quinta-feira, 28 de junho de 2012

SESSÃO LEITURA - AS BARBAS DO ROMUALDO (CONTO QUE NÃO É CONTO) - ARTUR AZEVEDO

O conto que reproduzimos abaixo é da autoria de Artur Azevedo.
Para maiores informações sobre o autor, favor acessar: http://contosbrasileiros.blogspot.com.br/2007/12/artur-azevedo.html.
Boa leitura!

AS BARBAS DO ROMUALDO (CONTO QUE NÃO É CONTO)

O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria.
Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos.
Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do "povo da lira". Calado era um juiz; falando, um capadócio.
Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à. eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário.
Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria.
O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno.
Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem:
— Pois sim!... toca p'r'aí!... súcia de vadios!... não têm mais que fazer senão dar ao badalo!...
— Tlin! tlin! tlin!...
— Toca, toca, meu menino!... estou bem aqui!...
Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente... e impaciente:
— Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar!
O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas:
— Que temos?
Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação!
O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo.
Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem.
Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoíces, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas.
Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão?
Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo.
Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático.
Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone.
No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa.
O caso conto como o caso foi.
O ministro andava, não sei por que, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta.
Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa.
Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira.
— O ministro está?
— Está, sim, senhor.
— Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência.
O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe:
— Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente.
O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu:
— Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole!
O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário:
— O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece.
O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando:
— Pois diga-lhe que vá para o diabo que o carregue!
O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou:
— O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria.
Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

SESSÃO ABERTURA DE NOVELA - O REBU

O Rebu foi apresentada pela Rede Globo, no horário das 22 h, de 4 de novembro de 1974 a 11 de abril de 1975.
Para maiores informações sobre a novela, favor acessar: www.teledramaturgia.com.br/tele/rebu.asp.
O tema de abertura era O Rebu, interpretado pela Orquestra Som Livre.
Boa diversão!


quarta-feira, 27 de junho de 2012

SESSÃO SAUDADE - JANETE CLAIR

Dizem alguns que as telenovelas andam mais pobres ultimamente. Somos obrigados a concordar. Há uma mesmice pairando no ar já faz muito tempo. Julgamos que essa mesmice embora se deva em parte à falta de imaginação dos autores atuais, deve-se também à perda de grandes nomes do passado, que sabiam como ninguém lidar com as emoções do público, nomes como o de Dias Gomes, Ivani Ribeiro e da nossa homenageada de hoje, Janete Clair.
Lendária autora de grandes sucessos como Irmãos Coragem, Selva de Pedra e Pai Herói, dentre outros, Janete escreveu num tempo em que um autor não precisava de um batalhão de assistentes e nem utilizava modernos computadores, valendo-se apenas de sua imaginação e de uma máquina de escrever manual. Romântico, dirão alguns, mas pouco realista com a situação atual, que é diferente. Pode ser, mas eram tempos em que o autor se preocupava em contar uma história e não em ficar levantando bandeiras de causas sociais ou de qualquer espécie. Uma boa novela deve sim discutir causas sociais e outros assuntos, mas não pode deixar de ter uma boa história. É essa lição que tiramos dos escritos de Janete e que muitos autores de hoje, intelectualóides de papelão, não compreendem.
Para saber mais sobre a autora, favor consultar: http://www.museudatv.com.br/biografias/Janete%20Clair.htm.
Com o objetivo de homenageá-la, selecionamos dois vídeos. O primeiro é uma homenagem a ela feita no último capítulo de Eu Prometo, sua última novela e que não chegou a completar. O segundo mostra seus principais sucessos na TV.
Salve, Janete! Nossa saudade continua!
Que descanse em paz e obrigado pelos momentos mágicos que nos proporcionou!

