O texto abaixo é de autoria de José Carlos de Oliveira.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Carlos_Oliveira.
Boa leitura!
A ARTE DE ANDAR
Há duas formas de andar: com o espírito claro e
com o espírito enfermo. Já andei neurótico;
marchava quilômetros e quilômetros como a fugir
dos sentimentos e pensamentos que então me
perturbavam, mas eles me seguiam, me
arranhavam, escureciam meus olhos. Agora, não;
agora ando claro, é um exercício, uma medida de
higiene. Primeiro sob as amendoeiras, no Posto 6,
onde os banhistas jogam vôlei e os pescadores
arrumam suas redes. Depois, ao longo da avenida
Nossa Senhora de Copacabana, principalmente
num sábado pela manhã, quando centenas de
mulheres de todas as idades percorrem as lojas, os
mercados, as feiras, em grupos ou sozinhas. Entro
numa sapataria onde há uma botina que me
agrada, mas o estabelecimento anuncia uma
liquidação. Impossível fazer o meu pequeno
negócio naquela confusão de comerciários que
abrem as caixas, e de crianças que experimentam
sandálias, e mocinhas que entregam o pé ao rapaz
agachado... Mais parece uma festa, e todos estão
felizes – os vendedores porque estão vendendo
mais do que habitualmente, as compradoras
porque imaginam estar comprando abaixo do preço, o gerente porque os lucros serão mais que razoáveis: Há nas liquidações uma lei segundo
a qual as mulheres é que se sentirão estimuladas a
comprar; as mulheres se sentem bem em
multidões femininas, interesseiras, enquanto os
homens, creio eu, só se amontoam em estádios ou
bares, lugares em que não há problemas de oferta
e procura.
Reconheço que as feiras-livres criam uma série de
problemas desnecessários e provocam um
desgaste nervoso nos cidadãos já mais do que
estraçalhados pelas distâncias engarrafadas, os
ônibus superlotados, os buracos que se
multiplicam, a falta de dinheiro, a guerra do
Vietnã... Mas é bastante agradável andar pelo
interior de uma feira-livre, apreciando os gêneros
expostos nas barracas, ouvindo os mais diversos
comentários, discernindo pequeninos dramas
familiares e sociais no comportamento da
madame com relação à pretinha encarregada de
puxar o carro do bebê, flagrando um pivete no ato
de contemplação amorosa de uma bolsa esquecida
aberta no braço da mocinha generosamente
delineada por uma calça Lee... As mulheres são
belas ao meio-dia de sábado, antes que os
cabeleireiros transformem suas jovens cabeças
em esculturas grotescas. Saem sem pintura, com
roupas modestas, sandálias abertas, e em cada
rosto se desenha aquela curiosidade intensa,
ardente, quase sexual, que empolga as mulheres
em face de um artigo a ser comprado. Elas estão
mais perto da realidade do que nós, machos
abstratos e longínquos; elas olham o tomate de
igual para igual, mantendo-se ao nível da percepção verdadeira, de que nós homens temos nostalgia.
Quilômetros e quilômetros de andança alegre e
atenta. Volto para casa cansado e enriquecido de
sensações.
Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/20855/a-arte-de-andar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário