segunda-feira, 2 de setembro de 2013

WEBNOVELA - LAÇOS - CAPÍTULO 19 - PRIMEIRA PARTE - AUTORA: JULIANA SOUSA

Capitulo 19 -  Revelação

O jantar na mansão dos Alcântara ocorreu sem maiores problemas, o que surpreendeu o patriarca da família, o Dr. Otávio. Para ele, Viviane se comportara e isso o intrigava, apesar de estar visivelmente contente com isso.
As gêmeas foram para os quartos.  No entanto, Mariana querendo conversar mais com a irmã, entrou no quarto de Emanuela e deitou-se na cama de bruços, enquanto olhava para a irmã que tirava algumas roupas da mala que trouxe.
— O que você achou? – perguntou Mariana, olhando a irmã, deixando sua posição inicial e sentando-se na cama.
— Do quê?
— Da família Alcântara.
Emanuela parou o que estava fazendo e sentou-se ao lado da irmã.
— Não sei muito bem. Mas, acho que dos três filhos do seu Otávio, apenas aquele advogado, o Otávio Jr., pareceu não gostar muito da nossa presença.
— Pareceu não gostar?! – exclamou Mariana perplexa, sentando-se na cama. – Ele realmente não foi com a nossa cara! Mas tirando isso, acho que foi bem legal. A mãe da Viviane me pareceu muito simpática, o que me deixou mais à vontade e até a própria Viviane me surpreendeu... – e sorrindo – Acho que a vida aqui vai ser bem divertida!
Emanuela nunca conseguia entender a irmã.
— Fala sério, Mariana. Às vezes, eu me pergunto de onde vem tanto entusiasmo...
— E como não? – disse ela se levantando. – Você não percebe, Manu? Estamos vivendo como princesas em um castelo e temos uma família. É claro que ainda falta ser revelado que somos netas do Dr. Otávio, mas mesmo assim... Isso não te deixa feliz?
Emanuela suspirou.
— Você sempre achando que as coisas são simples.  – e sorrindo. – Mas acho que entendo um pouco o que quer dizer.
De repente, o rosto de Mariana pareceu se iluminar.
— Manu, tive uma idéia!
Emanuela pareceu preocupada.
— O que foi? – perguntou ela hesitante.
Mariana fez um gesto com a mão espalmada para pedir à irmã um minuto. Foi até a porta do quarto, abriu-a e olhou para o corredor, depois a fechou novamente.
— Que tal um passeio pela mansão?
Emanuela não acreditava no que estava ouvindo.
— Mariana, quantos anos você tem? Não estamos mais na fase de aventuras. Além disso, acabamos de chegar a essa casa. Você quer que mais pessoas nos detestem?
— Do que você tem medo? Se alguém nos ver, é só dizer que não temos sono, ou sei lá, inventar uma desculpa qualquer.
— Nem pensar. – objetou Emanuela.
— Por favor... Por favor... – pediu Mariana, olhando para a irmã, tentando convencê-la sem êxito.  — Então, eu vou sem você mesmo! – disse, enquanto saía.
Emanuela não sabia o que fazer. De repente, percebeu que se deixasse Mariana sozinha, talvez ela entrasse em alguns problemas. Saiu para o corredor, mas não encontrou ninguém.
“Mariana, por que você se comporta assim?” – pensou, enquanto saía à procura da irmã.
Mariana desceu rapidamente as escadas. Pelo que conhecia da irmã, em poucos minutos, ela estaria ali, fazendo-a voltar para o quarto. Apesar de ter a idade que tinha, odiava ter que se comportar como adulta o tempo todo.
“Detesto esse mundo de padrões” – pensou consigo mesma, enquanto terminava de descer às escadas. - “Aonde eu vou primeiro?” – perguntou a si mesma, olhando para os lados.
De frente à escada estava a sala principal da mansão, que estava apenas iluminada por uma luz fraca de um abajur. Mariana se deteve, olhando para ela e pensou que não tinha notado o quanto ela era grande. Cheia de decorações, sofás, poltronas acolchoadas, tapetes e quadros de pintores pós-modernistas. Mariana andou até lá. A parede do lado oposto à escada, a alguns metros, era coberta por enormes cortinas que pela aparência pareciam ser muito caras. Na parede do lado esquerdo, parecia haver uma porta de correr feita de madeira e ao lado dessa porta, na parede paralela à parede de cortinas, havia outra porta um pouco menor.