PRIMEIRO VÍDEO

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=U4zmKo24EDQ

SEGUNDO VÍDEO


Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=l0Tmd-yaqDc

ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU - CAPÍTULO 64 - AUTOR: TONI FIGUEIRA

Novela de Antonio Figueira
Inspirada na Obra de Dias Gomes



Fonte: http://youtu.be/zIuryHGvAVc

CAPÍTULO 64
 Personagens deste capítulo:
VÍTOR
HELÔ
SUSI
ARAKEN
RENATÃO
SAMUCA
CELSO BARROSO
BABI
KONSTANTÓPULUS
MISS JULY
LÍDIA
ELISA

CENA  1  -  IPANEMA  -  PRÉDIO DO APARTAMENTO DE SUSI  -  FRENTE -  EXT.   -  NOITE. 
Continuação Imediata da Última Cena do Capítulo Anterior.

SUSI  -  Está bem. Eu conto. Vou fazer isso porque você é um cara bacana e não merece a sujeirada que armaram pra você, Vítor. Quem me mandou foi o Renatão! Renato Itararé de Souza.

VÍTOR  -  (murmurou, pasmo) Renatão!...

SUSI  -  Mas não pense que é ele a pessoa que você procura. Essa pessoa se chama Carlos Eduardo Oliveira Ramos, seu sogro! O pai de sua querida Helô! Ele queria calar sua boca. E sabe por que? Porque sua Helozinha está cada vez mais encrencada!

 
VÍTOR  -  Foi o Oliveira, então, E Helô... ela... sabia?

SUSI  -  Tá na cara que sabia.

VÍTOR  -  Ela foi me buscar na prisão...

SUSI  -  Lógico. Deve ter combinado tudo com o pai. Ele, inclusive, botou advogado pra lhe defender. São todos uns nojentos! Você viu o que eles fizeram comigo, não viu? Oliveira me desrespeitou, levando pra dentro de casa a ex-mulher e, pràticamente, me expulsou de lá e...

VÍTOR  -  (cortou, sensato) Nós sabemos que não foi bem assim, Susi. Dona Elisa é uma mulher doente e eles só queriam ajudá-la. E você saiu porque quis; ninguém a mandou embora.

SUSI  -  (exaltada) Eles te botaram na cadeia, e você ainda os defende?

VÍTOR  -  (desconversou) Isso não vem ao caso, agora. Muito obrigado pela ajuda, Susi. Boa noite.

SUSI DEU-LHE AS COSTAS E ENTROU NO PRÉDIO. VÍTOR ENCAMINHOU-SE PARA O CARRO DE ARAKEN, QUE O AGUARDAVA.

CORTA PARA:

CENA 2  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  QUARTO DE ELISA  -  INT.  -  NOITE.

LÍDIA APROXIMOU-SE DA CAMA E CERTIFICOU-SE DE QUE ELISA DORMIA PROFUNDAMENTE. EM SEGUIDA, ABRIU A PORTA COM CUIDADO E, SEM FAZER RUÍDO, GANHOU O CORREDOR.

CORTA PARA:


CENA  3  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  CORREDOR  -  INT.  -  NOITE.

LÍDIA DEU ALGUNS PASSOS EM DIREÇÃO AO QUARTO DE HELÔ, OLHOU PARA OS LADOS E GIROU A MAÇANETA DA PORTA. NESTE MOMENTO UMA VOZ A FEZ VOLTAR-SE, MAL DISFARÇANDO O SUSTO.

MISS JULY  -  (surpresa) Lídia! O que está fazendo? Este é o quarto de Helô!

LÍDIA  -  (fingiu desatenção) Oh... é mesmo! Que cabeça, a minha... Perdoe, Miss July... o de Dona Elisa é o do lado... É que este apartamento é tão grande... ainda não me acostumei...

MISS JULY  -  (sorriu, simpática) Que isso, não precisa se desculpar! Logo se acostuma. Estou um pouco cansada, vou me deitar. Se precisar de mim, meu quarto é o último do corredor. Boa noite.

LÍDIA  -  Boa noite, Miss July. Vou beber um copo d’água e também vou me recolher. O Doutor Oliveira já foi dormir?

MISS JULY  -  Não. Doutor Oliveira foi a um jantar de negócios. Volta mais tarde.

LÍDIA  -  Ah... claro. Boa noite, Miss July.

MISS JULY OLHOU-A COM UMA PONTA DE DESCONFIANÇA, ENQUANTO LÍDIA DIRIGIA-SE PARA A COPA.

