fazem turnos diferentes. Você nem mesmo falou com todos.
— Foi por isso que falei com o segundo porteiro também. Hoje, voltei no apartamento do Fabrício, o outro porteiro falou a mesma coisa. Que fazia algum tempo que não via o Fabrício. E, além disso, algumas correspondências que chegaram nesse meio tempo não foram pegas. Agora tento ligar para ele, mas não atende. Não quero falar com nosso pai antes que eu confirme algo estranho.
Viviane sentou-se no estofado.
— É. Então, ele desapareceu mesmo. O Fabrício deve ter se metido em algum problema. Ele sempre foi bom para essas coisas.
— Vivi, não é hora para piadas. – ralhou Mariana.
— Estou só falando a verdade. Sem piadas. – falou Viviane séria.
— De qualquer forma, o que pretende fazer? – perguntou Mariana para Verônica.
— É isso que eu também vim perguntar a vocês. Vocês acham que eu devo chamar a polícia?
— Por enquanto, acho que não. – disse Emanuela – A polícia investiga desaparecimentos só depois de 24 horas de a pessoa ter desaparecido. Ainda ontem a tarde, ele falou brevemente comigo no celular. Ele apenas não está indo ao apartamento, o que é realmente estranho. Primeiro, vamos nos acalmar e procurar nos lugares onde ele poderia estar. Ligar para casa de amigos, familiares. Talvez alguém deva tê-lo visto em algum lugar.
— Manu tem razão. – concordou Viviane – Não vamos nos agitar. Pode ser que não seja nada muito grave.
— Não. Eu sei que alguma coisa grave aconteceu.
— Como pode ter tanta certeza? – perguntou Mariana.
Verônica suspirou.
— Hoje é o aniversário de morte da mamãe. Normalmente, sempre passamos esse dia em família.
Emanuela parecia pensativa, também tinha uma hipótese do que teria acontecido, mas não quis dizer nada por enquanto.
— Vocês liguem primeiro para as pessoas que tem que ligar. – disse ela, se levantando e se preparando para sair.
— E para onde você vai? – perguntou Verônica.
— Tem um lugar que preciso verificar.
— Um lugar? Que lugar? Posso ir com você. – disse Mariana.
— Não, é só um palpite. Posso estar errada. Então, fique aqui e ajude as meninas. – disse, saindo.
***
O Dr. Fabiano teve folga naquele sábado. Naquele momento, ele se encontrava de pé em frente a um prédio. Não sabia por que estava ali, talvez só pelo fato de que queria estar ali. Subiu até o andar desejado e viu o apartamento de Rebeca. Estava um pouco apreensivo. No calor do momento e para fazer ciúmes a Rebeca, havia feito aquele teatro um tanto ridículo a seu ver. Mas depois, pensando racionalmente sobre o assunto, não havia motivos para ficar tão chateado com ela. Ele poderia ser alguém contido, mas quando se tratava do seu tio Marcos e de tudo o que Érica e ele o fizeram passar, por alguma razão, algo dentro dele se descontrolava. Aproximou-se da porta ainda com certo receio de tocar a campainha, mas antes que chegasse perto o bastante para fazer isso, a porta se abriu e um homem saiu.
— Então, até logo. – disse o homem, saindo sem dar importância ao fato de que Fabiano se encontrava próximo.
Logo ao sair, Rebeca percebeu que Fabiano estava ali, parado sem reação.
— O que você está fazendo aqui? – gaguejou ela apreensiva.
— Não vai me convidar para entrar? – perguntou ele sério.
— Claro. – disse ela, abrindo passagem para Fabiano entrar.
Fabiano andou um pouco pelo apartamento e permaneceu em silêncio por alguns segundos. O silêncio incomodava Rebeca.
— Quem era aquele homem?
Rebeca suspirou ainda receosa.
— Não importa.
Fabiano olhou sério para Rebeca.
— Não importa? Se estou perguntando é porque importa. Então, você deixa mesmo qualquer um entrar aqui, não é?
— O que está insinuando? – disse ela, se sentindo humilhada. – Sei que há muitas coisas na minha vida que são obscuras e difíceis de entender. Mas não duvide de mim nesse aspecto. Por que está sempre desconfiando de mim?
— Por quê? Você se associou ao meu maior inimigo. Um homem tão sujo que nem sequer consigo imaginar o tipo de coisas que ele se associa. E agora vejo um homem desconhecido saindo do seu apartamento, de uma mulher solteira, onde os dois estavam sozinhos. Durante quanto tempo? Não faço ideia. E pergunto quem é e você diz ‘não importa’?  Rebeca, eu sou um homem também. Pelo jeito, não foi só o Dr. Marcos que conquistou seu coração. Tenho até medo de saber que tipo de coisas esconde em seu passado.
Rebeca não se conteve e deu uma tapa no rosto de Fabiano. Fabiano, então, percebeu que Rebeca parecia profundamente ofendida. Enquanto ele falava todas aquelas coisas, nem uma vez havia realmente olhado para ela. Agora, ele via que os olhos dela estavam um pouco avermelhados e inundados de lágrimas, que caíam sem que ela fizesse esforço para isso. Eles demonstravam raiva, indignação e sofrimento e, ao mesmo tempo, uma resignação que fez Fabiano se arrepender do que havia dito.