Mariana se dirigiu até a porta de correr e a abriu com um som quase inaudível. O que viu a surpreendeu. Era um imenso salão onde, quase no centro, havia um piano. No teto, havia lindos lustres e nas paredes, cortinas luxuosas.
— Isso deve ser um salão de festas. – disse para si mesma, enquanto fechava a porta novamente e voltava à sala principal.
Ainda na sala, no outro lado, havia a porta que dava para a sala de jantar já conhecida por Mariana. Ela entrou na sala de jantar que também era tão grande como todos os cômodos daquela sala. No fundo da sala de jantar, havia uma porta que levava a um corredor tão largo que quase não poderia ser chamado de corredor
 “Nossa, como é linda. Como eu não tinha percebido?” – pensou.
Ela passou pela sala e entrou no corredor que dava para a cozinha. Mariana pensou que não mais se surpreenderia, mas estava enganada. A cozinha era bastante luxuosa, no entanto, era um luxo sem exageros. Em um canto da cozinha havia um pequeno bar. 
— Você não deveria estar dormindo? – perguntou alguém, saindo da penumbra do bar com um copo de bebida.
Mariana quase caiu do susto que teve, fazendo rir a pessoa que se aproximava.
— Por que se assustou assim? Estava fazendo algo errado?
Era Érica. Mariana a reconhecera.
— E-eu só estava...
— Não precisa me explicar, afinal você tem mais direito do que eu de ficar nessa casa... Eu sou uma parente muito distante, enquanto que você e sua irmã são netas do Dr. Otávio. – disse ela, se aproximando um pouco tonta. E como que percebendo que falara demais. – Digo, netas adotivas... Você me entendeu...
Mariana olhou para Érica intrigada e logo compreendeu que ela estava um pouco bêbada. Ela se aproximou mais de Mariana e olhou bem para ela.
— De fato, você se parece muito com... – disse, mas, de repente, foi como se recobrasse a consciência.
— Pareço com quem? – perguntou ela curiosa.
— Nada. – ela disse, logo depois, comprimindo a mão contra o estômago. – Maldita dor.
De repente, Érica pareceu se desequilibrar, Mariana conseguiu segurá-la a tempo.
— Obrigada. – disse ela. – Você é muito gentil, nem se compara à sua irmã. – bebeu o resto do líquido no copo. – Acho que preciso dormir um pouco.
Mariana pegou o copo e o colocou em cima de uma mesa, enquanto ajudava Érica a ir para o quarto.
— Onde fica o seu quarto?
— Suba a escada, à direita.
Mariana se surpreendeu.
— No mesmo corredor onde fica o meu quarto? – e dizendo como para si mesma - Mas eu acho que Viviane não chegou a mencionar isso.
Érica riu.
— Eu disse que você era mais gentil que ela. Viviane ignora totalmente as pessoas quando ela quer.
Mariana percebeu que o quarto de Érica era ao lado do dela. Logo que Érica entrou no quarto, olhou para Mariana.
— Desculpe, mas como é mesmo o seu nome?
— Mariana.
— Obrigada, querida. – disse, enquanto fechava a porta.
Mariana ficou no corredor, pensativa.
“Estranho... Pensei que o Dr. Otávio estava mantendo em segredo o fato de que somos netas dele para toda a família... Mas pelo que vejo, parece que todos já sabem.”
Depois, olhou o quarto da irmã. Emanuela não estava. Mariana pensou em esperar pela irmã, mas estava com muito sono, então foi ao seu quarto dormir.