MISS JULY  -  (desconfiada) Parecia meio nervosa... Que estranho!... 

CORTA PARA:

CENA 4  -  APARTAMENTO DE RENATÃO  -  SALA  -  INT.  -  NOITE.

POR VOLTA DE MEIA-NOITE, RENATÃO, BABI E SAMUCA CHEGARAM AO APARTAMENTO, LIGEIRAMENTE “TOCADOS”, APÓS ALGUMAS DOSES DE UÍSQUE COM AMIGOS NO CASTELINHO.   SEM   SE IMPORTAR   COM  A  PRESENÇA DO AMIGO, O PLAYBOY TOMOU A JOVEM NOS BRAÇOS E BEIJOU-A, SÔFREGAMENTE.

SAMUCA  -  (deixou-se cair no divã e protestou) Ei! Vão devagar com a louça, eu tou aqui!...

RENATÃO  -  Pois então, meu amigo, tá na hora de “cantar pra subir”! Vai pro seu quarto, vai!

SAMUCA ERGUEU-SE COM DIFICULDADE E ENCAMINHOU-SE PARA O CORREDOR.

SAMUCA  -  Você manda, meu velho! Como diz aquele ditado... (parou no meio da sala e ergueu o dedo indicador, como em um discurso) “os verdadeiros amigos são aqueles que aparecem e desaparecem na hora certa”!

DITO ISTO, SAMUCA GANHOU O CORREDOR.

RENATÃO  -  Só o Samuca mesmo... a essa altura do campeonato, vir com sua velha filosofia de almanaque! (pegou Babi pela mão e puxou-a para o quarto) Vem, meu amor. Vem...

BABI SEGUIU-O. ENTRARAM NO QUARTO, COM RENATÃO BEIJANDO-LHE O PESCOÇO.

CORTA PARA:

CENA  5  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  QUARTO DE OLIVEIRA  -  INT.  -  NOITE.

LENTAMENTE, A MAÇANETA GIROU E A PORTA ABRIU-SE, DANDO PASSAGEM A LÍDIA, QUE ENTROU NO QUARTO DO BANQUEIRO. DECORADO COM CONFORTO E BOM GOSTO,  O AMBIENTE ESTAVA NA PEMUNBRA, ILUMINADO APENAS PELA FRACA LUZ DE UM ABAJOUR. A MULHER  OLHOU DETIDAMENTE   À   SUA  VOLTA,  ESTUDANDO  O  LOCAL.   EM SEGUIDA, COMEÇOU UMA BUSCA DESENFREADA. ABRIU ARMÁRIOS, GAVETAS, LIVROS, PORTA-RETRATOS. APÓS ALGUNS      MINUTOS   DE    BUSCA,   SENTOU-SE  NA   CAMA, DESANIMADA. FOI NESTE MOMENTO QUE SEUS OLHOS FIXARAM-SE NA ESCULTURA DE BRONZE DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, SOBRE O CRIADO-MUDO. PEGOU-A ENTRE AS MÃOS. O MOVIMENTO PROVOCOU UM LEVE BARULHO DE METAIS NO INTERIOR DA PEÇA. LÍDIA SACUDIU-A. O MEDALHÃO CAIU A SEUS PÉS.

LÍDIA  -  (murmurou, com o coração aos pulos) O medalhão! Bingo! Achei!

CORTA PARA:

CENA  5  -  APARTAMENTO DE RENATÃO  -  SALA DE JANTAR  -  INT.  -  DIA.

NO DIA SEGUINTE, KONSTANTÓPULUS SERVIA O CAFÉ DA MANHÃ, QUANDO BABI ENTROU NO RECINTO, DESCALÇA, TRAJANDO UMA LARGA CAMISA DE MALHA DE RENATÃO.

BABI  -  (bocejando) Bom dia, Konstan!

KONSTANTÓPULUS  -  Bom dia, Dona Babi. Se quiser tomar café, já está na mesa.

