domingo, 4 de novembro de 2012

O INFERNO DE UM ANJO - CAPÍTULO 27 - PARTE 1 - COLABORAÇÃO: PAULO SENA

O INFERNO

DE UM ANJO

Romance-folhetim



Título original:
L’enfer d’un Ange



Henriette de Tremière/o inferno de um anjo

(Texto integral) digitalizado
e revisado por Paulo Sena

Rev. G.H.
BIBLIOTECA GRANDE HOTEL


Capítulo XXVII

A INCRÍVEL RIVAL



No magnífico palacete do conde Fernando, naquela bela manhã de sol, reinava grande animação. Reluzentes carruagens chegavam sem cessar à alameda arborizada e vinham estacionar no jardim que circundava a entrada principal.
Desciam deles senhoras e cavalheiros elegantíssimos que, uma vez recebidos pelo mordomo do conde, eram introduzidos num grande salão térreo, esplendorosamente enfeitado, por motivo da cerimônia nupcial que teria lugar dentro em pouco. Servidores de libré percorriam, atarefados, os corredores e salas, subindo e descendo as escadas, num vaivém contínuo, numa febre de atividade proporcional à importância do iminente acontecimento. Enquanto os convidados continuavam a chegar e se entretinham conversando no interior do palacete ou passeando pelo magnífico jardim, Denise Chanteloup, a noiva, num aposento reservado, diante de um grande espelho, fitava a si mesma, satisfeita, admirando sua inegável beleza.
Maria "Flor de Amor", a loura jovem recém-admitida ao seu serviço, com hábeis toques da mãozinha treinada, arranjava os últimos detalhes do vestido nupcial, todo de renda branca, em cuja confecção o "atelier" de dona Eufêmia gastara quase uma semana.
Acabando de ajeitar o véu, que punha um toque vaidoso sobre os ombros da condessinha, Maria "Flor de Amor", sem a menor pontinha de inveja, não se cansava de admirar a beleza da outra e tudo fazia para que o vestido e os adornos pusessem ainda mais em relevo o falso ar de pureza e ingenuidade que, na realidade, era apenas uma simulação matreira da filha da marquesa Renata.
Denise, no entanto, no auge da satisfação, cheia de vaidade, não cessava de admirar-se, olhando-se no espelho, perguntando a cada momento:



- Estou bonita? Bem bonita?... Não estarei pálida demais? Vou agradar aos convidados e ao meu noivo? Não seria melhor pintar-me um pouquinho mais? Um toquezinho de "rouge"? A bondosa Maria "Flor de Amor", com inesgotável paciência, tratava de tranquilizá-la:
- Está linda, condessinha! Parece uma fada e quanto à sua ligeira palidez, isso até ajuda, eu lhe asseguro. E vai passar, daqui a pouco. Naturalmente, na hora, lhe virá um pouco de excitação, pois este é um acontecimento belíssimo na vida de uma mulher, um acontecimento que sempre se recorda com emoção, aconteça o que acontecer depois!
- Eu sei... Nunca me senti tão emocionada... - concordou Denise. - Estou pronta, agora? Já arrumou tudo direitinho?
- Está perfeita, condessa.
A noiva lançou ainda um olhar demorado ao espelho, depois acrescentou, com evidente irritação:
- E meu noivo? Por que ainda não apareceu? Já devia ter chegado!... - estranho... Já estou ficando nervosa!
Para distraí-la, Maria "Flor de Amor" perguntou:
- Seu noivo é muito bonito?
- Oh! - seus olhos cintilaram. - É bonitão! Tem tudo o que se pode desejar num homem! Quanto mais eu o olho, mais sinto o desejo de dar cabo daquela víbora que me quer arrebatá-lo!
- Não deve falar assim, condessinha... Ainda mais no dia do seu casamento... E, além disso, mesmo que a tal moça o ame como a senhorita o ama, a esta hora seu coração estará sangrando e se sentirá tão infeliz! Não sente pena dela?
- Eu, pena dela?! - replicou Denise, batendo um dos pés no chão raivosamente. - Quisera vê-la morta, isso sim!
Interrompeu-se, vendo que Maria a fitava, admirada. Percebeu que pusera demasiadamente às claras sua crueldade e logo tratou de corrigir:
- Mas você, afinal, é quem tem razão, não devo estragar minha felicidade pensando nela. Quando estiver casada, ninguém me poderá roubar o homem que amo! A propósito, os convidados já devem ter chegado todos, não acha?
- Acho que sim, condessinha. Se visse como o salão está cheio!
- Oh! Como meu coração está batendo! Só o que me desgosta é meu pai ter cismado de escolher aquela igrejinha, perdida no meio do bosque.
- Mas condessinha - disse Maria "Flor de Amor", espantada - de certo modo, a cerimônia terá um caráter de maior intimidade.
- Sim, mas eu gostaria muito mais de casar-me na cidade, na catedral, sendo oficiante o bispo. Meu pai, infelizmente, não quis dar o braço a torcer. Diz ele que seus pais se casaram naquela igreja. E daí? Que importância tem isso?
Embora estranhando que a filha de um nobre não percebesse a importância de uma tradição de família, Maria "Flor de Amor" respondeu, para não demonstrar ficando calada, que desaprovava o pensamento da outra:
- Talvez seja pelo fato da igrejinha, estando perto do palacete, ser mais conveniente e oferecer mais comodidade. Se o casamento fosse realizado na cidade, teria de ser percorrido um bom trajeto para voltar até aqui.
- Sim, pode ser isso, - concordou Denise sem grande convicção, mostrando não dar muita importância à opinião da jovem. - Ufa! Por que meu noivo ainda não terá chegado! Oxalá não lhe tenha acontecido alguma coisa...
Nesse momento, alguém bateu levemente à porta.
- É ele! - exclamou Denise, agitada. - Chegou! - E em voz mais alta: - Entre! Pode entrar!
A porta se abriu vagarosamente, mas, em vez de Luís Paulo, foi Pedro, o mordomo, quem apareceu, e ele disse, curvando-se:
- Condessinha, no salão verde há uma senhora que deseja falar-lhe.
Denise lançou-lhe um olhar estranho, que o percorreu de alto a baixo e exclamou:
- Pedro! Admiro-me muito! Parece-lhe, acaso, que este momento é próprio para anunciar-me uma visita? Tenha um pouco de bom-senso, homem! Se essa criatura quer me ver, que vá para o salão, com os demais, e que espere!
O velho mordomo, humilhado com aquele tratamento a que não estava habituado, baixou a cabeça, murmurando:
- Desculpe... Perdoe-me, condessinha... Mas é que a senhora insistiu tanto...
- Quem é ela? Como se chama?
- Não quis dizer o nome...
Esta circunstância excitou ainda mais a cólera de Denise, que investiu novamente contra o velho servidor, dizendo:
- Mas isso é mesmo um abuso, um absurdo! Perturbar-me por causa de uma pessoa que nem sequer conheço! Vou contar a meu pai!
- Condessinha, lamento imensamente, a tal senhora usou um tom quase imperativo e disse que se trata de assunto de tanta importância, que não tive coragem de recusar-me a atendê-la...
Naquele momento, penalizada por ver o mordomo tão humilhado, Maria "Flor de Amor" interveio:
- Não acha que seria melhor conceder-lhe alguns minutos, atender a essa misteriosa visitante, condessinha Denise? Ela deve ter percebido, por causa das carruagens lá fora e do movimento de convidados no jardim, que hoje é o dia do seu casamento e se está insistindo tanto em lhe falar, deve ter um motivo bem grave.
Não podendo deixar de admitir que o que ouvia era sensato, e também curiosa, malgrado seu, pelo último detalhe revelado pelo mordomo, Denise, embora fingindo estar ainda muito contrariada, cedeu.
- Está bem, então - disse. - Vou vê-la! Mas você me esperará aqui. Demorarei só uns minutos.
Pediu que “Flor de Amor” lhe tirasse o véu e, com um gesto irritado segurou a longa cauda do vestido nupcial e, saindo do aposento, percorreu o longo corredor pavimentado de mármore negro, brilhante como um espelho. E quando chegou diante da porta da sala verde, nervosamente a escancarou e, bem no fundo da sala, junto a uma janela que dava para o parque, avistou a senhora vestida de negro que Pedro lhe descrevera. Como o mordomo bem dissera: do pequeno chapéu, também negro, que trazia à cabeça, descia um véu que lhe ocultava completamente o rosto. A desconhecida, mal ouviu a porta ser aberta, virou-se para o ponto de onde Denise surgira impaciente, vindo em sua direção e dizendo num tom visivelmente irritado:
- Que é que deseja a senhora? Peço que seja breve, porque, como está vendo pelo meu traje, neste momento estou ocupadíssima. E então?
- Então... Não me reconhece, Denise?

3 comentários:

  1. Paulo, fiquei curiosíssima! Quem será essa mulher? Será Renata a mãe de Denise? Esse casamento se realizará mesmo? Pobre Maria "Flor de Amor", vai ter uma grande desilusão, se isso acontecer!

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  2. Estou gostando muito dessa parte em que Denise e Maria ficam juntas sem saber quem são. Como será a revelação? Deve ser emocionante. Vamos esperar para ver... Muito bom, Paulo.

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  3. Ainda demora para esta revelação.....

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