***
Emanuela desceu as escadas. Olhou para frente e viu a sala principal. No entanto, sem saber, tomou o caminho inverso de Mariana. Ao invés de seguir em frente para a sala principal, saiu para o lado direito e entrou em um pequeno corredor. Logo, quando saiu do corredor, ela chegou a uma pequena sala. Na esquina à esquerda, bem próxima a ela, havia uma porta com o nome “Biblioteca” e ainda à esquerda, um pouco mais a frente na pequena sala, enormes janelas e suntuosas cortinas. Bem a sua frente e do lado oposto à biblioteca, havia outra porta. Emanuela se aproximou e verificou que estava trancada.
“Deve ser algum escritório” – pensou.
À direita dessa saleta, do lado oposto às janelas, havia um elevador e bem ao lado uma escada que dava para o segundo andar.
Ela pensou que a irmã não teria a ousadia de ir para o segundo andar. Hesitou por um instante e abriu a porta da biblioteca, o que a surpreendeu bastante. A biblioteca era bem iluminada e havia muitas estantes abarrotadas de livros.
Emanuela não fazia ideia que aquela biblioteca pudesse ser tão grande. Sempre pensara que as bibliotecas pessoais eram bem menores. De repente, ela percebeu que alguém se aproximou, o que a assustou. Ela olhou e percebeu que era Viviane.
— O que está fazendo aqui? – perguntou Viviane, tentando esconder um papel que estavas nas mãos.
— Estava sem sono. – respondeu Emanuela, pegando emprestada a desculpa de sua irmã.
— Ah, claro... – disse, se dirigindo à porta. – Boa noite, então. - e parando – Vocês já se acham donas de tudo, não é? Andando por aí, quando mal chegaram nessa casa.
— Me desculpe... – disse Emanuela, sentindo-se envergonhada.
Viviane virou-se e olhou para Emanuela.
— Não pense que vou cair nesse seu teatrinho... Estou entrando no jogo de vocês para não preocupar meu avô. Mas, mais cedo ou mais tarde, vou desmascarar vocês duas. Porque para mim, isso tudo foi planejado por vocês. – disse, saindo.
Emanuela ficou parada durante um tempo, tentando descobrir do que realmente ela estava falando.
“Eu sabia que não era tão simples.” – pensou, mas seus pensamentos se dissiparam ao olhar para aquela quantidade imensa de livros.
Emanuela se deteve olhando para aquela quantidade de livros. Havia livros de literatura brasileira, americana, inglesa... E outros assuntos, dentre eles Medicina. Emanuela não soube quanto tempo permaneceu ali até que um bocejo a fez olhar para o relógio.
— Meia-noite! – disse. “Preciso ir dormir!” – pensou, enquanto saía às pressas da biblioteca.
Ao voltar para os quartos, tentou abrir o quarto da irmã, mas estava trancado. Concluiu que Mariana já tinha voltado e que estava dormindo.
***
Mariana e Emanuela acordaram cedo. Gabriele pediu para que a governanta Sônia as chamasse para que tomassem seu café da manhã. As duas desceram e foram para a sala de jantar onde havia diversos tipos de comida. Mariana, no começo, pareceu um pouco constrangida em comer ali junto com Gabriele e Viviane, mas depois esqueceu e parecia se deliciar com tudo.
— Nossa! Esse bolo de batata está maravilhoso! – elogiou Mariana. – Quem foi que fez? Foi a senhora, Dona Gabriele?
Gabriele sorriu.
— Infelizmente, não tenho o dote culinário. Foi a nossa Ane. Ela cozinha para a família desde que Viviane ainda era muito pequenininha.
— E esse bolo de chocolate? Está com uma cara maravilhosa!
Gabriele riu.
— Você fica empolgada como o Fabinho.
— E onde ele está? – perguntou Mariana empolgada, pois gostava muito de crianças.
— Foi para a escola. Como ele estava se transferindo, só hoje pode ir.
Mariana fez um muxoxo.
— Que pena. Pensei que podia brincar um pouco com ele.
Emanuela, que estava em silêncio, resolveu se intrometer na conversa.
—Você fala como se o garoto fosse um brinquedo. Quantos anos você tem?
Gabriele sorriu, divertindo-se, mas seu sorriso se desvaneceu quando olhou para a filha que também estava tomando o seu café da manhã em silêncio junto com as duas.
Viviane, de repente, se levantou.