BABI  -  (acercou-se da mesa, examinando) Hum, geléias, sucos, frutas. Parece tudo delicioso. (pegou uma maçã e mordeu) Vou fazer uma surpresa pro meu amor. Konstan, por favor, coloque tudo numa bandeja que vamos tomar café na cama!

KONSTANTÓPULUS, VELHO CONHECEDOR DOS HÁBITOS DO PATRÃO, FITOU-A, RECEOSO.

KONSTANTÓPULUS  -  Dona Babi... desculpe... sem querer me intrometer... não seria melhor esperar seu Renatão acordar?

BABI  -  Que é isso, Konstan! Já são quase onze da manhã! (piscou para ele) Deixe comigo. Eu acordo esse dorminhoco!

KONSTANTÓPULUS  -  (deu de ombros) Se a senhora prefere assim... Depois não diga que não avisei...

CORTA PARA:


CENA  6  -  “FOLHA DO RIO”  -  REDAÇÃO  -  INT.  -  DIA.

AINDA NAQUELA MANHÃ, NO JORNAL, ARAKEN RECEBEU A VISITA DE LÍDIA.

LÍDIA  -  Bom dia, meu querido!

ARAKEN ERGUEU OS OLHOS, SURPRÊSO.

ARAKEN  -  Lídia! E então... conseguiu?

SEM RESPONDER, LÍDIA ABRIU UMA BOLSA, RETIROU O MEDALHÃO E BALANÇOU-O DIANTE DOS OLHOS DO JORNALISTA.

LÍDIA  -  Lógico, meu amigo. Não foi fácil. Aquela Miss July é muito esperta. Não saía do meu pé! Foi a maior adrenalina entrar no quarto do Oliveira Ramos, com medo de ser pega em flagrante! Mas deu tudo certo.

EUFÓRICO, ARAKEN LEVANTOU-SE DA CADEIRA E BEIJOU-A NO ROSTO.

ARAKEN  -  Você é demais! Eu sabia que podia contar com você. Vou ligar agora mesmo pro Celso Barroso!

CORTA PARA:

CENA  7  -  APARTAMENTO DE RENATÃO  -  QUARTO  -  INT.  -  DIA.

BABI ENTROU NO QUARTO COM UMA FARTA BANDEJA DE CAFÉ DA MANHÃ E APROXIMOU-SE DA CAMA. RENATÃO DORMIA A SONO SOLTO.

BABI  -  (colocou a bandeja no criado-mudo) Amor, acorda! São quase meio-dia!


A JOVEM ABRIU AS CORTINAS, DEIXANDO A CLARIDADE ENTRAR. EM SEGUIDA, JOGOU-SE NA CAMA, BEIJANDO RENATÃO VÁRIAS VEZES NO ROSTO.

BABI  -  Acorda, seu preguiçoso! Trouxe café na cama pro meu gatão!

RENATÃO, AINDA TONTO, ESFREGOU OS OLHOS, TENTANDO LOCALIZAR-SE.

RENATÃO  -  O que tá acontecendo?... Quem... Babi! O que você tá fazendo aqui?

BABI  -  (sorriu, divertida) Alô! Alô! Hora de pousar! Eu dormi aqui, lembra?

O PLAYBOY SENTOU-SE NA CAMA. TENTAVA ACOSTUMAR-SE À CLARIDADE DO AMBIENTE, ESFORÇANDO-SE PARA ESCONDER UMA CRESCENTE IRRITAÇÃO.

RENATÃO  -  Ah, sim, é verdade... Você dormiu aqui... Olha, Babi, é bom que você saiba logo que eu odeio acordar cedo, e odeio mais ainda que me acordem e abram essas cortinas quando estou dormindo!

BABI NÃO SE DEU POR VENCIDA.

BABI  -  (falou, carinhosa) Pois então, acho bom ir se acostumando, porque quando eu vier morar aqui, vai ter que mudar esses hábitos. Vou acordar meu maridinho antes do meio-dia, pra tomar café e depois correr no calçadão! 

RENATÃO BALANÇOU A CABEÇA, AINDA CONFUSO.

RENATÃO  -  Peraí... não entendi... Você disse... morar aqui? Falou a palavra marido?

