quinta-feira, 29 de junho de 2017

SESSÃO LEITURA - SERÁS MINISTRO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O texto abaixo é de autoria de Carlos Drummond de Andrade.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://www.ebiografia.com/carlos_drummond/.
Boa leitura!

SERÁS MINISTRO

- Esse vai ser ministro - sentenciou o pai, logo que o garoto nasceu.
- E você, com esse ordenado micho de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro? - duvidou a mãe.
- Então, só porque meu ordenado é micho ele não pode ser ministro? A Rádio Nacional deu que Abraão Lincoln trabalhava de cortar lenha no mato, e chegou a presidente dos Estados Unidos.
- Isso foi nos Estados Unidos.
- E daí? Nem eu estou querendo tanto pra ele. Só quero uma de Ministro.
- Tonzinho, deixa isso pra lá.
- Pra começar, a gente convida o Ministro pra padrinho dele.
- O Ministro não vai aceitar.
- Não vai por quê? Trabalho no gabinete há dois anos.
- Ele é muito importante, filho.
- Por isso mesmo. Com padrinho importante, o garotinho começa logo a ser importante.
- O Ministro é tão ocupado, você mesmo diz. Vê lá se tem tempo pra batizar filho de pobre.
- Pois sim. Ele me trata com toda a consideração, de igual pra igual. Hoje mesmo eu faço o convite.
Fez. O Ministro não pôde comparecer, mas enviou representante. Era quase a mesma coisa. Na hora de dizer o nome do menino, o pai não vacilou; disse bem sonoro:
- Ministro.
- Como? - estranhou o padre.
- Ministro, sim senhor.
A mulher ia atalhar: "Tonzinho, não foi Antônio de Fátima que a gente combinou?" mas era tarde.
No cartório, também estranharam:
- Ministro por quê?
- Porque eu escolhi. Acho lindo.
- Não é nome próprio.
- Pois eu cá acho muito próprio. Não tem aí uma família chamada Ministério, aliás com pessoas distintas, médicos, dentistas, etc.?
- Tem.
- Pois então. Meu filho é Ministro, só isso. Ministro Alves da Silva, futuro cidadão útil à Pátria. Tem alguma coisa demais?
O garoto registrou-se. Cresceu. Na escola, a princípio achavam-lhe graça no nome. Parecia apelido.
Depois, o costume. Há nomes mais estranhos. Ministro não era o primeiro da classe, também não foi dos últimos.
Já moço, o leque das opções não se abriu para ele. Entre o ofício sem brilho e o andar térreo da burocracia, acabou sendo, como o pai, servente de repartição. Promovido a contínuo.
- Eu não disse? - festejou o pai. - Começou a subir.
O máximo que subiu foi trabalhar no gabinete do Ministro.
- Ministro, o Sr. Ministro está chamando.
- Ministro, já providenciou o cafezinho do Sr. Ministro?
- Sabe quem telefonou pra você, Ministro? A senhora do Sr. Ministro. Diz que você prometeu ir lá consertar umas goteiras e esqueceu.
- Ministro! Roncando na hora do expediente?!
Começaram os equívocos:
- Telefonema para o Ministro.
- Qual? O Ministro ou o Sr. Ministro? - Este Ministro é um cretino! Me fez esperar uma hora nesta poltrona!
- Perdão, Deputado, o senhor está ofendendo o Sr. Ministro.
- Eu? Eu? Estou me referindo a esse animal, esse...
Até que se apurasse que o animal era Ministro, o contínuo - que confusão!
O Ministro de Estado, ciente da confusão, recomendou ao assessor:
- Faça esse homem trocar de nome.
- Impossível, Sr. Ministro. É o seu título de honra.
- Então suma com ele da minha vista.
Mandaram-no para uma vaga repartição de vago departamento. Queixou-se ao pai, aposentado, que isso de se chamar Ministro não conduz a grandes coisas e pode até atrasar a vida.
- Ora, meu filho, hoje no bueiro, amanhã no Pão de Açúcar. E você não tem de que se queixar.
Num momento em que tanta gente importante sua a camisa pra ser Ministro, e fica olhando pro céu pra ver se baixa um signo do astral, você já é, você sempre foi Ministro, de nascença! de direito! E não depende de governo nenhum pra continuar a ser, até a morte!
Abraçaram-se, chorando.

2 comentários:

  1. Gostei muito da história do Ministro. Um ótimo texto de Carlos Drummond de Andrade, como sempre!

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  2. Muito boa a crônica e engraçada!

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