— Não vai comer mais nada, filha? – perguntou preocupada. – Você comeu tão pouco.
— Não estou com muita fome... – disse, saindo, mas logo depois parou e virou-se, olhando diretamente para Emanuela. – Ah, ia esquecendo. Emanuela, o vovô quer falar com você. Ele disse que está esperando no escritório. Fica em frente à biblioteca... Ah, eu não preciso dizer onde é, afinal você já deve ter dado uma conferida na casa, não é? – concluiu, saindo.
— Estranho... – comentou Mariana assim que Viviane saiu.
— O que seria estranho? – perguntou Gabriele curiosa.
— Nós somos gêmeas idênticas e usamos até o mesmo estilo de cabelo. Até quem nos conhece há muito tempo hesita um pouco, quando chama uma de nós, mas Viviane é uma das poucas pessoas a nos diferenciar em tão pouco tempo. E é porque não falamos o nosso nome uma só vez, quando conversamos aqui.
— Com a sua personalidade fica difícil sermos confundidas. – comentou Emanuela.
— Olha quem fala. – Mariana alfinetou a irmã.
Gabriele sorriu, se divertindo com as duas. Pensou que talvez Viviane pudesse mudar um pouco com a influência das garotas.
***
Logo depois do café, Emanuela se dirigiu para o escritório do Dr. Otávio, enquanto Mariana conversava com o pai que estava no jardim. Os outros membros da família saíram, com exceção de Érica, que continuava no quarto.
Emanuela bateu na porta e abriu-a, quando obteve permissão para entrar. Ao entrar, percebeu que o Dr. Otávio olhava pela janela que ficava próximo a sua poltrona.
— O que o senhor queria falar comigo?
Otávio virou-se e sorriu, sentando-se logo em seguida.
— Só queria saber como vocês estão se sentindo... Quer dizer, vocês se sentem confortáveis? Querem que eu faça alguma coisa? Se tiverem algum problema, não hesitem em me procurar.
— Está tudo bem, Dr. Otávio. Não precisa se preocupar.
— E onde está sua irmã?
— Foi falar com Rogério. Aquela lá já estava com saudades do pai. – e pensativa. – Se bem que talvez agora, ela já esteja na biblioteca, estudando.
— Estudando? – perguntou ele curioso.
— Sim. Mariana tem estudado bastante desde o ano passado para passar em Medicina. É o sonho dela.
Otávio parecia surpreso.
— Medicina? Que ótimo. Viviane também faz medicina. – de repente, seu rosto pareceu se iluminar. – Será que a sua irmã aceitaria fazer uma prova na faculdade onde Viviane estuda? Posso agendar para ela.
— O senhor faria isso? – disse contente. – Com certeza, ela vai ficar muito feliz. Mas eu acho que é melhor falar com ela primeiro.
— Claro. – disse com o olhar vago, mas parecendo realmente alegre. – E você? – olhou para Emanuela. – Que faculdade pretende fazer? Posso agendar uma prova para você também.
Emanuela ficou um pouco séria.
— Na verdade, eu não sei ainda...
Otávio sorriu compreensivo.
— Não tem problema. Assim que você se decidir, por favor, me diga para que eu possa falar com o Diretor da faculdade.
— Sim, Dr. Otávio. Mas há outra coisa sobre a qual eu gostaria de falar...
— O quê?
— Eu disse ao senhor que uma das condições para eu ficar nessa casa era fazer algo. Afinal, eu e minha irmã somos completamente estranhas nessa casa. Não quero que os seus familiares pensem que estamos aqui para tirar vantagem do senhor.
Otávio pareceu um pouco pensativo.
— Emanuela, o fato é que... – disse ele um pouco hesitante.
— O quê?
— Bem, sim... Eu providenciarei para que faça algo, se é assim que deseja. O que acha de trabalhar como aprendiz na parte administrativa do Grupo?
— Sim, claro. – disse Emanuela sorrindo - Muito obrigada, Dr. Otávio.
Otávio sorriu.
— Não precisa me agradecer. Quanto à prova de Mariana, assim que ela estiver pronta é só falar comigo.
— Sim, vou avisar a ela.