— Como tem coragem dizer coisas assim para mim? Se você me ama, então, como pode ser tão cruel? – disse, enquanto lágrimas rolavam em seu rosto. – Você mesmo disse que não tinha nada a falar comigo!
— Eu estava errado! – disse ele, levantando o tom de voz, não suportando vê-la chorar. Era difícil para ele sentir a raiva que estava sentindo de si mesmo por ter feito aquilo.
— O quê?
— Nós temos muito a conversar.
Rebeca olhou para ele confusa.
— Por quê?
Fabiano ficou calado.
— Por quê? – insistiu ela.
Ele suspirou.
— Porque... Porque você é a mulher que eu amo! Não entendeu ainda? Ainda não percebeu que sou completamente louco por você? Não percebeu que só de imaginar que tem outro homem perto de você, isso me deixa desconfortável?
Rebeca olhou para ele ainda mais confusa.
— Não me faça rir. – disse ela séria. – Por que está dizendo isso?
— Eu vim pedir perdão. – riu um pouco triste. – Mas sou um idiota que acabei piorando as coisas, não é?
Rebeca sentou-se desolada.
— Por que está me dizendo isso? – disse, não se contendo e chorando - Não torne as coisas mais complicadaspara mim, por favor. Já está sendo tão difícil...
Fabiano se aproximou.
— Se case comigo. – disse ele de repente.
— O quê?! – exclamou ela, olhando para ele e não acreditando no que estava ouvindo.
— Saia de perto do Marcos. Se for por causa do dinheiro, eu tenho bastante...
— Dinheiro?! – interrompeu ela. – Acha que eu estou com Marcos por causa de dinheiro? O que pensa de mim? Compreendo que teve sua decepção com as mulheres por causa da Érica, mas não é justo que pense que todas são como ela.
Fabiano pareceu ficar confuso.
— E não é? Que outra razão poderia ser? Não está com ele porque precisa do dinheiro do trabalho que ele te dá?
Rebeca, sem perceber, havia dado razões para que Fabrício desconfiasse de algo.
— Por que não me responde, Rebeca?
— Por favor, não posso responder isso...
Fabiano se aproximou dela.
— Por que não confia em mim? O que está acontecendo?
Rebeca olhou para Fabiano.
— Por quê? Você realmente quer saber o porquê?
— Sim, quero.
—Porque eu te amo. Eu o amo. Com nunca amei ninguém. Como nunca pensei que poderia amar alguém. – disse, enquanto algumas lágrimas começavam a cair em seu rosto. – Você me fez perceber que eu ainda tinha a capacidade de amar, quando eu só pensava que apenas poderia odiar e odiar, você me ensinou a amar. Você cuidou de mim, quando eu mesma desconhecia o meu próprio passado. Por isso, eu aprendi a amá-lo. E é justamente por isso que não posso ficar com você.
— Eu não entendo o que está falando. Se me ama, então, só tem que ficar comigo. Simples assim.
— As coisas não são tão simples como imagina. Por isso, eu peço que me esqueça. Se afaste de mim. Não posso sair do lado do Dr. Marcos.
Fabiano ficou sem reação.
— Entendi.  Eu já entendi. Sou um idiota mesmo. Um completo e total idiota. – disse, saindo.
Rebeca continuou a chorar.
De repente, a vizinha entrou.
— O que foi minha filha? – perguntou ela, enquanto via Rebeca aos prantos. – O que você tem? Ouvi alguém gritando e vim correndo, pensei que alguma coisa estava acontecendo... E pelo jeito está, parece que está... – disse, sentando-se ao lado dela.
— O que eu faço? O que eu faço?  – disse Rebeca, abraçando a vizinha, enquanto chorava. – O que eu faço?
— Aquele rapaz que veio aqui... É por causa dele que está chorando? – perguntou Jandira, enquanto Rebeca ainda a abraçava.
Rebeca apenas balançou a cabeça afirmativamente, enquanto a mulher tentava acalmá-la.
— Eu não o mereço. Não mereço alguém como ele. – disse, enquanto ainda chorava.
***
Joana, Fabinho e Érica estavam passeando pela praça próxima da mansão.
— Dona Érica, ainda bem que tirou um tempo para o Fabinho... Ele realmente ficou muito feliz quando a senhora disse que passearia com ele, mas por que tão de repente? – disse a babá.
Érica parecia pensativa.
— Não sei. Faz um tempo que não fico um pouco com ele. É como as pessoas dizem: quando você perde alguém é que você dá valor...
— Credo, dona Érica. A senhora fala como se fosse perder o Fabinho...
Érica riu.
— Joana, você não perde mesmo esse jeito pobre de falar, né?
De repente, o menino que estava caminhando em silêncio, apontou para uma sorveteria que havia perto.
— Bá, queria tomar sorvete!
Érica concordou com a cabeça, enquanto a babá ia à sorveteria. Ela sentou-se em um banco e o filho sentou-se ao seu lado.