BABI  -  (divertida) Falei, lógico. Meu marido! Meu homem, meu companheiro. Qual o problema? Não se faça de bobo, amor. Desde o primeiro dia, eu deixei claro pra você que quero me casar   de  véu  e  grinalda, como manda o figurino! (e sonhadora, já imaginando a cena) Quero entrar numa igreja toda de branco, ao som da marcha nupcial e tudo o que tiver direito!

RENATÃO DEU UM PULO DA CAMA, ASSUSTADO.

RENATÃO  -  Calma aí! Não lembro dessa conversa, eu juro! Babi, meu amor, temos que conversar sobre isso. Casar nunca esteve nos meus planos! Não dá pra pular essa parte?

BABI FICOU SÉRIA, DE REPENTE. LEVANTOU-SE E FITOU-O COM ESTRANHEZA.

BABI  -  Pular? Nunca esteve nos seus planos? Mas... você disse que me amava... E a faixa no avião, pra me conquistar? Eu pensei que você queria casar e morar comigo, pra sempre!

RENATÃO  -  (ergueu as mãos, tentando acalmá-la) Meu amor, eu te amo, sim, não duvide disso. Eu apenas não tou preparado, não acredito em casamento. Não quero morar junto, acho isso uma bobagem!

BABI ENCAROU-O, INDIGNADA. UMA LÁGRIMA BROTOU DE SEUS OLHOS.

BABI  -  Cafajeste! Você só queria brincar comigo! Agora entendi tudo! Você não presta, Renatão!

DITO ISTO, A JOVEM RECOLHEU SUAS ROUPAS, NERVOSAMENTE, E DIRIGIU-SE PARA A SALA. RENATÃO FOI ATRÁS.

CORTA PARA;

CENA  8  -  APARTAMENTO DE RENATÃO  -  SALA  -  INT.  -  DIA.  

KONSTANTÓPULUS TOMOU UM BAITA SUSTO QUANDO, SEM A MENOR CERIMÔNIA, BABI ARRANCOU A CAMISA DE RENATÃO DO CORPO E COMEÇOU A VESTIR SUAS ROUPAS.

RENATÃO  -  (trajando apenas uma cueca de sêda, os cabelos desgrenhados)  Babi,   meu   amor,   vamos conversar!  Por favor, fique calma! Olha, a gente pode ser feliz de outro jeito, sem precisar casar. Vai ser muito mais gostoso, mais excitante, pense bem...

BABI  ACABOU DE VESTIR-SE, CALÇOU OS SAPATOS E ERGUEU-SE, ENCARANDO O PLAYBOY COM REVOLTA E MÁGOA NO OLHAR.

BABI  -  Acabou, Renatão! E desta vez, pode contratar a esquadrilha da fumaça, se pendurar no rabo dum avião, que não volto atrás! Vou sair por aquela porta e, por favor, não me procure nunca mais!

RENATÃO  -  Babi, espere! Vamos conversar...

BABI SAIU BATENDO A PORTA ATRÁS DE SI. RENATÃO DEIXOU OS BRAÇOS CAÍREM, DESANIMADO, SOB O OLHAR AINDA ASSUSTADO DE KONSTANTÓPULUS.

RENATÃO  -  Por mais que eu tente, não consigo entender as mulheres, Konstan! Por que dar tanta importância pra um pedaço de papel? É tão fácil ser feliz... por que elas complicam tudo?

CORTA PARA:
              
CENA  9  -  “FOLHA DO RIO”  -  REDAÇÃO  -  INT.  -  DIA.

UMA HORA DEPOIS FOI A VEZ DO ADVOGADO CELSO BARROSO CHEGAR À REDAÇÃO À PROCURA DE ARAKEN.

DR. CELSO  -  Vim o mais depressa que pude. E então... tem boas notícias pra mim?

ARAKEN TIROU O MEDALHÃO DO BOLSO. ENTREGOU AO ADVOGADO.

ARAKEN  -  Eis aqui o tesouro do pirata. Acho que com isso o senhor liquida a questão.