***
A aula Anatomia II tinha acabado de começar, mas por mais que o professor falasse, Vivi não conseguia se concentrar. De repente, ouviu alguém falando com ela. Era o professor que perguntava algo.
— Não vai me responder, Viviane? – perguntou o professor um pouco descontente.
— O que, professor? – perguntou Vivi, como que acordando.
A turma riu. O professor parecia irritado.
— Viviane Alcântara, você confia muito no seu sobrenome, não é?
Viviane não soube responder.
— Felizmente, essa universidade não foi fundada por um brasileiro. Aqui todos são tratados por igual. Então, senhorita Alcântara, eu gostaria de lhe avisar que você poderá ser reprovada como qualquer outro. Você me entendeu?
— Claro, professor. – respondeu ela. - “É sempre a mesma conversa...” – pensou.
 A primeira e a segunda aulas terminaram, para alívio de Viviane que poderia aproveitar o intervalo.
Verônica a encontrou pensativa, sentada no refeitório da faculdade.
— Viviane? – perguntou, passando a mão em frente à amiga como que tentando acordá-la.
Viviane olhou para Verônica.
— Verô! Como você vai? Está bem?
Verônica olhou surpresa para Vivi.
— Primeiro, você sabe que eu detesto esse apelido, mas por causa de alguma lapso na sua memória, você deve ter esquecido. Segundo, não era eu que devia perguntar se você está bem?
— Era?
Verônica suspirou, mas depois a sua expressão pareceu mudar de repente.
— Viviane, o Fabrício comprou um apartamento novo. Você não quer ir comigo? Vai ser depois da aula...
— Desculpa, Verô... – e sob o olhar ameaçador da amiga – Digo, Verônica... – disse. – Eu não estou com o humor muito legal. Depois eu visito o Fabrício, pode ser?
— Claro. – respondeu Verônica desanimada. – Você não deve mesmo estar legal... Sempre quando começa a inventar apelidos é porque a situação está ruim. Mas o que houve?
Viviane parecia distante.
— Não foi nada...
— Ok, então... - “O que deu nela?” – pensou.
Viviane saiu da faculdade. Não estava com a menor vontade de estudar naquele dia. Havia muitos pensamentos em sua cabeça. Pegou o celular para chamar o motorista particular, mas desistiu da ideia. Resolveu caminhar um pouco até a entrada do campus. Foi seguindo pela calçada na rua e passando pelos diversos núcleos da universidade - Ciências Humanas, Sociais, Exatas... O campus era realmente grande, como pensou em seguida. Alguns carros passavam e até mesmo o ônibus da universidade, mas Viviane não prestava atenção a eles. O seu pensamento estava distante. No entanto, como que automaticamente, começou a atravessar a rua e, de repente, percebeu que um carro vinha em alta velocidade. Não havia tempo de correr. Viviane ficou paralisada, enquanto o carro se aproximava rápido. De repente, alguém puxou Viviane e o carro passou, buzinando alto, enquanto o motorista soltava alguns palavrões.
— Você está bem? – perguntou a pessoa que havia puxado Viviane. – Tem alunos que não sabem que estão em um campus e correm feito loucos.
Viviane olhou para a pessoa e teve um sobressalto. Era Gabriel.
— Você está bem? Se machucou em algum lugar?  – perguntou ele preocupado.
— S-Sim. Quer dizer. – disse, baixando os olhos. – Quem estou tentando enganar. Eu não estou nada bem... – falou, enquanto limpava algumas lágrimas que corriam no rosto.
Gabriel parecia meio desconcertado.
— Você está chorando? É melhor irmos ao hospital? – perguntou ele sem saber o que fazer.
— Não preciso de hospital. – disse ela, enxugando as lágrimas, enquanto voltava a caminhar, ignorando o rapaz.
Gabriel a pegou pelo braço.
— Você não está bem. Do jeito que está pode ser atropelada e não quero me sentir culpado por isso. Venha. – disse, pegando-a pelo braço.
Os dois caminharam um pouco e entraram em um carro que estava próximo. Gabriel dirigiu para fora do campus.
— Você quer que eu te deixe em casa? – perguntou Gabriel, enquanto dirigia.