— Fabinho, você está feliz?
Ele balançou a cabeça afirmativamente e sorriu.
— Desculpa, Fabinho, por não ser uma boa mãe para você. Você cresceu tão rápido e eu nem percebi direito. Você tem raiva da mamãe?
O menino balançou a cabeça negativamente.
— Não. – e olhando para a mãe. – Mãe, sua barriga ainda dói?
Érica pareceu um pouco desconcertada.
— Minha barriga? Por quê?
— Um dia eu vi a senhora com dor na barriga... Ainda dói?
Érica sorriu.
— Meu filho é muito atencioso, não é?  Tão gentil quanto o pai.
— O papai Marcos?
— Não... Estava falando do seu pai mesmo.
Fabinho sorriu.
— Filho, a mamãe vai passar algum tempo fora, pode ser que ela volte logo, pode ser que ela demore a voltar... Então, você tem que me prometer que vai se comportar direito e que vai esperar pela mamãe, está bem?
— Para onde a senhora vai? Eu não posso ir? – perguntou ele sério.
— Não, não quero que vá. Mas mesmo se eu demorar muito mesmo a voltar, você tem que prometer que não vai ficar muito triste, ok? Também precisa tirar boas notas na escola, ser gentil com as pessoas, obedecer aos mais velhos, viver uma vida digna. Uma vida pela qual você nunca vai se envergonhar.  E se um dia, você descobrir coisas sobre mim que não goste, quero que não sinta raiva ou ódio, não por mim, mas porque esse tipo de sentimento só faz mal, entendeu? Promete, Fabinho?
O menino balançou a cabeça quase imperceptível.
— Prometo. – disse infantilmente.
***
Ainda era cedo, mas Fabricio ajudava a limpar o ambiente da boate, enquanto Rosália coordenava alguns empregados.
— Você não precisa fazer isso. – disse ela a Fabrício.
— Não me importo. – respondeu.
Rosália permaneceu calada por um instante. Olhou para os lados, como se certificando de que ninguém prestava atenção nos dois.
— Você devia pedir ajuda a seu pai.
Fabrício virou-se de repente.
— Do que está falando?
— Andei ouvindo que seu pai é uma pessoa que tem influências... Se ele tiver contatos políticos...
—Não vou envolver meu pai nisso. No fundo, ele estava certo. – e olhando para Rosália. – Talvez, eu realmente mereça isso.
— Não. Ninguém merece essa vida. Entrar nessa máfia é a pior coisa que pode acontecer com você. Aos poucos, coisas terríveis vão se tornando normais.
— Que tipo de coisas? – perguntou Fabrício intrigado.
Rosália suspirou.
— Coisas como tráfico de drogas, tráfico humano, mortes encomendadas... E outras coisas terríveis que é melhor não saber. Coisas que faria você querer vomitar. Não queira que esse tipo de coisa se torne comum e normal para você. Esse tipo de ambiente além de te prender, tira sua humanidade. Você tem que sair.
— E por que você não sai?
Rosália sorriu um pouco triste.
— Infelizmente, não posso. Mas, para você, ainda há tempo. – e vendo que alguém a chamava. – Vou ali... Pense no que eu disse.
Fabrício achava que Rosália tinha razão, mas enquanto Fernandes estivesse o ameaçando, apenas um milagre o poderia tirar dali. De repente, sentiu que alguém entrava no recinto.
— Desculpe, ainda não abrim... – ele interrompeu, quando viu diante de si Emanuela.

SESSÃO RETRÔ - VARIEDADES - ESPECIAL - TARCÍSIO MEIRA - VIGÉSIMA PARTE

A reportagem abaixo pertence à revista Cartaz - Especial nr. 3, publicada, provavelmente, em março de 1972.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!





SESSÃO RETRÔ - NOVELAS - COMPARAÇÃO ENTRE AS DUAS VERSÕES DE SELVA DE PEDRA - SEXTA PARTE

Estamos publicando uma série de matérias a respeito das duas versões de Selva de Pedra, oriundas da revista TV Novelas, número 2, provavelmente publicada no ano de 2004. A primeira versão da novela foi apresentada pela Rede Globo no horário das 20h de 12 de abril de 1972 a 23 de janeiro de 1973. Já a segunda foi ao ar também pela Rede Globo no horário das 20h de 24 de fevereiro a 22 de agosto de 1986.
Para saber mais sobre a primeira versão, favor consultar: www.teledramaturgia.com.br/tele/selva72.asp. Se estiver interessado na segunda versão, acessar: www.teledramaturgia.com.br/tele/selva86.asp.
Nossos agradecimentos ao amigo Toni Figueira pelo envio dessas matérias.
Para ler esta ou outra matéria em tamanho maior, caso use o Explorer ou Chrome, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir link em uma nova guia". Na nova guia, clique com o botão esquerdo do mouse e, pronto, terá acesso a uma ampliação da página. Caso o navegador seja o Firefox, clique sobre a figura com o botão direito do mouse e selecione a opção "abrir em nova aba". Em seguida, proceda como no caso dos dois outros navegadores citados.
Boa leitura!