DR. CELSO  -  (sorriu, agradecido) Deixa comigo. Não é uma prova definitiva, mas parece bastante para justificar a revisão criminal.


ARAKEN  -  Espero, sinceramente, que consiga livrar Jurema de Alencar da cadeia e que a verdadeira assassina seja indiciada.

DR. CELSO  -  Você acredita mesmo que pode ser Helô?

ARAKEN  -  Tudo indica que sim.

CORTA PARA:

CENA  10  -  APARTAMENTO DE OLIVEIRA RAMOS  -  QUARTO DE ELISA  -  INT.  -  DIA.

HELÔ FAZIA COMPANHIA À MÃE. PENTEAVA SEUS CABELOS, ENQUANTO ELISA FAZIA FAZIA UM BORDADO, COM UMA CESTA DE LINHAS NO COLO. FOI ASSIM QUE MISS JULY ENCONTROU-AS, QUANDO ENTROU NO QUARTO COM O CELULAR DE HELÔ.

MISS JULY  -  Helô, seu celular está tocando sem parar.

HELÔ LARGOU E ESCOVA E PEGOU O CELULAR, ANSIOSA.

HELÔ  -  (olhou o visor) Vítor! É ele! (atendeu) Vítor! Sou eu. Sim, sim. Claro, eu vou. Até já.

HELÔ DESLIGOU E, SEM SE CONTER, BEIJOU A MÃE E ABRAÇOU MISS JULY, OS OLHOS BRILHANDO DE FELICIDADE.

HELÔ  -  Ele quer me ver, Miss July! Vou encontrar meu marido, mamãe! Ele está me esperando, agora, no Arpoador!

MISS JULY  -  O que está esperando, menina? Vá logo!

EXCITADA, HELÔ COBRIU A MÃE DE BEIJOS E CORREU PARA SEU QUARTO. MISS JULY SORRIU, CONTAGIADA PELA FELICIDADE DA JOVEM. ELISA RETOMOU SEU BORDADO, TOTALMENTE ALHEIA AO QUE SE PASSAVA À SUA VOLTA.

CORTA PARA:


CENA  11  -  ARPOADOR  -  CALÇADÃO  -  EXT.  -  DIA.
DIANTE DO BELO ESPETÁCULO DO PÔR-DO-SOL DE IPANEMA, AO LONGE, EM MEIO A DEZENAS DE PESSOAS QUE CAMINHAVAM NAQUELE FIM DE TARDE, VÍTOR E HELÔ SE RECONHECERAM E CAMINHARAM UM AO ENCONTRO DO OUTRO, COMO QUE ATRAÍDOS POR UM ÍMÂ.

ERA COMO SE NINGUÉM MAIS EXISTISSE ALÉM DELES NA FACE DA TERRA. APROXIMARAM-SE MAIS E MAIS, E SEM DIZER QUALQUER PALAVRA, ABRAÇARAM-SE, EMOCIONADOS, E BEIJARAM-SE, COM PAIXÃO.

VÍTOR  -  (murmurou ao seu ouvido) Senti muito a sua falta!...

HELÔ NÃO CABIA EM SI DE FELICIDADE. SORRIA, ENTRE LÁGRIMAS.

FIM DO CAPÍTULO 64
Susi (Maria Cláudia)
e no próximo capítulo...

*** Vítor conta a Helô que descobriu que foi seu pai quem armou a cilada para pô-lo na cadeia! O que farão diante deste fato?


*** Renatão, novamente deprimido, recebe convite para o casamento de Rodolfo Augusto e Maria Regina.


*** Helô enfrenta o pai, dizendo que já sabe de toda a verdade!



NÃO PERCA O CAPÍTULO 65 DE




terça-feira, 26 de junho de 2012

FIC - À PRIMEIRA VISTA - CAPÍTULO 3 - AUTORA: SÔNIA FINARDI

Capítulo III - Recordações


Uma semana depois, Claude está aguardando Rosa, que já tinha enviado uma proposta por email Mas ele queria vê-la, sentia necessidade disso, e não entendia porquê.
Rosa chega e Janete a faz entrar na sala de Claude...