— Não.
— Tem um lugar que eu sempre vou quando tenho alguns problemas... – disse ele, enquanto olhava a expressão perdida de Viviane.
— Me leve para lá. – disse ela quase mecanicamente.
Gabriel dirigiu. Enquanto dirigia, algumas vezes olhava para Viviane. Nunca vira aquela garota naquele estado. Ela parecia completamente perdida. Não lembrava nem de longe aquela menina encrenqueira e cheia de energia que sempre encontrava rindo e conversando com a amiga. Por alguma razão, ele também se sentiu triste.
O carro parou e Viviane percebeu que o lugar que Gabriel falara: uma grande praça bem arborizada junto a um lago. Os dois desceram do carro e caminharam pela praça. Gabriel sentou-se em um banco e indicou que Viviane se sentasse também.
— Eu sempre gostei de praças como essas... – disse ele, olhando para Vivi que se sentara e depois para a praça. – Aqui você pode ver todo tipo de pessoa.
Viviane permaneceu calada.
— Está vendo aquele homem lá? – disse ele, olhando um homem que apanhava algumas latinhas de um cesto de lixo. – Quando eu olho para ele, eu percebo que os meus problemas comparados com os deles não são nada... Muitas vezes, eu me preocupo com coisas tão insignificantes, mas eu não tenho ideia do que é se preocupar com o que vou comer amanhã ou coisas do tipo.
Viviane continuou calada.
— Então, seja qual for o seu problema...
— Estou cansada desses tipos de discursos. – interrompeu Viviane e, em seguida, olhando para ele. - Você é como todos os outros, não é? Na sua cabeça, eu sou apenas uma patricinha, cujos problemas se resumem ao que vou vestir amanhã ou o que vou comprar. E não diferente dos professores e colegas que acham que só quero me exibir e aproveitar o nome da família para conseguir as coisas de forma mais fácil, dizendo que os problemas daquele homem são piores que os meus... Como pode saber disso? Você nem sequer sabe o que estou pensando.
Gabriel percebeu que a antiga Viviane havia voltado.
— O que está pensando? Me diga exatamente o que está pensando. Assim quem sabe eu posso ter uma impressão diferente de você.
— O que estou pensando? Estou me perguntando o que deu na minha cabeça para vir até aqui com você. Agradeço por ter salvado a minha vida. Se quiser uma recompensa, é só me dizer que eu deposito o dinheiro na sua conta. Ah, esqueci... Você já tem muito dinheiro. Então, o que eu deveria...
Sem que Viviane terminasse de falar, Gabriel a beijou. Viviane ficou sem reação por alguns segundos.
— Por que fez isso?
— Já que eu já tenho muito dinheiro, essa é a minha recompensa. Estamos quites agora.
— Eu poderia lhe processar por isso, mas não farei isso porque... Porque não estou com cabeça para esse tipo de coisa no momento.
Viviane levantou-se e olhou para Gabriel como que esperando por algo.
— E, então? Não vai me levar até o carro?
Gabriel riu-se.
— E por que eu faria isso?
— Ok, se não quer fazer, não tem problema. Posso esperar por meu motorista na estrada. – disse, saindo.
Por alguns minutos, Gabriel a observou, até que resolveu acompanhá-la de longe. Afinal, ele a havia trazido até ali. Enquanto caminhava, pode observar o quanto Viviane ficava assustava sempre que algum estranho passava perto dela. De repente, lembrou-se de como Verônica havia lhe dito que Viviane poderia ficar facilmente com medo de estar sendo seguida. Apressou um pouco os passos, se aproximando mais e tocou no ombro de Viviane. A garota virou-se assustada.
— Ah, é você... – disse, tentando respirar fundo.
— Pensou que era quem? – perguntou ele.
— Ninguém. Por que está aqui?
— Vou lhe acompanhar até a rua onde seu motorista vai vir.
— Não é como se eu tivesse pedindo para você fazer isso. – disse Viviane, visivelmente mais tranquila.
Gabriel riu-se.
— Do que está rindo? O que é tão engraçado?
— Nada. Não estou rindo de nada.
***

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