J: Com licença, Dr. Claude? A Rosa está aqui.

C: Ah, que bom!

Rosa entra e seu olhar percorre todo o escritório. Ela gosta do que vê. Seu olhar caminha, até encontrar com o de Claude, que também percorria seu corpo, perfeitamente emoldurado por um vestido florido, cor-de-rosa pálido, o que deixava seu rosto e seu sorriso ainda mais luminosos. E os olhares se encontraram e se perderam, por um segundo. “Quase todo tempo do mundo”.

C: Por favor, senta, hã? Quer beber alguma coisa, um cafezinho, um chazinho?

R: Não, obrigada. Podemos ir direto ao assunto. O senhor analisou minha proposta?

C: Serafina, pra começar, ou melhor, pra gente “recomeçar novamente” – E dá um sorriso – Eu sou Claude, hã? Nada de senhor...

R: Ok. Mas por favor, eu prefiro que me chame de Rosa.  Então, você – enfatiza a palavra – já analisou a proposta que enviei?

C: Sim, eu dei uma analisada, mas gostaria que você fizesse umas mudanças, Serafi... Rosa; queria sugerir algumas mudanças.

Na verdade, ele estava querendo ganhar tempo. Rosa o intrigava. Por mais que ele evitasse pensar nela, quando se dava conta lá estava Rosa, povoando seus pensamentos. E que pensamentos... Mon Dieu!

Rosa tenta se controlar, mas sua irritação é visível. Claude parece se divertir com a reação dela. Ele tinha consciência que o projeto estava perfeito. Mas queria conhecê-la mais, sentia vontade de protegê-la, beijá-la. Desejava Rosa, como nunca desejou outra mulher.

Eu devia esfregar esse projeto na cara dele – pensa Rosa – Está tudo certinho, eu revisei, está de acordo com a ABNT. Está perfeito! Mas eu preciso do dinheiro”.

R: Tudo bem. - responde, engolindo o orgulho. - Que quer que eu mude?

C: Será que a gente poderia almoçar primeiro, hã?

R: Você está me convidando pra almoçar com você?

C: Estou sim, você aceita? E dá aquele sorriso.

Assim fica difícil resistir” – pensa Rosa. “Mas eu vou enfrentar esse medo

R: Eu aceito. Aonde vamos? Porque eu não estou vestida pra ir aos lugares que você deve frequentar...

C: Que isso, você tá muito bem! Mas nós vamos almoçar na minha casa, hã? A Dadi, minha empregada, já está esperando. Depois a gente volta e resolve as mudanças.

R: Então você já tinha planejado tudo? Isso é covardia Doutor Claude. Mas eu aceito o desafio! Vamos?
    

No apartamento de Claude, Dadi já os esperava.

C: Seja bem vinda à minha casa! Dadi esta é Rosa – Rosa esta é Dadi.  Ela praticamente me criou Rosa, quando minha mãe morreu, e depois da morte de meu pai ela me adotou definitivamente.   Rsrsrs

D: È um prazer conhecer a senhora, D. Rosa!

R: O prazer é meu, mas pára com isso de senhora... Dona... é só Rosa.

D: É melhor assim mesmo, Dona Rosa, pra eu ir me acostumando...

R: Não entendi, Dadi. - E olha para Claude.

C: Non me olha assim non... Eu também non entendi nada.

Dadi vai pra cozinha, pensando “Hum, vai começar tudo de novo...”.

Depois de almoçarem, eles se dirigem à sala, Dadi os serve com um café e avisa que precisa sair pra ir à lavanderia. Segue o diálogo.

R: Você não tem irmãos?

C: Non. Sou filho único. Sempre quis ter, mas non aconteceu, hã. E você?

R: Ah! Eu tenho dois irmãos: A Terezinha e o Dino. Eles moram com meus pais ainda. São mais novos que eu, bem mais novos. Meus pais já tem idade. Meu pai veio da Itália, com uns 10 anos, com meus avós, que vieram pra cuidar de um casal de italianos que veio morar aqui, depois que receberam uma herança. Quando meus avós morreram, meus pais já estavam casados e tão afeiçoados aos italianos que continuaram com eles. É o mesmo casarão que eles moram ainda. O casal teve um filho só, que foi pra Itália, depois que se formou. Esse casal acabou deixando a casa para os meus pais, em condições de usufruto, em testamento. E aí, com coração mole eles acabaram deixando algumas pessoas morarem lá. Por isso o pessoal do bairro chama o casarão de cortiço. Nossa! Falei demais, não é? - Completa Rosa, quando percebe Claude olhando-a fixamente.

C: Non, eu adoro ouvir sua voz! E você, saiu de casa por quê?

Rosa sente-se incomodada com a pergunta, pois isso a faz lembrar de algo que demorou muito pra esquecer.

C: Perdon, eu fui por demais curioso, non? - Claude recorda do comentário de Frazão.

R: É que isso ainda me machuca. Essa história eu quero apagar, esquecer... O que eu queria mesmo era restaurar aquele lugar. Por isso fui fazer arquitetura e urbanismo, me especializei, mas meu pai não entende. Ele nunca aceitou que eu saísse de casa.

Silêncio. Cada um imerso em suas histórias de abandono. Rosa quebra o silêncio.

R: Mas olha só, não ficou uma marquinha, hem! Viu como sou uma excelente restauradora? Rsrsrsrsrsrsrsrsrsr - Exclama enquanto passa a mão pela testa de Claude.

Ele retribui o gesto, acariciando o rosto de Rosa, aproxima seus lábios dos dela e começa um beijo delicado, mas firme, enquanto suas mãos contornam o corpo dela, descendo pela cintura abaixo, e voltando a subir por baixo do vestido, sentindo a maciez da sua pele. Seus corpos já não escondem mais o intenso desejo, e Claude se apressa em carregá-la para o quarto...

R: Claude, Claude! Que foi? Está passando mal? Que cara é essa? Claude! Está sonhando acordado?

Ele então cai em si. Fora um devaneio apenas. Tenta disfarçar, levanta e vai pra cozinha, pensando “Passando mal... mal eu fiquei agora, hã?”.

Alguns minutos depois eles voltam pra construtora. Passa das quinze horas.

Na construtora

Claude e Rosa saem do elevador, no maior alto astral. Janete e Frazão que conversam na recepção se olham:

F: Minha linda será que está pintando um clima aí, hem? Tomara que sim. Os dois merecem ser felizes...

J: Concordo! A gente podia dar uma mãozinha pro destino.

F: Estou dentro!

C: O que vocês eston cochichando ai, hã?

F: Calma francês... calma!  Não aprende mesmo, a controlar seu mau humor!

C: Non... E eu vou resolver uns detalhes da casa com a Rosa, hã? Non estou pra ninguém...

Já na sala de Claude...

R: Bom, me diz o que você quer que eu mude?

C: Pra falar a verdade... nada!

R: Como assim, nada?!  Nada? Você está brincando! Eu sabia, você está irritado por causa do ferimento - Vai falando e apontando o dedo pra ele - Me fez de idiota esse tempo todo, e eu ainda caí nesse truquezinho barato! Que ódio! .Seu... seu...

Claude a puxa para si, beijando-a, impetuosamente. Rosa tenta evitar, batendo no peito dele, que consegue baixar os braços dela, prendendo-a ainda mais ao seu corpo, querendo que ela se entregue ao momento, mas ela se afasta e diz:

R: Seu grosso, eu não estou à venda! Não me julgue na mesma escala que usa com suas amiguinhas! E sai sem falar com ninguém, esbarrando em Frazão, que entrava na sala.

F: Oh francês, que foi isso? Vocês estavam rindo a pouco e agora ela saí assim, chorando, toda ofegante. Alguma você aprontou! Já te falei que ela é diferente...

C: Essa italianinha tá me tirando do sério, hã? E ela bem que estava gostando do beijo...

F: Claude, Claude você está brincando com fogo! Vai acabar se queimando, mon ami!

Claude faz uma careta, volta pra sua mesa e começa a ler uns relatórios. Mas alguém, em seus pensamentos, o impede...